Isolados em um plano fora do tempo-espaço, encontram-se os seres da aurora da criação, que transcendem a compreensão e lógica, capazes de moldar e distorcerem a realidade sem esforço, como uma criança que molda montes de terra, eles vivem isolados da realidade convencional, pois caso tocassem outros planos, os mesmos colapsariam sob o peso de suas presenças.
Mas houve um instante em que quatro deles colidiram, e resquícios de seu embate ecoaram para além do véu. Galáxias se apagaram, estrelas se despedaçaram em cinzas, planetas colapsaram, leis e conceitos antes imutáveis se contorceram. O impacto não foi imediato, ele não destruiu tudo de uma vez. Ele se espalhou, silencioso, imperceptível, infiltrando-se nas engrenagens do destino, alterando caminhos, cruzando linhas que jamais deveriam se encontrar. Planetas e orbes inteiros, até mesmo outros planos, foram tocados por essa distorção, ainda que jamais viessem a compreendê-la.
Um desses planos era Tiryak.
Um universo onde a magia não era um milagre raro, mas uma verdade viva. Onde o impossível poderia se tornar real e caminhar lado a lado aos mortais, enquanto a própria realidade aceitava ser dobrada. Feras habitavam florestas e bosques, criaturas aladas cortavam os céus e montanhas respiravam Éter. Em Tiryak, o extraordinário não causava espanto. Ele fazia parte da ordem natural das coisas.
Foi nesse mundo, alheio às distorções que haviam se espalhado para além do véu, que o destino seguia seu curso. Por enquanto. Pois, quando as distorções finalmente alcançassem Tiryak, as vidas de três jovens seriam lançadas em uma trama caótica.
Em Tiryak, Século IX, ano de 914, na orbe de Samsyra, no Reino Aethernys, em uma humilde viela, vivia Gabriel, uma criança de 8 anos, extrovertida, com cabelos curtos e acobreado escuro, olhos verdes e um olhar vivo e irradiante, junto a seus pais, Kalchas, um homem de vinte e sete anos, cabelos compridos e loiro. preso em um coque simples, barba rala e profundos olhos azuis escuros, com os movimentos das pernas severamente comprometidos, por uma tragédia que ocorreu antes do nascimento de Gabriel, se locomovendo por uma cadeira com rodas improvisada por sua esposa e filho, que o ajudavam com tudo. E Astradamas, uma mulher alta de vinte e cinco anos, ruiva, sardenta e de olhos verdes e cansados. Junto a Gabriel, ela trabalhava para manter o sustento da família. Mesmo ainda sendo criança, Gabriel fazia pequenas entregas para ajudar em casa, já que seu pai permanecia acamado.
Até que, certa noite, Gabriel teve um sonho um tanto diferente, que julgou ser apenas um pesadelo.
“Hmmm?” — Gabriel olhava ao seu redor, mas enxergava apenas um vazio completamente negro. — “Eu não consigo me mover...” — Tentou falar, mas logo percebeu que não possuía uma boca.
Ao olhar para si mesmo, assustou-se ao ver o próprio corpo envolto em sombras. Elas não o machucavam, mas o mantinham completamente imóvel, enquanto seu corpo apenas pairava naquele vazio.
Gabriel tentou se mover desesperadamente, assustado com aquele estranho sonho. Chegou até mesmo a se forçar a acordar, mas nada adiantava. Nem sequer se beliscar funcionava.
“Aii... nem mesmo isso? Mas que porcaria de sonho é esse?” — Ele estava visivelmente assustado, seus olhos tremiam, e uma fina gota de suor escorreu por seu rosto.
Então, o breu diante dele se rasgou, revelando uma cena que ficaria gravada em sua memória para sempre como um trauma. Ao fundo, um ser envolto em uma escuridão que parecia consumir tudo ao seu redor. À sua frente, a silhueta de outro ser, de cabelos longos e corpo esbelto. Gabriel não conseguia identificar se aquela figura era humana ou não. Permaneceu paralisado, observando enquanto ela confrontava a escuridão.
Até que então, a escuridão voltou seus olhos para Gabriel, ele percebeu que sua presença havia sido notada.
