A consciência voltou aos poucos: primeiro veio um zumbido constante, depois, a dor e uma pressão latejante na cabeça, forte o bastante para embaralhar seus pensamentos. A nuca ardia, quente, pulsando no ponto onde o chip I.N.N. se conectava. Ela abriu os olhos com dificuldade. A luz ainda era agressiva, fazendo tudo parecer branco demais por alguns segundos. Quando a visão começou a se ajustar, percebeu que estava sentada. Seus braços estavam presos aos apoios de uma cadeira improvisada, tiras apertadas contra seus pulsos. Tentou se mover, mas o corpo não respondeu como deveria. À sua frente, o mesmo rapaz de antes: magro, postura relaxada, o cabelo longo e bagunçado caía sobre os olhos, os braços metálicos refletiam a luz do ambiente e as juntas emitindo pequenos estalos conforme ele se movia. Ao lado dele, dois outros homens permaneciam em silêncio, um de cada lado, observando.
— Tá na hora de acordar! — ele disse, com um tom impaciente.
— Mas que merda... — Bruna resmungou, a voz arrastada, ainda lutando para organizar os pensamentos.
Ela puxou os braços contra as amarras, testando, mas não havia folga. A cadeira rangeu sob o esforço inútil. O calor na nuca aumentou, a dor pulsando mais forte.
— Consegue falar? — o rapaz perguntou, inclinando levemente a cabeça.
Bruna levantou o olhar, ainda turvo, mas firme o suficiente para encará-lo.
— Quem é tu?
Ele soltou um leve sorriso torto e deu alguns passos à frente, o som metálico dos movimentos ecoando no concreto.
— É, parece que consegue sim. — disse, aproximando-se até ficar bem na frente dela. — Isso é bom, porque tu vai explicar quem é tu e por que caralhos tu trouxe uma bomba pra cá.
Ela cuspiu as palavras com o pouco de força que tinha:
— Vai se foder!
Sem aviso, ele avançou e agarrou o pescoço dela. Os dedos metálicos se fecharam com força ao redor da garganta, a pressão imediata cortando o ar. O braço cibernético rangia com um som agudo, como metal sendo forçado além do limite. Ela tentou puxar ar, as mãos presas se contraindo nas amarras enquanto o corpo reagia por instinto. A dor na cabeça se misturava à falta de oxigênio, e o mundo começava a escurecer nas bordas da visão. O rosto dele estava perto e os olhos frios.
— Cuidado com a língua, vadia, se não eu corto ela e te faço engolir!
A ameaça veio baixa e carregada de seriedade. Por um instante, os dedos metálicos ainda pressionaram a garganta de Bruna, como se ele considerasse ir além, mas decidiu soltar de uma vez. Bruna puxou o ar com dificuldade e tossiu. O rapaz deu um passo para trás e sacou seu revólver da cintura. Era grande. O revólver parecia mais um canhão de mão do que uma arma comum: corpo robusto, acabamento escuro, pesado, com detalhes industriais que entregavam sua fabricação. O cano largo apontava diretamente para seu roosto, e ela reconheceu na hora.
AT-MkII, um modelo antigo, mas lendário; um revólver capaz de atravessar blindagem. Produzido pela ArmaTech, uma das maiores mega corporações da América, responsável pela fabricação de equipamento militar tecnológico, ganhando enorme destaque no mercado durante a Grande Guerra da América do Sul.
O rapaz girou levemente o pulso, ajustando a mira. Os mecanismos do seu braço metálico se alinharam com precisão, absorvendo o peso da arma. Para ele, o coice brutal daquele canhão de mão, que tinha força o suficiente para quebrar o pulso de um atirador de braços orgânicos, não significava absolutamente nada.
— Começa a falar.
A ordem dele veio direta e o coração dela acelerou. A cabeça ainda latejava, a nuca queimando sob a pele, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Ela manteve os olhos fixos no cano da arma por um segundo a mais, como se calculasse o inevitável, e então cedeu.
— Me contrataram pra vir aqui e deixar essa bolsa — disse, a voz mais baixa, mas firme o suficiente para ser ouvida. — Eu não sabia que era uma fábrica de implantes.
— Mas sabia que tinha uma bomba na bolsa e que aqui é território do PCNS, né não?!
O cano do revólver permanecia firme contra a testa de Bruna, pressionando a pele a ponto de deixar uma marca clara.
— Fui contratada pra fazer um trampo — respondeu com esforço, mantendo a voz estável apesar da dor pulsando na cabeça.
— Porra nenhuma! — ele retrucou, aproximando ainda mais a arma, como se quisesse atravessar o crânio dela com a pressão. — Tu não seria um risco tão idiota a ponto de mexer com uma facção como a nossa, o Primeiro Comando de Novos Sonhos. Dá pra ver que tu não tem nenhum implante apropriado pra se meter em uma missão assim.
Risco é como chamam os mercenários em Novos Sonhos, que surgiram durante a Grande Guerra da América do Sul e realizavam operações e missões de alto risco, a mando de alguma empresa, corporação ou alguém muito influente. Após o fim da guerra, o apelido se manteve aos marginais de rua que faziam favores a corruptos e traficantes, ou rebeldes que lutavam contra corporações, mas se recusavam a se aliar a qualquer outra organização já existente. Atuam como freelancers e realizam qualquer tipo de missão que o cliente esteja disposto a pagar, indo desde roubar ou neutralizar um alvo, até invadir a sede de uma megacorporação.
Os olhos dele percorreram o corpo da mercenária. Nada de cromo avançado, nada de reforços visíveis. Aquilo só aumentava a desconfiança.
— Me disseram que o local tava desprotegido, então eu não ia precisar de nenhum equipamento sofisticado.
Ele puxou o cão do revólver. O clique seco ecoou pelo porão, seguido pelo giro lento do tambor.
— Tu tá de sacanagem com a minha cara, porra?!
A tensão parecia pronta para explodir junto com a arma. Os dois homens ao lado se mantinham atentos, imóveis
— Ela tá falando a verdade, Caim — uma nova voz suave e feminina cortou o momento.
Passos ecoaram pela escada descendo em direção ao porão. A luz branca revelou aos poucos a silhueta de uma jovem mulher que surgia da escuridão; ela estava tranquila, como se tivesse total domínio da situação. Sua pele escura contrastava com o top branco curto que vestia, exibindo seu abdômen parcialmente coberto por uma jaqueta camuflada aberta. O cabelo cacheado e volumoso moldava o rosto delicado com presença, e seus olhos castanhos analisavam o cenário com calma. A calça larga branca, estampada por uma ilustração preta mas difícil de definir o significado, balançava levemente a cada passo, destacando sua forma feminina.
— Resolveu sair da toca, Carol?! — Caim não tirou a arma da cabeça de Bruna, mas desviou o olhar por um instante, incomodado com a interrupção.
Carol parou a poucos metros, cruzando os braços.
— Verifiquei os dados dela — disse, com naturalidade. — A informação bate.