Algumas horas após o ataque o reino de Aethernys aos poucos retornava ao normal, com alguns soldados e guardas reais ajudando com a reconstrução das vielas, e a remoção dos cadáveres das ruas.
— Hmm! — Um soldado notou uma perna soterrada em meio aos escombros.
Ele correu para tentar ajudar a pessoa que estava enterrada, hesitando por um segundo, ao notar o corpo de uma mulher, coberta por ferimentos e hematomas, ele tentou movê-la com cuidado, até notar que ela estava abraçando algo, ele a virou e percebeu um bebê em seus braços, envolto em uma manta. Seu coração apertou ao perceber o motivo pelo qual ela permanecera ali. Mesmo ferida, aquela mãe havia usado o próprio corpo para proteger o filho.
Suas pálpebras tremiam levemente, e em seus braços, apertando firmemente, seu bebê tossia devido a poeira inalada, o soldado notou no mesmo segundo.
— EIII! ACHEI UMA MÃE E FILHO AQUI, ALGUÉM ME AJUDA! — Exclamou por socorro. — Esses monstros malditos... — Murmurou socando o concreto do chão enfurecido, com lágrimas escorrendo por seus olhos.
Até que do alto uma figura envolta em luz surgiu com um cajado em mãos, envolvendo ambos mãe e filho em sua luz, curando as feridas da mãe no mesmo instante, enquanto a luz extraía toda a poeira de seus pulmões..
— Vo... você? — O soldado perguntou com um sorriso se formando em seu rosto.
Em outra viela, um grupo de soldados se esforçava para erguer escombros que estavam prendendo um casal de idosos.
— Mas que drogaaa! — Rugiu um deles.
— Força nesses braços! — Outro completou, fazendo tanta força para erguer uma parede caída sobre os idosos.
— Nem reforçando o meu corpo eu consigo mover totalmente essas paredes. — Disse outro
As paredes aos poucos começaram a se mover, mas não como o esperado.
As paredes cederam de uma única vez, esmagando a todos, os soldados e os idosos, até uma sombra enorme apareceu, e com um único braço ele sustentou toda a parede, e quando os destroços iriam cair nos demais ele pôs seu corpo a frente.
— A... a... — Um soldado tentou falar, mas não conseguia.
— A muralha... — Completou outor.
— De Aethernys... — Concluiu o terceiro.
Em outra rua os soldados tentavam remover os corpos dos goblins derrotados, mesmo que a invasão tenha durado menos de vinte minutos, cerca de cem deles conseguiram invadir, e mesmo que um terço deles tenha escapado graças ao portal do líder orc, os que restaram continuaram causando caos e destruição, até serem totalmente sobrepujados, restando um amontoado de corpos de goblins pelas vielas do reino.
— Mais que droga... tem muitos desses malditos pra gente desovar. — Um soldado proferiu, retorcendo o rosto ao olhar o goblin morto, o chutando para longe. — Vermes...
No mesmo instante o corpo do goblin começou a queimar em chamas negras, o soldado se espantou caindo no chão.
— Que droga é essa? — O soldado estava assustado. — Espera. — Ele começou a olhar a sua volta, e os cadáveres dos goblins, um a um foi entrando em combustão, nessa mesma chama negra.
Uma figura misteriosa com um grande chapéu e manto caminhava silenciosamente por entre os becos, envolvendo os corpos dos cidadãos em uma fina camada de sombra, os levando para o meio da cidade, enquanto a cada passo, mais e mais goblins eram incinerados, até seu olho passar por um escombro a frente, quase escondido, seu olhar cor de âmbar fitava algo escondido.
— Hmm... achei. — Uma sutil voz feminina afirmou.
E logo após diversos outros escombros próximos a ela começaram a queimar em chamas negras, revelando goblins escondidos, que urravam de dor, até que, do ponto em que a mulher encarava surgiu outro goblin, que começou a correr, junto a outros que também estavam escondidos em escombros próximos.
— Esses ai são com você novatinho. — Ela riu.
E o primeiro goblin que havia corrido parou de correr por um instante, enquanto se virava para trás, sua vista começou a despencar, sua cabeça estava no chão, decapitada, mas ele ainda conseguiu ver seu corpo tombando por um breve instante, e um após o outro, os demais goblins também foram caindo.
