No castelo de Azra estava silêncio demais para o fim de tarde. O comandante da guarda real já estava à sua espera.
Yellow caminhava pelos corredores como um intruso no próprio lar, acompanhado pelo comandante real, os guardas que estavam no caminho apenas inclinavam a cabeça quando o viam passar e os criados desviavam o olhar. Era como se todos soubessem que algo estava acontecendo e não ousassem falar sobre isso.
Ele não foi levado imediatamente aos pais.
E, pela primeira vez, agradeceu por isso.
O comandante o instruiu a não sair do quarto até segunda ordem. O garoto aproveitou para tomar um banho pois sentia o corpo sujo depois de uma noite inteira na floresta e, de uma caminhada longa sob o sol.
Não demorou para ouvir uma batida na porta, revelando um rapaz com uma bandeja de comida. Seus olhos castanhos brilharam, não existia nada melhor do que a comida do palácio.
Ele então se lembrou do garoto citado por Helly e se perguntou se o rapaz à sua frente o conhecia.
— Com licença
— Sim majestade — O homem fez uma reverencia
— Posso perguntar qual é o seu nome?
— Eu me chamo Maxky, Vossa Alteza — respondeu, com a voz trêmula.
— Não precisa ser tão formal.
Ele estava muito surpreso, mas não deixou transparecer. O garoto havia começado a trabalhar recentemente no palácio. Ele sabia disso porque conhecia todos os funcionários antigos e lembrava que, há cerca de um mês, novas pessoas haviam sido contratadas para cada função do castelo.
Ainda assim, sentiu alívio.
Agora já sabia qual rosto procurar quando a hora chegasse.
— Normalmente James trás meu jantar quando eu preciso comer no quarto.
— O Senhor James foi designado a cuidar do banquete para o jantar de apresentação dos noivos e, a servir pessoalmente aos conselheiros de Sua Majestade. Eu e mais dois cozinheiros seremos treinados para lhe prestar serviço majestade.
O príncipe apenas assentiu
O chamado pelo príncipe veio ao cair da noite. Na verdade, foi uma ordem de comparecimento.
O comandante real já o esperava do lado de fora do quarto. Yellow o seguiu em silêncio. As mãos suavam e o coração batia acelerado.
A sala do trono estava iluminada por tochas altas. O espaço parecia maior do que ele lembrava ou talvez fosse ele que se sentisse menor.
O rei estava em pé, à frente do trono.
A rainha permanecia sentada, as mãos unidas com força no colo.
Nenhum dos dois sorriu ao vê-lo.
— O encontro foi remarcado para o próximo mês — disse o rei, direto, sem rodeios. — A família real de Thea também não pode comparecer.
Yellow não respondeu.
Mas estremeceu.
— Não aceitarei outra birra — continuou o rei, a voz baixa, ríspida. — Sua fuga não foi apenas um capricho. Foi uma falha. E falhas desse tipo custam vidas quando se governa um reino.
A rainha inspirou fundo antes de falar.
— Você carrega uma responsabilidade que ainda não compreende totalmente, querido — disse, com mais suavidade do que o rei, mas não menos firmeza. — Um dia, Azra estará sob seus cuidados. E será seu dever protegê-la.
— Um rei não escolhe apenas por si — completou o rei. — Escolhe por seus súditos. E isso exige sacrifícios.
O loiro sentiu as mãos se fecharem lentamente ao lado do corpo.
— Pronto ou não — o rei continuou —, você precisa começar a agir como o futuro herdeiro da coroa. Como alguém digno do trono que um dia assumirá.
O silêncio se espalhou pela sala.
Então veio a pergunta.
— Onde você esteve?
O mundo pareceu parar.
Contar onde esteve significaria expor.
Significaria colocar um vilarejo inteiro sob os olhos de um reino que havia sido sua destruição.
Ele respirou fundo.
— Perdido na floresta — respondeu.
A mentira queimou.
Não era uma mentira completa.
Mas também não era toda a verdade.
A rainha o observou com atenção, como se procurasse rachaduras em sua voz. Ela o conhecia melhor do que ninguém.
O rei sustentou o olhar de Yellow por longos segundos.
— Não minta para mim
Ele não desviou os olhos. Naquele momento, reuniu toda a coragem que tinha.
