Benji carrega Aileen até o acampamento, - ele havia perdido a pedra de portal que os levaria diretamente para lá, - então corre o mais rápido possível pelo meio da floresta segurando em seus braços o corpo frágil e magro de Aileen, ela usou o feitiço proibido e sua vida não duraria por muito mais tempo. Quando finalmente chegam ao bosque perto do acampamento Benji nota que a pele dela já está esbranquiçada e seus olhos mal conseguem se manter abertos. Seu peito se move tão lentamente que nem ao menos parecia respirar. Aquele maldito feitiço, ele havia implorado para que ela jamais o usasse, mas ela nunca lhe dera ouvidos sobre nada. Ele não tinha a quem recorrer, todas as bruxas estavam mortas, Aileen era a única que restava e não haviam curandeiros na Ilha da Lua, não que Benji soubesse. Curandeiros eram muito raros já que só aqueles puros de coração tinham o dom de ser um.
Um barulho faz Benji parar, algo na floresta se movia, ou alguém, nesse lugar nunca dava pra saber o que poderia sair de dentro da floresta escura. Ele aperta Aileen mais forte com seu braço esquerdo e pega sua adaga com a mão livre, não que tivesse forças para lutar depois do combate de antes, de onde mal saiu vivo, ele tinha ferimentos por todo o corpo, mas jamais deixaria qualquer um machucar Aileen. Depois de mais barulhos de galhos quebrando Benji ouviu vozes discutindo sobre este ser ou não o caminho certo, ele rapidamente recolhe sua adaga e se escondeu em um grande arbusto com Aileen encolhida em seus braços.
- Eu falei que não era por aqui. – Diz a primeira voz, é um homem de voz grave e estranhamente familiar.
- Chegamos em outro bosque? Ou a mesma floresta? Estamos andando em círculos. – A segunda voz, também masculina, soava ainda mais familiar que a primeira.
- Estamos perdidos há dias, apenas admitam! – A terceira voz, embora não fosse muito grave também era masculina e, assim como as outras, soava familiar.
Aileen solta um leve gemido de dor e Benji não se importa mais se eram conhecidos seus ou não, precisava chegar ao acampamento o mais rápido possível, se existia algo que pudesse salvá-la estaria no acampamento que os dois dividiam. Saindo dos arbustos depressa Benji dá de cara com três de seus melhores amigos, de antes.
- Cassian? – Benji pergunta atordoado.
- Benji? – Cassian parece igualmente surpreso ao ver o amigo.
Antes que pudessem dizer mais alguma coisa Benji vê que Cassian usa um colar com uma pedra âmbar como pingente e soube imediatamente que essa seria a salvação de Aileen. Com apenas um "venham comigo" e nada mais Benji os conduz até o acampamento.
O acampamento é simples, porém seguro, é protegido pela magia de Aileen e pela própria floresta. Um círculo cercado por árvores enormes com uma pequena tenda armada, ao lado esquerdo uma mesa de madeira pobremente esculpida estava cheia de coisas como poções, livros de feitiços e sabe-se lá mais o que Aileen jogava em cima dela toda vez que voltavam de uma caçada. Ao lado direito uma há uma rede no meio de duas árvores com as pontas amarradas de cada lado. O centro do círculo é marcado por uma fogueira apagada e panelas de formatos estranhos no chão ao lado dela estavam cheias de ingredientes de origem duvidosa.
Benji mais do que depressa coloca Aileen dentro da rede e se volta para Cassian:
- Por favor, me dê essa pedra, é a única coisa que pode salvá-la. – Benji diz apontando para o pingente no colar de Cassian.
- O que está acontecendo, por que está aqui? – Cassian pergunta confuso, mas entrega a pedra mesmo assim, ele não sabia pra quê ela servia afinal.
Ele queria fazer todos os tipos de perguntas ao amigo, mas no instante em que Benji segurou a pedra nas mãos sua atenção se voltou completamente para Aileen.
- Acorde. – Benji segura Aileen levemente pelos ombros.
- Me deixa morrer. – Ela diz em um gemido de dor.
- Se você morrer eu morro também, o combinado era esse, então esqueça isso, tenho uma pedra de cura âmbar aqui, apenas me diga o que fazer com ela.
- Poção... Re...
- Não sou bruxo, se eu fizer vai mesmo funcionar?
