Zach abriu um sorriso real, quase divertido.
— Então você estava me seguindo?
— O que? Claro que não... quer dizer, sim..., mas não do jeito que você está pensando não. – Ela diz se enrolando nas próprias palavras.
Zach recostou-se na cadeira, dando um gole longo no copo de uísque e soltando um leve riso.
— Acalme-se, princesa. Estou apenas brincando. Não precisa ficar assim — disse, a voz mais suave agora, mas ainda carregando uma malícia charmosa.
Eles continuaram a beber juntos, compartilhando risadas leves e histórias entre goles de uísque. A tensão inicial cedeu espaço a uma camaradagem quase inesperada, que surgia naqueles momentos de silêncio e olhares que falavam mais do que palavras poderiam. Após algumas doses e risadas contidas, Zach se levantou, ajustando o chapéu sobre a cabeça.
— Foi muito divertido beber com você, mas acho que devo ir agora. Então… acredito que isso é um adeus — disse, a voz firme, enquanto colocava o chapéu e se virava, pronto para se retirar.
Ela não se deixou levar tão facilmente. Com um passo rápido, segurou o sobretudo dele, impedindo que se afastasse.
— Espera aí, bonitão. Você acha que vai se livrar de mim tão fácil assim? — disse, com um sorriso provocador.
Zach parou, virou-se e segurou o chapéu contra o peito, encarando-a com seriedade.
— Não me entenda mal, você é incrível, bonita, e foi a primeira mulher com quem conversei por mais de quinze minutos que não tentou me dar um tiro na testa. Mas, honestamente, não tenho tempo para esse tipo de brincadeira. Então ou você me solta agora e me deixa ir, ou vem comigo — disse, o olhar fixo, firme e intenso — porque meu tempo é curto.
Ela respirou fundo, percebendo que não poderia forçar a situação. Levantou-se e caminhou até a parte de trás do balcão, pegando uma jaqueta de couro que colocou casualmente sobre o ombro.
— Ei, Rick, cuide do bar para mim, vou sair rapidinho… vamos? — disse, a voz carregada de deboche, saindo na frente de Zach.
— Você nem sabe para onde está indo e ainda assim está andando na minha frente? — retrucou ele, ajeitando o chapéu e seguindo-a pelas ruas escuras.
O céu começou a se fechar, e uma leve garoa começou a cair. Percebendo que a chuva poderia se intensificar, Zach tirou o chapéu e o colocou delicadamente sobre a cabeça de Elara.
— Para você não se molhar tanto — disse.
— Mas você… você está ferido. Não deveria se expor à chuva — ela respondeu, tentando devolver o chapéu, preocupada.
Antes que pudesse entregá-lo, o chapéu desapareceu em uma nuvem de fumaça quase mágica.
— Eu disse para você ficar com ele — disse Zach, um leve sorriso sarcástico surgindo em seus lábios — teimosia é seu segundo nome, não é?
Ela olhou para cima, percebendo que o chapéu permanecia firmemente sobre sua cabeça.
— Maldito cabeça-dura… — murmurou, mas o sorriso não pôde ser contido.
Logo chegaram à casa do doutor Vicenzo. A residência exalava uma mistura de ordem e caos controlado: frascos alinhados em prateleiras, instrumentos médicos brilhando sob a luz suave e uma sensação de que aquele lugar já havia visto sofrimento e cura em igual medida.
— Doutor, sou eu, Zach! Estou de volta! — gritou, sua voz reverberando pelos corredores silenciosos.
— Entre, meu filho. Estou no quarto do Silas — respondeu uma voz abafada por trás da porta.
Eles caminharam até o quarto e abriram a porta. O médico estava sentado, esterilizando instrumentos, mas o leito, onde Silas deveria estar, estava vazio.
— Cadê o Silas, doutor? Onde ele está? — Zach se adiantou, preocupado.