— Tsc... sua bruxa. — Outra voz em um tom mais rude surgiu por entre as sombras da viela.
— Eu "tenho" a mesma idade que você e sua irmã. — Ela bufou fazendo bico. — E não se esqueça com quem tá falando seu emo.
— Ahhhh. — Suspirou. — Me desculpe. — O rapaz se desculpou.
— Melhor assim, hehe, aliás... — Ela interrompeu a fala por um instante.
— Parece que ela vai demorar um pouco, ela é sempre assim né... — Deduziu o jovem
— Não, eu acho que ela deve estar vingando os civis, e o reino que foi atacado. — A mulher caminhou até o seu lado, olhando para as nuvens. — Alias você sempre toma as dores dos demais, afinal isso é ser a Heroína e um Pilar, não é... Kaelis?
Não muito distante de onde ocorreu os ataques, do lado exterior, um grupo de goblins e orcs que não conseguiram fugir pelo portal causavam mais alvoroço pelas estradas do reino, destruindo a vegetação e avançando para causar mais danos, eles se dividiram, dois orcs foram à procura de alimento, junto aos goblins, enquanto um dos orcs seguiu para o estábulo.
Encontrando os cavalos acuados, assustados, ele avançou com um sorriso malicioso no rosto, empunhando uma clava de metal coberta por espinhos manchados de vermelho, escurecidos com o tempo. Ele avançou até o meio do estábulo e então caminhou em direção a um dos cavalos, até que uma cortina de chamas surgiu a sua frente, o interceptando, e ao cessar, uma égua negra de seis patas e dois pares de olhos, surgindo delicadamente a frente do orc, como se tivesse deslizado a sua frente.
O orc bufou com desprezo e avançou para golpear, mas a égua apenas desapareceu no mesmo instante, o orc olhou para os lados, a procurando, apenas para logo sentir um corte em seu pulso, após outro em sua clavícula, olhando desesperado a sua volta, ele viu apenas um vulto negro se aproximando como um tornado feroz, que o envolveu, cada lâmina de vento cortava sua carne, e a égua continuava a correr, seus olhos inferiores brilhavam em branco, e os superiores em um carmim profundo, onde ela bufou, e o tornado começou a queimar, erguendo uma torrente de chamas nos céus, derrotando o orc sem dificuldade alguma.
Após ela parar de correr, os restos carbonizados do orc caíram a sua frente, onde ela apenas bateu o casco no chão e retornou ao seu estábulo para descansar.
Os demais orcs e goblins seguiram para os bosques ao fundo, onde os gados e demais animais eram criados. Eles destruíram a cerca e forçaram entrada, mas encontrando de frente o cuidador dos animais, que assim que os viu saiu correndo para pegar uma arma dentro da cabana, após alguns segundos ele saiu com um ancinho, os dois orcs pararam e se entreolharam, começando a rir, um deles deu um passo a frente e apontou para o próprio peito, o homem suou frio, mas o orc continuou, pedindo para que ele o espetasse, e assim o homem o fez, e desferiu uma estocada desleixada, que furou pouco menos de três centímetros do seu peito, e devido a força usada de maneira errada, o cabo do ancinho se partiu, jogando o rapaz no chão, o orc riu erguendo sua arma, um enorme facão serrilhado, também marcado por um vermelho antigo. Mas quando estava prestes a desferir um golpe no homem, o seu braço caiu no chão, enquanto o seu sangue jorrava pelo pasto, ele recuou tentando tampar o ferimento, até olhar para a sua frente, e surgir a silhueta de uma armadura em sua frente.
— Vocês pagarão caro pelo o que fizeram com este reino! — A voz da armadura proferiu, com um tom ameaçador.
O segundo orc tentou atacar, mas um corte na horizontal o atingiu em cheio, separando seu tronco do corpo, o fazendo cair morto instantaneamente, os goblins que os acompanhavam se dissiparam fugindo desesperados, mas a pessoa de armadura apenas ergueu levemente a espada.
