Em frente à clínica de Alef, transada num beco estreito, Bruna e Otávio esperavam. As paredes úmidas eram cobertas por grafites sobrepostos, códigos de gangues e luzes piscando em tons de neon roxo e azul que mal conseguiam atravessar a névoa suja do lugar. O constante som violento do tráfego e dos pedestres alienados andando de um lado para o outro era como uma trilha sonora daquela cena contínua. Um zumbido elétrico constante vibrava no ar, vindo de cabos expostos que serpenteavam pelas paredes. Então, com um som mecânico, a porta deslizou para o lado e os dois finalmente entraram.
O interior da clínica era bem espaçoso — ou talvez ela tivesse se acostumado com seu apartamento minúsculo e já não sabia como um ambiente espaçoso era de verdade — iluminado por uma mistura caótica de telas e luzes cirúrgicas frias. O cheiro metálico de sangue seco se misturava ao odor de ozônio e óleo. Alef estava de costas, completamente absorvido por uma parede improvisada de monitores que exibiam desde sinais vitais até linhas de código correndo sem parar. À sua frente, uma mesa abarrotada de instrumentos: bisturis ao lado de chaves de fenda, pinças cirúrgicas dividindo espaço com micro-soldadores revelava o tipo de profissional que ele era: cibercirurgião.
— Te trouxe um presente, Alef! — anunciou Otávio.
O homem se virou com um leve atraso, como se estivesse retornando de algum lugar distante dentro da própria mente. Era magro, quase esguio demais, com pele pálida que refletia a luz das telas e cabelos ondulados caindo até os ombros de forma desleixada. Seus olhos estavam escondidos atrás de óculos de grau. Lentes reais, físicas, uma relíquia num mundo onde a visão defeituosa era corrigida com um simples implante ocular.
— Otávio! — responde com entusiasmo. — Bruna, é você garota? O que fizeram com seu rosto?
— Sabe o que dizem sobre a Terra dos Beijos? — ela responde com um sorriso irônico no rosto.
Alef soltou uma risada curta. O contraste com sua expressão cansada era evidente: olheiras profundas, pele marcada pelo excesso de horas acordado, alguém que vivia mais sob luz artificial do que sob a luz do sol.
— Talvez você tenha perdido um dente ou dois, mas ainda não perdeu o senso de humor. O que traz vocês dois pra minha humilde clínica clandestina?
Ele se afastou da bancada, limpando as mãos em um pano enquanto os monitores continuavam piscando atrás dele.
— A garota tá precisando de algumas revisões.
Otávio falou com naturalidade, como quem comenta sobre manutenção de rotina.
Alef inclinou a cabeça levemente olhando para ambas as figuras à sua frente.
— Algumas coisas nunca mudam... — ele diz de maneira arrastada, como se estivesse puxando memórias do passado de volta, antes de voltar ao tom normal. — Muito bem, senta na cadeira e eu dou uma olhada em você.
A cadeira no centro da sala não era exatamente atraente: uma mistura de poltrona odontológica com maca cirúrgica.
— Tu vai ficar bem sozinha? — Otávio pergunta.
— Na verdade, tu bem que podia segurar minha mãozinha. Tô com um pouco de medo — Bruna brinca.
— Já entendi. Tô metendo o pé. — ele caminha em direção à porta, sem cerimônia. — Valeu, Alef!
Otávio não esperou resposta. A porta se abriu novamente com o mesmo ruído pneumático, engolindo-o de volta para o beco imundo.
— Valeu! — Alef se despede, mas seus olhos orgânicos estão de volta aos monitores, onde gráficos pulsam em tons frios e códigos escorrem pela tela como gotas de água deslizando no vidro de uma janela em um dia chuvoso. Reflexos azulados atravessam as lentes dos seus óculos enquanto ele analisa algo com atenção quase obsessiva. Após alguns segundos, como se emergisse de um mergulho profundo, ele ergue o olhar na direção de Bruna e continua apontando para o objeto no centro da clínica. — Então, a cadeira...
— Ah... Beleza.
Bruna caminha até o equipamento, o som de suas botas ecoando levemente pelo ambiente. Assim que se senta, a estrutura responde ao peso com um estalo suave de ajuste automático. Motores internos entram em ação, inclinando o encosto até deixá-la praticamente deitada. O material sintético é frio no primeiro contato, mas logo estabiliza a temperatura.
— Revisão geral, não é? — Alef diz se aproximando, já puxando o foco cirúrgico para mais perto.
Bruna nega com a cabeça.
— Na verdade, eu quero que tu dê uma olhada nisso.
Ela vira a cabeça para o lado com cuidado e leva a mão até o cabelo. Os fios pretos deslizam entre seus dedos e as pontas tingidas de neon roxo capturam a luz, brilhando de forma artificial. Ao afastá-los, revela o pescoço e, embutido na carne, o ponto de acesso da sua cibernética I.N.N..
