Bruna guiou o carro de Otávio, um Carmel Prismax preto, pelas ruas da Zona Leste de Novos Sonhos, onde o asfalto rachado e os postes tortos denunciavam o descaso da prefeitura. Entrou em um bairro onde as luzes de néon eram raras, substituídas por lâmpadas fracas que piscavam intermitentes. Sem pedestres, sem vendedores de rua, sem profissionais do sexo. Apenas silêncio. Olhou para o celular procurando a sua localização atual e percebeu que já estava próxima às coordenadas entregues por Facão.
Quando o letreiro do Auto Glitche surgiu ao longe, piscando em vermelho falho, Bruna reduziu a velocidade. A oficina parecia maior do que ela imaginava, uma estrutura antiga, com paredes de concreto manchadas e portões parcialmente enferrujados. Sem movimento. Nenhum carro, nenhuma voz. Ela estacionou alguns metros antes, desligou o motor e ficou ali por alguns segundos, observando. Seus olhos varreram a fachada até encontrarem o que procurava: duas câmeras de segurança na entrada principal, girando lentamente em ciclos previsíveis.
— Tá fácil demais… — murmurou, desconfiada.
Saiu do carro com cuidado, fechando a porta sem fazer barulho. Caminhou rente às sombras, mantendo o corpo baixo, os passos leves. Esperou o momento exato em que as câmeras se afastaram e atravessou rapidamente o campo de visão, colando-se à lateral do prédio. O concreto estava frio ao toque. Encontrou uma uma porta metálica com o painel de acesso quebrado. Forçou a fechadura com um movimento preciso, até ouvir o clique seco da trava cedendo. Ela Empurrou devagar e entrou.
O interior da oficina era um breu quase absoluto. Sacou a pistola e avançou com cautela. O cheiro de óleo velho e metal queimado dominava o ambiente. Carcaças de carros estavam espalhadas pelo espaço, algumas suspensas por suportes, outras abandonadas no chão, criando sombras distorcidas que pareciam se mover a cada pequeno ajuste de luz vindo de fora. Ela girou levemente o pulso, apontando a arma para cada canto escuro, os olhos tentavam se adaptar, mas era difícil.
“Um olho cibernético com visão noturna cairia bem agora…”, pensava ela.
Bruna avançou mais fundo pela oficina, desviando de chassis desmontados e ferramentas largadas como se tivessem sido abandonadas às pressas. Foi então que ela percebeu algo diferente no fundo do galpão: uma porta semi-oculta atrás de uma prateleira metálica, deslocada alguns centímetros da parede. Marcas recentes no chão denunciavam uso frequente. Ela se aproximou devagar, arma em punho, e empurrou a estrutura para o lado. A porta revelou uma escada estreita que descia para a escuridão. Um ar mais quente subia dali, carregado com um cheiro forte de plástico derretido e produtos químicos.
Bruna começou a descer, degrau por degrau, sentindo o som oco dos passos reverberar pelas paredes de concreto. A luz era mínima, apenas alguns LEDs fracos embutidos no corrimão, piscando de forma irregular. Quando chegou ao final da escada, a cena diante dela fez seus olhos se ajustarem lentamente. Uma pequena fábrica improvisada.
Mesas metálicas estavam espalhadas pelo espaço, cobertas por ferramentas cirúrgicas, cabos, placas e componentes cibernéticos inacabados. Em um canto, braços robóticos articulados imóveis. Em algumas bancadas, implantes oculares e substitutos de pele estavam alinhados de forma quase clínica. Produtos prontos para uso. Na verdade, para venda.
Bruna caminhou lentamente pelo espaço, os olhos atentos a cada detalhe. Aquilo não era tecnologia de ponta, era improvisado, barato, funcional. O tipo de coisa feita para quem não podia pagar por coisa melhor.
— Então é isso… — ela sussurrou.
Uma pequena fábrica clandestina de implantes corporais, onde surgem peças destinadas a prostitutas tentando sobreviver nas ruas, ou marginais que precisam de um braço novo, um olho, qualquer coisa que os mantivesse úteis. Típica gambiarra de fundo de quintal que é vendida a preço de banana para a escória de Novos Sonhos.
Bruna apertou a arma com mais força, sentindo o peso da situação antes de guardar no coldre. Avançou até o centro do porão, seus olhos ainda varriam cada canto, desconfiados, quando ela finalmente parou. A bolsa parecia mais pesada do que antes. Sem hesitar mais, ela a colocou no chão, bem no meio da sala, entre as bancadas e os equipamentos improvisados.
Assim que abriu o zíper para revelar a carga explosiva com um painel digital exibindo uma contagem de três minutos, uma pontada de dor atravessou sua cabeça. Ela levou a mão até a têmpora, cerrando os dentes. A dor veio rápida, pulsante. Em seguida, outra. Mais forte. Sua respiração falhou por um instante.
— Que… porra?!…
O calor subiu pela nuca, exatamente no ponto onde o chip I.N.N. estava conectado. Era como se estivesse sendo forçado além do limite. Ela tentou dar um passo para trás, mas o corpo não respondeu direito.
Então veio o estouro. Um estalo seco ecoou dentro da própria cabeça dela, seguido por uma onda de choque que percorreu seu corpo inteiro. Bruna arqueou as costas involuntariamente, um grito escapando antes que pudesse conter. A dor era esmagadora. Não apenas física, mas elétrica, como se cada nervo estivesse sendo atravessado por corrente. Ela caiu de joelhos, com a visão tremendo, borrada. As mãos bateram no chão frio enquanto tentava se sustentar, mas o equilíbrio já tinha ido embora. Outro espasmo percorreu seu corpo e ela desabou completamente.
E então, as luzes acenderam.
O porão foi inundado por uma claridade branca e brutal, revelando cada detalhe da fábrica improvisada. As sombras desapareceram, e, com elas, qualquer ilusão de que aquele lugar estivesse abandonado.
— Ora, ora, ora... O que temos aqui? — disse uma voz masculina, carregada de diversão.
Bruna forçou os olhos a abrirem. A visão ainda falhava, mas aos poucos a silhueta à sua frente ganhou forma. Um rapaz magro, de postura relaxada, observava a cena como se fosse um espetáculo. O cabelo longo e bagunçado caía sobre o rosto, parcialmente escondendo os olhos. A camisa preta larga deixava à mostra partes de braços metálicos, com articulações expostas que refletiam a luz. Ela reagiu por instinto. Mesmo com o corpo falhando, puxou a pistola do coldre e tentou apontar.
O desconhecido avançou um passo e chutou a arma com precisão, fazendo-a deslizar pelo chão para longe.
— Se meteu no lugar errado, piranha!
Antes que a mercenária pudesse reagir, um chute veio no estômago. O ar foi arrancado dos pulmões, o corpo dobrando sobre si mesmo. Um segundo depois, outro chute direto no rosto.
A cabeça dela bateu contra o chão, seu corpo fraquejou e seus olhos pesaram. Bruna perdeu a consciência.