"Um, dois, três... vinte e três." — Ela ergueu a espada. — Sentire.
Suas pupilas assumiram uma coloração ciana, enquanto seus olhos percorriam o campo à sua frente. Cada goblin, cada movimento, cada posição, nenhum deles escapava de sua percepção, e nem do que iria acontecer a seguir.
— Impetus. — A lâmina de sua espada assumiu um intenso brilho vermelho.
E por um instante, Kaelis permaneceu imóvel, e após um único goblin piscar ela desapareceu, e com um único movimento, um único golpe.
— Cor Venator.
O som de sua voz mal havia terminado quando Kaelis surgiu do outro lado do campo.
Os goblins permaneceram imóveis por um breve instante, como se sequer tivessem compreendido o que havia acontecido. E então, um após o outro, seus corpos tombaram sobre a grama. Cada golpe havia encontrado exatamente o mesmo ponto. Seus corações.
Kaelis girou a espada uma única vez, retirando o sangue da lâmina antes de baixá-la lentamente. Seu olhar continuava frio, fixo na direção em que os invasores haviam fugido.
— Vocês pagaram pouco pelo que fizeram... — Murmurou.
Alguns dias após o ataque, o reino aparentava ter retornado ao que era antes, as vielas estavam reconstruídas, mesmo que muitas das casas estivessem vazias, sem seus moradores, o olhar dos cidadãos agora apresentava um medo, um vazio.
Dentro do castelo, no grande salão, uma sala ampla, uma enorme lareira ao fundo, com uma enorme mesa ao meio, com diversas cadeiras ao seu redor, com um trono ao fundo, algo era debatido.
— Como essas criaturas invadiram o nosso reino e causaram tantas mortes? — Um homem alto com armadura e diversas condecorações no peito questionava furioso.
Sentado a mesa, onde se deliciava com um banquete, um nobre militar pousava os talheres e limpava a boca antes de o responder, um jovem de cabelos castanhos claros médios e ondulados e olhos azuis.
— As vielas do lado leste eram incontroláveis, eu diria que veio em boa hora essa invasão, mas eu sinto uma certa pena do lado oeste, era divertido ver como se esforçavam para continuar na lama. — O nobre soltou uma risada curta.
Os demais que estavam a mesa permaneceram em silencio com a declaração do nobre, que notou os olhares.
— O que é? É brincadeiraa. — Ironizou ele.
O militar que estava de pé no início caminhou até o lado dele na mesa.
— Você é desprezível Balz, mesmo possuindo o nome Pendragon, você não passa de uma víbora. — Afirmou.
O olhar de Balz se tornou frio, junto a uma expressão de ódio.
— Cuidado como fala comigo Ravhan. — Balz o aconselhou. — Você é só um ninguém sem nome, escória!
Ravhan o encarava, deixando escapar alguns resíduos de cinzas, enquanto Balz batia com o dedo no carvalho da mesa repetidas vezes, e ele aparecia corroído, e antes que algo pudesse vir a acontecer, uma voz atravessou todo o salão.
— Basta! — A voz reverberou por todo o salão. — Limbus!
O som da palavra pareceu atravessar o ambiente como uma onda invisível.
Por um instante, tudo ficou estranhamente silencioso. A tensão que pairava sobre a mesa pareceu perder força. Ravhan parou, enquanto Balz deixou de bater o dedo contra a madeira. Até mesmo os demais nobres permaneceram imóveis, como se alguma coisa tivesse colocado um peso sobre seus corpos e suas intenções.
Então, vindo do fundo do salão, passos firmes ecoaram pelo mármore.
— Já chega dessa discussão.
O rei havia se levantado de seu trono. Aos aproximados quarenta e cinco anos, carregava no rosto as marcas discretas de uma vida dedicada ao reino. Seus olhos eram profundos e firmes, contrastando com os cabelos e a barba completamente brancos, presos em um simples coque. Sobre a cabeça repousava uma coroa de aparência sóbria, enquanto um longo manto azul-escuro envolvia seu corpo, adornado por uma espessa pelugem branca nas extremidades superiores e inferiores.