Alef se aproxima sem pressa, inclinando o corpo para observar melhor. O que deveria ser uma interface limpa e bem integrada à pele agora parece comprometido. A entrada do chip apresenta bordas deformadas, como metal que sofreu calor excessivo. Pequenas fissuras escurecidas contornam a área e a pele ao redor está avermelhada e irritada. Sinais claros de inflamação.
— Parece que rolou um pipoco sinistro aí dentro — ele diz não muito surpreso.
— Nem me fale.
— Já descobriu o que causou?
— Ah, sabe como é. Falha de chip velho.
— Sei… falha de chip velho... — ele responde com desconfiança. — Bom, não se preocupe, eu vou dar um jeito. Não sei se posso dizer o mesmo do teu nariz.
Bruna solta uma risada curta, que soa mais como resistência do que humor.
— Eu vou ficar bem.
— Tem certeza que não quer uma revisão geral? Qual o problema?
— Não é nada, é só... — Bruna pausa. O olhar dela se perde por um segundo no teto. Algo passa pela cabeça dela... e então ela recua. — é complicado.
— Tantos anos que nos conhecemos e você quer guardar segredinhos de mim — ele puxa um banco pequeno com o pé e se senta ao lado dela, o objeto rangendo levemente sob o peso. — Eu vi você crescer, pirralha.
Bruna respira fundo antes de continuar.
— Desculpa, Alef, é que tem muita merda acontecendo agora e quanto menos gente souber, melhor. Não se preocupa, você vai saber de tudo, quando for a hora certa.
— Eu entendo. Eu respeito isso. Porém, uma revisão não iria te atrapalhar.
Bruna deixa escapar outra risada, dessa vez um pouco mais solta, como quem cede sem admitir completamente.
— Já que tu insiste...
— É assim que se fala! — ele responde com um pouco de empolgação, embora o cansaço pesa na voz. — Primeiro, vou dar um jeito nessa tua cibernética. Não esquenta, vou aplicar uma anestesia local e você não vai sentir nada.
— Tô contando contigo — Bruna responde.
A luz cirúrgica se ajusta, focando direto na nuca dela. Alef prepara o campo com movimentos rápidos e precisos. Ele limpa a área, posiciona microferramentas e ativa a Aranha acoplada à sua mão. O equipamento desperta com um leve zumbido, suas microextensões articuladas se abrindo como patas. Ele encaixa a lupa sobre o olho direito; a visão se amplia em detalhes microscópicos. A agulha injeta a anestesia e, segundos depois, a área já não responde.
Alef inicia então o procedimento. A lâmina faz uma incisão limpa ao redor do implante, afastando a pele com cuidado. Os pequenos braços da Aranha estabilizam a região, mantendo tudo no lugar enquanto ele trabalha. O tecido revela o encaixe comprometido: metal deformado, pontos de fusão irregulares, sinais claros de superaquecimento interno.
Aranha é um tipo de equipamento usado por médicos e cibercirurgiões para auxiliar na realização de operações, bem como instalação de implantes cibernéticos no corpo. O equipamento ganhou o apelido como referência aos seus movimentos finos e delicados, que dão uma sensação de toque semelhante a “passos de aranha”. Com certeza não é uma sensação confortável para os que têm fobia.
Com pinças finas, ele começa a extrair o implante danificado. Algumas partes resistem, grudadas como se tivesse se fundido ao tecido. A Aranha entra em ação, separando as conexões e cortando microfios queimados e liberando o componente pouco a pouco. O movimento é contínuo, firme, delicado o suficiente para não causar mais dano. Quando finalmente remove o núcleo do implante, ele o deposita numa bandeja, o objeto parcialmente derretido e inutilizável.
Sem perder tempo, Alef pega o novo módulo. Mais limpo, mais compacto, com conexões mais refinadas. Ele ajusta o encaixe primeiro, preparando a base, garantindo que cada interface se alinhe perfeitamente com as terminações neurais. Em seguida, posiciona o implante na cavidade aberta e o fixa com movimentos calculados. As microextensões da Aranha auxiliam na conexão, cada contato é feito com exatidão milimétrica, integrando cromo e corpo como se fossem uma coisa só. Por fim, ele instala duas entradas de chip, uma dedicada ao I.N.N. e outra adicional, acoplada logo ao lado. Discreta, porém útil.
...
Alguns longos minutos se passam nesse ritmo silencioso, preenchidos apenas pelo som baixo dos instrumentos e da respiração controlada de Alef. Até que ele recua levemente.
— É isso. Tá instalado — Alef anunciou, ainda ajustando algumas coisas no pescoço da marginal.
— Já?! Foi bem rápido.
— Não foi tão difícil. Só precisou de uma troca de encaixe, mas aproveitei pra instalar uma entrada de chip extra.
— Uma entrada extra? — Bruna perguntou confusa.
— Sim, você pode inserir um chip extra pra uso pessoal, se quiser. Por exemplo, caso você tenha um implante Vox Link, você pode inserir um chip de músicas pra ouvir elas direto na sua cabeça. Isso é só um exemplo, é claro. Acredite em mim, é mais útil do que parece.
— Se você diz...
