O restante das aulas, assim como o caminho para casa, foram tranquilos. Sem nenhum acontecimento que merecesse ser descrito. Tom chega em casa, cumprimenta sua mãe, que prepara o jantar na cozinha, e segue para o seu quarto. A mochila é jogada em um canto, suas roupas são largadas pelo chão e, pelado, entra no banheiro.
Ao passar pelo espelho percebe que seu braço esquerdo está muito machucado. As feridas dos dias anteriores ainda não sararam, pelo contrário, estão piores. Então é isso que o mago quer dizer com o seu corpo não estar preparado para as magias. Não fez nada demais até agora, então essa é a única explicação.
O jantar com seus pais é tranquilo, faz alguns dias que não come com eles, e seu pai, Arthur, faz questão de comentar o fato de o filho parecer apático demais nos últimos dias. Não é do feitio de Tom ficar tão calado em casa, ou fazer coisas absurdas, então esse tempinho foi um pouco estranho para seu pai. Mesmo com essa observação o homem não parece preocupado.
Bem alimentado, o garoto volta para seu quarto. Ainda é muito cedo para dormir, mas está ansioso por isso. O que é terrível, pois nem se quisesse conseguiria pegar no sono assim. Então, para se distrair, fica jogando videogame por um tempo. Depois escolhe algum filme para ver. A seleção da noite foi A fortaleza infernal (The Keep, 1983).
O filme termina um pouco depois das vinte e duas horas. Seus olhos começam a fechar assim que os créditos rolam. Sem perceber dorme. O cinéfilo apaga com a tevê ligada e sem a opção de desligar.
Tomás não percebe seu despertar na mesma mesa de madeira. Está novamente na casa onde o mago nasceu. O local está da mesma forma que em sua primeira visita. Realmente deve ser uma lembrança congelada no tempo.
A paisagem é tão bonita quanto a do mundo que havia visitado, mas claramente são planetas distintos.
O mago sai da casa pouco tempo depois do garoto se mostrar consciente. Ele ainda tem a aparência de Tom, mas dessa vez usa roupas que parecem ter vindo de alguma convenção de RPG.
— Tom, que surpresa você por aqui novamente. — Fala o falso Tom enquanto senta na cadeira à sua frente.
— Oi, você até agora não se apresentou pra mim, como devo te chamar? — Tenta não ser grosso, precisa que ele responda suas perguntas.
— Pode continuar me chamando de mago como você e seus amigos vêm fazendo, é melhor assim. — A sua frente uma caneca com bebida se materializa, despreocupado começa a beber. Se estamos em um sonho, então Tom deve conseguir fazer o mesmo, mas o garoto falha miseravelmente.
— Por que fazer magia me machuca tanto? — Lembra das gotas de sangue em seu exercício de física.
— Sério? Essa é sua primeira pergunta. — Suspira desapontado. — Vejamos, no seu mundo nunca houve um usuário de magia. Pelo menos desde que eu estou vivo tenho certeza disso. Então toda a energia que normalmente seria utilizada ficou ali disponível e acumulando. — Tom quer interrompê-lo, mas o deixa continuar, provavelmente seu questionamento não é importante ou já será respondido. — Então quando você, inexperiente como é, faz um encanto, a quantidade de energia que passa pelo seu corpo pode fazer ele explodir, literalmente. — Os olhos do garoto se arregalaram, não esperava que fosse perigoso nesse nível. — Você percebeu o que uma simples mensagem telepática fez com seu braço? Agora imagine algo mais complexo.
— Sim, percebi. — No sonho seu corpo está em perfeitas condições.
— A vantagem também é que a bênção de Kar finalmente fez seu cérebro funcionar direito.
— Como assim? — O garoto tinha chutado que era isso que estava ocorrendo com ele. Finalmente acertou uma.
— As divindades abençoam as pessoas porque normalmente é coisa pouco, a pessoa fica feliz e tem uns dois dias de sorte, coisa assim. A bênção divina pega a energia do ambiente para fazer efeito. Nada mais é que um tipo de magia. Como aqui tem tanta energia sobrando o efeito foi muito forte. Eu só preciso estudar pra saber como você a trouxe pra esse plano. — Fica pensativo.
— Espero que continue assim então. — Sorri. — E agora? O que está me caçando? Você deve saber.
— Ah, sei sim. — Toma mais um gole da bebida. — Todos os planos, sem exceção, possuem criaturas que se alimentam de magos. Eles não vivem no mesmo paralelo que nós, por isso podem acessar todas as dimensões que eu já estive.
