Bem, por onde começo? Afinal, são meus incríveis pensamentos. Devo iniciar com uma frase marcante, que seja inesquecível e incomum, algo nada genérico. Já sei!
Era uma vez…
Num lugarzinho tranquilo e pacato, lindo para se viver, chamado de Floresta do Pesadelo da Morte Sangrenta.
Lá estava eu, à margem dum lago calmo. A pescaria estava muito fraca… até aquele momento, só tinha pegado seis piranhas, três tubarões e dez jacarés.
E entre um suspiro e outro… o doce canto dos pássaros gritando em agonia fazia minhas pálpebras pesarem e o agradável aroma do ar venenoso acariciava minhas narinas.
No auge do meu tédio, surgiram seis demônios por entre as simpáticas árvores negras de rostos humanos contorcidos em desespero.
Pensa numa galerinha gente boa. Vieram me chamar para um intercâmbio, conhecer novos lugares, interagir com novas pessoas... coisa comum de um bom turismo. Teria apenas um preço simbólico, nada muito grande: ajudar a conquistar um continente cheio de heróis lendários.
Não era como se tivesse algo melhor para fazer mesmo, então… fui com eles.
A partir daí, os dias seguiram divertidos. Os lugares que visitamos eram lindos. A visão das aldeias queimando e das fortalezas destruídas... que passeio maravilhoso.
A interação com novas pessoas então? Uma beleza. Todo mundo reunido em campo aberto, um grande piquenique com tendas armadas, gente comendo, conversando e afiando lâminas.
Depois vinha a recreação, correndo sobre a grama rasteira ao caloroso som de “mate todos”. A amizade é mesmo uma coisa linda.
Agora, preciso falar do meu melhor amigo. Diante de um grande exército, ele se apresentou com timidez.
— Demônio asqueroso, grave meu nome em sua mente! Me chamo Morgan, aquele que irá te matar!
Nossa amizade começou com doces palavras. Ele era bem forte. Já tinha uma idade avançada, mas lutava bem para alguém tão velho. Passamos incontáveis dias de diversão juntos.
Eu lançava algumas magias pequenas, coisa boba, daquelas que explodem centenas de soldados de uma só vez. Ele, com sua tal “Espada do Herói”, soltava umas rajadinhas de energia que cortavam o campo de batalha de um lado ao outro.
Os dias passaram rápido em meio à diversão, mas nada dura para sempre. No fim, o continente foi conquistado e voltei ao meu tédio.
Ah, e o espadachim velho, meu tímido amigo... ainda troco calorosas cartas com ele: doces ameaças. Ele sempre escreve que um dia ainda vai me matar.
Pensando bem, aquela espada é interessante. Quem a empunha vive para sempre, o azar dele foi tê-la pegado quando era velho. Quer dizer... ele ainda é velho.
O tempo passou rápido depois que a guerra acabou, muita coisa mudou. Os caras que me chamaram para dominar o continente agora administram seus próprios territórios. Eu mesmo moro num aconchegante castelo sombrio, um lugarzinho bem agradável para se viver, diga-se de passagem.
Ficamos conhecidos como “Os Reis Demônios”, popularmente chamados de escória, malditos e desgramônios. Só adjetivos carinhosos, esse último eu não entendo muito bem. A garotada gosta de abreviar tudo, humanos são bem criativos.
Não sei como funciona nos outros territórios, mas administro o meu como qualquer bom governante: fico de bobeira enquanto meus subordinados fazem o resto e dou o ar da graça de vez em quando, mais ou menos uma vez a cada quatro anos.
Até tentei aumentar os impostos, mas sou sempre barrado pelo homem que escolhi para ser meu conselheiro. Poderia simplesmente ignorar e fazer o que quero?
Poderia.
Mas, melhor não. Tive uma experiência ruim com o primeiro que coloquei neste cargo. Não tínhamos dinheiro nem para construir um simples coliseu de ouro maciço enfeitado com diamantes, então precisei demiti-lo. Quando o atual assumiu, as coisas melhoraram muito.
Ele não deixou o coliseu ser de ouro, mas pelo menos a construção ficou de pé.
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Peraí, uuuuh! Esse espelho na minha frente é bem conveniente. Consigo ver coisas do meu passado que nem estava vendo naquele momento. Legal!
Tá, vamos ao que interessa. Estava devendo uma história para um certo alguém chamado Caronte. É claro que a mais interessante seria a minha. Como esqueci de fazer a introdução básica, vamos lá.