- É... um remédio com a pedra.. â...âmbar, qualquer um... pode fazer...
- Certo, não se esforce tanto. Embora eu não saiba fazer uma poção.
Enquanto milhares de coisas se passavam na mente de Benji, Aileen usa todo o resto de sua força para alcançar um pequeno livrinho guardado na meia que subia até a coxa, abrindo o livro em uma página específica ela o entrega à Benji.
- Re...Receita. – E com isso ela finalmente perde as forças e desmaia.
Mesmo que ela pareça estar morta ainda está viva e ao comprovar isso ele começa a juntar os outros ingredientes para a poção de cura. Muito concentrado na tarefa ele nem ao menos chega a perceber que está dando ordens aos amigos para que o ajudem a fabricar a poção.
Com a poção pronta Benji coloca Aileen sentada em seu colo e lhe dá a poção na boca em pequenos goles, ao terminar todo o conteúdo do copo ele sente que o corpo dela já não está tão frio, mas mesmo assim ao colocá-la de volta na rede ele faz questão de enrolá-la em uma manta feita de pele de lobo e somente quando a cor no rosto dela começa a voltar e suas bochechas voltam a ficar rosadas, ele se volta aos amigos para enfim conversarem.
- Cassian, obrigado. – Benji se sentia agradecido e sortudo por ter reencontrado os amigos naquele momento. - Vocês também Jiaer e Áki.
Benji abraça os amigos de forma forte e calorosa e seu abraço continha uma grande quantidade de alívio e alegria por revê-los. Esse tempo todo na Ilha da Lua Aileen era a única pessoa ao seu lado, mas eles haviam se conhecido na ilha, Cassian, Áki e Jiaer eram seus amigos de infância, Benji nunca tinha encontrado alguém de antes, e estar com eles novamente era como ter um pedacinho de casa de volta.
- Sentem-se, vou fazer alguma coisa pra comer.
Depois de acender a fogueira Benji começa a pegar as panelas com conteúdo duvidoso e misturar vários ingredientes fazendo algo como um ensopado de aparência roxa horrível. Dividindo a comida em tigelas e colheres feitas de madeira ele distribui o ensopado aos amigos junto de pães que estavam em uma cesta de palha debaixo da mesa. Os rapazes lançam olhares entre si se perguntando se é seguro comer aquilo.
- Eu sei que parece algo que se encontra no lixo, mas garanto que o gosto é bom. Eu espero... – Benji diz pegando a própria tigela.
Aileen abre os olhos e sente pontadas na cabeça como se mil agulhas estivessem sendo enfiadas nela. Confusa, ela não se lembra muito bem como chegou ao acampamento e como sobreviveu ao feitiço proibido. Ela ouve vozes animadas conversando perto da fogueira e precisa fazer um esforço sobre-humano para conseguir se sentar, esqueça a cabeça, parecia que haviam agulhas perfurando seu corpo todo. Ao ouvir os grunidos de Aileen, Benji corre e a ajuda a se sentar.
- O que aconteceu? Quem é esse povo? – Aileen pergunta tentando ignorar que sua cabeça está girando mais que um carrossel.
- São meus amigos, eles me ajudaram a fazer a poção de cura com a pedra âmbar.
- E desde quando você tem amigos? – Ela pergunta desconfiada
- Bem... desde antes. – Ele responde com um sorriso um pouco tímido.
"Antes" era como eles se referiam ao tempo em que não estavam na ilha, Benji e Aileen não falavam muito sobre antes e a presença dessas pessoas a deixa um pouco incomodada.
- Não vamos falar disso agora eu te explico tudo depois, você tem que se recuperar primeiro. Fiz ensopado, vou buscar um pouco pra você.
- Credo, você me salvou só pra me matar com a sua sopa do ódio? – Aileen brinca, pois sabe muito bem que Benji nunca deveria ser autorizado a cozinhar absolutamente nada.
- Não tá tão ruim, meus amigos comeram. – Benji protesta.
- Eles deviam estar morrendo de fome isso sim.
- Você quem vai ficar morrendo de fome se não parar de xingar minha comida. – Ele diz fingindo estar bravo.
- Tá bom, traz aí o ensopado, eu rezo um pai nosso e uma Ave Maria antes de comer, quem sabe funciona. – Ela diz rindo.
Benji entrega uma tigela do ensopado para Aileen que dá uma risada nervosa.