— Então é por sua causa que eu estou em perigo basicamente. — Fala com desaprovação.
— Basicamente. — Se levanta e começa a andar em volta da mesa. — Essas criaturas nunca deram muita bola pra Terra, afinal aqui não tinha nada para eles se alimentarem, mas um deve ter vindo pra cá, fazer sei lá o que, e te percebeu. Não acho que outros vão vir se você não ficar se expondo por aí.
— Se eu não fizer mais nenhuma magia não vou estar em perigo então?
— Claro que não, esse já te viu. Eles são espertos, deve tá só esperando você ficar mais saboroso ou algo assim. — Tom coloca suas mãos na cabeça, isso não é nada bom. — Mas a vantagem é que você vai ter alguma condição de se virar se ele aparecer novamente.
— Certo…
— Vamos nessa então, por hoje já falei demais!
Sem dar tempo para Tom reagir, o mago o manda novamente para outro mundo. Um flash de luz ofusca sua visão. A sensação é que realmente foi arremessado, como se tivesse descido por uma descarga cósmica.
Tomás está, novamente, no chão da sala com tijolos rústicos. Seu novo corpo parece que foi guardado de forma relaxada, jogado em frente à estátua de Kar. Ainda desnorteado, se levanta.
O corpo do golem está coberto de pó, passando a impressão que ficou largado ali uns bons dias. O espírito de Kar o cumprimenta enquanto se sacode para remover a poeira.
— Bem-vindo novamente Tomás. Pronto para explorar Bush’Kar novamente?
— Não é como se eu tivesse muita escolha, não é mesmo. — Reclama, ainda está irritado com o que o mago havia dito.
— Pelo contrário, aqui você é tão livre quanto em seu mundo. Se quiser, basta ficar deitado dormindo até você acordar novamente.
— Isso seria um desperdício de uma boa oportunidade turística. — Seu tom é um pouco sarcástico, mas a verdade é que pensa exatamente isso. Seria uma pena não conhecer mais desse novo mundo. — Posso perguntar uma coisa?
— Sim, meu objetivo aqui é ajudá-lo.
— Como são as criaturas que se alimentam dos magos? Aqui eles também passam por isso, certo?
— Ah, então você quer saber deles.
— Deles? Não tem um nome não? — Questiona incomodado com essa falta de nomenclatura que parecia ter atacado suas interações.
— Claro que eles possuem, porém cada cultura os chama de uma coisa. Aqui em Zara são mais conhecidos como shantanyn.
— Zara? — Ainda não tinha ouvido esse nome.
— Zara é como o povo da língua predominante chama esse astro celeste. Jantyr é o outro planeta que você deve ter visto em sua visita anterior.
— Entendi. E como são esses shantanyn? — Precisa de informações, terá que se defender deles uma hora. Com informações talvez não seja pego desprevenido.
— Difícil dizer, pois cada um é diferente. Eles não possuem características de uma raça, podem ter a aparência tanto de um animal quanto de uma pessoa, mas nunca exatamente igual, sempre meio distorcidos ou anormais.
— Hmm, tipo um demônio.
— Não saberia dizer, mas é provável que mesmo sem uma divindade em seu plano eles possam ter feito contato dando origem a esse termo.
— É que “demônio” é um termo meio abstrato, normalmente aparece mais num contexto religioso, mas hoje em dia pode ser qualquer coisa que representa o mal. E eles também nunca são bem iguais, mas costumam ter certas características como chifres e coisas assim.
— Interessante, é possível que você possa imaginar um shantanyn como um demônio, afinal eles são tão diversos que possivelmente há exemplos exatamente como você imagina. — Faz uma breve pausa. — Uma coisa você deve saber, quanto mais perigoso um shantanyn, mais parecido com uma pessoa ele é.
— Você diz na aparência física, ou no jeito de agir? — Interessante, o que os atacou rugiu como um animal, segundo seus amigos, então não deve ser dos piores.
— Ambos. Os shantanyns aqui são tratados como lendas. Como a magia em Zara é muito difundida não sobra espaço para magos realmente poderosos. Então a presença deles não é muito notada.
— Não deveria ser o contrário? Se tem um monte de mago aqui, não deveria ser um grande banquete?
— Essas criaturas preferem se alimentar de pessoas que possuem muita energia fluindo pelos corpos. Então os habitantes de Zara não são cobiçados.
— E é fácil matar um shantanyn? — Essa é a verdadeira dúvida.
— Um mago pode facilmente matar um shantanyn menor, se souber o que precisa ser feito.
