Ao chegar à pequena cidade de Santa Esperança, uma aura de tranquilidade aparente se misturava à tensão latente que se espalhava pelas ruas poeirentas. Zach e Silas, ainda exaustos da longa viagem, seguiram direto para o bar mais próximo da entrada da cidade. À medida que empurravam a porta de madeira, um ranger metálico ecoou pelo salão, interrompendo por um instante as conversas e os risos, fazendo com que todos os olhares se voltassem para os dois forasteiros. Um silêncio carregado de curiosidade e suspeita pairou no ar.
O balcão de madeira, polido pelo uso contínuo, estendia-se de uma ponta à outra do salão, repleto de copos e garrafas que refletiam a luz amarelada das lamparinas. Zach e Silas caminharam com passos firmes até o balcão e tomaram seus lugares, observando o ambiente com atenção.
— Quero uma dose do seu whisky mais forte — disse Zach, sua voz firme e sem hesitação.
— E eu quero uma dose do seu whisky mais caro — completou Silas, lançando um olhar calculado ao barman.
O homem por trás do balcão, robusto e de semblante desconfiado, inclinou-se para pegar os copos de vidro, servindo com cuidado o líquido âmbar que reluzia sob a fraca iluminação.
— Vocês não são daqui, certo? — perguntou o barman, tampando as garrafas com gestos rápidos.
— Não, estamos viajando para conhecer a região — respondeu Silas com um sorriso discreto, tentando manter a postura amistosa.
O barman franziu a testa, os olhos percorrendo os dois homens como quem tenta decifrar um enigma.
— Então... vocês não são aqueles procurados nos cartazes ali atrás, não? — disse, apontando para o fundo do bar, onde imagens desbotadas de “Red.” e “Black S” estavam pregadas na parede.
Zach soltou um suspiro pesado, quase imperceptível, mas suficiente para que Silas percebesse a tensão crescente.
— Merda — murmurou Zach, a expressão carregada de preocupação.
O murmúrio coletivo que se transformou em um sussurro logo se tornou um movimento coordenado: os frequentadores do bar começaram a se levantar, cercando os dois homens com uma mistura de medo e reverência.
— Achei que seria uma visita pacífica... — disse Silas, os olhos percorrendo os rostos cada vez mais próximos.
Zach e Silas se posicionaram de costas um para o outro, instintivamente preparados para qualquer conflito que pudesse explodir.
— Não esperava ser reconhecido aqui — comentou Zach, com a mão pousada sobre o coldre.
Silas, percebendo a tensão no ar, pegou uma garrafa vazia, pronta para improvisar, quando de repente todos os presentes, em um gesto coletivo e inesperado, se ajoelharam.
— POR FAVOR, NOS AJUDEM! — gritaram em uníssono, a súplica ecoando pelo salão.
Zach piscou, surpreso.
— O que...?
— Ajudar? — perguntou Silas, arqueando as sobrancelhas.
— Isso mesmo — disse o barman, a voz carregada de urgência —. Estamos sendo controlados por um tirano...
Zach lançou um olhar rápido para Silas, reconhecendo a referência: a Trupe Explosiva.
— Exatamente — sussurrou Silas, a cautela ainda presente em sua voz —, mas não fale alto... as paredes têm ouvidos nesta cidade.
Um senhor idoso no canto do bar acrescentou com reverência:
— Escutamos muitas histórias sobre vocês dois...
— E nós ouvimos sobre o que “Red.” fez em Pico do Corvo, com um dos quatro capitães — completou o barman, a tensão aumentando com a menção.
Um silêncio pesado caiu sobre o salão. Por um instante, Zach e Silas sentiram uma presença gelada, quase sobrenatural, que percorreu o bar como uma sombra antes de desaparecer.
— O que foi isso? — perguntou Silas, a inquietação evidente.
— Alguém da Trupe Explosiva... tenho certeza — respondeu Zach, com a expressão dura.
— Esse é Dom Fogo Santo, o general da trupe — revelou o barman.
Zach franziu o cenho, avaliando a gravidade da situação.
— Então ele é um peixe grande?
— Um dos maiores — disse Silas, confirmando —, com influência considerável dentro da gangue.
A conversa se voltou então à liderança local:
— Quem é o responsável por essa cidade? — indagou Zach.
— O prefeito... ou melhor, era para ser, se ainda estivesse vivo — respondeu o barman, com um tom de pesar.
Zach tirou o chapéu, segurando-o contra o peito, sinal de respeito.
— Meus pêsames. Foi obra do Dom?
— Ele mesmo — disse o barman, os dentes cerrados.
— E a cidade tem algum xerife? — perguntou Silas.
— Sim, mas não recomendo encontrá-lo enquanto Dom estiver na cidade — alertou o barman, olhando nervosamente para os lados.
O ar parecia vibrar novamente com a presença ameaçadora que logo se dissipou.
— O xerife não recebe ninguém na presença de Dom... e provavelmente ele já sabe que vocês estão aqui — explicou o barman.
Zach conferiu o tambor de seu revólver, o olhar determinado:
— Ótimo... só precisamos encontrá-lo e depois acabar com ele.
— Zach, esse cara é perigoso demais. Não sei se conseguiremos — disse Silas, preocupado.
— Relaxa, trouxe a cavalaria — respondeu Zach com um sorriso, guardando o revólver e revelando duas escopetas de cano serrado debaixo do sobretudo.
— Car#lho, onde arrumou isso? — exclamou Silas, surpreso.
— Não importa. Estão aqui para estourar a cabeça de peixes grandes — respondeu Zach, confiante.
Silas não ficou atrás e revelou seu próprio trunfo: um rifle Spencer reluzente.
— E depois você fala de mim, né, fanfarrão? — brincou Zach, os dois compartilhando um raro momento de leveza em meio à tensão.
Enquanto isso, no departamento do xerife, a atmosfera era ainda mais sinistra. Um homem desconhecido, de charuto aceso e pés sobre a mesa, dominava a sala mal iluminada.
— Ai, ai, ai... essa cidade é divertida — disse ele, com um sorriso cruel.
O homem apagou o charuto e caminhou até a cela principal, onde o xerife estava acorrentado, ensanguentado e coberto de terra.
— Eu te avisei sobre os caçadores de recompensa — disse o homem, a voz carregada de ameaça.
— Não foi culpa minha, senhor — tentou se justificar o xerife.
— Claro que foi! Quem está no comando quando eu não estou? Hein, “xerife”? — rosnou o homem, que então se apresentou: Dom Fogo Santo.
Ele se virou e deixou o xerife preso, faminto e sem água, a mente do homem carregada de planos e tensão. Do lado de fora, Zach e Silas planejavam seu ataque, cada passo cuidadosamente calculado, enquanto sabiam que Dom já estava ciente de sua presença, transformando Santa Esperança em um tabuleiro de xadrez mortal.
O crepitar das lamparinas, o ranger das tábuas do bar e o eco distante de passos na cidade criavam um cenário onde coragem, astúcia e violência inevitável se entrelaçavam. A noite estava apenas começando.
Continua...