Tentáculos de escuridão avançaram em sua direção, mas a silhueta os interceptou antes que pudessem alcançá-lo, cortando-os com um único movimento. Em seguida, voltou-se para Gabriel e estendeu a mão em sua direção e por um breve instante, a luz de um sol prestes a ser consumido pela escuridão revelou parte de seu rosto, mas no mesmo instante, Gabriel recobrou a consciência.
Acordando desnorteado e suando, onde permaneceu encarando o teto de sua casa durante longos minutos, e escolheu mantar o sonho em segredo de seus pais, por achar ser apenas um pesadelo, até olhar para baixo e notar que molhou suas roupas e a cama.
— Droga... — Resmungou ele.
Avisando a seus pais apenas que teve um pesadelo e acordou molhando a cama.
— Nessa idade e ainda molhando as calças Gabriel? — Seu pai respondeu em um tom neutro.
— Poxaaaaa. — Sua mãe resmungou. — Você vai me ajudar a lavar os lençóis e a trocar esse saco de palhas, se bem que já estava na hora de trocar ele...
Após ajudar sua mãe com a lavagem das roupas de cama e a fazerem um novo colchão, amarrando palha, feno e folhas secas e costurando os sacos para que cobrissem todo o enchimento, Gabriel saiu para brincar com um bando de crianças com quem fez amizade nas vielas, ele estava no portão de casa, calçando sua sandália, as crianças estavam o esperando do lado de fora, ele estava prestes a sair quando sua mãe o chamou.
— Gabriel, cuidado com as caixas velhas da loja do senhor Ramil. — Ela o alertou, com um grito gentil.
Gabriel soltou os ombros.
— Tá bom mãe! — Ele respondeu, saindo logo após se calçar.
Ele se juntou com um grupo de crianças que começaram a correr por entre os becos.
— Ei Gabriel, sua mãe é super protetora em. — Afirmou um dos meninos.
— Verdade, uma mãe babona. — Respondeu outro.
Logo após uma deles parou de correr e começou a encenar.
— Eu mesma serei tão forte quanto a heroína Kaelis! — afirmou uma das garotas, apoiando o pé sobre uma pedra e erguendo a mão para o alto, fazendo uma pose exagerada que arrancou risadas dos demais, mas ainda assim, todos a imitaram logo depois.
— Eu serei implacável como o Riven! — Declarou outro garoto, assumindo uma postura séria.
— Eu queria ser um curandeiro como a Amara... — Disse outro, fazendo uma pose mais tímida.
Um garoto surgiu sorrateiramente por trás dele.
— Então eu serei o Alastor! — Afirmou, cobrindo o rosto e olhando para os lados misteriosamente.
O maior de todos deu um passo à frente e estufou o peito.
— Então eu serei “A Muralha de Aethernys!”
— Muralha você já é, né? — Respondeu a garota.
Todos caíram na risada, e logo depois, começaram a correr uns atrás dos outros, imitando os heróis que admiravam. Após alguns instantes, porém, pararam e olharam para Gabriel.
— E você, Gabriel? — Perguntou a garota.
— Quem você pretende ser? — Acrescentou outro.
Todos voltaram sua atenção para ele. Gabriel permaneceu em silêncio por alguns segundos, concentrando-se para responder.
“Quem eu quero ser?... Hmmm, vejamos...”
A imagem de sua mãe veio à sua mente, junto às palavras que ela sempre dizia, que ele era único e especial.
— Já sei! — Afirmou ele.
Todos ficaram atentos, esperando sua resposta.
— Eu quero ser eu mesmo.
Todos se entreolharam, surpresos.
— Quero ser um herói que irá ultrapassar qualquer um dos outros seis.
As crianças começaram a rir, e Gabriel riu junto com elas.
— Você nunca vai me vencer, Gabriel. — A garota o provocou. — E nunca venceria a Kaelis. Nem em uma, dez ou cem vidas! — Ela virou o rosto e fez bico, mas não havia maldade alguma em sua provocação. Era apenas uma brincadeira infantil.
