Zach despertou lentamente, como se emergisse de um abismo profundo e enevoado. O primeiro sentido a retornar foi o olfato, um odor forte, quase sufocante, de álcool medicinal misturado ao ranço amadeirado do cômodo. O cheiro era tão intenso que parecia impregnar sua pele, como se alguém tivesse derramado uma garrafa inteira de uísque barato sobre ele. Por um momento, Zach pensou que realmente tivesse afogado suas dores num copo, mas logo percebeu que aquela sensação ardida não vinha de dentro, e sim de fora.
Abriu os olhos com dificuldade. A luz era fraca, filtrada por janelas estreitas com vidros embaçados e cobertos por poeira acumulada. Seu corpo repousava sobre um catre improvisado, feito de madeira velha e rangente, coberto por um lençol áspero, quase como uma manta de estopa, que arranhava sua pele a cada movimento mínimo. Sentia o gosto de sangue seco na boca, e a cabeça latejava como o eco distante de explosões.
— Onde... onde eu estou? — murmurou com a voz rouca, engolindo a saliva dolorosamente. — Cadê o Silas?
A porta do pequeno quarto rangeu quando se abriu, revelando um senhor idoso que entrou carregando uma bandeja com alguns curativos, gazes e instrumentos rudimentares de atendimento médico. Ele tinha os cabelos completamente brancos, arrumados para trás de maneira um tanto desalinhada, e usava óculos redondos que escorregavam constantemente pela ponta de seu nariz.
— Não se preocupe, jovem — disse o homem em um tom calmo, paternal, como se já estivesse habituado a lidar com feridos desesperados. — Seu amigo está no quarto ao lado. Está vivo... por pouco, mas está.
Zach tentou se levantar com pressa, mas o corpo protestou imediatamente. A visão ficou turva, e uma onda de tontura o fez cair de volta no catre.
— Quem é você? — questionou ele, tentando manter a postura, mesmo enquanto pressionava as têmporas com os dedos trêmulos.
— Ei, ei, não se levante tão bruscamente — repreendeu o idoso com firmeza, mas ainda gentil. — Você levou muitas pancadas na cabeça. Precisa permanecer deitado enquanto eu limpo essas feridas. Não quero que desmaie de novo.
Zach permitiu que o homem o empurrasse levemente para que se deitasse outra vez.
— Você é o médico da cidade? — perguntou, respirando fundo enquanto tentava controlar as dores espalhadas pelo corpo.
— Exatamente. Pode me chamar de doutor Vicenzo... ou como preferir — respondeu ele, preparando um pedaço de algodão embebido em álcool. Em seguida começou a limpar, com movimentos lentos e calculados, os machucados na cabeça e no rosto de Zach.
Ao sentir o álcool entrar em contato com as feridas ainda abertas, Zach soltou um grunhido grave, tentando não recuar, mas a dor era cortante, ardida como lâmina quente.
— Eu sei, é incômodo — disse o médico sem parar o procedimento. — Mas preciso esterilizar tudo para evitar infecções. Já tratei muitos como você... e a infecção acaba com mais homens do que as balas.
Ele se levantou para buscar mais instrumentos dentro de um armário de madeira escura, que rangia sempre que a porta era aberta.
Zach, apesar do alerta do doutor, começou a se levantar com cautela. Cada movimento provocava uma nova pontada de dor, mas a preocupação com Silas era mais forte. Ele foi até um cabideiro improvisado no canto da sala, onde estavam sua camisa surrada, o sobretudo escuro que já tinha visto dias melhores e o chapéu que usava como assinatura de quem era... Ou do que dizia ser.
— Agradeço pela hospitalidade, doutor, — disse Zach, esforçando-se para colocar a camisa sem gemer — mas eu tenho que pegar meu parceiro e sair daqui o mais rápido possível.
Vicenzo soltou um suspiro profundo, como se esperasse exatamente aquele tipo de resposta. Virou-se com algumas agulhas e toalhas nas mãos.
— Muita calma, meu jovem. Seu amigo não está em condições de levantar nem o próprio nome, imagina cavalgar por aí. E, com todo respeito... não sei que diabos vocês tinham na cabeça quando decidiram enfrentar Dom Fogo Santo sozinhos. Agradeçam aos céus por terem saído vivos... ou quase, no caso dele.
O doutor caminhou até a porta, segurando as bandejas com instrumentos limpos.
— Se quiser ver como ele está, venha comigo. Estou indo ao quarto dele agora mesmo.
Zach o seguiu em silêncio. O corredor estreito cheirava a mofo e medicina improvisada, e cada passo ecoava sutilmente no assoalho de madeira. Quando entraram no quarto vizinho, o ar pareceu ficar mais pesado.
Silas estava completamente desacordado em um catre semelhante ao de Zach, porém coberto por inúmeras toalhas ensanguentadas. Algumas estavam sobre o tórax; outras, sobre os braços e até na boca, como se tivessem sido usadas para conter sangramentos recentes.
— Doutor... — Zach murmurou, incrédulo, ao ver a cena. — Qual a situação dele?
— Péssima — respondeu o médico sem rodeios, pegando algumas pinças cirúrgicas numa mesa ao lado — mas ainda está vivo. Por muito pouco.
Zach abaixou a cabeça, tirou o chapéu e o colocou contra o peito.
— Ah, Silas... me desculpe, meu amigo... — murmurou, sentindo um aperto profundo no peito.
Vicenzo retirou o lençol que cobria uma das pernas de Silas. Ela estava completamente ensanguentada, marcada por várias perfurações de projéteis, cortes profundos e áreas onde o sangue já havia secado e endurecido. Era uma visão brutal, digna de um campo de batalha.
