Naquela mesma noite, após a reunião, o castelo de Thea não voltou ao silêncio.
O rei Josh não era um homem de esperar.
Sentado à sua mesa, sob a luz baixa de velas, ele escrevia para o rei, cada palavra era medida e cada frase, pensada como estratégia.
Ao rei Henrique II, de Azra,
Tenho notícias urgentes sobre Merlyn.
Recomendo reforço imediato nas defesas do reino.
Há movimentações que não podem ser ignoradas.
Quanto ao encontro entre nossos herdeiros, peço uma alteração:
meu filho, príncipe Black, encontra-se debilitado.
Levarei comigo um médico de confiança.
Sugiro que o jantar de apresentação ocorra durante o dia, por conta de Black.
— Rei Josh, de Thea.
Ele selou a carta sem hesitar e a enviou.
Naquela noite Josh não dormiu. A guerra ainda não havia começado, mas já estava em movimento de outras maneiras. Como o rei, era sua responsabilidade deixar todos seguros, e ele iria fazer de tudo para protegê-las.
REINO DE AZRA
A resposta de Thea veio rápido e junto com ela um pedido de alteração.
O rei Henrique II não ignorava avisos, ainda mais vindos de Thea já que agora é sua aliada. Na manhã seguinte, o castelo de Azra estava em agitação.
Os conselheiros foram convocados. Após uma longa reunião as decisões foram tomadas. Os guardas foram reposicionados e uma decisão se destacou entre todas.
— Precisamos reforçar a guarda real.
— Mas não temos soldados para isso.
— Eu tenho uma solução.
— Então compartilhe com todos majestade — Um dos conselheiros falou.
A rainha o observava em silêncio.
— Farei uma seleção — continuou o rei. — Mandarei uma solicitação de alistamento, para alguns os homens dos reinos acima de dezoito anos, e todos que tiverem interesse podem fazer a seleção.
***
O chamado veio no início da tarde e Yellow não estranhou.
Depois da carta de Thea e da movimentação no castelo na manhã anterior, era questão de tempo até ele e Pie serem convocado. A sala do trono parecia maior naquele dia ou talvez fosse ele que estava se sentindo menor.
O rei Henrique II estava de pé, próximo ao trono e a rainha permanecia sentada, observando com um pequeno sorriso no rosto.
— Como sabem recebemos uma carta de Thea — disse o rei, direto.
Ambos os príncipes mantiveram a postura.
— Houve uma reunião com o conselho e algumas decisões foram tomadas — continuou o rei. — Entre elas, uma nova seleção para a guarda real, iremos precisar de mais guardas para o reino.
O coração de Yellow acelerou. Helly havia o informado do desejo de fazer parte da guarda real
— Faz tempo que não fazemos uma seleção para guardas e precisarei de homens de confiança.
— Precisamos reforçar a segurança do reino — continuou o rei dando um passo à frente — E principalmente dos herdeiros de Azra.
Ele sentiu Pie apertar seu braço em busca de proteção, e ele alisou suas costa tentando acalma-lo.
— Vamos fazer uma competição e entre os melhores iremos escolher um guarda particular para cada príncipe então enviaremos.
Yellow franziu levemente o cenho.
— Um guarda particular?
— Você é o herdeiro do trono e Pie é o Príncipe de azra — respondeu. — Já deveriam ter um guarda real, mas o reino sempre foi seguro, até agora.
Silêncio.
— A seleção acontecerá nas próximas semanas e amanhã será enviado convites para todas as pessoas importantes do reino — completou. — E vocês estarão presentes em todas as etapas da seleção.
— Presente? Isso é realmente necessário meu pai? — perguntou Pie, sem esconder a surpresa. Ele era o mais novo, nunca estava realmente ligado ao que acontecia no reino.
— Sim. Eu quero que escolham — disse o rei. — Alguém em quem confie. Alguém que, na sua visão, seja capaz de protegê-los.
Aquilo… era novo.
— Entendido — respondi, firme.
— Podem se retirar.
Yellow acompanhou pie até seu quarto, apesar de ter apenas dezoito anos, ele era bem maduro para sua idade. Ambos os príncipes ficaram ali por um tempo conversando sobre as expectativas da seleção.
No caminho de volta para o próprio quarto, Yellow não pensava na seleção.
Pensava no amigo e na conversa que tiveram na floresta.
Ele parou no meio do corredor.
