O sol já estava alto quando Yellow deixouo bosque. A luz do dia parecia mais dura agora, sem a proteção das árvores, e o capuz que o escondera durante a noite tornava-se sufocante. Ele o empurrou para trás apenas o suficiente para respirar melhor, sentindo o vento tocar seus cabelos dourados, um risco que o fazia olhar em volta a cada passo.
Foi então que viu o vilarejo.
Ele não surgiu de repente, como os castelos de pedra que dominavam o horizonte. O lugar parecia se revelar aos poucos, quase com relutância, como se não quisesse ser notado. Primeiro o som: martelos batendo em metal gasto, vozes baixas discutindo colheitas, o choro distante de uma criança. Depois o cheiro: pão assando, terra molhada, fumaça de lenha velha.
As casas eram simples, muitas claramente antigas, sustentadas por reparos improvisados e esforço contínuo. Não havia bandeiras, brasões ou marcas que indicassem pertencimento a algum reino. Apenas pessoas vivendo e sobrevivendo.
Yellow diminuiu o passo.
Seu primeiro impulso foi voltar. Aquilo não era Azra. Não era o mundo ordenado, vigiado e previsível que ele conhecia. Mas algo, talvez cansaço, talvez curiosidade o empurrou adiante.
Ele sentiu os olhares antes mesmo de percebê-los conscientemente. Não eram hostis. Eram atentos.
Homens interrompiam o trabalho por um instante a mais do que o necessário. Mulheres baixavam a voz quando ele passava. Crianças paravam de correr para encará-lo, curiosas demais para disfarçar. Yellow tentou manter a postura firme, mas seus movimentos o traíam: passos incertos, mãos inquietas, o olhar que demorava demais em coisas simples demais.
Tudo ali parecia novo para ele. Assustadoramente novo.
Foi quando uma voz se fez ouvir, firme, mas sem agressividade:
— Você não é daqui.
Yellow parou.
Ergueu os olhos e encontrou um homem apoiado contra um poste de madeira, braços cruzados, observando-o com atenção calculada. Era alto, de ombros largos, cabelos escuros presos de forma descuidada e olhos castanhos. Não havia hostilidade em sua expressão, apenas vigilância e curiosidade. Como quem já aprendera, muitas vezes, a reconhecer problemas antes que eles acontecessem.
— Sou só um viajante — respondeu Yellow, rápido demais.
O homem não reagiu de imediato. Apenas inclinou levemente a cabeça, avaliando-o em silêncio.
— É — disse por fim. — Você parece perdido.
Yellow engoliu em seco.
— Um pouco.
O homem deu alguns passos em sua direção. Não para intimidar, mas o suficiente para que Yellow sentisse o peso da presença dele.
— Você anda e olha em volta como se tudo pudesse te morder.
Yellow forçou um sorriso.
— Longa viagem, e um lugar desconhecido pra mim.
Por alguns segundos, o homem não disse nada. Apenas o estudou. Depois suspirou, como se tivesse tomado uma decisão. Ele sabia que aquele garoto não era viajante.
— Venha — disse, virando-se. — Antes que alguém faça perguntas menos educadas do que as minhas.
Yellow deveria ter recusado.
Mas, estranhamente, seguiu.
A taberna era pequena, abafada pelo calor e pelo cheiro constante de comida. Ainda assim, havia algo vivo naquele lugar — vozes baixas, risos contidos, o som de copos de madeira sendo apoiados sobre mesas gastas. Era ali que o vilarejo parecia respirar junto.
O homem que o trouxera entrou primeiro e falou algo baixo com a mulher atrás do balcão. Antes mesmo que Yellow abrisse a boca, um pedaço de pão ainda quente e um copo de água foram colocados à sua frente.
— Coma — disse o homem, puxando uma cadeira e sentando-se à sua frente. — Aqui ninguém passa necessidade se puder ser evitado.
Yellow agradeceu com um aceno curto e comeu com cuidado no início, mas a fome venceu rápido. Tentou manter a compostura, conter a urgência nos gestos, mas ainda assim se sentia exposto. Cada movimento parecia observado.
E era.
O homem à sua frente não falava. Apenas o analisava em silêncio — não como um inimigo, mas como alguém que tentava entender um enigma.
Quando Yellow terminou, limpando as mãos na própria capa, o homem finalmente falou:
— Meu nome é Helly.
Yellow ergueu os olhos.
— Lyn — respondeu, repetindo o nome falso.
Helly assentiu, aceitando aquilo por ora.
— Você sabe onde está, Lyn?
Yellow hesitou.
— Não exatamente.
— Então bem-vindo ao vilarejo Haru, ele é simples, mas acolhedor
Helly recostou-se na cadeira, cruzando os braços.