— Ou venceria o Riven? — Outro garoto perguntou, aproximando-se. — Eu ouvi histórias de que ele consegue acertar alguém a mais de vinte metros de distância e até ler a mente dos oponentes! — Ele começou a rodear Gabriel enquanto falava.
Gabriel apenas esticou o dedo e deu um peteleco em sua testa, fazendo-o cair sentado no chão.
— Ainda bem que você não é ele, então. Hehehe. — Gabriel estendeu a mão e o ajudou a se levantar.
Mas, por trás dele, outro menino surgiu silenciosamente.
— E você nunca venceria o sorrateiro Alastor! — Gritou, saltando sobre Gabriel.
Gabriel deu um passo para o lado, fazendo o garoto cair no chão.
— “Sorrateiro”... — respondeu Gabriel, com um sorriso irônico.
E todos voltaram a rir.
Logo depois, continuaram correndo por entre os becos até que, alguns minutos mais tarde, pararam diante de uma velha loja.
— Ei... mais a frente não é a loja do velho carniceiro Abil? — Perguntou um mais novo.
— É Ramil... — Gabriel o corrigiu, se lembrando do aviso de sua mãe.
Eles pararam de correr por um instante, e o maior dos meninos caminhou até o a frente da loja, e se virando para os demais.
— Quem for homem de verdade me siga. — Ele disparou na frente, e os demais foram atrás.
— Eeeii... eu sou uma garota! — Retrucou uma das crianças, que logo os acompanhou.
Gabriel hesitou por um instante, mas os seguiu.
E lá estavam as caixas de madeira que a mãe de Gabriel o alertou para tomar cuidado.
— Oh não. — O maior dentre eles começou. — As caixas são mesmo muito perigosas, eu posso me furar com uma farpa. — Ele provocava Gabriel, enquanto zombava de sua mãe. — Sua mãe é uma velha chata, isso sim. — Ele começou a chutar uma das caixas que estava que estavam empilhadas. — Viram?
Mas após algumas batidas nas caixas, uma delas se rompeu, e um felino selvagem e arisco surgiu e o atacou, as demais crianças recuaram assustadas, o animal o arranhou e o mordeu diversas vezes, até Gabriel bater com o ombro no animal, assim o afugentando, mas tendo seu braço arranhado no processo, a criatura encarou os demais, exibiu as presas e foi embora logo após,
— Aiiiii… que droga… — O garoto estava caído no chão, enquanto resmungava de dor, com lágrimas visíveis nos olhos, e diversos cortes superficiais.
— Bem que sua mãe disse em Gabriel. — Comentou o mais novo.
Os demais garotos riram baixo.
— Ei isso não tem graça. — O garoto machucado se levantou com dificuldades. — Gabriel você armou isso pra mim não é? Isso vai ter volta! — O garoto rugiu enquanto corria para casa mancando e com dificuldades.
— Cara o que deu nele? — Perguntou a menina.
— Eu não sei, mas acho que você deveria tomar cuidado Gabriel. — Respondeu outro.
Gabriel engoliu seco, e após algumas horas brincando, antes do anoitecer, Gabriel havia retornado para casa, onde sua mãe estava o esperando com lenços e uma pequena travessa de água.
— Eu não te avisei? — Perguntou com um olhar gentil, bufando em seguida.
Após cuidar de Gabriel, os três jantaram, e ao cair da noite todos estavam dormindo sobre o novo colchão de palha, Gabriel dormia esparramado em uma posição bem incomum, esparramado pela cama, com um pé sobre seu pai, que dormia igual uma pedra, e sua mãe, que estava com um sorriso sereno e calmo no rosto, ela o abraçava. Era uma noite tranquila, até que o garoto que foi atacado pelo felino anteriormente retornou, com um pedaço de pau nas mãos, visando vandalizar a casa de Gabriel.
— Agora vocês vão ver hehehe. — Ele ergueu o pedaço de madeira prestes a golpear, mas antes que pudesse, seus pais apareceram no escuro, segurando uma espécie de lamparina.