- Ah! É roxa, e não verde neon como a última, então não deve ser radioativa.
- Devolve minha sopa. - Benji diz tentando pegar a tigela de volta.
- Tô brincando, tô brincando calma. – Ela diz afastando a mão dele da tigela.
- Eu devia deixar você passar fome. – Ele diz como quem faz birra.
- Vixe, quem olha assim nem pensa que você estava desesperado pra me salvar. – Ela o provoca.
- Só te salvei por causa do feitiço da alma gêmea. – Ele fala desviando o olhar.
- Não é assim que esse feitiço funciona meu brother. – Aileen encarou o conteúdo da tigela intrigada. - Essa sopa é roxa, como diabos você conseguiu deixar ela gostosa?
- Acho que você deve só estar morrendo de fome. – Ele diz sarcasticamente.
Embora tivesse uma aparência suspeita a comida quentinha tem um gosto bom e acaba ajudando Aileen a se sentir melhor. Benji sempre tentava cozinhar, mas sempre servia uma atrocidade, essa era a primeira vez que ela não sentia vontade de morrer ao provar da comida dele, pelo contrário, se sentia energizada.
- Agora você pode me dizer por que você revelou nosso acampamento pra três pessoas? Independentemente de serem seus amigos, isso ainda é perigoso. – Ela pergunta após terminar todo o conteúdo da tigela e entregá-la a Benji.
- Eu não tive tempo de discutir isso com você, eles tinham uma pedra âmbar e eu tinha uma bruxa morrendo nos meus braços, fiz o que deveria fazer. – Ele responde com firmeza.
- Ainda assim isso me preocupa, não confio neles.
- Você não confia em ninguém.
- Confio em você e só!
- Então eu me responsabilizo por eles, confie em mim.
- Não coloque a mão no fogo por ninguém Benji, esse lugar muda as pessoas, eles podem não ser como você se lembra. Temos inimigos demais nesse lugar pra confiar tão facilmente em alguém. – Aileen jamais baixava a guarda, até mesmo enfraquecida pelo feitiço proibido ela fica em alerta para garantir a segurança dos dois.
- É verdade que fizemos muitos inimigos, mas quero dar a eles o benefício da dúvida. Esse lugar muda a as pessoas, mas eu quero acreditar que ainda existe pelo menos um resquício das pessoas que eu conhecia. – Ele diz quase como uma súplica.
- Se é o que você quer não vou protestar, mas nem pense em contar a verdade pra eles sobre nós. – Ela diz séria.
- Nós temos um acordo, eu nunca quebraria minha promessa.
Ao dizer isso Benji encosta sua testa na dela, já havia se tornado um hábito desde que eles formaram uma aliança, é uma forma de dizer que confiam um no outro e que somente os dois são o suficiente.
Enquanto isso, os três rapazes olham para os lados com as faces ardendo ao ver Benji encostando sua testa na de Aileen, eles sentem que estão invadindo um momento muito íntimo de um casal. Desajeitadamente eles encontram qualquer coisa para fazer quando Benji volta a se juntar a eles. Cassian não demonstra nenhuma reação, mas suas orelhas vermelhas como pimentas o entregavam, podia não parecer, mas ele era um rapaz tímido. Jiaer sendo o completo oposto e, embora ele fosse cauteloso e atento, também era o tipo de pessoa que sempre tentava deixar o clima mais leve arrancando risadas dos amigos, então quando Benji sentou-se ao seu lado logo começou a fazer provocações.
Deitada na rede Aileen observa de longe a dinâmica de Benji com os amigos, ele parece feliz e cheio de vida e ela não pode evitar sorrir ao ver a cena. Embora eles não tivessem sido oficialmente apresentados Benji havia lhe dito quem era quem. O rapaz alto se chamava Cassian, ele tinha a pele clara e suas bochechas fofas tomavam uma forma quase infantil quando covinhas apareciam ao sorrir, seus olhos eram intensos e seu cabelo preto dava equilíbrio à sua aparência.