— E os mais fortes conseguem matar feiticeiros poderosos?
— Não em um confronto direto, no entanto essas criaturas não são limitadas pelas mesmas regras.
— Complicado… — Tom talvez consiga enfrentar um animal selvagem, ou outra pessoa, mas um demônio deverá ser bem difícil. Precisa descobrir como controlar a energia utilizada nos encantos, caso contrário vai acabar se matando no confronto com seu predador.
— Acho que você deve sair agora. Não quero tomar seu tempo de exploração, e não tenho mais nada de útil para lhe dizer sobre os shantanyn.
O garoto só acena com a cabeça. A mochila que havia usado anteriormente está próxima a saída. Tudo parece igual, tirando o pó. Com a bolsa em mãos sobe as escadas para explorar novamente esse novo mundo de Zara.
O dia não está tão bonito quanto da primeira vez. Céu nublado e cinza, não é possível enxergar Jantyr no horizonte.
Hoje o rapaz decide tomar o caminho inverso, mesmo a cidade sendo enorme e com vários lugares que ainda não conhece. Se for para o outro lado só passará por lugares novos. Então, um passo após o outro, segue pela estrada com Bush’Kar às suas costas.
Tomás chega a pensar se entra em contato com Trat, chamá-la é a opção esperta, afinal eles já se conhecem e ela poderá continuar ensinando uma coisa ou outra sobre magia. Entretanto quer aproveitar essa liberdade que tem para explorar o desconhecido. Ir para a cidade e aprender soa como responsabilidade, e, nesse momento, só quer um pouco de paz.
O caminho não começa tão diferente. Há várias propriedades rurais com plantações e animais. Essa configuração se estende até perder a cidade de vista. Aos poucos, até essas fazendas vão sumindo, dando lugar a uma vegetação mais selvagem.
As árvores de folhas amarelas ainda são as mais proeminentes, porém outras cores e formas se juntam ao bosque que a estrada corta, deixando a vegetação bem mais densa.
Tom não imaginou que passaria por um lugar que pode ser considerado selvagem. Tem em sua cabeça a concepção do mundo moderno, que para chegar num lugar assim, primeiro você precisa viajar quilômetros até uma área de preservação. De qualquer forma a estrada parecia ser bem mantida, não deveria correr nenhum perigo ficando nela.
O cheiro úmido da natureza, os sons dos animais ocultos, tudo o faz sentir prazer em sua caminhada, igual a um mochileiro descobrindo uma nova trilha. A natureza estranha é sua recompensa.
Depois de um longo tempo o bosque dá a vez para uma vegetação mais rasteira. Um animal pequeno e peludo, que lembra vagamente um coelho, chama sua atenção. A criatura fica comendo algumas frutas de um arbusto enquanto o rapaz a observa.
Teria ficado ali um pouco mais de tempo, porém sente um cheiro podre vindo de algum lugar próximo, fora da estrada. Seguindo seu imperceptível nariz entra no mato, que já não é tão denso, espantando o pseudo coelho. Sem demora, Tomás encontra um corpo jogado no chão, próximo a uma árvore.
O cadáver é de um dos nativos de Zara, quatro braços e meio magro, como a maioria das pessoas que havia visto. Sem nenhum fundamento imagina que o tempo de decomposição não seja muito diferente da Terra.
Puxando da memória todos os CSI que tinha visto, Tom presume que o corpo deve ter morrido há alguns dias. O garoto não é um investigador, mas começa a brincar de detetive, deduzindo o que poderia ter ocorrido. Não há nenhuma arma perto, pelo menos que reconheça, e o local não parece ter sido revirado.
Sua única pista são os galhos da árvore próxima, vários deles quebrados com algum impacto. Talvez o defunto tenha subido nela, se desequilibrado e caído levando os galhos consigo.
Tom não sabe se nesse mundo há algum tipo de polícia que deve ser informada. No entanto, essa ideia logo é ignorada. Não é que não se importasse de verdade. Mas está ali como um visitante, com quase nenhuma consequência. Então ele deve aproveitar a oportunidade e fazer algo que nunca faria e que talvez possa ajudá-lo.
Sem nojo o garoto se aproxima do corpo e começa a fuçar os bolsos e roupas do cadáver. Se ninguém tivesse feito isso ainda, talvez achasse algo interessante. Há algumas moedas com o cadáver. Tomás reconhece o dinheiro. Havia visto Trat usar na feira em sua primeira visita. Não sabe dizer a quantia, mesmo assim pode ser útil no futuro.