— Hector?! — Sua mãe exclamou, tentando manter o tom baixo para não acordar os vizinhos. — O que pensa que está fazendo?
Seu pai caminhou até ele nitidamente furioso.
— ORA SEU! — Ele puxou a madeira de suas mãos e o puxou pela orelha. — Você vai ver só viu. — Eles o arrastaram de volta até em casa, enquanto o repreendiam e o sentenciavam a diversos castigos.
A paz perdurou no reino de Aethernys até o ano de 920.
Gabriel estava prestes a completar quatorze anos quando um incidente ocorreu. Faltando apenas uma semana para seu aniversário. Sua mãe retornava para a casa, com alguns ingredientes para fazer um bolo para ele, e um presente, até que ao virar uma esquina, ela congelou por um instante, largando as compras no chão, se espantando com o que estava vendo.
Um portal surgiu a sua frente, e deles dezenas de goblins surgiam, no chão uma criança estava sendo brutalmente apunhalada pelos goblins, era Hector, ao olhar para a casa ao lado onde moravam, ela conseguiu ouvir os gritos de seus pais, junto a risos e sons graves dos goblins, ela tentou caminhar lentamente para trás, mas pisou no presente de Gabriel, uma espada de madeira, afinal era seu sonho se tornar um cavaleiro, a partindo no meio, o som chamou a atenção dos goblins, ao perceber Astradamas correu desviando o caminho para voltar para a casa, a visão de Hector, um garoto com quase a mesma idade de Gabriel sendo morto daquele jeito a sua frente a fez levar a mão ao peito, apertando onde fica seu coração, que batia violentamente desesperada.
— Onde estão os heróis? — Perguntou um morador nervoso, largando uma bacia com alimentos enquanto corria para sua casa.
Astradamas notou que o caos já havia se espalhado, todas as vielas já haviam sido invadida.
— Ouvi que estavam em uma missã… — Uma mulher estava prestes ao responder enquanto corria para a casa, até que uma flecha perfurou seu pescoço, ela caiu no chão agonizando enquanto engasgava com seu próprio sangue, até que um bando de goblins apareceu e começaram a mutilar e a devorar seu corpo.
— Mas que mer… — O homem caiu no chão, mas quando estava prestes a se levantar um enorme cutelo partiu o homem em dois, separando seu torso do resto do corpo.
Os goblins, estavam matando e destruindo tudo, mas Astradamas conseguiu chegar em casa, chutando alguns goblins no caminho, trancando a porta desesperada.
— Já voltou mãe? — Gabriel saiu de uma sala olhando para ela, mas se espantando com o seu semblante, roupas rasgadas e algumas escoriações. — Mãe! O que acont...
— Gabriel acorde o seu pai, a gente tem que fugir. AGORA! — Gabriel congelou por meio segundo com o estado da sua mãe, e aquelas palavras, mas ele o fez imediatamente, acordando seu pai e o levando para a cadeira de rodas.
Mas os goblins a farejaram e a seguiram, eles param em frente ao portão da casa de Gabriel, onde bateram violentamente em seu portão, Astradamas saiu de frente e foi para a cama onde Gabriel estava acordando seu pai.
— Mãe... — A voz de Gabriel tremia. — O que está acontecendo?
Kalchas finalmente acordou, sem entender o que estava acontecendo.
— Eu não sei ao certo. — Astradamas se levantou indo até a cozinha pegando uma faca e voltando para a frente de ambos. — Mas eu vi um portal se abrindo, e monstros saindo dele, e eles começaram a matar todos.
Gabriel congelou com o que havia ouvido, seu pai que já estava na cadeira de rodas pode apenas apertar as pernas, se sentindo um inútil, até que ele olhou para um armário de canto, onde uma comprida caixa estava guardada em seu topo.
— GABRIEL! A CAIXA NO TOPO DO ÁRM... — Antes que pudesse terminar, a porta foi arrombada, os goblins estavam amontoados um sobre o outro, de tanto se jogarem contra a porta.
Mas um deles se levantou e avançou contra Astradamas com uma adaga velha a cortando no braço.
— AST! — Kalchas gritou, fincando as unhas nas pernas com tanta força que sangraram.
