— Porra de tecnologia... — reclamou antes de beber um gole de cerveja. — Se não fosse por essa merda eu ainda teria o meu emprego.
— Então foi por isso que cê foi demitido? — perguntou o outro ao seu lado. Usava uma regata que era antes branca, mas agora estava completamente manchada por sabe se lá o que.
— Pois é... tudo porque eu não quis instalar um neurochip com o software da empresa na minha cabeça. Que merda! Agora eu sou obrigado a ser chipado pra trabalhar? — respondeu, gesticulando com movimentos amplos, fazendo seu braço direito metálico ranger alto. Difícil dizer apenas com o barulho se aquilo era uma prótese barata ou estava apenas malcuidado.
Era quase fim de tarde e o Bar 404 estava quase vazio. Ainda era meio da semana, o que justificava o pouco movimento. Alguns trabalhadores, visivelmente cansados e estressados, ocupavam algumas mesas, bebendo e jogando conversa fora com os colegas antes de voltarem para suas pequenas, e nada luxuosas, casas e encararem o dia seguinte igual ao anterior. Viviam presos em um ciclo sem fim.
— Que paia, chapa. E o que cê pretende fazer agora?
— Ah, eu sei lá... vou ter que procurar algum emprego bosta que pague uma merreca. — levou a cerveja à boca, deu um gole e largou a garrafa no balcão com raiva. O impacto do vidro contra a madeira ecoou pelo bar. — Nem motorista pros ricaços eu sirvo... hoje em dia todo veículo dirige sozinho.
Embora o Bar 404 fosse um bom refúgio para empregados exaustos afogarem suas mágoas e frustrações, havia também outro tipo de clientela que marcava presença com bastante frequência. Os marginais costumavam sair de suas tocas ao anoitecer para torrar seus algores; dinheiro obtido, na maior parte das vezes, de maneira duvidosa. Alguns preferiam se perder na Terra do Beijo, enquanto outros, como Bruna, buscavam algo diferente. A atmosfera caótica e decadente, que cercava a Terra do Beijo, não chamava a atenção daquela marginal de vinte anos.
Sim, para ela o Bar 404 já era um bom lugar.
— E aquela pensão da ArmaTech? Não recebe mais? — perguntou o homem careca com a camisa manchada.
Bruna estava debruçada sobre o balcão, girando o copo de vidro sem nenhum motivo, observando o gelo derreter lentamente no líquido amarronzado e sabor questionável que, de uns anos para cá, as pessoas ousaram chamar de uísque. Uma risada baixa, curta e amarga soou à esquerda. O homem continuou:
— Não dá nem pra eu me alimentar direito... os arrombados diminuem a quantidade da minha pensão a cada ano que passa. Vai chegar o dia em que não vou receber mais nada. Porra... e pensar que tudo o que eu ganhei lutando por aqueles merdas da ArmaTech na grande guerra corporativa foi essa prótese vagabunda e um monte de lesões no corpo todo. Nem pra ser Risco barato eu sirvo.
Estava confirmado: era uma prótese barata.
— Ao menos o cibercirurgião fez um bom trabalho. Implante muito barato às vezes costuma ser um problema. — o careca tentou aliviar a frustração do veterano.
— Nada... eu só tive sorte do meu corpo não rejeitar a prótese. — o frustrado levou a cerveja à boca mais uma vez, a manteve por alguns longos segundos e, quando devolveu ao balcão, já estava vazia. — Minha única fonte de renda foi pro ralo só porque aquela vadia tinha o implante pro chip deles...
— Do que cê tá falando?
— A nova funcionária... aquela que roubou o meu lugar. Quem eles pensam que são? — ele murmurou, a voz embargada de raiva. — Depois de anos e anos de dedicação... eu tenho que resolver isso. Sim... tenho que consertar as coisas. Não deve ser difícil descobrir o endereço... sim, é isso.
— O que cê tá planejando, chapa? — perguntou o careca de camisa manchada, arqueando a sobrancelha.
— Ah, eu vou dar um jeito naquela vagabunda! — respondeu, cerrando os punhos. — Vou mandar um recado... e eles vão se arrepender por terem me jogado fora como se eu fosse um lixo inútil.
— É isso aí, mostra pra eles! — o careca riu, como se tivesse ouvido uma piada sem graça.
— Não... eu tô falando sério. Só preciso do endereço dela...
— Pera aí, cê não tá pensando mesmo em...
Uma gargalhada alta e fina explodiu pelo Bar 404, preenchendo todos os cantos do ambiente. Bruna não conseguiu se conter e riu tão alto que todos a ouviram. As lágrimas escorreram dos seus olhos enquanto ela tentava recuperar o fôlego, deixando o veterano visivelmente irritado. O careca apenas observou a cena confuso.
