- Que merda foi essa? – Jiaer pergunta a Benji que vê Lóng desaparecer na floresta atrás de Aileen. – Que porra foi essa, Benjamin?
Jiaer perde a paciência com a falta de resposta e o empurra, fazendo com que ele perca o equilíbrio e caia. Benji sabe que, pela expressão no rosto de Aileen, ele errou feio dessa vez, mas o medo o consumiu por completo ao ver Jiaer apontar os sabres para Aileen. Ele temeu um desastre e agiu por impulso.
- Benji! – A voz de Cassian o traz de volta ao momento. – O que está acontecendo?
- Que feitiço aquela bruxa colocou em você para que ameace matar seus melhores amigos? Se é que ainda podemos nos chamar de amigos... – Jiaer cospe cada palavra.
- Não é nada disso, claro que somos amigos. – Benji diz finalmente.
- Então o que é? – Cassian pergunta bastante preocupado, enquanto ajuda o amigo a se sentar perto da fogueira.
- Foi só um reflexo involuntário, eu costumo fazer isso sempre que alguém entra em confronto com Aileen. Você tinha os sabres nas mãos... Eu agi sem pensar. Me desculpa, Jiaer.
- É só isso que tem a dizer? – Jiaer questiona.
- O que mais você quer que eu diga? Ela não me enfeitiçou, ela só é pequena e frágil e tem uma tendência anormal em fazer inimigos. Só posso pedir desculpas, não há nada mais que isso. – Benji diz e o cansaço dos últimos acontecimentos fica claro em sua voz.
- Que relacionamento você tem com ela, afinal? – Cassian pergunta.
- É só... – Benji hesita. – Nós passamos por muitas coisas juntos aqui na ilha, é diferente da minha amizade com vocês por que não a conhecia antes, tudo o que sei foi o que vivemos aqui, e até alguns dias atrás éramos só nós dois. – Ele dá um longo suspiro. – Acho que ainda não assimilei a ideia de que vocês estão aqui. Na minha cabeça eu separei minha vida em antes e depois de Drei. Vocês são de “antes”, ela é de “depois”, de agora, só me falta juntar as duas partes da minha vida em uma só. Eu realmente sinto muito, em momento algum eu realmente quis machucar nenhum de vocês.
- Parece que vocês passaram por muitas dificuldades... – Jiaer diz e o clima pesado entre eles começa a se dissipar.
- Você não faz ideia, metade desta ilha, e da Folha, quer nossas cabeças em bandejas e talvez o dia em que morrermos se torne um feriado. Fizemos inimigos em absolutamente todos os lugares em que passamos. Os Habitantes da Lua odeiam Forasteiros e nós não fizemos nada para mudar isso, muito pelo contrário, pioramos tudo e a reputação de Forasteiros está na lama. Isso, fora os monstros e o fato de que as únicas leis da Lua são, primeiro, não existem leis, e segundo, cada um por si e todos contra os Forasteiros. – Benji diz lembrando de todos os acontecimentos absurdos do último ano.
- Na Ilha do Sol não é assim, existem leis, a Marinha prende piratas, é ensolarado, claro que nem tudo são flores, mas não existem monstros como aquele cervo estranho, por exemplo. – Áki diz. – Nossa vida só deu uma ré quando fomos para a Ilha da Folha, aquele lugar é uma bagunça.
- Engraçado... Mesmo sendo tão difícil aqui nunca tive curiosidade para saber o que há na Ilha do Sol. – Benji solta uma risada um pouco amarga para si mesmo ao terminar a frase.
- Lóng! – Cassian diz quando o amigo volta ao acampamento.
- Aileen está bem? – Benji pergunta exasperado. – Onde ela está?
- Está tudo bem, ela está comendo morangos com um lince. – Lóng responde e pode sentir o alívio no peito de Benji.
- Bruno? – Áki pergunta.
- Sim, vocês já o conheceram? – Lóng pergunta animado, sentando perto dos amigos.
Uma conversa animada se segue com Lóng contando todos os detalhes da caverna do lince, mas Benji já não dava atenção ao assunto, sua mente confusa o deixou cansado e ele foi se deitar. Dentro da barraca ele encara o teto se perguntando sobre que tipo de vida levaria de agora em diante, a qualquer momento seus amigos teriam plena certeza de que ele já não era mais o Benji de antes, eles são pessoas boas, e se realmente viveram uma vida tão decente desde que chegaram à Ilha do Sol são inexperientes demais para ver a pilha de cadáveres onde ele pisa e ingênuos demais para entender todo o sangue em suas mãos. A Ilha da Lua é um lugar primitivo, é matar ou morrer e Benji já havia matado o suficiente para sobreviver por tanto tempo. Ele cai no sono pensando se algum dia seus amigos o compreenderiam e se Aileen o perdoaria.
* Em Runavir *
- O Escolhido já foi identificado. – Disse a mulher.
Seu semblante é de uma pessoa cansada, alguém que viveu anos difíceis em uma terra perigosa, no entanto, sua aparência é imponente, ela é alta e veste o manto marrom da Seita, ela exala poder até mesmo sem dizer uma única palavra.
- Não devemos nos precipitar, Senhora, afinal o mensageiro foi assassinado, só sabemos que O Herdeiro está aqui, mas não sabemos quem ele é. – Disse a outra mulher, um pouco mais velha que a primeira, usando o mesmo manto marrom.
- Mas sabemos que ele finalmente está aqui. A era dessa terra sem lei está chegando ao fim. – A mulher diz olhando pela janela. – Logo que o Escolhido ascender ao trono Drei será unificado em um único império e finalmente teremos paz.