Arcania, um mundo cheio de magia, heróis e os temidos Reis Demônios. O continente Agnis foi conquistado e… chega disso, já fiquei entediado. Vou partir logo para a ação.
Eu morava num pequeno castelo, daqueles com torres que beiram a encostar nas nuvens. O ar sinistro à volta dava um toque especial, acho que graças às caveiras na parede, sou um ótimo decorador.
O corredor do meu quarto, pintei de vermelho, claro que para realçar a cor dos meus olhos. E lá estava o musculoso velho de cara fechada indo até mim. Parou frente ao meu cômodo e leu uma placa escrita com muito carinho.
“Não perturbe, a não ser que seja meu fofo e ranzinza amigão, bjs.”
Estreitou os gentis olhos âmbar antes de esmurrar a placa. A porta saiu voando, atravessou a sacada e caiu na entrada do castelo. Achei uma maneira inusitada de abrir uma porta, mas não falei nada. Cada um com sua religião, né?
Ali no meio do quarto, eu estava deitado no meu confortável sofá de seda — de barriga para baixo, movendo as pernas feito uma garotinha — concentrado em meu diário, até cair a ficha.
Peraí! Portas não saem voando sozinhas. Eu acho.
Movendo meus cabelos negros entre os chifres pontudos, virei minha atenção ao invasor.
Olha se não é meu amigão. Deve ter vindo me dizer belas palavras.
— Desgraçado, já falei para parar com essas cartas. — Joga um envelope no chão, pisa e cerra o pé.
— Por que está tão irritado? Trocar cartas é um gesto de amizade.
— Eu sou a porcaria do seu Conselheiro, meu quarto é do lado do seu. Não faz sentido ficar enfiando esses envelopes por debaixo da porta.
Ajeitando os cotovelos no sofá, apoiei o rosto nas palmas das mãos e, com a expressão mais inocente do mundo, estendi o braço segurando um pacote.
— Meu grande melhor amigo Morgan. Quer uma pipoca?
— Molengar! Já falei para não comer em cima desse sofá caro!!! — A recusa do ex-herói foi na forma de grãos espalhados pelo chão.
Como um bom Rei faria, desviei o olhar para o lado, claramente para não denunciar que iria apenas ignorar o aviso. O velho suspirou colocando uma mão na cintura e a outra sobre o rosto.
— Enfim, vim por outro motivo. O que você está fazendo agora?
— Escrevendo em meu diário, só que por algum motivo, ele está temperamental hoje.
— Quê? Isso aí é o Grimório dos Afogados. Está contando da sua vida para os mortos?
— Aaaah, bem, hehe. — Fechei o caderno de capa negra que sussurrava de maneira nada assustadora.
— Hehe o caramba. Deixa isso para lá, acabei de receber uma informação do mascarado, nosso espião. — Ele cruzou os braços. — As outras regiões estão comprando grandes quantidades de ferro e madeira.
— Talvez só queiram construir uma ponte ou alguma coisa assim.
— Metal é usado para forjar armas. Já a madeira, na fabricação de catapultas e aríetes.
— Entendi... quer dizer que estão se preparando para uma guerra?
— Sim. Imaginamos que seja uma corrida armamentista.
— Não que isso me importe. Se os outros Reis quiserem guerrear entre si, não me afeta em nada. — Virei para o lado enquanto coçava o traseiro, sem demonstrar o mínimo interesse.
— Presta atenção, como somos a nação mais rica...
Minhas orelhas literalmente se moveram na direção de Morgan, que continuou…
— Provavelmente, seremos o principal alvo dos ataques. Vão querer nos invadir e saquear nossos recursos. Se a guerra estourar, estruturas podem sofrer avarias…
Meu Coliseu está em perigo!?
— Terei que diminuir os gastos do castelo. Ou seja, corte em regalias…
Nããão! Meu sorvete de pistache sabor verão doce!!
— Teremos várias reuniões e intensas batalhas. Seu tempo ficará lotado…
Meu precioso momento com meus amigos… quer dizer, escrevendo em meu diário!!! Aí já é demais.
— Essa guerra pode durar anos, talvez décadas... Huum? Por que você está vestindo seu casaco?
— Vou ali deitar uns Reis na porrada. Você viu meu chicote por aí? É o jeito mais fácil de lidar com a Lilith.
— Você não pode ir. Sem a nossa maior força, ficaríamos expostos.