— Que foi? — o veterano rosnou, virando-se para ela. — Ouviu alguma piada?
— Ah, não é nada, não. — Bruna respondeu, limpando as lágrimas com as mãos. — Só acho que tu fala pra caralho, só isso.
— Como é que é? Quem cê pensa que é? — perguntou apontando a prótese para a marginal, rangendo o metal com o movimento.
Bruna virou seu corpo para o homem que não aparentava ter mais de cinquenta anos.
— Olha, cara, se tu quer tanto assim o teu emprego de volta, então vê se para de chorar gastando o teu dinheiro com cachaça e economiza pra meter um implante e um chip nessa tua cachola aí.
O veterano ri e coça a barba mal feita com o braço de metal. Ele se endireita na cadeira e olha para o careca ao seu lado.
— Tá vendo, Alberto?! É isso que eu ganho por servir na grande guerra corporativa: uma vadiazinha falando merda sobre o que não sabe.
— Aí, seu velho... — a marginal responde com um tom grave e sério, não assemelhava-se nem um pouco com aquela garota sorridente de alguns segundos atrás. — é melhor tu tomar cuidado com essa tua boca aí, valeu?!
— Se não, cê vai fazer o que?!
O veterano pulou da cadeira e se colocou diante da garota. Não era tão alto, tampouco tinha um físico que impusesse respeito. Falava muito para alguém que não tinha o tipo físico ideal para se meter em uma briga de bar.
Mas que se foda, ela era só uma pirralha, o que ela poderia fazer? Sim, ela iria aprender, nem que fosse na marra, a controlar aquela boca suja, pintada com batom preto, e não sair falando merda por aí. Ficou ainda mais irritado quando percebeu que a garota não se intimidou nem um pouco, apenas o encarou de volta com seu rosto inexpressivo, como se ele fosse apenas um bêbado inconveniente.
A luz do bar refletia nos detalhes da sua maquiagem, realçando o contorno dos olhos pintados com tons intensos. O contraste do visual dela chamou sua atenção: o cabelo preto, curto e desfiado, ganhava vida nas pontas tingidas por uma tinta néon roxa que parecia brilhar mesmo no claro, jaqueta preta aberta com detalhes em roxo caía sobre os ombros dela, revelando o top curto e igualmente escuro por baixo, deixando à mostra seu abdômen tonificado e um piercing brilhante no umbigo. O short jeans, também preto e curto, deixava as pernas expostas, cruzadas com descaso sobre o banco.
“Maldita juventude vulgar”, pensava o homem. O conjunto inteiro gritava desdém, e isso o mais bravo.
— Aí, relaxa, chapa — tentou amenizar o outro cliente.
— Cê não viu essa garota querendo crescer pra cima de mim?! Alguém tem que ensinar uma lição pra essa criança.
— Tá achando que meu bar é zona, porra!? — uma voz rouca e grossa, carregada de fúria surge atrás do balcão. Otávio definitivamente não estava contente com a cena. — É melhor tu se comportar, se não quiser que eu te tire daqui na base da porrada!
O veterano de guerra engoliu seco. O homem alto, negro e robusto atrás do balcão o encarou, como se estivesse pronto para algo pior.
— Bora, Alberto. Vamo dar foda fora daqui...
Deu de ombros e seguiu em direção a porta. Alberto seguiu os passos do amigo após deixar algumas cédulas de algores embaixo da garrafa quase vazia de cerveja.
Difícil ver alguém usando cédulas de dinheiro como antigamente.
— Tu tá ligado que eu sei me virar, né? — a garota perguntou, não estava zangada, no entanto.
— Veteranos de merda... — respondeu recolhendo os algores do balcão, ignorando a pergunta da marginal.
— E tu fala como se não fosse um — ela ri. — Aí, fecha minha conta que eu vou meter o pé.
Bruna sentiu um vulto passar por trás dela, rápido o bastante para causar um arrepio que percorreu sua nuca. O som metálico da cadeira ao lado, arrastando ao chão, a fez perceber que alguém havia sentado ali.
— Mais duas cervejas, pra mim e pra mocinha aqui. — disse uma voz masculina, firme e casual.
Terminou o resto do uísque morno que tinha à frente, o copo de vidro suando sobre o balcão. Sem virar o rosto, respondeu num tom seco:
— Foi mal, chapa, mas não tô procurando companhia pra essa noite.
— Que pena, já que tu é mó gatinha... — respondeu com malícia na voz. — Mas não é por isso que eu tô aqui, Bruna.
O nome pesou no ar.