O homem era desconhecido, tinha olhar cansado e um leve cheiro de cigarro misturado com perfume barato.
— Eu te conheço? — perguntou, estreitando os olhos.
— Ainda não. — levantou a mão. — Duas cervejas. É por minha conta.
Otávio decidiu não comentar nada, ao menos não ainda. Pegou duas garrafas de cerveja e serviu os dois. O som da tampa soltando ecoou pelo bar, antes dele se afastar e procurar outro cliente para atender.
— Ouvi dizer que tu é um risco bom. Não vacila nos trampos e costuma fazer um serviço bem feito, embora ainda seja uma iniciante na área.
— Pois é. — Bruna disse, apoiando o cotovelo no balcão. — Eu tenho que manter um padrão de qualidade.
— Entendi, entendi — ele riu, o som abafado se misturando ao ruído distante das conversas. — Então tu é a pessoa certa pro meu lance.
Ela arqueou uma sobrancelha e cruzou as pernas.
— Desembucha, tu tem um trampo pra mim. Diz aí, qual é o lance?”
— Preciso que tu deixe um presentinho em um lugar específico — após sua fala, finalmente deu um gole na cerveja.
Bruna soltou um leve suspiro, cansada de rodeios. Sua mão repousava no coldre.
— Beleza, que lugar?
— Uma oficina de carros na Leste. O lance é que o lugar vai tá desprotegido hoje à noite, então tu tem que começar a se preparar agora.
— Pera aí... Zona Leste? Essa é a área do PCNS.
— Aparentemente, vai rolar uma reunião importante e todas as gangues filiadas a facção devem comparecer. Então a protecção da oficina vai ser quase inexistente.
— Tá querendo arrumar treta com o comando?
— E isso te importa? — rebateu com um meio sorriso. — Vou te pagar pelo serviço feito, de qualquer maneira.
O curto silêncio entre eles foi preenchido pelo som de garrafas sendo abertas atrás do balcão.
— Tu falou algo sobre deixar um presente — ela disse, finalmente. — Posso saber o que tem nele?
— Não é nada demais. É só uma bolsa com uma surpresa bem explosiva.
O homem pegou a garrafa de cerveja no balcão e, ao erguer o braço em direção a boca, a manga de sua jaqueta subiu um pouco, revelando uma tatuagem negra e tortuosa no antebraço: o traço inconfundível da facção do Mancha. A luz do bar recortava o desenho na pele, e por um instante o bar inteiro pareceu mais frio.
— Tamo falando de quanto? — perguntou Bruna, disfarçando seu olhar na tatuagem do homem.
— Oito mil algores.
— Oito mil? Quer que eu aceite essa merreca pra foder com a maior facção da Zona Leste?
Ele encolheu os ombros, fingindo despreocupação.
— Vê se não faz drama. Tu só vai deixar a bolsa lá e meter o pé. Tô é te fazendo um favor pagando esse preço.
— Ah, não fode, porra! Acha que eu vou cair nesse papinho? Essa porra pode gerar uma guerra e tu sabe disso.
O homem percebeu que ele notara sua marca. Rapidamente tentou cobrir o braço com o antebraço, gesto nervoso demais para ser casual.
— Beleza, beleza, já entendi! O que tu sugere?
Bruna recostou-se no seu assento.
— Quinze.
— Tá maluca?! Quinze mil em um trampo de baixo risco?
— Ou tu paga os quinze mil, ou pode esquecer essa oficina.
Deu um gole na garrafa de cerveja antes de responder:
— Tá bom, que se foda. Negócio fechado.
Ele revisou algo em sua interface ocular, as pupilas piscaram em azul rapidamente. Ergueu a garrafa, tomou o resto do líquido num gole só e tocou de leve o dedo duas vezes na têmpora. No mesmo segundo, o celular de Bruna vibrou no bolso de sua jaqueta.
— Te mandei metade e o meu contato — respondeu levantando. — Quando for a hora, eu te dou um toque. Melhor tu começar a se preparar.
Bruna o observou de soslaio, tentando decifrar algo em seu olhar.
— A propósito... pode me chamar de Facão.
Facão passa por Bruna e segue em rumo a porta que leva para as ruas de Novos Sonhos. Otávio limpava um copo com um pano já sujo, olhando para a porta que acabara de fechar.
— Tá tudo bem? — ele perguntou.
Bruna respirou fundo, seu olhar ainda fixo na saída.
— Acho que sim. — voltou seu olhar para Otávio. — E aí, já fechou minha conta?
— O esquisitão já quitou ela.
Bruna soltou um assobio alto
— Porra, esse implante do NeoBanco é foda mesmo, né?! O maluco fez mais de uma transação em um piscar de olhos.
Otávio riu de canto, empurrando o copo limpo para o lado.
— Pois é, tecnologia pra quem tem grana. Falando nisso, já atualizou teu chip I.N.N.?
— Ainda não, tava sem tempo.
— Passa no Alef quando tu tiver resolvida — avisou, apontando o pano como quem dá um sermão leve. — A não ser que tu queira que esse chip te dê dor de cabeça e náusea de novo.
Bruna suspirou, ajeitou o coldre, puxou a jaqueta e jogou o capuz por cima da cabeça.
— Vou fazer isso. Valeu, Otávio, tô indo nessa.
— Te cuida, Bruna.
Ela fez um aceno rápido e saiu, empurrando a porta de metal. Lá fora, a rua refletia o brilho violeta dos holoanúncios flutuantes, e o som distante dos CA's (carros aéreos) se misturava a garoa fina e ácida que começava a cair. Bruna enfiou as mãos nos bolsos, sentindo o celular vibrar mais uma vez.
[Facão // Contato salvo.]