Após ver Lóng entrar na barraca, Aileen senta ao lado de Áki, que lhe atualiza sobre o que estavam conversando antes de ela chegar, ele ainda desapontado, pois não pôde ver Lóng em sua versão dragão ainda.
- Isso não faz o menor sentido. – Aileen diz olhando para o mapa com um leve brilho lilás em seus olhos.
- O quê? – Cassian pergunta.
- Um dos pontos do mapa continua mudando, vai de um lugar para outro em um segundo. E eu falo de lugares bem longe uns dos outros. Vai ser difícil encontrá-lo se continuar assim.
- De qual ponto você fala? – Jiaer pergunta.
- Esse. – Ela aponta para onde havia marcado com a caneta de luz. – O que estava em Runavir.
- Então não precisamos ir pra lá, é uma coisa boa, não é? – Áki diz esperançoso.
- Não exatamente, mesmo que o lugar seja ruim é mais fácil encontrar alguém que está parado. – Ela explica.
- Como podemos saber que está falando a verdade quando só você pode ver o mapa? – Jiaer questiona.
- Mas por que diabos eu mentiria? Me dê um único motivo pra isso. – Aileen diz já sem muita paciência.
- Talvez você não queira que o Benji encontre todo mundo. Talvez você o tenha enfeitiçado, eu vejo como vocês são estranhos, estão sempre cochichando segredos. Você já queria levar a gente pra lugares que nem estão marcados no mapa, e agora quer que a gente acredite que um deles é impossível de encontrar.
- Cara, você é chato, viu?! – Aileen diz irritada levantando do lugar e jogando o mapa para Jiaer. – Procure você então. Tudo o que tenho feito desde que chegaram aqui foi ajudar vocês, mas agora... O quê? Diz que quero impedir Benji de encontrar os amigos. Nesse momento eu queria que você é quem estivesse desaparecido. – Ela diz e ao dar as costas para o grupo sente algo bater em suas costas.
- Pegue o mapa de volta, é só você quem consegue ver o que realmente há nele mesmo. – Ele diz também de pé.
- Calma gente, não precisa disso. – Cassian também levanta tentando apaziguar a situação.
- Você tem quantos anos? Cinco? É assim que briga com as pessoas? – Aileen diz e com o brilho lilás se intensificando em seus olhos ela joga o mapa de volta atingindo o estômago de Jiaer e fazendo com que ele se curve um pouco.
- Foi você quem começou com a infantilidade. – Jiaer diz entre dentes.
- Não interessa quem começou o quê, só parem, por favor. - Cassian tenta mais uma vez, mas é ignorado por ambos.
- Já que você só consegue fazer as coisas usando magia, por que não pega sua varinha de condão e faz um abracadabra pra todo mundo conseguir ver o que realmente tem no mapa? – Jiaer diz com uma voz carregada de sarcasmo.
- Ou você pode pegar suas duas faquinhas de pão que chama de sabres, sair desbravando a floresta e criar seu próprio mapa, seu babaca. – Aileen diz tentando controlar a irritação.
- Bruxa. – Jiaer diz cospe a palavra.
- Isso era pra ser um insulto? Eu sou uma bruxa. E você é um guerreiro de merda. – Ela devolve as palavras no mesmo tom ofensivo que ele usou.
- Por que não resolvemos isso à moda antiga? – Ele diz com raiva nos olhos, retirando os sabres das costas revelando duas lâminas verdes.
- Uau! – Aileen aplaude. – Você é realmente um homem, sua primeira linha de pensamento para resolver uma discussão é partir pra violência. – Ela cruza os braços na frente do corpo e o encara. – Parabéns, você é tão selvagem quanto um Cervo Gélido ou qualquer monstro sem cérebro que exista na floresta. E mais...
Ela dá um passo em direção a ele, mas é interrompida por Benji que aparece bem em sua frente, ficando entre Jiaer e Aileen. Enquanto o encara, ele passa o braço na frente dela e sua mão enfeitiçada emana um brilho da mesma cor da magia da bruxa.