— Não menti, como nunca havia saído do reino eu apenas vaguei pelas redondezas sem direção.
Era a primeira vez que escondia algo deles.
E o peso disso caiu sobre seus ombros, como a coroa invisível que sempre carregou.
— Se fugir novamente — disse o rei, por fim —, as consequências serão drásticas.
Yellow assentiu, ainda encarando o rei.
— Pode se retirar.
Quando ele se virou para sair, a voz da rainha o alcançou:
— Tudo o que fazemos é para protegê-lo querido.
Ele não respondeu.
Segundo o rei, um dia ele protegeria seu povo. O reino seria sua responsabilidade. Ele precisava ser firme. Corajoso.
Então, pela primeira vez, estava obedecendo ao rei.
Estava protegendo alguém.
Não o seu povo.
Não o seu reino.
Mas ainda assim, algo importante para si.
Naquela noite o garoto teve sua primeira noite de insônia. Ele tentava dormir e não conseguia, nenhuma posição era confortável o suficiente. Com toda a inquietude que o assombrava ele decidiu sair do quarto.
A biblioteca real era o único lugar onde ele conseguia respirar desde criança. O cheiro de pergaminhos antigos, a poeira fina que pairava no ar, o silêncio respeitoso que não exigia respostas. Ele entrou ali quase por instinto, ainda com o peso da culpa.
Escolheu um dos corredores mais afastados, onde livros de história e política raramente eram tocados. Sentou-se à mesa de madeira escura e passou a mão pelo rosto, exausto. Ele estava procurando algo relacionado a Zaya.
Estava ali havia não mais que vinte minutos, quando vozes ecoaram do outro lado da estante alta.
Ele reconheceu imediatamente.
Era seus pais. Não como rei e rainha, mas como marido e mulher.
Seu corpo congelou.
— Ele voltou seguro, seja mais paciente com ele — disse a rainha, em tom baixo, carregado de alívio e preocupação. — Graças aos deuses que nada o aconteceu.
— Isso não muda nada — respondeu o rei, frio como pedra.
— Ele é apenas um garoto — insistiu ela. — Assustado, você é sempre muito rígido com ele.
— Ele é o herdeiro de Azra — rebateu o rei. — E fugiu no momento mais delicado que este reino já enfrentou.
Seu semblante mudou, sentia-se culpado.
— Merlyn está se movendo — continuou o rei. — Não oficialmente. Ainda. Mas os rumores são claros. As Tropas estão sendo reposicionadas. O novo rei não tem a cautela do pai.
— O rei Jhon seria capaz de tal traição?
— Jhon mudou drasticamente e Thea está enfraquecida — disse o rei. — Sozinha, não resiste a uma investida direta. E Azra, por mais rica que seja, se tornará o próximo alvo. É por isso que a união não pode falhar — concluiu o rei. — Dois reinos juntos têm vantagem. Separados, seremos apenas presas esperando o momento certo de morrer.
Yellow sentiu o chão sumir sob seus pés.
Então não era apenas uma aliança antiga.
Era medo.
— O encontro com a família real de Thea foi remarcado, mas só quando ambos os príncipes selarem seus votos eu dormirei tranquilo
— E Yellow? — perguntou a rainha, hesitante. — Ele precisa entender a situação do reino e ...
— Ele precisa obedecer — cortou o rei.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Yellow deu um passo atrás, o coração martelando no peito. Ele se afastou em silêncio, antes que fosse notado, sentindo algo pesado se instalar em seu peito. Não era apenas raiva. Era a percepção cruel de que seu valor estava sendo medido em vantagem estratégica.
Ele permaneceu na biblioteca. Não por obrigação. Mas por necessidade, por Zaya. Ele procurou por horas. Estante após estante. Livros de história antiga, mapas políticos, registros territoriais. Zaya não existia.
Não oficialmente.
Até que, em um canto esquecido na última prateleira ele viu algo, era difícil para pegar e estava na parte mais alta. Yellow colocou uma cadeira e depois formou alguns degraus com os próprios livros temendo cair a qualquer momento, ele encontrou então um livro que parecia antigo demais. A capa estava desgastada, o título quase ilegível. Dentro havia vários mapas.
Mapas que não eram de Azra.