— Ainda há alguns fragmentos de bala aqui dentro — disse o médico, ajustando os óculos. — Vou demorar um bom tempo para remover tudo. Não recomendo que assista. Pode ser... desagradável.
Zach permaneceu em silêncio, absorvendo tudo.
Virou-se em direção à porta e a abriu lentamente. Antes de sair, olhou novamente para o médico e disse, com a voz baixa, porém carregada:
— Agradeço pelo tratamento, doutor. Mas saiba... se meu amigo não ficar bem, eu vou atrás de você, velho. Não importa onde se esconda.
O médico apenas assentiu, sem demonstrar medo. Parecia entender que aquilo era mais dor do que ameaça real.
Zach então deixou o local e saiu para a rua. A cidade parecia quase a mesma de quando tinham chegado, mas agora sua percepção estava turva. As construções de madeira, o chão de terra, o sol forte refletindo no pó suspenso... tudo parecia girar lentamente ao seu redor.
— Minha cabeça ainda dói... — murmurou, massageando a nuca. — Já sei como resolver isso. Vou beber um pouco naquele bar onde estivemos. — Um sorriso cansado surgiu em seus lábios.
Caminhou pelas ruas até o estabelecimento. O bar estava movimentado, cheio de homens com o rosto mergulhado em copos, jogadores de cartas e algumas pessoas mal encaradas conversando nos cantos. Quando Zach entrou, todos os olhares se voltaram para ele por alguns instantes. O silêncio pairou como uma cortina invisível..., mas logo tudo voltou ao normal.
— É... parece que ninguém se lembra de mim. Ótimo. — Sussurrou, dirigindo-se ao balcão.
Sentou-se pesadamente no banco e debruçou-se contra o tampo polido pelo uso. Mal teve tempo de respirar antes de sentir uma presença se aproximando. Ele olhou de canto de olho.
Uma mulher elegante caminhava em sua direção.
Ela se aproximou e, com um sorriso sutil, perguntou:
— Posso me sentar aqui ao seu lado?
— Claro, fique à vontade — respondeu Zach, virando uma dose de uísque sem hesitar. O líquido queimou sua garganta de maneira reconfortante. — Esse é forte.
— Acredito. Não é à toa que é o mais caro do bar — disse ela, analisando-o com interesse. — Você não é daqui, não é?
Ele virou-se para encará-la melhor.
A moça era impressionante. Tinha cabelos vermelhos ondulados que desciam sobre os ombros como fios de cobre reluzentes. Vestia uma camisa preta de botões, um colete justo que realçava sua postura confiante, calças escuras com detalhes dourados e botas pretas de cano alto. Usava um batom escuro que destacava ainda mais seus lábios e brincos de argola em ouro maciço. Mas nada disso chamou mais atenção que os olhos, um par de olhos esverdeados tão intensos que pareciam brilhar como esmeraldas recém polidas.
Zach sentiu o coração acelerar por um instante.
— Uau... você é... bem bonita. Quero dizer... muito bonita — confessou ele, tentando manter o mínimo de compostura.
Ela sorriu de canto, um sorriso calculado, mas genuinamente atraente.
— Obrigada. Você é gentil.
— Desculpe a ousadia, madame — continuou Zach, agora tomando outra dose — mas o que traz uma mulher como você para conversar com um sujeito como eu?
— Ok, vou ser direta, fofinho — disse ela, inclinando-se levemente e servindo mais uísque no copo dele. — Eu sei quem você é. E sei o que você fez. Só vim aqui... por curiosidade.
Zach soltou um suspiro, como se já esperasse por aquilo.
— Eu sabia que isso ia se espalhar rápido demais...
De repente, os olhos dela começaram a brilhar em um tom amarelo-alaranjado, intensos como brasas vivas. Ela encarou Zach profundamente, esperando alguma reação.
“Peguei”, pensou ela.
Mas Zach apenas sorriu de maneira sarcástica.
— Bela tentativa, mocinha. Isso não funciona comigo.
A expressão dela congelou. Ficou completamente chocada.
“Impossível... ninguém nunca resistiu ao meu olhar.”
Zach limpou a boca com o dorso da mão e disse:
— Eu sei que você não veio aqui para me machucar.
— Como... como você não caiu no meu olhar do julgamento? — perguntou ela, agora apreensiva.
— Simples. — Zach inclinou-se para frente. — Eu não me arrependo de absolutamente nada que fiz na minha vida.
Os olhos dele então mudaram — ficaram vermelhos, flamejantes, como se um incêndio ardesse dentro de suas pupilas.
Ela deu um passo para trás, tomada por espanto.
— Então... quer dizer que você é ele?
— Sim. — Zach tomou outra dose com tranquilidade. — Eu sou o diabo.
Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio, apenas se encarando. Então a mulher sorriu de canto.
— Eu sabia desde o início. Só queria ter certeza se você era o “verdadeiro diabo”. — A voz dela carregava um tipo de respeito curioso. — E, aparentemente, é mesmo.
— Como assim “o verdadeiro diabo”? — Zach franziu o cenho.
Ela riu baixinho, cruzando as pernas.
— Mais tarde eu vou te explicar melhor. Meu nome é Boone. Elara Boone. — Estendeu a mão.
Zach apertou, mas ela o interrompeu antes que ele se apresentasse.
— Zach “Red.” Griff. Eu já te conheço, garotão. Vi o que você fez nas outras cidades — disse ela, apoiando-se levemente em seu ombro.
Zach abriu um sorriso real, quase divertido.
— Então você estava me seguindo?
Continua...