Alef remove a lupa e desativa a Aranha, que recolhe suas microextensões com um clique suave. Ele se levanta e vai até a mesa, pegando um tablet fino como papel. A tela acende em um azul quente, iluminando seu rosto cansado e destacando as olheiras profundas.
— Tudo bem, vamos conectar essa tua caixola e instalar os drivers atualizados pra esse implante.
Ele começa a sincronizar os dispositivos, os dedos deslizando e pressionando pela superfície da tela.
— A gente aproveita e faz a revisão — ele finaliza.
...
O ambiente da clínica parecia ainda mais silencioso, o azul do tablet refletia nos óculos dele, escondendo parcialmente seus olhos enquanto seus dedos deslizavam pela tela fina com rapidez.
— Você tá bem, no geral. Seu nariz quebrou, mas vai se recuperar. Além disso, seus dentes são fortes e nenhum está quebrado, apesar das pancadas pesadas que você levou — ele responde, ainda sem desviar totalmente a atenção da tela. — Mas eu percebi algumas coisas.
Bruna, ainda reclinada na cadeira, mantém os olhos nele, atenta.
— Desembucha, fala aí.
Alef para o movimento do dedo por um instante. O silêncio dura só o suficiente para pesar.
— O jeito que seu implante estava. Não tem como ser outra coisa além de um ataque hacker. Só alguém com esse tipo de conhecimento causaria um dano daquele tipo.
— Você descobre as coisas bem rápido...
— Não precisa me contar nada, Bruna, você não tá aqui pra isso. — Ele finalmente abaixa o tablet um pouco, encarando ela por cima das lentes. — Mas tô nesse ramo há muito tempo pra saber que isso não é algo comum pra um Risco do seu nível. Posso presumir que você se enfiou onde não devia.
Bruna desvia o olhar por um breve momento, mas acaba voltando.
— Eu vou dar um jeito, Alef. Eu tenho que dar.
Alef sustenta o olhar dela por mais tempo dessa vez. Há algo ali, por trás da expressão dela, algo que nem ele mesmo consegue explicar. Não é só teimosia ou luta por sobrevivência. Um tipo de objetivo desconhecido, como se ela estivesse disposta a arriscar tudo por apenas um momento. Um momento que marcaria o nome dela na história. Ele já viu aquele olhar antes em outras pessoas, mas nenhum deles teve um final feliz.
O olhar dele se desloca por um segundo para um canto da clínica, onde peças antigas, implantes descartados descansam, antes de voltar para ela.
— Olha, não é muita coisa, mas é algo pra te ajudar daqui pra frente.
Bruna franziu levemente a testa.
— Do que tu tá falando?
— Tô com umas ópticas da VisuAll e um Vox Link de primeira geração. Um cliente veio aqui pra substituir eles por outros implantes de elite. Ele me vendeu, mas eu acabei não passando pra frente. Não é top de linha, mas ainda assim é uma boa cibernética.
Bruna respira fundo, hesitando.
— Parece legal, mas eu não tô podendo bancar um implante novo agora, Alef.
— Relaxa, se preocupa com isso depois. — Ele dá de ombros, como se dinheiro fosse o menor dos problemas naquele momento. — Por enquanto você só tem que se preocupar em resolver suas tretas e não deixar essa cidade passar por cima de você. Considere isso como um investimento, você me passa os algores depois.
Bruna aperta levemente os lábios.
— Desculpa, eu não posso aceitar. Já abusei muito da sua boa vontade vindo aqui sem dinheiro nenhum.
— Como eu disse, se preocupe com o dinheiro depois. Isso não é um presente, de qualquer forma — ele inclina levemente a cabeça. — Além disso, como você vai se envolver em mais missões e ganhar algores se não tem nenhum equipamento adequado?
As palavras ficam no ar por um momento.
— E aí, topa?!
Bruna tenta sustentar o olhar dele, mas falha. Seus olhos desviam, procurando qualquer ponto.
— Alef, eu... eu nem sei como agradecer...
— Não agradeça, apenas aceite — ele se levanta abruptamente, encerrando a discussão antes que ela possa recusar de novo. — Tudo bem, eu vou te pôr pra dormir agora. Quando você acordar, você vai estar nova em folha, entendeu?
Bruna respira fundo, como se finalmente cedesse.
— Entendi. — ela responde com um pequeno sorriso no rosto.
Alef se vira e vai até a mesa mais uma vez. Entre ferramentas e dispositivos, ele pega uma seringa já preparada. O líquido dentro dela é translúcido, quase imperceptível sob a luz fria. Ele retorna até a cadeira e, com cuidado, segura o braço dela e encontra uma veia. O toque é firme. A agulha entra. O líquido é empurrado para dentro da corrente sanguínea de forma lenta. Nos primeiros segundos, nada acontece. O corpo de Bruna começa a relaxar, os músculos cedendo como se um peso invisível fosse retirado deles. A luz acima dela perde definição, os contornos da sala se dissolvem aos poucos, monitores viram manchas, cabos se tornam sombras indistintas. Os olhos dela lutam para permanecer abertos por um instante… mas é inútil.
Bruna Lynes perde a consciência.