Carlos já estava à mesa, lendo seu costumeiro jornal diário e tomando seu café da manhã - um café sem leite e ovos com bacon - quando Paulo chegou.
- Bom dia...
- Bom dia. - respondeu, sem tirar os olhos das tirinhas, que particularmente eram sua seção favorita das quintas-feiras.
Paulo pegou o café em sua xícara favorita. Tomou um gole.
- Ugh! - reclamou. - Como está amargo! Não sei como consegue tomar esse troço sem açúcar.
Apenas o som das folhas do jornal virando quebravam o silêncio.
- Então... Tem mais ovos? - perguntou, enquanto colocava uma colherada de açúcar na xícara, ao observar o prato.
- Acabou. Mas tem torradas no armário. Daquelas que você insistiu para comprar e nunca nem abriu, lembra? - disse, antes de levar uma porção generosa de sua refeição à boca.
O silêncio pairava no ar, interrompido apenas pelo som metálico da colher raspando na cerâmica.
- Hm, pelo menos são saudáveis, diferente das tranqueiras que você compra. - murmurou. - Não é à toa que...
Carlos fechou o jornal abruptamente e se levantou.
- Tenho que ir. Não posso perder aquela reunião das 10h.
Pegou sua xícara e o prato e os levou para a pia com passos apressados. O som do choque ríspido calou a cozinha.
- Nos falamos outra hora. - seus olhos se encontraram pela primeira vez, brevemente. - E... Não esquece de juntar suas coisas.
Saiu pela porta dos fundos enquanto Paulo fitava o vazio. Deu um suspiro longo e deixou a xícara na mesa, sem terminar o café.
"É.. Vamos lá...", pensou, enquanto se dirigia até uma caixa de papelão vazia que estava jogada perto da parede da sala. Levou-a ao quarto no segundo andar, onde tiveram a briga na noite passada.
Carlos chegou bem tarde, até mais tarde do que havia se tornado de costume há alguns meses. Paulo o aguardava sentado na cama, em silêncio.
- Onde você estava? - questionou, assim que a porta do quarto se abriu.
- Você sabe onde eu estava. - respondeu de ombros caídos, ao entrar no cômodo enquanto terminava de desatar o nó de sua gravata. Largou sua pasta em qualquer espaço vazio da cômoda.
- Olha a hora! Por que não me mandou mensagem? Sabe que sempre fico preocupado!
Carlos parou, soltou o ar pesadamente e virou para olhá-lo.
- Vou tomar um banho. Depois falamos sobre isso.
Antes que pudesse sair, Paulo o segurou firme pelo pulso.
- Não! Vamos conversar agora! Chega de ficar fugindo!
Carlos não respondeu, apenas puxou o braço de volta, se soltando do aperto de Paulo.
- O que preciso fazer para nós voltarmos a ser como éramos antes, para você me dar atenção? Ficar num leito de hospital? - gritou. - Talvez... Talvez devêssemos dar um tempo. - finalizou, a voz agora mais baixa.
Os olhos de Carlos se arregalaram e suas sobrancelhas se arquearam, antes de sua expressão suavizar novamente.
- Tudo bem. Vamos fazer isso. Não haverá mais "nós".
- O.. o que?
- Não é isso que você sugeriu? Vamos fazer isso. Amanhã você arruma as coisas e vai embora.
- Carlos... Não...
- Vou tomar meu banho. Pode dormir aqui, se quiser. Hoje dormirei no sofá. - completou, a voz rouca, batendo a porta com baque seco.
Paulo já havia terminado de pegar suas coisas do quarto quando decidiu abrir a porta do armário de Carlos. Respirou fundo, saboreando pela última vez todas as sensações que suas roupas exalavam. Tocou em um casaco de couro caramelo queimado que já não era usado com tanta frequência.
Enquanto o retirava do armário, lembrou-se do clima gelado que fazia quando o dera para seu companheiro. Era um inverno rigoroso, incomum para aquela região. Estavam na casa de Paulo, assistindo televisão.
- Nossa, como está frio hoje, meu Deus! - reclamou Carlos, esfregando as mãos e os braços.
Paulo estava sentado de seu lado, encarando-o com um sorrisinho travesso estampado em seu rosto.
- O que foi? - perguntou, com uma sobrancelha levantada.
- Meu bem... - começou, pegando algo escondido atrás do sofá, sem tirar os olhos de Carlos - Tenho uma surpresa para você!
- Uma... Surpresa? O que é?
Entregou o pacote para ele com ambas as mãos.
- Tcharã! Um presente! Espero que goste!
Os olhos de Carlos se encheram, sua boca entreaberta. Pegou o embrulho devagar, as pontas dos dedos roçando nas costas da mão de Paulo levemente.
- Nossa, mas... Por que? Nem é meu aniversário ou qualquer coisa assim.
