REINO AZRA
O céu ardia em tons de laranja e vermelho antes de ceder lentamente à noite. O azul profundo tomava seu lugar, salpicado por estrelas cintilantes. A brisa soprava suave contra o rosto do jovem, trazendo consigo o frescor do entardecer.
Yellow sentia-se em paz. Observar o pôr do sol era seu hábito favorito, o único momento em que conseguia esquecer o peso que carregava. Afinal, ele era o príncipe que herdaria a coroa de Azra.
Tudo o que Yellow desejava era uma vida comum, como a das pessoas dos vilarejos. Ser da realeza era sufocante. Guardas o acompanhavam por todos os corredores, criados escolhiam suas roupas, arrumavam seus cabelos, decidiam cada passo que dava. A única coisa que faltava era alguém levar comida à sua boca e Yellow sabia que, se ordenasse, fariam sem questionar.
Ele não era mais uma criança. Então por que o tratavam como tal?
— Príncipe Yellow — disse uma criada, curvando-se — a rainha solicita sua presença.
Outra formalidade. Outra lembrança da prisão dourada em que vivia.
Yellow esboçou um sorriso educado e seguiu até os aposentos da mãe.
— Mandou me chamar? — perguntou ao ver a mulher de cabelos castanhos.
O semblante sério da rainha fez seu peito apertar. Ela quase nunca deixava de sorrir. Se agora não sorria, o assunto era grave. Muito grave.
— Precisamos conversar sobre algo importante — disse ela, trocando um breve olhar com o rei.
Yellow acompanhou o gesto. O olhar severo do pai era o mesmo de sempre: duro, impenetrável. Poucas vezes alguém o vira sorrir. Aquilo sempre causava um leve arrepio em Yellow, tão diferente dele. Enquanto o rei parecia feito de pedra, Yellow sentia tudo em excesso.
— Sobre o que se trata, minha mãe? — perguntou.
— Encontramos um pretendente para você.
O mundo pareceu parar.
— Um… pretendente? — seus olhos castanhos claros se arregalaram.
— Recebemos uma proposta do reino de Thea — continuou o rei. — Estamos cercados por conflitos, e esse casamento selará uma aliança antiga que nunca deveria ter se quebrado. Será o fim de uma rivalidade de séculos.
— Por que eu? — a voz de Yellow saiu mais alta do que pretendia. — Não podem casar o Pie?
A simples ideia de se unir a alguém que nunca vira o deixava enjoado. E se fosse cruel? Ou grotesco? Ou velho demais? Sua mente criava cenários cada um muito pior que o outro.
— Você é o herdeiro de Azra — respondeu o rei friamente. — E já passou da idade de ter responsabilidade de um rei. Não estamos pedindo sua opinião. Apenas comunicando.
Yellow olhou para a mãe. O olhar triste dela dizia tudo: aquela decisão não podia ser mudada. Sem dizer mais nada, ele virou-se e saiu.
— Não vire as costas para o rei, Yellow! — a voz fria ecoou atrás dele.
Ele ignorou. O que fariam? Mandá-lo para a forca? O prenderiam do calabouço
Um pretendente. Passar a vida inteira ao lado de alguém que não amava e que talvez jamais o amasse. Por que tudo precisava ser tão complicado? Os reinos não podiam simplesmente conversar? Por que sempre um casamento?
Respira, Yellow. Respira.
Mais tarde, a rainha o encontrou nos corredores.
— Encontrei você — disse ela com suavidade. — Não fique assim… não é tão ruim quanto parece.
— É horrível — respondeu ele, com a voz baixa. — Um casamento arranjado, com alguém que eu nem conheço.
— É pelo bem do reino, meu amor. Colocamos essa responsabilidade sobre você porque confiamos em você. Sabemos que será um grande rei.
As mãos dela tocaram seu rosto com carinho.
— Não, vocês colocaram essa responsabilidade em mim porque não tem mais ninguém em que as jogar, já que dois velhos adultos não sabem resolver os problemas do reino com uma conversa —
— Você o conhecerá amanhã, durante o jantar — respondeu a rainha, afastando-se em seguida.
Yellow ficou ali, tomado por frustração e raiva.
Muita raiva. ela ao menos ouviu o que ele disse?
Era isso que ele era para eles? Uma moeda de troca?
Seu destino já havia sido traçado.
Por outras pessoas.
REINO THEA
As risadas das gêmeas ecoavam pelo jardim, animando a tarde de Black e Petter. Sentados na grama, cobertos de lama, os dois observavam o brilho nos olhos das pequenas.
Rose e Daisy eram energia pura. Energia demais, na opinião de Black.
— Por Zeus… — murmurou ele — de onde seres tão pequenos tiram tanta força?
Outra risada ecoou pelo jardim. Ele se levantou assim que surgiu a imagem da rainha no jardim.
— Como está a mulher mais linda deste reino? — disse, abrindo um sorriso exagerado. — Ela riu, envergonhada.
— Esse título não é mais meu. Rose e Daisy o roubaram no momento em que nasceram. — A rainha beijou a testa das meninas e franziu o cenho ao notar a sujeira. — Meu Deus… vocês estavam brincando no chiqueiro?
— O Black jogou a gente na lama! — reclamou Daisy, cruzando os braços.
Black fez uma nota mental: elas odeiam lama. Definitivamente faria isso mais vezes.
— Já falei para não serem malvados — repreendeu a rainha, lançando um olhar firme aos filhos. — Sem jantar hoje. Para os dois
As gêmeas sorriram do mesmo jeito. Castigo algum durava muito com elas.
— Black, venha comigo. Precisamos conversar. Petter, leve as meninas para tomar um banho
O sorriso de Black desapareceu.
Na estufa, o cheiro de ervas misturava-se ao silêncio pesado. A rainha tomava chá quando ele entrou.
— O que deseja, minha mãe?
— Você sabe que o reino não vai bem e sabes o motivo.
A culpa atravessou Black como uma lâmina. Ele sabia. Seus luxos, suas apostas... Todo o ouro que o reino havia perdido. Ele havia parado á alguns meses atrás, mas o estrago já estava feito.
— Eu sei que a culpa é minha. Já me ofereci para trabalhar no vilarejo, ou no palácio, eu trabalho até mesmo nas minas se precisar.
— Jamais — cortou ela. — Você é um príncipe, suas mãos não foram feitas para o trabalho árduo.
— Mãe! —
— Já temos uma solução.
— Solução? — ele engoliu seco, hesitou antes de perguntar. — Qual?
Ela sorriu.
— Vamos casar você.
— O quê?!
— Você será o noivo mais bonito de todo o reino.
— Mas eu nem conheço a garota! — protestou. — Não podem me casar com qualquer princesa!
— Não é uma princesa... na verdade é um Principe
— Mas eu não quero... — sua fala é interrompida pela mulher de cabelos longos
— Isso não é sobre querer, Black. É sobre salvar Thea do fundo do poço.
— Com quem eu vou me casar?
— Amanhã você saberá.
Ela saiu, deixando-o sozinho com o peso da decisão.
Black passou a mão pelos cabelos. Se casar… com um Principe, então ele finalmente percebeu que talvez o reino estivesse pior do que ele imaginava.
A cabeça do garoto estava em uma grande confusão.
Uma bebida, ele precisava de uma bebida.
Rum, uma dose de rum, ou duas, talvez até três, quatro, não!
Cinco, ele precisava de cinco doses de rum.
mas no final da noite foram 10 doses