O som estridente do celular quebrou o silêncio abafado do apartamento, fazendo Bruna se remexer na cama. Ela piscou algumas vezes, os olhos ardendo pela luz fraca do holograma que piscava no teto. O corpo inteiro parecia pesado, ainda amortecido pelos efeitos do Sangue de Gado.
O visor trincado do celular exibia o nome do contato: FACÃO. Bruna esticou o braço preguiçosamente, pegou o aparelho e atendeu sem energia, limpando um fio de saliva que escorria pelo canto da boca.
— Fala, gatinha, já tá no jeito? — a voz de Facão veio carregada de pressa e estática, como se o sinal estivesse sendo puxado por um equipamento pirata.
Bruna esfregou os olhos com a mão livre, tentando acordar, e murmurou com a voz arrastada:
— Facão…?
— Porra, tu tava dormindo!? — ele quase berrou do outro lado, abafando o chiado da ligação. — Se agasalha aí, tô te mandando as coordenadas pra pegar a carga. Vê se não demora, hein! Quando chegar lá, me avisa.
Antes que ela pudesse responder, a chamada caiu com um bip seco. Bruna ficou sentada por alguns segundos, respirando fundo, tentando se recompor. Sentia o coração ainda acelerado, não sabia se pelo efeito da droga ou pela pressa do trampo.
— Merda… — resmungou, passando a mão pelo cabelo curto, bagunçando as pontas tingidas de roxo.
Jogou o celular na cama e se levantou devagar, os pés tocando o chão frio de concreto. Puxou a jaqueta preta da cadeira, vestiu-a sem pressa, e pegou o coldre barato que mantinha escondido atrás da porta. A pistola que carregava não era das melhores, mas fazia o serviço. Pegou o celular de novo, a tela agora projetava um mapa holográfico simples e trêmulo. Um ponto vermelho piscava na Zona Leste de Novos Sonhos. Bruna respirou fundo, enfiou o celular no bolso e olhou pela janela.
Saiu do apartamento e a porta se fechou com um estalo seco, deixando o aviso de “ALUGUEL ATRASADO” piscando sozinho no corredor escuro. Do lado de fora, os letreiros publicitários se sobrepunham uns aos outros em tons de verde, azul e vermelho, como uma guerra silenciosa pela atenção. Lá embaixo, a cidade parecia viva, pulsando com sirenes, buzinas e drones sobrevoando os becos. Decidiu fazer mais uma ligação.
— Tá acordado, Otávio? — ela pergunta com o celular na orelha.
— Me ligando essa hora? O que tá pegando?
— Vou precisar do teu carro emprestado.
…
O vento noturno carregava o cheiro de ferrugem, óleo velho e lixo queimado. A rua estava quase deserta, iluminada apenas por um letreiro piscante de uma oficina abandonada na esquina. Bruna Lynes parou diante do antigo galpão indicado por Facão; uma construção enorme, de concreto rachado e vidros quebrados, marcada por pichações de gangues e cartazes holográficos desligados. O logotipo desbotado de uma antiga transportadora de cargas ainda era visível na fachada.
Ela encostou-se na parede lateral, tirando o celular do bolso e ligou para Facão, a ligação caiu na primeira tentativa, mas na segunda ele atendeu.
— Já tô aqui. Cadê tu? — perguntou, olhando ao redor, com os olhos atentos aos becos e sombras.
— Uns parceiros meus tão indo aí pra te entregar a parada.
Bruna estreitou os olhos, franzindo o cenho.
— E por que tu mermo não vem?
Houve uma risadinha curta do outro lado, quase um deboche.
— Eu sei que a gente teve uma química maneira, gatinha, mas eu tenho coisa mais importante pra resolver agora. Relaxa, um dia a gente marca um encontro mais… informal.
Bruna bufou, revirando os olhos.
— Sei… — respondeu.
— Espera aí — disse ele, e a linha caiu logo em seguida.
Ela baixou o celular, olhando ao redor com mais atenção. O silêncio no local era incômodo, quebrado apenas pelo vento que assobiava por entre as frestas do galpão e o som distante de um drone de patrulha sobrevoando prédios próximos.
O galpão à frente estava mergulhado na penumbra, suas portas largas entreabertas, revelando apenas escuridão lá dentro. Um letreiro holográfico quebrado oscilava no chão, emitindo faíscas ocasionais. Do outro lado da rua, um gato magro revirava um saco de lixo. Nenhum sinal dos “parceiros” de Facão. Bruna encostou-se na parede, mordendo o lábio inferior. A cidade nunca dormia, mas alguns lugares de Novos Sonhos pareciam esquecidos por Deus, e aquele era um deles.
Ela puxou a pistola do coldre, verificou o carregador e girou o punho, mantendo-a próxima ao corpo, ainda coberta pela manga da jaqueta. Se tinha aprendido alguma coisa sendo risco, era que coordenadas nunca vinham sem riscos embutidos.
O tempo se arrastava, o vento frio trazia consigo o cheiro de ferrugem e poeira. Ouviu o som quase imperceptível de um carro elétrico se aproximar pela rua deserta. Dois faróis brancos cortaram a escuridão e iluminaram todo o ambiente com uma luz intensa e artificial. Bruna ajeitou a jaqueta e, instintivamente, deslizou a mão até o coldre sob o tecido. O veículo parou bem em frente ao galpão, o motor zumbindo baixo. As portas abriram e dois homens mascarados, vestidos com roupas escuras, saltaram do carro. Um deles, mais alto e de ombros largos, sacou uma pistola cromada, mas não apontou para a marginal, apenas manteve visível, como um lembrete silencioso de quem estava no controle. O outro caminhou até a traseira do carro, abriu o porta-malas e retirou uma bolsa preta de tamanho médio, com zíper reforçado e detalhes metálicos. Bruna endireitou a postura, os olhos fixos no pacote, tentando não demonstrar ansiedade.
— Porra, finalmente… — resmungou, estendendo a mão.
O homem armado não respondeu. O outro, que carregava a bolsa, apenas a entregou para Bruna sem dizer nada, o rosto escondido sob a máscara de neoprene. A alça era pesada, o conteúdo era denso, mas ela não ousou abrir.
O mascarado então quebrou o silêncio com uma voz grave e seca:
— Deixa a carga lá e depois liga pra ele. Sem vacilação.
Bruna assentiu com um leve movimento de cabeça, mas manteve o olhar firme. O homem fechou o porta-malas e os dois voltaram para o carro. O veículo fez um giro rápido, as luzes vermelhas dos freios piscando por um segundo, e sumiu na escuridão da rua sem emitir um som sequer.
Bruna respirou fundo, olhando para a bolsa em sua mão, o peso pulsando na palma da mão. Alguma coisa naquela entrega estava errada e, instintivamente, ela sabia disso.