Os gritos vinham da parte alta de Vale do Cobre.
Por um breve momento, todos imaginaram o pior. Depois das histórias sobre Marcados mortos, depois da tensão na voz de Cesar e da maneira como ele reagira ao sino, ninguém pensou em uma explicação simples.
Correram pelas ruas estreitas da cidade, desviando de carroças, barris e moradores assustados que apontavam na direção da praça principal.
Quando chegaram lá, encontraram a origem da confusão. E imediatamente se arrependeram de ter esperado algo grandioso.
Cinco homens completamente bêbados haviam derrubado um dos sinos de alerta da cidade.
O enorme sino de bronze agora estava caído sobre o chão de pedra, cercado por cordas arrebentadas e pedaços de madeira quebrados. Enquanto isso, os responsáveis pela destruição discutiam aos berros com moradores que tentavam impedir que eles arrancassem o restante da estrutura.
Um deles estava tentando subir no suporte do segundo sino.
Outro parecia estar discutindo com uma galinha.
Ninguém sabia exatamente por quê.
Zach ficou alguns segundos observando a cena.
— Sério?
— Eu tava esperando algo mais dramático — disse Gaspar.
— Eu tava esperando uma ameaça — completou Silas.
— Eu tava esperando uma guerra — falou Cesar.
Elara cruzou os braços.
— Eu tava esperando alguém com mais inteligência.
Nenhuma das expectativas havia sido atendida. Os cinco homens finalmente perceberam a presença do grupo.
Um deles apontou com dificuldade.
— E vocês tão olhando o quê?
Gaspar soltou um longo suspiro.
— Ah...
Cesar abriu um sorriso.
— Agora melhorou.
A surra foi rápida. Muito rápida, tão rápida que alguns moradores nem conseguiram acompanhar o que aconteceu.
Um dos bêbados tentou acertar Cesar com uma garrafa. O resultado foi imediato. Acordou alguns segundos depois olhando para o céu, sem lembrar do próprio nome.
Outro correu na direção de Zach. Arrependimento instantâneo. O soco acertou em cheio. o homem caiu antes mesmo de entender que a luta havia começado.
Gaspar derrubou dois praticamente ao mesmo tempo. Um com um empurrão. Outro com uma cabeçada, nenhum dos dois voltou a levantar.
Elara sequer precisou sacar a arma. Muito menos usar qualquer habilidade.
Silas observava tudo de braços cruzados.
— Eu acho que isso nem conta como luta.
— Não conta mesmo — respondeu Zach.
— Então tecnicamente a gente ajudou alguém? — Perguntou Cesar
— Não exagera. — respondeu Gaspar.
Poucos minutos depois, a praça voltava ao normal.
Os bêbados estavam desacordados, os moradores recolhiam os destroços.
E Cesar parecia profundamente decepcionado por aquilo ter acabado tão rápido.
A noite caiu pouco depois. As luzes das lamparinas começaram a surgir pelas ruas enquanto o vento frio das montanhas atravessava a cidade.
Foi então que Cesar virou-se para o grupo.
— Que tal vocês ficarem lá em casa?
Gaspar ergueu uma sobrancelha.
— Não precisa. A gente arruma algum lugar.
— Não, não, não.
Cesar apontou para ele.
— Faz doze anos que eu não vejo você.
— Exatamente.
— Então você me deve doze anos de conversa.
— Isso não faz sentido.
— Faz pra mim.
— O problema é justamente esse.
Cesar ignorou completamente a reclamação.
— Vocês estão na minha cidade. Vão ficar na minha casa.
Gaspar passou a mão pelo rosto. Negar apenas prolongaria a discussão.
E ele conhecia o irmão bem demais para acreditar que aquilo terminaria rápido.
— Você continua teimoso igual um jumento.
— E você continua feio igual um.
— Tá bom.
Gaspar suspirou.
— Nós vamos.
O sorriso de Cesar praticamente dobrou de tamanho.
A casa ficava próxima das antigas minas. Era uma construção grande para os padrões da cidade. Robusta, feita de madeira escura e pedra.
