Quando Aileen volta para o acampamento no dia seguinte, todos já estão limpando a bagunça do café da manhã.
- Aileen! – Benji diz no momento em que a vê.
- Ainda não estou falando com você, seu seboso. – Ela diz sem olhar pra ele, e lhe mostra o dedo do meio ao entrar na barraca.
Depois de algumas horas, Aileen sai da barraca vestida em seu vestido de crochê preto, botas e seu cinto cheio de bolsinhas penduradas. Ela segura uma pedra verde com o formato de hexágono.
- Vou até a Ilha da Folha, alguém quer alguma coisa de lá? – Todos a olham intrigados. – Vou usar a pedra de portal exclusiva pra essa ilha. – Ela explica.
- Posso ir com você? – Áki pergunta animado.
- Claro! – Ela responde.
- Não. – Jiaer diz firmemente.
- Aí, eu não sou uma leprosa, o garoto pode chegar perto de mim. Outro seboso. – Ela diz sussurrando a última frase. – Se você está tão preocupado venha junto. – Ela revira os olhos ao fazer a sugestão.
- Então eu... – Jiaer começa a falar, mas Cassian o interrompe.
- Está tudo bem, não precisamos de nada, podem ir tranquilos. – Cassian diz também interrompendo Benji que começava a se manifestar em protesto.
- Vemos vocês mais tarde. Vamos Áki.
Ela chama e o garoto está ao seu lado em um segundo. A viagem para a Ilha da Folha é simples, Aileen sempre mantém com ela uma pedra de portal usada apenas para o grande mercado da Folha. O mercado é onde todos em Drei podem se reunir sem imediatamente começar uma guerra, é onde todos se misturam, como criaturas mágicas, animais fantásticos e humanos – habitantes e forasteiros – coexistindo em uma harmonia controlada. Aileen é muito bem familiarizada com a grande maioria de comerciantes do mercado, o que é bastante coisa considerando que é um lugar gigantesco, do tamanho de uma cidade. Entre quinquilharias, pedras mágicas, ou preciosas e matéria prima, ela já havia negociado com quase todos que ali faziam comércio. Sua loja favorita é a de frutas, onde consegue seus morangos superfaturados, e é também a que ela menos gosta, justamente pelo mesmo motivo.
Áki já havia passado pela Ilha da Folha, mas havia sido em uma cidadela aos arredores do mercado, então, vendo tudo pela primeira vez ele logo fica encantado. As ruas são cheias de todos os tipos de indivíduos diferentes e interessantes, as lojas exalam cheiros de poções, refeições apetitosas e uma variedade de perfumes vindo de todas as lojas e barraquinhas no meio da rua. Áki fica boquiaberto ao ver tudo, como uma criança entrando pela primeira vez numa loja de brinquedos.
- Uau! É realmente como entrar em um jogo, Benji estava certo. – Áki diz com um brilho nos olhos.
- Nem mencione o nome dele na minha frente, só de ouvir já fico com vontade de morder ele. – Aileen diz ainda irritada. – Mas sim, o mercado parece um lugar em um mapa de jogo com vários NPCs, a diferença é que tudo aqui é real.
- Por que está com tanta raiva do Benji? Ele só estava tentando te defender. – Áki pergunta genuinamente confuso.
- O que eu te disse antes? Me irritam pessoas adultas não conseguirem resolver as coisas conversando...
- Não parece ser isso. – Ele diz pensativo.
- Vamos dizer que seja por enquanto. Jiaer também não precisava ter tirado os sabres... Aquele boçal. – Aileen diz revirando os olhos. – Mas deixa pra lá, eu nem lembro mais o que começou essa briga, a única coisa que sei é que o Benji vai se ver comigo.
Ao dizer isso um leve brilho lilás passa por seus olhos, Áki percebe e por um motivo que não entende, pela primeira vez, ele sente medo dela. Eles andam pelo mercado e todos querem saber quem é o novo amigo de Aileen, ela apresenta Áki como se ele fosse seu irmãozinho mais novo, o que o tranquiliza um pouco, e ele só consegue pensar que não gostaria de estar no lugar do Benji nesse momento.
Depois de caminhar por pelo menos uma hora, eles chegam a uma pequena loja de aparência muito antiga, pela qual Áki fica muito curioso. Não há uma porta na entrada, apenas uma cortina feita de pedras e conchas do mar. Dentro da loja uma senhora muito velha, de olhos completamente brancos, está sentada próxima a uma mesinha tomando chá. Das paredes e do teto pendem variados tipos de ervas, pedras e objetos estranhos dos quais Áki não faz ideia de sua serventia.
- E aí, velha, ainda não morreu? – Aileen pergunta em Elkarin.
Áki, sem entender a língua, continua explorando a lojinha com toda sua curiosidade quase infantil.
- Tenho certeza que ficará feliz se esse dia chegar. – A velha responde, também em Elkarin.
- Não diga isso, um vaso ruim como você jamais vai quebrar. – Aileen diz sentando de frente para a velha.
- Você veio me contar o que aconteceu com as bruxas? – A velha pergunta lhe servindo chá.
- Puta merda, que ladainha. – Aileen diz revirando os olhos.
- Vejo que não sou a primeira a perguntar sobre isso. – A velha diz esboçando um leve sorriso.
- Você “vê” demais pra uma velha decrépita e cega.