Ela caiu no chão soltando a faca enquanto encarava o monstro a sua frente, mas Gabriel disparou pegando a faca do chão, a fincando na cabeça do goblin, que tentou revidar, mas Gabriel arrancou a adaga da mão dele e num movimento desesperado arrancou a sua cabeça, soltando a faca da cabeça do goblin, e chutando ele para a horda que já havia se levantado.
— Mãe!? — Gabriel se virou para Astradamas preocupado.
— E...eu estou bem. — Ela estava com o rosto baixo, estancando o corte em seu braço com um pedaço de suas roupas. — GABRIEL CUDIADO! — Ela gritou no segundo seguinte.
Ele se virou e mais dois goblins avançaram em sua direção, um com uma clava, e outro com um pedaço de madeira, Gabriel avançou contra o que segurava uma madeira, o chutando violentamente de volta para o bando, o fazendo cuspir sangue e fluidos, o portando a clava o atacou pelas costas, mas Gabriel esquivou, cortando sua mão, o fazendo largar a clava e a pegando logo após, esmagando sua cabeça com a mesma, manchando todo seu corpo com sangue.
Ao se levantar, Gabriel se virou para os demais goblins, enquanto limpava o sangue do rosto.
— Quem vem agora!? — Exclamou furioso.
Até que o solo começou a tremer levemente, e uma silhueta enorme passou pela janela, fazendo Gabriel e seus pais congelarem, e um orc surgir, ele tinha aproximadamente um metro e noventa, ele carregava uma enorme faca enferrujada como arma. Ele avançou para dentro, quebrando a entrada da porta e parou a frente dos três, os encarando, Gabriel que estava a frente de seus pais, que o abraçavam desesperados, o olho do orc emanou um púrpura profundo e logo após se dissipou.
O orc caminhou lentamente em suas direções, até que Gabriel se soltou e avançou em direção ao orc, que o golpeou com um soco no peito, o arremessando contra o armário e o destruindo no processo.
— GAB...! — Sua mãe tentou gritar, mas o orc a segurou pela boca, enquanto ria.
— ASTRADAMAS! — Seu pai exclamava furioso, tentando se levantar, mas caindo no processo, socando e arranhando as pernas do orc, que apenas o chutou contra a cama, o deixando inconsciente ao colidir contra a parede.
Gabriel apagou por alguns minutos, mas ao acordar viu a sua mãe sendo levada inconsciente pelo orc, enquanto seu pai estava desacordado no chão, com a cabeça escorrendo sangue. Gabriel se enfureceu e estava prestes a partir para cima do orc novamente, até que sua mão encostou em algo gelado, uma lâmina, dentro de uma caixa antiga que estava guardada em cima do armário, a mesma que seu pai tentou o avisar sobre.
A caixa estava semiaberta, e um feixe da luz reluziu no conteúdo dentro da caixa, Gabriel a abriu, encontrando uma espada estranha, a lâmina era um alaranjado escuro, quase como um sol apagado, ele não pensou duas vezes e a empunhou, e no mesmo instante a lâmina se acendeu por um breve momento, um dourado vívido, similar a labaredas solares, ele avançou em direção ao orc, e dessa vez ele acertou um corte, superficial, mas o suficiente para o afastar e fazer soltar sua mãe, que despertou com o impacto.
— Ga...briel? — Sua mãe murmurou desnorteada.
O orc se virou o viu empunhando uma espada com sangue escorrendo, enquanto sentia suas costas arderem, ele rugiu e ergueu a faca avançado em direção a Gabriel, que ajeitou sua postura momentaneamente, similar a um soldado, seus olhos faiscaram por um momento.
— Ooof... — Gabriel suspirou levemente.
O orc golpeou, mas Gabriel desviou no mesmo instante para atrás dele e golpeou, partindo o orc no meio, em um breve arco de chamas que se dissipou logo após, o torso do monstro caiu separado do corpo, sem uma gota de sangue, Gabriel caiu de joelhos, fincando a espada no chão logo após exausto, a lâmina voltou a se apagar lentamente, e Gabriel pareceu voltar ao normal.