As linhas não batiam. As fronteiras eram diferentes. Um território pequeno, fértil, exatamente onde hoje ficavam as terras de Azra até o brasão era diferente e algumas páginas estavam rasgadas. Arrancadas com cuidado demais para ser acidente.
Sentiu um frio percorrer sua espinha.
— Alguém sabe sobre Zaya — murmurou para si mesmo.
Ali, sentiu culpa
Culpa por não contar aos pais sobre o vilarejo.
Culpa por guardar um segredo.
Mas também sentiu algo novo, o desejo de proteger alguma coisa.
Naquela madrugada, de volta aos seus aposentos, Yellow acendeu apenas uma vela. Sentou-se à escrivaninha e encarou o papel em branco por longos minutos.
Era a primeira carta de sua vida.
As mãos tremiam quando começou a escrever.
Helly,
Cheguei bem, apesar do peso da culpa.
Meus pais estão mais assustados do que bravos, mas não quero falar sobre eles.
O encontro com meu futuro noivo foi remarcado, eu preciso me casar. Acabei de descobrir que é um príncipe. Você conhece o príncipe de Thea? Ele é bonito? Eu nunca o vi.
Procurei por Zaya na biblioteca e achei mapas antigos, não são de Azra e havia o símbolo de um brasão que eu nuca vi e algumas páginas estavam arrancadas. Posso te mostrar.
Você sabe alguma coisa sobre o reino de Merlyn? Pode parecer estranho, mas quero saber tudo que sabe sobre esse reino.
A lua cheia chegará em breve
Eu estarei lá.
—Yellow.
Dobrou o papel com cuidado e escondeu-o. Ao amanhecer, quando Maxky levasse o seu café da manhã ele entregaria.
Naquela noite quando foi dispensado da sala do trono, antes de ir para o seu quarto, ele foi até a cozinha real e pediu para apenas Maxky levar sua comida a partir daquele dia, era uma ordem do futuro rei.
O dia amanheceu nublado. Era por volta das nove da manhã, quando Yellow finalmente teve forças para se levantar da cama. Após tomar seu banho ele solicitou o seu café da manhã no quarto. Disse apenas que estava indisposto para descer e tomar café com todos. Já passava das três da manhã quando ele finalmente conseguiu dormir.
Não demorou para a mesma pessoa do dia anterior parecer com uma bandeja enorme com tudo que ele gostava. Ele ficou feliz ao ver que seguiram suas ordens
— Maxky — chamou.
O auxiliar se virou bruscamente, tenso.
— Sim Vossa majestade?
— A partir de hoje, somente você estará autorizado a trazer a minha refeição.
— Eu?
— Poque eu irei precisar de você — O cozinheiro estava claramente confuso.
— Estou as suas ordens majestade.
— E tenho uma carta para Helly. — disse o príncipe, direto.
Maxky recuou um passo, desconfiado.
— Eu não sei de quem Vossa Majestade está falando. — Respondeu firme, se preparando para sair do quarto.
— Eu não autorizei sua saída — Disse o príncipe. Em algum momento ele iria precisar usar sua autoridade
— Me desculpe Vossa Alteza
— Eu sei sobre o vilarejo Haru, eu estive lá e Helly é meu amigo
— Como eu posso confiar em Você?
Yellow estendeu o pulso.
A pulseira com o símbolo do sol brilhou sob a luz fraca. O rosto de Maxky empalideceu.
— Isso... — sussurrou.
— É o brasão do vilarejo, sim. Helly me deu, ele suspeitou da sua desconfiança.
— Me desculpa mais uma vez vossa alteza
— Fica calmo — disse. — Helly e você estão seguros e continuará assim. Não pretendo entrega-los.
Maxky hesitou por um instante, então assentiu lentamente sentindo-se aliviado
O príncipe estendeu o papel bem dobrado para ele.
— Eu entregarei em segurança.
— Sempre que eu precisar entregar algo para ele, pedirei para você trazer um café da manha especial, e quando você precisar me entregar algo, apenas venha com um chá de camomila, é meu favorito então eu o tomo a qualquer hora, assim vou entender que você tem algo para mim
— Entendido majestade.
Quando o garoto saiu Yellow voltou para a cama e pela primeira vez desde que voltou ao palácio pensou em B.