- Porque você é meu amor, é por isso!
Rasgou o papel de presente apressadamente, buscando descobrir o que era.
- Uma jaqueta de couro! E, nossa! - exclamou, acariciando a pelugem curta da gola - Parece ser bem quentinha também! Obrigado!
- De nada, meu amor. - respondeu, dando-lhe um beijo na bochecha - Você merece todo o cuidado do mundo! Fico feliz que tenha gostado tanto!
Carlos vestiu a jaqueta, admirando-se no reflexo da TV, agora desligada.
- Serviu perfeitamente! E é super macia e confortável! Do que ela é feita?
- É uma lã sintética de alta qualidade! Daquelas que não faz coçar, sabe? - disse, com uma expressão orgulhosa.
- E tem vários bolsos também... - continuou, enquanto explorava a roupa nova.
- Sim! - Paulo se levantou, fechando o zíper reforçado que Carlos mexia. - Assim você pode levar todas as coisas que você carrega sempre. - Fez uma pausa. - Daí não vai precisar mais usar aquela pochete medonha que você leva pra lá e pra cá. - completou, entre risadas.
- Ahh, que isso... Não é tão ruim assim... Foi presente da minha irmã, ela tem bom gosto! - retrucou, com uma risadinha. - Mas obrigado de verdade, você é incrível! - finalizou, beijando seus lábios e acariciando sua barba lentamente.
Saindo do quarto, Paulo levou sua caixa, agora meio cheia, ao escritório. Pegou seu notebook, alguns livros… Sua mão se aproximou da caneca de cachorrinho que servia para guardar canetas e tranqueiras quando uma lembrança o atingiu. Lembrou-se de todos os momentos em que ficou trabalhando nas planilhas e mais planilhas para organizar as finanças, a despensa, e até mesmo a agenda de compromissos, de como sempre precisou cuidar das coisas pelos dois, para que a vida não saísse dos eixos.
- Aqui estão suas anotações. E não vai esquecer do pendrive com os slides para sua apresentação de hoje, hein?! Ele está ali do lado. - Paulo disse, apontando para o dispositivo retangular próximo da caneca repleta de lápis e canetas, enquanto voltava a digitar alguma coisa em seu notebook.
- Muito obrigado! Você cuida muito bem de mim. - respondeu Carlos, dando-lhe um beijo na cabeça. - Amor, hoje vou atrasar um pouco depois do serviço, tudo bem? - Carlos informou, enquanto terminava de se preparar para o trabalho.
- Por que?
- O pessoal do escritório combinou de irmos no barzinho ali perto para comemorarmos o novo contrato. - explicou, orgulhoso. - Foi muito difícil conquistar aquele cliente tão difícil!
- Entendi… Mas você não vai não. Não hoje. - respondeu, ainda digitando no computador.
- Como assim?
- Amanhã você tem dentista logo às 7h, lembra? - apontou para a tela que mostrava a agenda de Carlos. - E você sabe como fica insuportável quando dorme pouco. - completou com uma risada.
- Ah… - expressou com uma voz forçada e um sorriso amarelo. - É mesmo... Eu… Tinha esquecido…
- Eu sei. Eu cuido muito bem de você, se lembra? - deu um sorriso. - Por isso decidimos que seria melhor que eu viesse morar contigo também. - finalizou retornando o olhar para a tela e continuando sua digitação.
Subitamente, uma vibração em seu celular o arrancou de suas memórias. Uma nova mensagem na barra de notificações. O nome no topo era "Amor", acompanhado de um emoji de coração que sempre utilizava com Carlos em suas conversas digitais.
Não abriu a mensagem, apenas encarou a tela por um momento, seu cenho franzido. Jogou o celular dentro da caixa ao sentir um gosto amargo na boca, o mesmo daquela noite, algumas semanas atrás. Já não estava mais ali, estavam vendo um filme no fim de semana quando a concentração foi quebrada pelo tremor na mesa. Carlos pegou seu celular e um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios.
- Quem é? - Paulo perguntou, curioso.
- É do trabalho - respondeu, se levantando. - Já volto. Não precisa pausar o filme, é rápido.
- Hm.. - soltou, pensativo. - Tudo bem.
Paulo não tirou os olhos de Carlos, que saía da sala com passos apressados enquanto digitava algo. Pensou em como ultimamente ele parecia trabalhar cada vez mais, e cada vez ficava menos tempo em casa.
Retornou com dois copos de achocolatado nas mãos, o celular agora guardado no bolso de trás. Entregou um ao Paulo com um sorriso enquanto se sentava novamente.
Ficaram em silêncio por um momento.
- Você está me traindo? - perguntou Paulo, repentinamente, pausando o filme.
- Quê? Como assim, de onde tirou isso? - respondeu, depois de quase se engasgar com sua bebida.