Após guardar o dinheiro o garoto continua seu saque. Debaixo do corpo, há uma pequena bolsa com alguns livros e pergaminhos, além de um aparato de metal. Mesmo depois de manuseá-lo não soube dizer sua utilidade.
Como o cadáver não vai mais usar os itens, Tom os guarda em sua mochila. E assim termina seu primeiro delito em outro planeta, manchando a reputação da humanidade eternamente como ladrões de cadáveres.
Sem mais o que fazer, Tomás volta para a estrada. Enquanto caminha, fica pensando no motivo de ter pego os pertences do corpo. Por mais que tudo parecesse real, ele ainda encara como um sonho, ou um videogame.
Suas ações ocupando o golem não refletem a forma que se comporta em seu próprio corpo. Não sabe dizer exatamente, mas é como se assumisse um papel, e, naquele momento, aquilo foi o que deveria ter sido feito. Sem falar que o dinheiro viria a calhar.
O bosque fica para trás e Tom avista um tipo de assentamento em frente. O garoto repara que há um trilho cortando o lugar. A ferrovia vem do lado oposto de Bush’Kar, seguindo até o assentamento e depois atravessando a planície. A linha férrea vai longe no horizonte, com as formas de suas construções se mesclando com o plano do céu nublado.
Ao se aproximar percebe que o local parece algum tipo de estação, há casas em volta, lugares que parecem comércio e uma pequena praça. A vila parece muito maior que a impressão passada à distância. Pessoas andam pelas ruas e conversam despreocupadas, há bastante gente ali. Do outro lado dos trilhos mais casas se espalham de forma irregular, e, quase todas, com algum tipo de plantação ou horta próximas.
Agora no meio da civilização Tom percebe vários olhares sobre ele, havia se esquecido que também tinha sido assim antes. Talvez se não fosse um estrangeiro em outro planeta não se sentiria desconfortável, mas não é o caso.
Somente com o som de um apito agudo do trem chegando que as pessoas que o olhavam param e seguem para a plataforma. Tomás nunca havia andado numa locomotiva antes; essa é a oportunidade perfeita para mudar isso.
Não demora para o estranho trem aparecer, ele vem de Bush’Kar, agora para onde vai é um mistério. Na estação há informações sobre o itinerário, porém o garoto não percebe, afinal não sabe ler essa língua.
A locomotiva lembra uma maria fumaça, seu primeiro vagão é, claramente, o motor, pois consegue ver a saída do vapor característico desse tipo de trem. Além disso, há um enorme globo de vidro de cor leitosa na parte da frente do veículo, logo acima do limpa-trilhos. Todos os outros vagões, que possuem estilo similar às construções que viu em Bush’Kar, são de passageiros.
Quando o trem finalmente para na estação, o globo fica preto em instantes. Ninguém desembarca nesta parada, pelo menos Tom não nota. Praticamente todos no terminal seguem o trem, e o garoto acompanha o fluxo. Ele tenta prestar atenção na quantia de dinheiro que os nativos pagam pela passagem; no entanto, ninguém faz isso.
Se sentindo um verdadeiro camarada, Tomás embarca no trem e vai para os vagões mais ao fundo, que ainda têm bancos livres para serem utilizados. Na estação parecia que tinha uma multidão para entrar no trem, mas, para sua surpresa, a locomotiva tem espaço para todos e ainda sobra.
Empolgado se acomoda em um dos bancos vazios, sem ninguém à frente ou nos espaços ao seu lado, é o ideal para aproveitar a vista. O cheiro amadeirado do vagão é agradável, bem diferente do ônibus escolar.
Novamente o agudo apito ecoa pela estação, logo em seguida a máquina começa a se mover. O trem pega velocidade em pouco tempo, e rapidamente a pequena vila fica para trás. Quando começa a aproveitar as mudanças da paisagem, duas pessoas sentam próximas a ele, uma logo ao seu lado, e a outra no banco da frente, mas olhando para trás.
Sem graça, e por educação ele cumprimenta com um simples “olá”. O garoto não percebe, mas há várias pessoas um pouco afastadas observando a interação.
— Oi, você não é daqui né? — Pergunta a pessoa sentada à sua frente. Seus olhos são diferentes de todos que tinha visto até agora, tão amarelos quanto as folhas das árvores que cobrem as redondezas, intensos e maiores também. Seu cabelo castanho está amarrado e desce pelo seu tronco por uma trança decorada. Sua voz soa como a de Trat, talvez seja uma mulher.
— Não, não sou daqui. — Responde sem jeito.