O outro rapaz, que se chamava Jiaer, tinha olhos aguçados e parecia sempre alerta. Seus cabelos eram pretos e os traços de seu rosto eram delicados, porém parecia muito másculo. Aileen soube no momento em que viu Jiaer que ele não é alguém que se possa subestimar. Ele, assim como Benji e Cassian, era um guerreiro, lutavam com espadas, os três eram magros e musculosos e ela, mesmo desconfiada, não podia deixar de admitir que eram três belos homens. O menino, que não parecia ter mais que dezoito anos, era um arqueiro, dava para perceber que não era muito forte, ele provavelmente vinha sendo protegido pelos amigos guerreiros se considerar sua aparência de rapazinho mimado. Ela não sabia se ele era mimado, mas parecia ser.
Aileen vai até o grupo de rapazes onde estão tendo uma conversa acalorada, mas não é bem recebida já que Benji quer que ela descanse o máximo possível para recuperar suas forças.
- Volte e vá se deitar, você precisa de repouso. – Ele diz um pouco bravo.
- Preciso me movimentar se quiser melhorar, e até onde eu sei a curandeira aqui sou eu.
- Bruxa. - Ele a corrige. – Você está longe do que é preciso para ser uma curandeira.
- Sim, sou uma bruxa, mas passo meus dias fazendo poções de cura pra você, então não enche meu saco e me deixa sentar. – Ela diz o empurrando para o lado e se sentando.
O grupo se senta em círculo perto da fogueira, ela era grande demais para que se reunissem ao redor dela. Após Aileen se apresentar aos novos membros do acampamento eles a atualizam sobre o que estavam conversando.
- Estávamos tentando entender como viemos parar aqui comparando nossas experiências, já que nunca conseguimos conversar direito com forasteiros, só habitantes. Achei que seria uma boa ideia.- Benji explica.
- Mas não chegamos a nenhuma conclusão. – Jiaer diz encarando Aileen.
- E onde vocês estiveram esse tempo todo? Nunca nos encontramos antes. – Aileen diz encarando Jiaer de volta.
- Viemos da Ilha do sol. – Cassian responde.
O conjunto de três ilhas, que se chamava Drei, era popularmente dividida pelo clima, uma com clima tropical e sol quentinho, conhecida como a "Ilha do Sol" um lugar desconhecido para Aileen e Benji. O outro lado era úmido, escuro e frio, cercado por uma floresta densa e montanhas altas. A "Ilha da Lua" era onde Benji e Aileen estavam desde que chegaram à Drei. Qualquer informação que tinham sobre o lado ensolarado haviam encontrado na "Ilha da Folha", a parte onde o sol e a lua se encontram e onde moram a maioria dos habitantes. Pessoas que nasceram e cresceram em Drei eram conhecidos como "habitantes", diferente daqueles que vieram de fora, como eles, conhecidos como "forasteiros".
Drei era um lugar gigantesco e era impressionante que os três rapazes tivessem conseguido atravessar até o outro lado vivos.
- Bem, então bem vindos à Lua! - Aileen diz pegando uma garrafa de vinho de romã e servindo para eles em copinhos feitos de madeira.
- Um brinde ao reencontro de grandes amigos. - Benji diz levantando seu copo.
- E a novos amigos! - Áki diz sorrindo.
Os rapazes levantam seus copos e brindam bebendo despreocupadamente em uma conversa leve e agitada. Aileen não levanta seu copo e não brinda. Jiaer percebe e a encara. Ela não confia neles e ele tampouco confia nela e isso é evidente em seus olhares.
- Tenho que dizer que foi realmente uma sorte você aparecer com uma pedra âmbar bem quando precisávamos, Cassian. Obrigada por abrir mão de algo tão importante. - Aileen diz dando um leve sorriso.
- É tão importante assim? - Cassian pergunta.
- Sim, encontrar uma pedra âmbar é uma raridade. - Benji responde.
- Sério? Na Ilha do Sol têm aos montes, eu peguei pra fazer bijuterias como um passatempo. Veja. - Cassian entrega uma bolsinha a Benji com pelo menos cinquenta pedras âmbar dentro.
Benji e Aileen se olham em descrença. Uma vez para pegar uma única pedra dessas eles enfrentaram um cão guardião de uma caverna. Cães guardiões são extremamente ferozes e no fim tiveram que usar a pedra para curar os ferimentos que ganharam ao pegá-la.
- Vocês podem ficar com elas, eu já enjoei dessa cor, e aparentemente são úteis, não é?
- Podemos realmente ficar com elas? - Aileen pergunta surpresa.
- Sim, não tive trabalho em juntar tantas, na Ilha do Sol tem em todo lugar! – Ele diz despreocupado.