— Contenha essa língua e esse comportamento, Balz! — Ordenou, fazendo sua voz ecoar por todo o salão. — Não pense nem por um instante que, por ser o meu sucessor, você tem o direito de falar do meu povo dessa maneira.
Balz perdeu o sorriso, enquanto isso Uther desceu um dos degraus do trono, mantendo os olhos fixos nele.
— Profira tais palavras novamente... — Sua voz tornou-se baixa e pesada. — E a linhagem Pendragon acaba em você.
O salão mergulhou em silêncio.
— Respondendo a sua pergunta anteriormente General Ravhan. — O ambiente retornou ao normal. — Isso é óbvio. — Em um profundo e completo silêncio, o único som que pairava no ar era o crepitar da lareira. — Há traidores no reino. — O rei afirmou com absoluta certeza.
Uma semana após o ataque, em uma área hospitalar dentro do castelo, diversos quartos e macas ainda estavam ocupadas, pessoas enfaixadas e sendo tratadas, e em um desses quartos estava Gabriel que permaneceu em coma desde o ataque finalmente despertou.
Gabriel abria os olhos pela primeira vez, ainda com dificuldades, com a forte luz incomodando seus olhos.
— Onde... eu estou? — Gabriel se perguntou desnorteado e um pouco tonto, olhando à sua volta, seu corpo estava envolto em bandagens, mas ele não conseguia se mover livremente.
Ele se viu em um lugar mais chique, com macas, vitrais, reparando também que estava com boa parte do corpo enfaixados. Uma enfermeira que fazia a ronda assistencial notou um discreto movimento na maca e foi olhar mais de perto, no fim percebendo que ele havia desperto.
— Ai meus Astros. — A enfermeira derrubou uma prancheta que tinha em mãos, e saiu do quarto imediatamente, eufórica.
"O que... foi isso?" — Gabriel questionava sem entender.
Em menos de um minuto a enfermeira retornou, acompanhada por um grupo de estranhos para Gabriel.
— Finalmente você acordou em. — Afirmou uma voz feminina, com o tom firme.
Ao erguer o rosto para ver de quem era a voz, ele se deparou com Kaelis, uma mulher com músculos visíveis mas discretos, cabelos vermelhos na altura do ombro, diversas cicatrizes espalhadas por seu corpo, mas nenhuma tão perceptível, olhos dourados e firme. Conhecida como O Pilar do Reino de Aethernys e heroína mais forte do continente, que estava acompanhada dos demais heróis do reino.
— Foi bastante imprudente o que você fez, por sorte a senhorita Kaelis e os demais heróis estavam retornando de uma missão e logo notaram algo errado e correram para meio ao caos. — Advertiu a enfermeira.
— Mas foi um feito e tanto enfrentar goblins e um orc, parabéns. — Uma voz feminina e gentil o parabenizou.
Era Lilith, aproximadamente vinte e um anos, uma jovem mulher de longos cabelos negros e pele morena, usando um enorme chapéu pontudo, junto a um manto negro com alguns frascos presos em si, pupilas elípticas e olhos cor de âmbar, uma maga, com a alcunha de Éter Vivo.
— Ei garoto, foi muito arriscado o que você fez sabia? Mas pelo menos você saiu vivo, sinta-se feliz e orgulhoso disso. — Gargalhou uma voz mais velha e um tanto rouca, caminhando até ele dando um tapinha em seu ombro, o fazendo suspirar levemente de dor. — Ah, sinto muito, eu sou meio desleixado.
Aeron, quarenta e oito anos, um homem alto, musculoso, cabelos grisalhos e curto, e uma cicatriz em sua sombrancelha direita, que se estende até a bochecha, o tanque da equipe, conhecido como A Muralha de Aethernys.
— É realmente surpreendente saber que você conseguiu não só derrotar aqueles goblins, como ainda conseguiu ferir um orc. — Uma voz mais descontraída surgiu por de trás de um outro membro.
Os gêmeos, vinte e um anos, Alastor um rapaz alto, de cabelos pretos, um olhar apático e cinza, sem brilho, conhecido como Artesão da Morte, e sua irmã Amara uma jovem alta, com longos cabelos loiro com as pontas brancas, olhos grandes e azuis cristalinos como o mar, junto a um sorriso doce, a curandeira do grupo, com alcunha de A Santa Iluminada, que rivalizava em Éter com Lilith.