Ele não teria chance de fazer parte da seleção, já que o amigo não era de Azra então ele não iria receber um convite.
A menos que…
Ele mudou de direção. Ele entrou com cuidado, mas sem hesitar. O escrivão cantarolava na biblioteca real e ao entrar viu o homem selando os pergaminhos com o anel do rei. Eram os convites oficiais.
Ele se escondeu e esperou, até o escrivão se distrair e cochilar, algo que era muito comum quando um trabalho durava quase o dia todo. Yellow foi na ponta do pé e pegou um.
O coração batia mais rápido agora, ele colocou o pergaminho entre as roupas e foi correndo para o quarto.
Sentou-se à mesa e pegou a pena para escrever uma carta.
Querido Helly.
No nosso último encontro, você mencionou que queria participar da seleção para guarda real. Essa carta é para informar que finalmente haverá uma seleção, mas, considerando que você não é um cidadão do reino de Azra não receberá o convite real, então considere isso um presente.
Te vejo na seleção.
E espero que vença.
— Raio de sol.
O loiro sorriu ao terminar.
Dobrou o papel com cuidado.
Naquela noite informou que estava indisposto, então receberia seu jantar no quarto. Não demorou até Max chegar com seu jantar.
— Vossa Alteza? Imagino que tenha algo para mim?
— Sim —
— Estou as suas ordens meu Príncipe.
O príncipe estendeu o envelope junto ao convite.
— Entregue isso em mãos, apenas para Helly.
Maxky assentiu sem questionar.
— Sim majestade, levarei a sua mensagem em segurança.
O cozinheiro saiu deixando o loiro sozinho.
No fim do dia o príncipe estava sentado na varanda com o olhar perdido. Pela primeira vez ele havia quebrado as regras, mas, no fundo ele sabia que era o certo. Ele estava fazendo isso por um amigo. Na verdade, para ele, Helly era como o irmão mais velho que ele nunca teve.
Essa responsabilidade era sua, ele sempre que cuidava de Pie, ele precisava ser o maduro mas, ninguém cuidava de si.
Ao visualizar o céu mudar de laranja para tons escuros ele lembrou de B. Lembrou daqueles olhos e da forma que ele sorria. Lembrou de como a lua refletia em seus olhos e aquela sensação que sentiu ao ouvir sua voz. Não, ele não podia pensar em alguém que quebrava suas promessas
B era alguém que ele nunca veria de novo.
***
O campo de treinamento estava lotado, havia homens de diferentes partes do reino. Jovens, veteranos, desconhecidos. Todos com o mesmo objetivo.
Entre eles…Helly, com o cabelo castanho escuro preso de qualquer jeito. As mãos firmes com um olhar atento.
Ele não estava ali por acaso. estava ali porque teve ajuda do próprio príncipe.
Os conselheiros e todas as pessoas importantes do reino estavam ali para assistir e torcer. Cada um tinha seu guerreiro favorito, inclusive o herdeiro do trono.
Para Yellow o dia estava mais ensolarado que o normal, fazendo seus cabelos claros brilharem. Foi quando lembrou dele...
— Não esperava o quê?
— Que alguém fugindo parecesse... assim.
— Assim...?
— Como se tivesse sido feito para a luz.
Eu estou na luz agora, mas você não pode me ver, porque você não apareceu.
E ele nunca veria Yellow até a luz do céu
Ele se desvencilhou de seus pensamentos quando ouviu o sino, anunciando a chegada do rei e da rainha.
As provas começaram por volta do meio dia.
Combate corpo a corpo. Resistência. Estratégia. Precisão.
Vários homens se destacavam pelos seus talentos e Helly avançava sem chamar atenção demais, mas também sem falhar. Ele era bom, muito bom.
***
Os dias passaram e chegou o dia da prova final, restavam poucos. Alguns desses homens irão fazer parte da guarda real do castelo, mas apenas dentre os melhores dos melhores seriam escolhidos aqueles para proteger os príncipes.
A voz do comandante soa na arena.
— Vocês não estão lutando apenas por um posto — disse o comandante. — Estão lutando para proteger o futuro Azra. Se alguém não estiver preparado para dar sua vida pelo reino, você pode recuar, mas se você é corajoso fique.
Silêncio.
— Em um combate real observem e pensem, mas não sejam lentos, se perderem a atenção poderão perder a vida.
Não era sobre vencer era sobre proteger ao reino e a si mesmo.