- Quando a visão se vai, as coisas parecem bem mais fáceis de ver. – A velha diz tomando um gole de seu chá.
- Além de cega, tá esclerosada. – Aileen diz provando do chá e rejeitando a xícara imediatamente após o gosto amargo descer por sua garganta. – Isso é veneno?
- É o segredo da minha juventude. – A velha diz rindo.
- Não vou nem perguntar o que tem dentro.
- Dê um pouco para seu novo amigo, é amargo, mas é bom para a saúde, ajuda a aquecer o corpo e se fortalecer.
- Não vou dar essa coisa pro garoto. Empacota um pouco pra eu levar pro Benji, o imbecil deixou um Cervo Gélido ferir ele. – Aileen o xinga, mas aceita qualquer coisa que o ajude a se recuperar. Ela também pensa que o gosto ruim pode servir de vingança para o que ele havia feito no dia anterior.
- Não seja tão dura com ele, o rapaz faz o melhor que pode. – A velha diz ao levantar para colocar folhas de chá em um saquinho.
- Você sempre fica do lado dele, velha chata. – Aileen diz quase emburrada. – Chega desse assunto, hoje vim negociar por moedas de ouro. – Ela diz pegando uma das bolsinhas de seu cinto.
- Raramente você vem aqui em busca de ouro, quer comprar morangos novamente? – A velha lhe entrega o pequeno pacote e volta a sentar onde estava antes.
- Quem me dera, mas estamos viajando para Arkhûn, além desse garoto outros três se juntaram a nós. – Aileen explica. – E provavelmente vamos para Runavir depois.
- Runavir? Vocês ficaram loucos? – A velha pergunta, mas não parece alterada, sua voz continua suave e levemente rouca.
- Estamos procurando os amigos do Benji, eles também vieram para Drei. Aqui, quero mil moedas. – Ela diz colocando uma bolsinha em cima da mesa.
- Mil moedas? Acho que você realmente ficou louca. – A velha diz rindo.
- Por que não usa sua visão divina, da alma ou seja lá o que for e olha o que tem dentro da bolsa antes de debochar? – A velha abre a bolsa e seu sorriso se desmancha dando lugar a uma expressão de surpresa, o que dá a Aileen uma certa quantidade de satisfação.
- Duas pedras âmbar? Onde conseguiu isso? – Ela diz levando as duas pedras ao ouvido como se pudesse ouvir cada um dos elementos mágicos dentro delas.
- Esses caras vieram da Ilha do Sol. – Ela diz apontando para Áki, que parece muito interessado em um pequeno colar com pingente de flecha em um estilo rústico. – Aparentemente elas existem aos montes por lá.
- A Ilha do Sol é desenvolvida e cheia de recursos, não me espanta que seja fácil encontrar essas pedrinhas úteis em abundância. Eu dou quinhentas moedas. – A velha propõe.
- Certo, quinhentas moedas cada uma. – Aileen diz com firmeza.
- Setecentas moedas e o colar que o garoto está segurando. – A velha tenta barganhar.
- Tenho sérias dúvidas se você é cega mesmo. Mas não me venha com essa, mil moedas e o colar em troca das duas pedras, é minha última oferta. – Vendo a velha hesitar, Aileen pega a bolsa e fica de pé. – Vou fazer negócio em outro lugar.
- Espere, novecentas moedas, o colar e meia dúzia de morangos. – A velha apela para o ponto fraco da bruxa.
- Fechado!
Ela entrega a bolsinha para a velha e em troca recebe as moedas, os morangos e o chá, a velha nunca cobrava pelo chá, então as folhas nem ao menos foram mencionadas na negociação. Depois de garantir que estava tudo bem guardado em suas bolsinhas, Aileen levanta e chama Áki para irem embora, ele solta o colar e a segue.
- Pode ficar com o colar. – Aileen diz.
- Não precisa, só achei bonito. – Ele responde um pouco tímido.
- Podemos comprar coisas só por serem bonitas, não é por que vivemos nesse lugar insalubre que não podemos ter mimos. – Ela responde sorrindo carinhosamente, era difícil admitir para si mesma, mas já havia se apegado ao garoto.
- Nesse caso vou levar, então. – Ele pega o colar sorrindo e por mais que ele tenha pelo menos dezoito anos, Aileen só consegue enxergar um garotinho alegre.
- Tchau, velha, eu volto pro seu velório. – Aileen diz saindo da loja.
- Não se eu for ao seu primeiro. – Ela ouve a velha respondendo e não pode negar que a dinâmica estranha delas a deixou novamente de bom humor.
- Tudo bem falar com ela assim? – Áki pergunta ao saírem da loja.
- Não tem outro jeito de falar com ela. – Aileen responde.
Após Áki insistir que não precisava comprar nada no mercado, os dois voltam para o acampamento usando a pedra de portal. Áki passou aquele dia imerso em pensamentos, não conseguia entender a dinâmica entre Aileen e Benji, e também não entendia o motivo de Benji ter tanto medo de Aileen sair sozinha, pois todos no mercado pareciam muito amigáveis. Após pensar muito e não chegar nenhuma conclusão, o garoto decide simplesmente ficar feliz com seu lindo colar com pingente de flecha, afinal ele é um arqueiro e aquela era sua primeira flecha verdadeira.