- Primeiro que você fica cada vez menos em casa. Agora fica recebendo mensagens “do trabalho”. - disse, com tom sarcástico. - Me fala a verdade.
- Amor, você sabe que agora tenho muito mais trabalho! O novo cliente é muito exigente, ele sempre quer fazer alterações e que estejamos todos disponíveis a qualquer momento… É cansativo e estressante. - tentando manter seu tom calmo, apesar da surpresa.
- Sei. É com esse tal “cliente” que você está transando, então? Você é MEU namorado, se você se esqueceu.
- Que isso? Ele é uma pessoa muito respeitável! Além disso, eu nunca nem sequer o encontrei pessoalmente! - disse, com a voz um pouco trêmula.
- Ele é respeitável… - murmurou. - Me deixa ver seu celular.
- Não! - levantou-se do sofá junto com o volume de sua voz.
- Carlos… Me dá. Esse. Telefone. AGORA! - ordenou, a voz firme, tentando pegar do bolso de Carlos, que se afastou rapidamente.
- NÃO! Até que você se acalme, não vamos conversar mais! - se afastou do sofá. - E até que você aprenda a confiar em mim, também não vai mais mexer nas minhas coisas! - completou, saindo do cômodo.
"Sempre cuidei bem dele, e mesmo assim...", recordou. Chacoalhou a cabeça.
Passou pela sala, cozinha e banheiro, agora a caixa cheia com todas suas coisas. “Acho que é tudo”, pensou, avaliando se não faltava nada.
Seguiu pelo corredor, em direção à porta de entrada. Parou diante de uma parede repleta de fotos emolduradas. Havia diversas fotos de ambos em viagens, em casa, com seus amigos em comum. Observou uma foto em específico, o retrato de um homem de aparência jovem, e soltou uma risadinha. Jamais se esqueceria dele.
Carlos falava ao telefone enquanto Paulo lia um romance daqueles bem melosos.
- Quem era? - perguntou, ao ouvir o telefone ser colocado no gancho.
Paulo não respondeu, apenas se aproximou com passos pesados.
- Você… Lembra do João, né?
- João…? O Queiroz? Aquele seu… amigo de infância? - perguntou, com tom de desprezo.
Carlos acenou com a cabeça, lentamente.
- Sei. O que tem ele? Vai querer vir aqui de novo, para ficar nos enchendo o saco?
- Não, ele… Ele foi… - fez uma pausa, engolindo em seco.
- Foi para onde? Não reclamaria se fosse para fora do país. - comentou, com uma risada.
Carlos respirou fundo, como se estivesse procurando por palavras que não existiam.
- Ele foi internado… Sofreu um… Acidente de carro… - continuou, com a voz embargada. - Disseram que… Talvez… Talvez ele não sobreviva…
Paulo fechou o livro e seus olhos se voltaram para Carlos, que estava com a cabeça baixa, o olhar perdido em seus pés.
- Rá, que pena. - comentou, com um tom sarcástico. - Parece que, enfim, minhas preces surtiram efeito!
Um silêncio pesado encheu o ambiente. Carlos não reagiu de imediato, mas o ar logo pareceu escapar de seus pulmões.
- Q-quê…? - perguntou, enquanto seus olhos marejados encontravam os de Paulo.
- É, você sempre falou que eu tinha que ser mais ligado com Deus, parece que deu certo! - brincou, dando de ombros.
- PAULO! Como… Como você ousa falar isso? - perguntou, a voz grave e alta. - Ele é meu melhor amigo… e uma pessoa maravilhosa!
- Ahh, ele é um escroto tóxico, isso sim! - retrucou, o tom seco. - Só sabe me criticar, criticar nosso relacionamento, e botar ideias idiotas na sua cabeça! Já vai tarde, isso sim!
- Você… Você... - gaguejava, inacreditado do que estava ouvindo.
- Sim? O que tem eu? Se você tem algo a dizer, diga!
Carlos apenas o encarou, faíscas saindo de seus olhos.
- Nada. - respondeu seco, se virando.
- Hm, foi o que pensei. Com o tempo, verá que estou certo. Sabe que sempre estou. - completou, enquanto reabria seu livro.
“Hmph, isso que dá ficar dando ouvidos para esse tipinho de gente”, pensou, enquanto dava uma batidinha no quadro, que o fez ficar torto. “Sempre fiz tudo por ele, e foi assim que ele me agradeceu…”.
Virou as costas e continuou andando até a porta. Lembrou-se da mensagem recebida no celular e, dessa vez, a leu. Um sorriso brotou em seu rosto.
vc vem pra casa hj, amor?
“Agora não importa mais”, pensou, enquanto respondia a mensagem.
Estou indo agora, chego jaja
Pressionou o botão de enviar.
Bateu a porta ao sair, mergulhando a casa em silêncio.