Gabriel ainda desnorteado olhava ao seu redor continuamente, ele havia ouvido todos os elogios, mas a sua atenção estava voltada para outra coisa, como quem procurasse por algo, ou alguém desesperadamente.
— Mã…mãe... papai? — Sussurrou.
Após alguns segundos um homem entrou correndo no quarto em que Gabriel estava de repouso, parando em pé ofegante, enquanto se apoiava na porta.
— Arf... arf... Gabriel? — Arfou o homem exausto, era Kalchas, seu pai.
— Pa…pai? O senhor está andando? — Gabriel estava surpreso.
Amara deu um passo à frente.
— Ele está usando uma prótese Arc-Mech. — Revelou. — Um exoesqueleto acoplado a sua coluna, que se expandiu até sua medula e tronco, o permitindo voltar a se mover livremente, sendo alimentada pelo próprio Éter dele. — Amara explicou. — Eu me ofereci para tratar do seu pai após o incidente, mesmo estando em um estado sério, ele não parava de falar e perguntar sobre você, e eu queria que no reencontro de vocês, ele pudesse te abraçar com toda a sua força — Expressou ela.
Kalchas correu em direção a Gabriel, o abraçando firmemente, como nunca antes, enquanto chorava.
— Meu filho... eu achei que tivesse perdido você. — Kalchas desabava em lágrimas. — Graças aos astros... você está bem...
Gabriel estava estático ainda digerindo a informação, mas retribuiu o abraço em seguida, mesmo com dificuldades . Mas após alguns minutos, Gabriel se afastou do pai, com uma expressão um tanto apática.
— Papai... onde está a mamãe? — Perguntou.
Kalchas hesitou, não o respondeu de imediato, ele apenas virou o rosto.
— Eu... — Ele tentou responder, mas não conseguiu.
Todos no quarto ficaram em silêncio por um breve momento.
— Não achamos sua mãe. — Respondeu Lilith.
— Ela deve estar viva, afinal ela não estava entre os corpos dos demais cidadãos. — Alastor afirmou a fundo.
— Ei seu grosso, cuidado com as palavras, seja mais sensível. — Amara o repreendeu, dando soquinhos nele.
— Mamãe… — Gabriel murmurou, e antes que pudesse notar as lágrimas começaram a rolar por seu rosto, ele apertou seu braço com tanta força que fez seus pontos se abrirem e a ferida voltar a sangrar.
Seu pai o abraçou fortemente.
— Vai ficar tudo bem filho, eu estava conversando com Kaelis e os demais, e eles acham que sua mãe ainda esteja viva. — Ele tentou o acalmar.
Gabriel ergueu o olhar para ele, se virando para Kaelis e os outros heróis.
— Ela está viva? — Perguntou.
— Com base no que temos pesquisado... — Lilith começou, cruzando os braços enquanto seu semblante perdia o tom descontraído de antes. — Não acreditamos que sua mãe seja a única.
Gabriel franziu o cenho.
— Como assim?
Lilith respirou fundo antes de continuar.
— Desde o ataque, começamos a investigar o desaparecimento de alguns civis. Inicialmente, acreditávamos que muitas das pessoas levadas pelos monstros haviam sido simplesmente mortas durante as invasões, mas encontramos algo estranho.
Ela retirou um pequeno pergaminho de dentro de seu manto e o abriu sobre uma das mesas próximas, mas ela percebeu que Gabriel não conseguia manter seu tronco erguido por muito tempo, então projetou todo o conteúdo do pergaminho para que ele pudesse ver deitado na maca.
— Não aconteceu apenas aqui, em Aethernys, outros reinos relataram desaparecimentos semelhantes nas últimas semanas, mulheres estão desaparecendo de vilas, cidades e até regiões protegidas. E existe algo em comum entre a maioria delas. — Gabriel permaneceu em silêncio, encarando o pergaminho. — Elas são mães.
O garoto arregalou os olhos.
— Mães...?
— Sim. — Lilith assentiu. — Até agora, conseguimos confirmar aproximadamente cinquenta e três desaparecimentos que seguem o mesmo padrão.