— Isso aqui… — ele fez um gesto discreto ao redor — não aparece em mapas. Nem em registros...
— Eles não sabem...
— Por quê? — perguntou Yellow, genuinamente confuso.
Por um momento, Helly pareceu considerar se deveria responder. Então respirou fundo, como quem decide carregar um peso antigo mais uma vez.
— Porque este lugar é o que sobrou de um reino que morreu.
Yellow franziu o cenho.
— Um reino?
— Zaya — disse Helly, e o nome saiu como uma ferida aberta.
Yellow nunca ouvira aquele nome. Nem em aulas, nem em histórias de corte, nem nos registros que lhe foram enfiados goela abaixo desde criança.
— Zaya existiu antes de Azra tomar estas terras — continuou Helly, a voz mais baixa agora. — Era um reino pequeno, mas fértil. A terra dava tudo. Colheitas fartas, rios limpos. Um lugar bonito demais para passar despercebido.
Ele fez uma pausa curta, os olhos fixos na mesa.
— Zaya era governado por um rei justo. Tinha duas filhas. A mais velha… — Helly fechou os olhos por um instante. — Diziam que era a mulher mais bela daquelas terras. Inteligente também. Não queria ser rainha de ninguém além do próprio povo.
O coração de Yellow começou a bater mais rápido, sem saber exatamente por quê.
— O rei de Azra quis tomá-la como esposa — Helly continuou. — Não por amor. Por posse. Ela recusou.
Yellow engoliu em seco.
— Reis não lidam bem com recusas — murmurou Helly. — Vieram à noite. Soldados demais para um reino pequeno demais. Levaram ouro, gado… mulheres. Mataram o rei. Mataram guardas. Mataram crianças.
Yellow sentiu o estômago se revirar.
— E a princesa? — perguntou, a voz quase inexistente em um tom triste, ele não sabia dessa história sombria sobre seu reino
Helly ergueu os olhos para ele.
— Ela subiu até a torre mais alta do castelo. Ela não aguentou ver o reino destruído, e não queria ser levada a força pelo rei de azra, Preferiu o chão ao toque de um homem que destruiu tudo o que ela amava. Então... se jogou de lá
O silêncio caiu pesado entre eles.
— Zaya morreu naquela noite — concluiu Helly. — O que você vê hoje… nasceu do que conseguiu fugir, se esconder, sobreviver.
Yellow ficou em silêncio por longos segundos.
Nada daquilo existia nos registros de Azra. Nada.
— E este lugar? — perguntou, por fim.
Helly sustentou o olhar dele.
— Este lugar não tem nome para quem vive fora dele. Para nós… é apenas casa, nomeamos como haru.
Yellow assentiu lentamente, sentindo algo quebrar e se rearranjar dentro de si.
A conversa continuou fluindo naturalmente. Helly falou sobre as dificuldades de manter o vilarejo vivo, sobre as gerações que tentaram reconstruir o vilarejo, sobre as lições que cada desastre lhes ensinou. Yellow, por sua vez, contou histórias de viagem e lugares que conhecera, sem revelar nada que pudesse comprometer sua identidade.
Eles riram juntos de pequenos acidentes do cotidiano, discutiram a qualidade das ferramentas do vilarejo e até trocaram provocações leves sobre habilidades de caça. Aos poucos, a desconfiança de Helly se misturava a um respeito silencioso, enquanto Yellow sentia pela primeira vez desde que fugira que podia confiar em alguém.
Quando a tarde começou a ceder, Helly se levantou:
— Você tem bom ouvido, Lyn. Não é todo dia que recebemos alguém que realmente quer entender Haru. Yellow que a todo momento mantia o capuz em sua cabeça, leva a mão até a cebeça para coça-la por cima do mesmo.
Helly sorriu e Seus olhos se desviaram brevemente para o anel simples no dedo de Yellow. Um detalhe quase imperceptível, mas que Helly reconheceu de imediato: um símbolo antigo de Azra, que muitos juraram esquecer. Durante toda a conversa o moreno não havia o notado.
— E você? — perguntou Helly, por fim, sua fala era mais séria. — Quem é você de verdade?
Yellow apertou os dedos ao redor do copo.
— Alguém que cresceu acreditando que Azra era justo — disse. — E que está começando a perceber o quanto isso era mentira.
Helly o encarou longamente.
— Você carrega culpa demais para ser só um viajante.
Yellow sorriu, triste.
— E você carrega esperança demais para alguém que perdeu um reino.
Helly riu pela primeira vez. Um riso breve, sincero.