- Vou fazer poções de cura pra cada um de nós, assim sempre vamos ter uma à mão. – Ela diz animada.
- Isso não quer dizer que você possa ficar usando aquele feitiço. - Benji cochicha em seu ouvido.
- Eu não exatamente usei ele por diversão, não é? - Aileen responde baixinho de forma hostil, pois Benji sabe muito bem que ele foi o motivo de ela ter usado o feitiço proibido.
- Como vocês se conheceram? - Jiaer pergunta encarando os dois.
- Ela me salvou de um dragão azul. - Benji diz orgulhoso.
- Dragões são amigos das bruxas, conseguimos nos comunicar, não foi nada complicado. No entanto, não se dão bem com guerreiros ou arqueiros como vocês. - Ela diz a todos e dirigindo seu olhar especificamente para Jiaer completa, - então cuidado!
- Não há bruxas na Ilha do Sol. - Jiaer diz à Aileen.
- E nem dragões! - Cassian diz surpreso ao descobrir a existência dessas criaturas.
- O quê? - Benji pergunta perplexo. - Que tipo de coisas tem na Ilha do Sol? Não consigo imaginar esse mundo sem dragões e bruxas...
A frase morre em sua garganta ao lembrar que Aileen é a única bruxa que resta na Ilha da Lua e ao saber de que se não existem bruxas na Ilha do Sol ele se dá conta de que isso significa que Aileen é a única bruxa de toda Drei. Eles teriam que ser ainda mais cuidadosos daqui pra frente.
- Também não existem bruxas na Ilha da Folha, os habitantes não gostam de se misturar com as "coisas" da Lua. Quanto aos dragões, eu já sabia que eles não iam para a Ilha do Sol, ouvi sobre isso quando morei por um tempo na montanha dos dragões, eles não gostam do clima tropical ou algo assim. - Aileen conhece todos os dragões da Lua, e sendo amiga da maioria deles, eles compartilhavam muitas informações úteis com ela. - Nunca realmente quis ir até o outro lado, mas agora fiquei curiosa sobre que tipo de criaturas existe no Sol.
- Não há criaturas piores que humanos, não importa o lugar. - Cassian diz com um olhar sombrio.
Áki e Jiaer ficam em silêncio e encaram o chão. Aileen e Benji sabiam que aquele olhar só poderia significar uma coisa, eles encontraram aqueles malditos piratas. Vênus era um navio de um grupo de piratas inescrupulosos que aterrorizavam a Ilha da Folha e a do Sol. Aileen e Benji cruzaram com eles algumas vezes na Folha, em nenhuma das vezes saiu alguém ileso.
- Espera, vocês por acaso vieram pra cá para fugir de piratas? - Benji pergunta se dando conta de que não sabia o motivo dos amigos terem cruzado todo o caminho até a densa floresta da Lua.
- Fugir? Não, estamos procurando por eles. Algumas pessoas da Folha nos disseram que poderíamos encontrar eles aqui. - Jiaer é o tipo de pessoas que nunca fugiria de bandidos como aqueles, ele os encarava de frente.
- Não há piratas na Ilha da Lua. - Aileen diz deixando os três rapazes confusos.
- Como assim? - Cassian pergunta.
- Não tem nada aqui para piratas, eles são bandidos de baixo nível que intimidam pessoas mais fracas que eles, também não teria como navegar no mar escuro e traiçoeiro a caminho daqui. Mesmo que eles sejam trapaceiros e ardilosos, são covardes demais para ao menos tentar a sorte.
- Parece que sabe muito sobre eles. - Jiaer diz em um tom hostil.
- E parece que vocês foram enganados. - Aileen responde dando um gole em seu vinho.
- Afinal, pra quê vocês querem encontrar aqueles desgraçados? - Benji pergunta.
- Benji, estamos atrás deles há seis meses, eles sequestraram Jo'an. - Cassian diz.
- Jo'an também está aqui? - Benji pergunta surpreso.
- Sim, nos encontramos pouco depois de chegar à Drei. Seis meses atrás nós tivemos um conflito com os piratas e eles acabaram levando Jo'an com eles. Agora que descobrimos que os habitantes nos enganaram, realmente não temos mais nenhuma pista sobre o paradeiro dele. - Cassian diz frustrado virando o copo de vinho na boca.