- Encoste nela e será a última coisa que fará na vida. – Benji diz duramente à Jiaer.
Todos encaram Benji em choque ao ouvir essas palavras, mas nenhuma expressão se compara ao olhar de decepção que Aileen demonstra. Ela o puxa pelo ombro para olhá-lo nos olhos, e ele se surpreende ao ver uma lágrima descer por sua bochecha e seu coração aperta com a expressão de decepção – não, de quem foi traída – que ela tem em seu rosto. Mesmo sem magia Aileen é forte o suficiente para que seu tapa faça Benji cambalear. Ela sai do acampamento até desaparecer na floresta escura, ele tenta ir atrás dela, mas tanto Lóng quanto seu ferimento o impedem. Lóng vai atrás da amiga e sente em seu coração que Benji já não é mais o mesmo.
Aileen vai para o lugar que sempre ia quando estava chateada, a casa de Bruno. O lugar é uma caverna estranhamente aconchegante, há prateleiras com enfeites de coisas estranhas encontradas na floresta, uma lareira ilumina o local jogando luz para os cristais amarelos no topo da caverna. Bruno se deita em uma enorme colcha macia feita de um elegante brocado azul bordado com fios de prata, que havia sido um presente de Aileen já que ela sempre usava o lince como cama.
- Eu não acredito que ele foi capaz de fazer isso. – Aileen diz dando uma mordida em um enorme morango que pegou da cesta que Bruno a ofereceu.
- Nem sei o que foi, mas estou do seu lado. – Ele diz vendo a amiga se recostar nele jogando as botas para um dos cantos da caverna.
- Onde você arrumou esses morangos? – Aileen pergunta pegando mais um.
- Isso importa? – O lince questiona.
- Na verdade, não. – Ela diz dando uma mordida na fruta.
Ao longe Aileen ouve a voz de Lóng chamando seu nome, ela vai até a entrada da caverna e o responde guiando o amigo até que ele a encontre.
- Entre, entre! Você quer? Esses são morangos comunistas. – Ela diz rindo da própria piada. – Este é Bruno, o dono desta linda casa.
O lince levanta da colcha e examina Lóng, antes de curvar a cabeça para cumprimentá-lo.
- Seja bem-vindo! – Bruno diz antes de voltar a deitar na colcha.
- Obrigado! Me chamo Bruno, é um prazer conhecê-lo. – Lóng diz também se curvando como forma de cumprimento.
- Dragões são sempre bem-vindos em minha casa, principalmente um curandeiro, não se vê muitos de você por aqui. – Bruno afirma.
- Obrigado. – Lóng diz um pouco surpreso com a gentileza do lince.
- Sente-se, vamos comer morangos e falar mal do Benji. – Aileen diz voltando a usar Bruno como cama.
- O que foi aquilo? – Lóng pergunta se sentando de frente para a amiga. – Não entendo o motivo de Benji ter agido daquela forma e você ter ficado com raiva por ele ter te defendido.
- Eu sou uma pessoa pacífica, ele agiu com violência. – Ela responde.
- Se não vai me dizer a verdade pelo menos diga algo mais próximo da realidade. – Lóng diz sabendo bem que a amiga não é nada pacífica.
- Ele tem razão. – Bruno concorda.
- Benji me ofendeu ao me defender, não tinha motivo algum para aquele exagero, não sei por que Jiaer não gosta de mim, mas com certeza não ia acontecer uma luta, ele só estava irritado por eu ter chamado os sabres de faquinhas. Eu nem ao menos tinha meu báculo na mão, pra que reagir daquele jeito? – Ela para e pensa um pouco antes de continuar. – Volte para o acampamento. Diga a todos que vou dormir aqui hoje, Benji já está acostumado, sempre que brigamos acabo vindo para cá mesmo.
Aileen é sincera, ela está magoada e ofendida, Lóng consegue sentir isso nas palavras da amiga e uma tristeza se reflete em seus olhos por mais que ela tente esconder, as ações de Benji foram definitivamente mais graves do que aparentavam.