— Talvez seja por isso que eu esteja falando com você. Lyn...esse anel, é símbolo de azra, eu o reconheceria em qualquer lugar, quem é realmente você? Um espião? —
— Helly desculpa por ter mentindo, confesso que não sou viajante, mas também não sou um espião.
— Então quem é você?
Yellow tirou o capuz fazendo Helly arregalar os olhos em surpresa. É claro que ele sabia quem era Yellow. já havia espiado o reino de azra muitas vezes.
— Principe ...
— Sim... Eu realmente encontrei Haru por acaso, me perdi na floresta, na verdade ontem à noite eu fugi do castelo...
— Vossa majestade fez o que? Como você pode tomar tal atitude?
— Foi algo impensado eu concordo. — Quando Yellow contou, quase rindo de nervoso, que fugira porque seria obrigado a se casar com um príncipe que nem conhecia, Helly gargalhou.
— Então o futuro rei de Azra foge por amor próprio.
— Eles irão me casar com um príncipe, o príncipe de Thea, eu entrei em desespero
— Qual deles?
— Não sei, como pode ver, não fiquei para o jantar de apresentação — ambos caíram na gargalhada
O sol já estava se pondo, era um sinal que Yellow precisava voltar, havia ficado tempo demais fora do palácio.
— Helly, eu sinto muito, mas preciso voltar, devem haver muitos soldados atras de mim agora
— Eu sei, você passou tempo demais fora do palácio
— Eu não quero ser um problema, é fazê-los acharem o vilarejo por culpa da minha fuga.
— Eu honrado pela preocupação majestade
— Helly realmente não sabia sobre Zaya, não tem nada nos registros de azra, em nenhum livro da biblioteca real...
— Tudo bem, confesso que ainda busco vingança, mas não é nada que coloque as pessoas em perigo, só queríamos o nosso reino novamente.
— Eu gostei muito de você, além do meu irmão Pie, eu não posso conversar com ninguém, nunca havia me divertido tanto assim antes ... Você é uma pessoa legal
— Digo o mesmo. Vamos, eu te levo de volta pessoalmente — disse Helly, abrindo caminho até a saída do vilarejo. — É melhor que você vá pelo caminho seguro, longe dos que poderiam estranhar sua presença.
Enquanto caminhavam, Helly colocou uma mão firme no ombro de Yellow. Não era um gesto invasivo. Era um gesto de confiança. Ambos andaram pela floresta novamente, após algum tempo andando, Yellow viu a clareira onde havia passado a noite com B.
— Helly, você conhece esse lugar? — Questionou o mais baixo
— Sim, muitos viajantes usam para passar a noite. Porque?
— Eu preciso voltar aqui na Lua cheia...
— Na lua cheia? Algum motivo específico meu Principe?
— Quero encontrar uma pessoa.
— Deixa eu adivinhar, você não sabe o caminho, acertei?
— Acertou sim
— Eu posso te guiar se precisar.
Yellow sorriu sentindo uma nova amizade nascendo. Pela primeira vez, sentiu que podia respirar, que não estava totalmente sozinho no mundo.
E enquanto o vilarejo desaparecia atrás deles, ele não pôde deixar de pensar: nada na vida dele seria simples novamente. Mas talvez, só talvez, encontrar o vilarejo e Helly fosse o começo de algo que ele não sabia que precisava.
Quando chegaram nas redondezas de Azra, ambos pararam de andar, Yellow sabia que não era seguro para Helly, e Helly sabia que não podia passar dos limites do reino.
— helly, como faço pra te encontrar? Você disse que me guiaria na lua cheia, mas como entro em contato?
— Yellow o quanto eu posso confiar em você?
— O máximo que puder, não tenho a intenção de fazer mal a você e nem ao vilarejo.
— Na cozinha real tem um auxiliar chamado Maxky, ele é do vilarejo, você pode falar com ele, podemos escrever um para o outro o que acha?
— Eu nunca escrevi para ninguém antes. Achei a ideia interessante.
— Então pode me escrever e entregar as cartas ao cozinheiro.
— Mas e se ele não acreditar em mim? Ou achar que eu estou querendo prejudicar?
— Eu te darei isso, é algo que só quem é ou já veio no vilarejo tem, só damos para pessoas de confiança.
Ele tira uma pulseira com uma madeixa talhada em formato de sol. Yellow se sentiu especial. Fazia muito tempo que ele não tinha esse sentimento.
— Você é o meu primeiro amigo — disse o loiro envergonhado
— Então é uma grande honra ser amigo de vossa majestade — Ambos riram e ali se despediram.
Yellow chegou nos portões grandes do palácio, assim que tirou o capuz da sua cabeça os soldados o reconheceram de imediato. Ele sabia que o rei iria brigar com ele ou até puni-lo