Kaelis permaneceu séria, enquanto Amara desviava o olhar.
— Cinquenta e três... — Gabriel repetiu, quase sem voz.
— E foi quando encontramos o esconderijo deles que tudo ficou ainda pior. — Lilith moveu os dedos e o pergaminho começou a se fechar sobre a mesa, encerrando as projeções. — Descobrimos um ninho de monstros abandonado, havia dezenas deles, mas o mais importante não eram as criaturas.
Ela retirou alguns papéis antigos de dentro do manto e os colocou sobre a mesa, projetando-os novamente.
— Grimórios. Pergaminhos. Registros escritos em uma linguagem que ainda estamos tentando compreender, mas alguns falavam sobre Éter, outros sobre rituais e... sacrifícios.
Gabriel sentiu o estômago apertar.
— Sacrifícios?
— Sim. — Lilith respondeu, agora sem qualquer traço de humor. — E acreditamos que essas mulheres foram levadas para isso.
— Então... minha mãe...
— Ainda não sabemos onde ela está. — Kaelis interrompeu, mantendo o olhar firme sobre Gabriel. — Mas temos motivos para acreditar que ela está entre elas.
Gabriel apertou os lençóis com as mãos.
— E o que eles querem fazendo isso?
Lilith ficou em silêncio por alguns segundos.
— Ainda não sabemos.
Ela pegou um dos pergaminhos e o sobrepôs à mesa, projetando um símbolo desenhado no centro.
— Mas descobrimos onde pretendem realizar o ritual.
Gabriel levantou lentamente os olhos.
— Onde?
Lilith encarou o garoto.
— Existe uma região bastante distante daqui onde o véu que separa os planos é... mais fino.
O quarto ficou em silêncio.
— Se estivermos certos, eles pretendem levar todas essas mulheres até lá e utilizar suas vidas como parte de um ritual.
Gabriel sentiu um arrepio percorrer o corpo.
— Para quê?
Lilith fechou os olhos por um instante.
— Para abrir alguma coisa.
— Uma porta?
— Provavelmente.
Kaelis cruzou os braços.
— Um portal.
Gabriel permaneceu imóvel.
— Para onde?
Lilith olhou novamente para o pergaminho.
— É isso que ainda não conseguimos descobrir.
Por alguns segundos, ninguém disse nada, e então Lilith acrescentou, em um tom muito mais sério.
— Mas uma coisa é certa, Gabriel, seja lá o que estiver do outro lado... eles estão se preparando para trazer alguma coisa para este mundo.
— E aparentemente, sua mãe será mantida viva em até aproximadamente seis meses.
Gabriel ergueu os olhos.
— Seis meses?
— Sim. E, segundo os registros que encontramos, o ritual precisa ser realizado exatamente em seis meses, devido ao eclipse que aconteceria. Não sabemos por quê, mas o alinhamento entre o Sol, a Lua, junto aquele ponto específico parece ser essencial para abrir o portal.
Gabriel parou de chorar, mas seu olhar estava sério, determinado.
— Por favor, salvem minha mãe! — Ele pediu, com os olhos ainda marejados, e a voz tremulando.
Kaelis recuou para fora do quarto e chamou os demais heróis, se juntando com eles do lado de fora do quarto hospitalar após ouvir o pedido de Gabriel.
— O que me diz Alastor? Você também sentiu... não sentiu? — Perguntou Kaelis.
— Sim, definitivamente ele emana resquícios de Thyr. — Afirmou Alastor.
— Nessa idade, com apenas 14 anos despertando isso, deve ter sido muita força de vontade e desejo de proteger seus pais. — Deduziu Aeron.
Kaelis pensou bastante durante um longo tempo, e após alguns minutos debatendo com os demais eles retornaram ao quarto e se dirigiram até Gabriel e seu pai.
— Gabriel, pode parecer algo repentino, e você ainda está se recuperando e provavelmente traumatizado, mas o que me diz de se tornar um aventureiro, bom… um aprendiz, para ser mais exato, se juntando ao nosso grupo? — Kaelis perguntou, com um certo receio.