Mas bastava atravessar a porta para perceber que seu dono tinha sérios problemas de organização, garrafas estavam espalhadas por praticamente todos os cômodos, algumas vazias, algumas quase vazias, e algumas ainda trabalhando para chegar lá.
Elara observou a sala. Depois a cozinha. Depois o corredor.
— Isso explica muita coisa.
— Eu prefiro chamar de decoração — respondeu Cesar.
— Eu prefiro chamar de problema.
— Vocês são muito críticos.
— E você é alcoólatra.
— Isso também.
Silêncio.
— Pelo menos ele é honesto — comentou Silas.
Pela primeira vez em muito tempo, Gaspar parecia genuinamente feliz, não era o sorriso sarcástico que normalmente usava. Nem a expressão provocadora que escondia tudo atrás de piadas.
Era algo mais raro, mais humano, mais leve.
Conforme as horas passavam, os dois irmãos começaram a relembrar histórias antigas, brigas, viagens, trabalhos absurdos. Pessoas que conheceram. Pessoas que perderam.
Silas percebeu rapidamente que Cesar era praticamente uma versão mais impulsiva de Gaspar. O que era uma informação assustadora.
— Você lembra daquela vez que tentou montar aquele cavalo selvagem? — perguntou Cesar.
— Não lembro.
— Mentira.
— Não lembro mesmo.
— Eu lembro perfeitamente.
Cesar já estava rindo.
— Você voou uns doze metros.
— Foram três.
— Foram doze.
— Três.
— Doze.
— Três.
— Você caiu dentro de um rio.
Gaspar ficou em silêncio.
— Tá bom. Talvez tenham sido mais de três.
A gargalhada de Cesar ecoou pela casa.
Histórias continuaram surgindo. Uma atrás da outra. Algumas engraçadas, outras estranhas, outras que claramente terminavam com alguém preso, perseguido ou quase morto.
Mas então... Em determinado momento, já depois de algumas bebidas, Cesar falou algo que mudou completamente o ambiente.
— Lembra daquele trabalho da Trupe?
O silêncio foi imediato. Brutal, como uma porta fechando.
Gaspar congelou, o copo parou no meio do caminho.
Zach ergueu os olhos.
— Da Trupe?
Cesar piscou.
Só então percebeu o que havia dito. Tarde demais.
— Você foi da Trupe Explosiva? — perguntou Zach.
Gaspar não respondeu. O silêncio já era uma resposta.
— Gaspar.
Nada.
— Gaspar.
Finalmente ele falou.
— Fui.
A palavra caiu na sala como uma pedra. Pesada.
O ambiente inteiro mudou.
— Quando?
Gaspar demorou alguns segundos.
Então respondeu.
E o número atingiu Zach como um disparo.
Porque coincidia perfeitamente com o período do Incidente de Areia Branca.
A cadeira caiu para trás quando Zach se levantou.
O impacto ecoou pela sala.
— Não.
Ninguém respondeu.
— Não.
A respiração dele ficou pesada.
Irregular.
— Você tá me dizendo...
A voz falhou.
— Que você fazia parte deles?
Silêncio.
— Zach...
— VOCÊ FAZIA PARTE DELES?
Anos de dor explodiram de uma vez. Anos de perguntas. Anos de raiva. Anos procurando culpados.
— Minha cidade morreu por causa da Trupe!
— Eu sei.
— Minha família morreu por causa da Trupe!
— Eu sei.
— MINHA VIDA ACABOU POR CAUSA DA TRUPE!
Gaspar abaixou os olhos.
Porque não existia defesa. Não existia justificativa, não existia argumento. Qualquer explicação pareceria desculpa, qualquer palavra pareceria covardia.
Zach respirava com dificuldade agora, como alguém tentando impedir o próprio passado de voltar. Mas ele já havia voltado.
A porta bateu violentamente quando ele saiu da casa.
Elara se levantou.
— Zach...
Tarde demais, ninguém tentou impedi-lo. Porque sabiam que não adiantaria.
O silêncio permaneceu por vários minutos. Pesado e desconfortável.