Uma voz grave cortou o ar:
— Atenção aí, forasteiro…
Zach se virou e, para seu alívio, viu Silas em pé, imóvel na porta.
— Silas… que alívio! — exclamou, avançando para abraçá-lo — Que bom que você está bem!
Silas segurou Zach pelos ombros e retribuiu o abraço com firmeza, seus olhos carregando alívio e uma leve sombra de medo:
— Que bom que você também está bem, meu amigo. Fiquei preocupado… achei que não iríamos sobreviver.
— Estou bem, só não aperte demais — respondeu Zach, sentindo o desconforto das lesões recentes. — E sua perna, como está?
Silas levantou a barra da calça, exibindo uma perna intacta, sem cicatrizes ou marcas.
— Está perfeita, nem um arranhão sequer — disse ele, quase incrédulo consigo mesmo.
Zach virou-se para o doutor Vicenzo, os olhos arregalados:
— Mas como isso é possível? Eu vi sua perna… estava horrível… como?
O médico respondeu com um ar de surpresa genuína:
— Não olhe para mim, filho. Depois que você saiu, fui buscar mais panos limpos para estancar o sangramento. Quando voltei, a perna dele estava… perfeita. Pensei que estava delirando.
— É um milagre de verdade — disse Silas, um sorriso discreto iluminando seu rosto.
Enquanto Boone observava em silêncio, seu pensamento corria: “Será que é ele? A sacerdotisa…”. Ela foi interrompida por Zach estalando os dedos diante de seus olhos.
— Elara… está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? — perguntou, preocupado.
— Estou bem, só me perdi em pensamentos… — respondeu, a voz ligeiramente trêmula.
Zach apresentou os dois:
— Elara, este é Silas, meu parceiro, e aquele é o doutor Vicenzo, responsável por nossos cuidados.
— Muito prazer, sou Elara Boone — disse ela, formal, mas com um brilho de curiosidade no olhar.
As apresentações formais cederam espaço para conversas mais profundas. Após breves comentários, eles retomaram o foco principal.
— Então, Elara, explique por que estava atrás de mim — disse Zach, sério.
Ela se sentou à mesa de madeira, puxando-a para mais perto, e tirou um baralho de seu bolso.
— Vocês já ouviram falar dos “Marcados”? — perguntou.
— Nunca — respondeu Zach, confuso.
— Resumindo, existem 22 pessoas nascidas como “Marcadas” — disse ela, espalhando as cartas viradas para baixo sobre a mesa — Cada uma possui uma marca única.
Eles se inclinaram, curiosos, enquanto ela continuava:
— Cada uma dessas pessoas é representada por um símbolo, um Arcano. Escolham uma carta, mas apenas uma — disse, gesticulando para que se aproximassem.
Eles escolheram, virando as cartas. Inicialmente, elas estavam em branco.
— Ué, não tem nada aqui — murmurou Zach, inquieto.
— Acho que você está brincando com a gente — Silas comentou, desconfiado.
— Esperem, olhem de novo, com atenção — disse Elara, com calma.
As cartas revelaram imagens surpreendentes, como se surgissem por mágica.
— Então, o que veem? — perguntou Elara, embora já soubesse a resposta.
— “O Diabo” — respondeu Zach, preocupado, sentindo um frio na espinha.
— “A Sacerdotisa” — disse Silas, com um tom de leve decepção.
— E a minha diz “O Julgamento” — concluiu Elara, com um misto de reverência e determinação.
A tensão no ar era palpável. As cartas não eram apenas símbolos; eram destinos, sinais de um mundo maior e mais perigoso do que qualquer um deles poderia imaginar. Cada um encarava a própria carta, sabendo que aquela revelação mudaria suas vidas para sempre.
O silêncio reinou por alguns instantes, quebrado apenas pelo som da chuva que caía fora da janela, como se o próprio céu estivesse testemunhando o início de algo grandioso, perigoso e inevitável.
Continua…