— Sim, nunca te vi antes. E você veio pela estrada. Quase ninguém usa aquele caminho. — Fala a pessoa sentada no mesmo banco que ele. A garota? Está perto demais para ser confortável. Diferente da sentada à sua frente seus olhos são pretos e bem parecidos com os da população geral. Tem o cabelo curto, meio chanel e seus quatro braços estão decorados com várias pulseiras coloridas. — Eu me chamo Trinidá’Kar, ela — aponta para a de olhos amarelos — é Lallaby’Gaul.
— Prazer. — Está muito desconfortável com a situação, principalmente pelo fato da tal Lallaby olhá-lo como se estivesse vendo algo além, como se tentasse ver sua alma e um pouco mais.
— E você, como chama? — Questiona Lallaby ainda o encarando com seus grandes olhos amarelos.
— Desculpa pela minha falta de educação, me chamo Tomás.
— Isso é apelido? — Questiona Trinidá de forma jocosa.
— Não, meu nome mesmo.
— Certeza? Que diferente. E sob qual divindade você foi abençoado? — Continua a garota.
— Até onde eu sei nenhuma. — As duas parecem surpresas com sua afirmação, mas tentam ao máximo não demonstrar, como se quisessem impressioná-lo de alguma maneira.
— Impossível, você só não deve saber, ou lembrar. — Lallaby nesse momento percebe a falta do segundo par de braços de Tom, mas desvia o olhar para não deixá-lo constrangido. O que é engraçado, pois o garoto nem liga para seus braços que ainda estão jogados no chão pegando pó junto do espírito de Kar.
— E para onde você está indo? — Questiona Trinidá enquanto arruma seu cabelo que começa a bagunçar com o vento da viagem.
— Eu não sei. — Ri. — Eu entrei para ver onde ia, mas não faço ideia.
— Você está bem? Já vi casos de encantos que dão errado e a pessoa esquece de tudo. Não aconteceu isso não? — Aproveita o questionamento para se aproximar dele e procurar por algum machucado em sua cabeça.
— Deixa de ser burra, Tri. Se ele não lembra de nada, como que vai lembrar de ter se machucado. — Ambas dão risada, Tom tenta, mas não consegue.
— Eu não tenho bem para onde ir, só tenho que ir. Preciso aprender a usar os encantos em Bush’Kar, mas hoje resolvi conhecer um pouco da região.
— Compreendo, você deve ter vindo de longe então para aprender ali, por isso seu nome é tão estranho. — Trinidá fala como se isso fosse fato consumado. — Nós tivemos aulas na academia quando éramos novas, mas eu não tinha muito talento para continuar estudando. Mas a Lallaby ainda tem aulas. — Vira mais seu corpo para o garoto.
— Você deve saber muitos encantos se ainda está estudando essas coisas. — Lallaby cruza um dos seus pares de braços sobre o banco e apoia seu queixo sobre eles.
— Na realidade não. — Responde sem graça. — Eu não faço ideia de como fazer essas coisas. Só me ensinaram como mandar recados até agora. — Esse fato realmente parece surpreendê-las, tanto quanto Trat anteriormente.
— Mas como você vive assim? Eu não ia conseguir fazer nada acho. — Trinidá coloca sua mão sobre o ombro dele, e finalmente percebe a falta do braço. Sua mão recua por impulso e Lallaby a fulmina com olhos reprovando a atitude.
— Não sei, mas tenho que começar a aprender. — Lallaby sorri para Tom e começa a mexer em sua pequena bolsa, ela tira uma caderneta, escreve algo ali e, em seguida, arranca a folha e a entrega para ele.
— Quando quiser aprender vá nesse endereço em Bush’Kar. É um familiar meu, vou deixar avisado que te mandei. Tenho certeza que ele vai te ajudar. — Tom pega o papel e a agradece. A folha com o endereço tem um aroma floral gostoso. O cheiro, por algum motivo, lhe dá um arrepio. Guarda dentro de sua mochila torcendo que esteja ali quando voltar novamente para esse mundo.
O som de seu alarme começa a zumbir baixinho em meio a conversa, aos poucos os sons das vozes vão ficando distantes até que Tom se dá por acordado, em seu quarto desligando o despertador.
O garoto não se levanta imediatamente, fica ali alguns segundos parado com a mão ainda em cima do relógio, pensando no que havia passado. Quer descobrir o motivo de se sentir tão diferente no outro mundo. Nunca que teria roubado um cadáver de verdade, mas foi exatamente o que fez.