Foi Gaspar quem finalmente o quebrou.
— Minha filha tava morrendo.
Silas ergueu os olhos.
Elara virou o rosto na direção dele.
Gaspar permanecia olhando para a garrafa.
— Eu precisava de dinheiro.
Sua voz havia mudado, mais baixa. Mais cansada.
— Remédio. Médicos. Qualquer coisa.
Ele soltou uma risada amarga.
— Eu teria feito qualquer coisa.
Ninguém interrompeu.
— Então a Trupe apareceu.
A mão dele apertou o gargalo da garrafa.
— E eu fui burro o suficiente pra aceitar.
O silêncio continuou.
— Quando Areia Branca aconteceu...
Ele fechou os olhos.
— Eu não estava lá.
A frase saiu lenta. Difícil.
— Mas vi o resultado depois, vi o que fizeram, vi quem eles realmente eram.
A mandíbula dele se contraiu.
— Saí naquele mesmo dia.
Silêncio.
— Uma semana depois minha filha morreu.
Ninguém disse nada.
A frase não veio acompanhada de lágrimas. Nem de dramatização.
Talvez porque aquela dor fosse antiga demais, profunda demais. Talvez porque já tivesse queimado tudo por dentro há muito tempo.
— Então não.
Ele encarou o vazio.
— Eu não destruí Areia Branca.
A voz quase falhou.
— Mas passei anos me perguntando se poderia ter impedido alguma coisa.
Nenhuma resposta veio, porque não existia resposta para aquilo.
A noite passou devagar.
Alguns dormiram. Outros apenas fingiram.
Na manhã seguinte, o céu estava coberto por nuvens finas quando Zach foi encontrado sentado perto das antigas minas.
Sozinho, observando o horizonte.
Elara encontrou-o ali. Sentou ao seu lado sem dizer nada.
Sem pressão, sem cobranças. Apenas companhia.
Depois de alguns minutos, perguntou:
— Como você tá?
Zach não respondeu.
Respirou fundo. Isso já bastava.
— Entendi — disse ela.
Mais alguns segundos se passaram.
— Ele falou com você?
— Não.
— Bom.
Zach soltou uma risada sem humor.
— Você acredita nele?
Elara ficou em silêncio por alguns instantes.
Então respondeu:
— Sim.
— Como pode ter tanta certeza?
Ela olhou para o horizonte.
— Porque eu usei o Olhar do Julgamento.
Zach virou o rosto.
— E?
— Nunca vi alguém carregar tanta culpa quanto ele.
O silêncio voltou.
— Ele tá dizendo a verdade.
Zach observou as minas abandonadas.
Mas sua expressão havia mudado. Não muito, só um pouco. O suficiente.
Elara aproximou-se ligeiramente.
— Eu sei o que tá te machucando.
— Sabe?
— Sim.
Ele franziu o cenho.
— Então me explica.
— Não foi a Trupe.
Zach ficou imóvel.
— Foi a mentira.
Elara segurou a mão dele. Com cuidado, sem forçar.
— O que dói não é o que ele foi.
A voz dela suavizou.
— É ele nunca ter confiado isso em você.
Zach baixou os olhos.
Pela primeira vez desde a noite anterior, não teve uma resposta.
Elara apertou sua mão de leve.
— Você não precisa carregar tudo sozinho.
Ele levantou o olhar, e por um instante enxergou algo diferente nela.
Não julgamento. Não compaixão forçada. Apenas compreensão... silenciosa e honesta.
— Elara... eu...
Passos interromperam a frase. Os dois viraram o rosto.
Gaspar.
Silas.
E Cesar.
Os três vinham andando depressa.
As expressões sérias demais para aquela hora da manhã.
Cesar foi o primeiro a falar.
— Temos um problema.
Zach soltou um suspiro.
— Claro que temos.
Cesar apontou para a cidade, seu sorriso havia desaparecido completamente.
— A Caçadora tá aqui.
Silêncio.
— Caçadora? — perguntou Zach.
E pela primeira vez desde que o conheciam...
Cesar parecia genuinamente preocupado.
Continua...