Helly respirou fundo, ele observou os outros. Ele era qualificado, tinha força e técnica. Após mais alguns combates com espadas Era a hora da decisão, os melhores seriam escolhidos em breve.
Houve uma pequena pausa para todos os mestres discutirem entre si
O sino tocou novamente, fazendo todos silenciarem.
A decisão havia sido tomada.
Ele estava entre os melhores.
Havia chegado o momento em que os príncipes teriam que escolher seus guardas.
O primeiro foi Yellow. Ele escreveu o nome de Helly no papel com certa empolgação, e entregou ao comandante. Logo ele foi posto ao lado do príncipe. Em seguida Pie que seguiu os passos do irmão.
***
Horas depois, os escolhidos foram levados ao castelo.
E foi ali que Helly e o príncipe puderam se falar pela primeira vez desde a seleção.
— Vossa Alteza, é uma honra lhe servir, irei protege-lo com a minha vida — disse agora o guarda, com uma leve reverência.
Yellow queria rir, mas não faria na frente de todos.
Quando Yellow entrou no seu quarto acompanhado pelo guarda real, ambos caíram na gargalhada.
— O que é tão engraçado?
— Você é claro. — Ele abraçou o guarda.
— Quero lhe agradecer pelo presente meu príncipe
— Eu só queria apoiar o meu amigo
— Soube que dia de conhecer seu pretendente está quase chegando.
— Sim, mas o homem da floresta nunca saiu da minha cabeça ou talvez seja apena o ego de um homem, ferido.
— É justificável, já que o príncipe ficou encantado por ele e ele simplesmente desapareceu.
— Esse encanto virou ódio, se eu ver ele na minha frente novamente, eu o mato.
O guarda sorriu, ele sabia que era o sentimento de alguém perdidamente apaixonado.
O guarda saiu do quarto e ficou de prontidão da porta do príncipe. Após algumas horas vê um garoto também loiro, só que mais escuros que os de Yellow.
Ele faz uma reverencia rápida ao garoto.
— Alteza, o príncipe yellow está dormindo no momento.
— Tão cedo
— Sinto muito.
— Não é sua culpa. — Ele sorriu, e para Helly aquele era o sorriso mais bonito que ele já viu — Vocês já se conheciam?
— Não, eu também fiquei surpreso por ser escolhido pelo príncipe. — Mentiu.
— Meu irmão parecia bem confortável com você. Isso é bom. Mas é uma pena ele ter escolhido primeiro
— Desculpa, eu não entendi
— Eu estava pretendendo escolhe-lo
— Eu?
— Sim, te achei muito bonito.
O príncipe mais novo sorriu enquanto se distanciava, deixando um guarda envergonhado para trás.
***
O dia chegou, o almoço foi preparado com cuidado. O castelo tinha cores claras e enormes janelas. O salão estava iluminado pela luz natural. Tudo parecia calmo demais para o que estava prestes a acontecer.
A comitiva de Thea chegou pouco antes do horário marcado.
Black caminhava ao lado do rei. Ele vestia roupas preta e dourada, digna de um verdadeiro príncipe. Sua respiração está controlada, mas o coração descompassado.
Gus não saia de perto de Petter, estava com uma caixa cheia de ervas medicinais e mantinha-se em silêncio observando cada detalhe, o plano estava em andamento.
Eles foram levados até seus alojamentos para descansarem antes do almoço de apresentação. O rei Josh foi direcionado até a sala do trono, pois tinha assuntos sérios a tratar com o rei Henrique II e os conselheiros.
***
As portas se abriram e Yellow entrou com Helly ao seu lado esquerdo, ele tomou seu lugar a mesa, ao lado de seu irmão. Os convidados já haviam chegado no castelo e estavam a caminho da sala de jantar.
Suas mãos estavam suando, seu coração batia forte. Ele não sabia o que esperar.
A porta abriu anunciando a entrada dos convidados. Yellow estava de cabeça baixa se preparando para encarar seus convidados.
— Apresento a vocês a família real de Thea. O rei Joshe e a Rainha Léia. Petter o herdeiro do trono, as gêmeas Rose e Dayse e o pretendente, Black.
Yellow que estava com uma taça na mão, a deixou cair no momento em que seus olhos dourados encontraram os olhos escuros dele.
O seu mundo parou.
O ar sumiu.
O som desapareceu.
O corpo de quente de Yellow se chocou com o chão frio do castelo.