Sentei desabando no sofá, apoiei os cotovelos sobre as pernas e cruzando os dedos frente à boca, pensei seriamente sobre esse assunto.
Droga! Tem razão, nossa região é a central. Estrategicamente falando, se me mover para atacar um deles, os outros podem invadir em pinça.
Posso até reconquistar os territórios tomados, mas o abalo econômico ainda assim será enorme.
Terei que priorizar os locais de maior importância, ou seja, posso começar atacando Gular. Assim, evito que ele invada Sorvelândia, a cidade que produz meu precioso sorvete de pistache sabor verão doce.
Esse mal tem que ser cortado pela raiz, tudo pelo bem da minha diversão e seus “sinônimos”.
Posso pensar também numa alternativa mais segura.
Rei Demônio... um equivalente oposto... Herói. Huuuum... Herói? Aaah! Tem um bem na minha frente agora. Vamos nessa, vou fazer uma cara de sério escondendo qualquer sorriso malicioso.
— Morgaaaan, me faz um favorzinho... faz? Nunca te pedi nada.
Morgan fez cara de paisagem, entrando em suas memórias.
‘Morgan, me faz um favorzinho? Monstros estão atacando as carruagens que trazem meu sorvete. Se livra deles.’
‘Morgan, me faz um favorzinho? Estão demorando demais para trazer as rochas da construção do Coliseu. Essa sua espada é bem afiada, né?’
‘Morgan, me faz um favorzinho. Coça minhas costas. Não alcanço.’
Essa última era bem importante, pensa numa coceirinha chata aquela.
— Já imagino o que você quer, e a resposta é não. Como portador dessa espada, sou forte. Mas, por ser velho, tenho limitações.
Droga, e lá se vai minha última esperança, literalmente a última. Todos os heróis que ainda existiam morreram durante a guerra, achar um por aí é impossível.
Seria tão mais fácil se desse para criar um… herói... huuuuum...
Virei a cabeça lentamente rumo ao velho, como se estivesse possuído por um demônio.
— Molengar!!! Não estou gostando desse seu sorrisinho. Da última vez que fez essa cara, foi quando teve a brilhante ideia de fazer um resort em um lago que diziam ser amaldiçoado e acabou libertando um espírito maligno. Depois tive que limpar sua bagunça.
— Que isso, no final deu tudo certo. Até dei um jeito no espírito.
Ele caminhou em passos largos, atravessando o quarto. Diante de um guarda-roupa emitindo uma aura sombria, lentamente foi abrindo a porta… uma figura de longos cabelos negros, vestido branco e nenhum rosto, fofamente acenava para nós.
— Você não resolveu. Só a prendeu no seu armário.
— Eu falei que dei um jeito, não que a resolução foi perfeita. Enfim, você viu minha tímida sobrinha por aí?
— Para que precisa da Alma?
— Vou tirar umas férias.
— Comigo aqui, seu trabalho é tirar férias. No que exatamente você está pensando!?
— Digamos que, durante um tempo, vou sair da minha zona de conforto... para depois me jogar de cabeça de volta nela.
Morgan expressou desaprovação. Não é preciso sequer ler sua mente para saber no que está pensando.
Tenho um mau pressentimento.
Uuuuh! Legal, esse espelho tem a função de legenda mental.
Bem, e foi assim que meu plano maligno de criar um Herói começou. Logo daria início às férias do rei demônio, mas antes, tive que dar uma passadinha na capital da coroa. Começando essa jornada num desagradável beco…
Epílogo: Querido diário…
Durante a guerra, fiz um amigo bem simpático. Nunca vi o rosto dele, porque vivia de máscara, mas aparecia com frequência para me surpreender.
Nossa relação era muito saudável: ele chegava por trás tentando me surpreender com um golpe de adaga. Atencioso da parte dele. Eu desviava já me virando e dizendo: “Haha, é você mascarado”, e logo tacava uma magia.
Era rápido, sorrateiro e sempre escapava.
Tentávamos nos matar, sempre na esportiva. Uma noite, ele veio me visitar… suas mãos vieram secas em minha garganta. Até percebi ele ali, mas estava com tanto sono que, no reflexo de quem só queria voltar a dormir, acertei nele um tapa bem leve.
Quando acordei, havia um rasgo no formato de uma silhueta no teto da minha tenda. Imaginei que ele devia ter saído por lá.
Por que não pela frente, como uma pessoa normal?
Não sei!