— Gabriel...? — Sua mãe o chamou.
Ele se virou para ela.
— Mamãe. — Ele sorriu aliviado. — Você está bem... que bom. — Ele começou a chorar brevemente.
Kalchas acordou após alguns segundos.
— Gabriel... Astradamas... vocês... vocês estão bem? — Perguntou, ainda no chão, lutando para se rastejar até eles.
— Papai. — Ele correu em direção ao seu pai, para o ajudar, o apoiando nos ombros, e o colocando na cadeira de rodas para que pudessem fugir.
Astradamas se levantou, e foi os ajudar, eles se voltaram para a saída, mas os goblins ainda estavam lá, Gabriel colocou seu pai na cadeira, empunhou a espada novamente e caminhou a frente.
— Quem quer ser o próximo!? — Exclamou furioso.
Os goblins recuaram, Gabriel caminhou até a saída com cuidado, analisando a área, e confirmando que os corredores estavam limpos para poderem sair, sua mãe empurrava a Kalchas na cadeira até a saída, e eles começaram a fugir, olhando para o caos causado, a pilha de corpos desfigurados, o cheiro de carne queimada, até que Kalchas sentiu um arrepio.
— PAREM! — Gritou.
E a sua frente uma enorme criatura colidiu com o solo, formando uma enorme cratera, que ergueu uma cortina de poeira.
— Não pode ser... — Astradamas murmurou.
— Merda... Fiquem atrás de mim! — Gabriel ordenou
Um enorme orc de aproximadamente três metros e meio surgiu, com enormes presas inferiores, era o líder do bando, que carregava um enorme cutelo com diversas rachaduras e manchas vermelhas antigas, lembranças do terror e caos que causou, Gabriel fincou os pés no chão empunhando novamente a espada.
— GABRIEL... o quê pensa que está fazendo? — Seu pai perguntou.
— Mamãe... — Sua voz estava trêmula. — Leve o papai e fujam.
Astradamas estava paralisada.
— Ga... não... — Ela tentou dizer algo, mas as palavras não saiam.
Seu pé se moveu levemente, e logo após o outro, e ela começou a fugir enquanto levava Kalchas junto.
— Ast... o que pensa que está fazendo? — Kalchas perguntou confuso e furioso.
Ela não respondeu, apenas o olhou com os olhos cheios de lágrimas e acenou levemente para ele, que apertou as pernas uma vez mais enquanto mordia os lábios.
Gabriel avançou contra o orc, que repelia seus ataques apenas balançando o cutelo, enquanto gargalhava, ele cutucou o nariz no processo, atirando a sujeira no olho de Gabriel, que se desconcentrou por um instante, e no mesmo momento o orc avançou e socou no estômago e o chutou para cima.
Astradamas e Kalchas fugiam, até que seu pai se virou e viu seu filho no ar, despencando para algo incerto.
— E tudo o que eu posso fazer é assistir? Por que eu sou tão inútil? QUE DROGAAAAA!!! Não importa o resultado, o que importa é ... — Ele estava prestes a terminar a frase quando ambos viram uma silhueta ser arremessada por eles e colidir com uma parede.
Astradamas parou no mesmo instante, enquanto chorava e sua voz saia embargada.
— Ga...briel...
Ele estava inconsciente, seu rosto sangrava, alguns dentes foram quebrados, e sangue jorrava de sua cabeça, junto a espada que estava em sua mão, quase solta.
— FRACO! — Decretou o orc, com sua voz rouca, gargalhando, caminhando por entre seus pais, que estavam inertes.
— O quê? — Kalchas se espantou. — Gabriel...? — Murmurou, até que o orc o chutou para um monte de caixas de lixo, o fazendo ficar inconsciente novamente.
Sua mãe apenas caiu de joelhos, olhando para seu marido e filhos inconsciente, a beira da morte, e tudo o que pode fazer era chorar, até que o líder orc se aproximou e a nocauteou com um leve soco que deixou um filete de sangue escorrendo por seu rosto
— BWAHUAHAHUWA!