- Não fizeram por mal. - Benji diz. - Os habitantes provavelmente estavam tentando proteger vocês. Sabiam que os piratas não estavam aqui, por isso mandaram vocês pra cá, para que ficassem seguros.
- Ainda acho que sacanearam vocês. Tudo bem, os piratas não estão aqui, mas a Ilha da Lua não é exatamente um parque de diversões, um passo em falso e vocês podem morrer. Não gosto dos habitantes.
- Você não gosta de ninguém. – Benji diz cutucando seu ombro.
- Eles cobram uma fortuna por morangos, Benji. M O R A N G O S. Bando de mercenários capitalistas. – Ela diz visivelmente irritada.
- O que vocês sabem sobre os piratas? - Áki pergunta.
- Que eles são grandes filhos da puta. - Aileen diz ao colocar mais vinho em seu copo.
- Acho que essa parte eles já sabem, Aileen.
- Vênus é um navio enorme, então eles têm muita gente como escravos. Sequestram pessoas e as forçam a trabalhar lá dentro. O amigo de vocês provavelmente ainda está vivo se estiver obedecendo às ordens. Mas pra encontrar ele precisam entrar no navio, eles trancam os escravos na parte inferior e nunca os deixam sair. Encontramos com esses piratas algumas vezes, são muito cruéis. O líder deles é um homem sem escrúpulos, mesmo que vocês os encontrem não será fácil resgatar o amigo de vocês. – Aileen explica.
- Nunca imaginei que reencontraria vocês e agora descubro que o Jo'an foi levado por aqueles malditos. – Aileen consegue sentir a angústia na voz de Benji.
- Só precisamos ir atrás deles. – Ela diz casualmente, ela não tem medo deles.
- Você nos ajudaria? – Jiaer pergunta desconfiado.
- Se Benji quiser ir, então nós vamos, se ele não quiser não posso fazer nada. Não me arrisco por desconhecidos.
- Aileen, vamos fazer isso. – Benji diz decidido.
- Então acho que vamos chutar a bunda de alguns piratas. – Aileen dá um sorriso malicioso, ela não se arriscaria atoa por alguém com quem não se importa, mas já faz tempo que ela procura uma desculpa para ir atrás desses piratas e acertar contas com eles.
- Nem pense em usar isso como desculpa para testar feitiços estranhos. – Benji conhecia Aileen bem demais e sabia que aquele sorriso queria dizer que ela estava tendo ideias perigosas.
- Então vá sozinho, vou sair pra caçar. – Ela diz se levantando.
- Ah! Não senhora!
Benji levanta e a joga sobre o ombro com a facilidade de quem carrega uma pena e Aileen pensa às vezes que ele é desnecessariamente forte. Ele anda com ela no ombro até entrarem na barraca que dividem e então a coloca na cama. Por fora a barraca parece minúscula de forma que mal caberia uma pessoa sozinha, no entanto, por dentro é muito espaçosa, a magia de Aileen transformou o interior do lugar em um quarto grande e mobiliado, mas havia mais um cômodo ali, o qual eles consideravam o mais importante.
- Você mal se recuperou, vá até o banheiro e tome um bom banho de água quente. Depois durma. - Benji diz sério encostando a ponta do indicador na testa dela.
Aileen não podia negar que seu corpo estava moído e precisava realmente descansar, a pedra âmbar a salvou da morte, mas ela ainda estava esgotada da batalha dessa manhã. Esparramada na grande banheira cheia de água quente misturada com poções de cura ela sente o cheiro de sândalo do incenso se misturar com o perfume suave da água e finalmente consegue relaxar, sobre o que aconteceu nesta manhã ela pensaria nisso depois. Ainda com o aroma espalhado pelo quarto ela se joga na cama e dorme profundamente.
Benji volta para ajudar os amigos a montar suas próprias barracas e finge não ver os olhares cheios de pontos de interrogação que eles o lançavam. Isso o fez se perguntar se devia contar a eles sobre a magia da barraca, mas teria que discutir o assunto com Aileen primeiro. Benji e os amigos também estavam exaustos e quando as barracas ficam prontas cada um vai para seu cantinho dormir. Tinha sido um longo dia, milhares de coisas haviam acontecido e sentindo o aroma de sândalo pelo quarto Benji fechou os olhos e dormiu. Amanhã seria outro dia com outras milhares de coisas para acontecer.