O orc caminhou até Gabriel, o pegou pelos cabelos, e começou a rir dele.
Então, algo estranho aconteceu. Pela primeira vez, uma onda de energia atravessou Tiryak fazendo diversos eventos estranhos ocorrerem por toda a orbe. Cachoeiras começaram a fluir ao contrário. Sementes germinaram, crescendo em árvores no mesmo segundo. Até mesmo a gravidade foi afetada, uma pedra que deveria atingir a cabeça de Kalchas teve sua trajetória alterada no instante seguinte, fazendo-o cair sobre os próprios escombros.
No mesmo instante Gabriel despertou abruptamente, ele cerrou o punho no cabo da espada, seus olhos voltaram a emanar labaredas, e a lâmina da espada se ascendeu uma vez mais, e ele perfurou o olho do orc, fazendo ele o soltar, Gabriel aproveitou esse instante para tentar cortar sua cabeça, mas foi chutado contra a parede novamente, Gabriel cuspiu sangue, e o orc pela primeira vez ergueu seu cutelo com a intenção de matar, Gabriel tentou bloquear o ataque com sua espada, mas teve seu braço e peito partidos em um único golpe.
"O quê?" — O corpo de Gabriel caiu ao chão desfalecendo aos poucos, enquanto o orc se virava indo em direção a sua mãe, enquanto provava o próprio sangue da ferida causada por Gabriel.
"Então eu vou morrer aqui? E meu pai... minha mãe? Alguém, por favor, salve eles, ajude eles, por favor” — A visão de Gabriel se turvava, e seus últimos pensamentos que vinham a sua mente era sobre a segurança de seus pais, enquanto seus olhos se fechavam.
— NÃO! — Gabriel gritou, abrindo os olhos, emanando uma aura de cor magenta e despertando, de forma inconsciente, algo que ele sequer compreendia: o Thyr e o Éter.
Seus ferimentos se fecharam por um breve momento, a dor havia desaparecido, e seus sentidos se tornaram mais aguçados por um breve instante, Gabriel subiu pelos escombros e pulou em cima do orc que se virou com o seu grito, usando a espada para decapitar o orc, mas a espada se prendeu na carne, o orc se debatia contra a parede para o tirar de cima dele, e sem muito esforço arrancando a espada.
— Eu não vou morrer aqui! E não vou deixar que machuque mais ninguém, e nem que leve minha mãe!— Gabriel exclamou.
Mas o orc o agarrou novamente, Gabriel apertou firme o braço do orc, o perfurando com os dedos, que estavam revestidos de uma aura carmim, mas o orc o esmagou contra o solo violentamente, fazendo sua visão escurecer lentamente.
— N…nã…o… — Ele murmurava enquanto o sangue escorria por sua vista e tossia sangue.
Ele se virou para o lado com o restante de força que tinha e viu sua mãe sendo carregada inconsciente, a cabeça sangrando, sendo levada pelo orc para um portal, ele tentou se rastejar, mas a ferida em seu peito voltou a se abrir, e a perda de sangue o enfraqueceu cada vez mais, até que a horda de goblins retornou furiosa, rindo, segurando diversas armas, eles avançaram, visando matar Gabriel e seu pai que estavam debilitados,
"Dro...ga...". — Sua visão se turvava mais, enquanto sua respiração falhava.
Um dos orcs saltou e tentou golpear com uma espécie de machadinha, enquanto alguns disparavam com flechas e facas, mas quando estavam prestes a o acertarem, todas congelaram no ar por um breve instante juntamente ao orc, que foi cortado ao meio no mesmo instante, Gabriel já não tinha forças nem para erguer a cabeça, e tudo o que pode fazer era olhar para os pés de uma figura que surgiu a sua frente, coberta por uma armadura.
— Seus malditos! — A pessoa misteriosa rugiu.
Gabriel piscou, e ao abrir os olhos novamente, não havia mais nenhum goblin de pé, toda a horda havia sido exterminada. Ele tentou erguer o rosto para enxergar quem estava diante dele, mas já não lhe restavam forças. Sua visão escureceu e, finalmente, Gabriel desabou em inconsciência.