Cesar apontou para a cidade. Pela primeira vez desde que o conheciam, não havia sorriso algum em seu rosto. Nem sarcasmo, nem provocação, nem aquele brilho quase infantil que surgia sempre que uma briga parecia prestes a acontecer. Havia apenas preocupação.
— A Caçadora tá aqui.
O silêncio que veio depois pareceu mais pesado do que deveria.
O vento atravessou as encostas das antigas minas, carregando poeira avermelhada entre as pedras e fazendo os arbustos secos estremecerem.
Zach foi o primeiro a falar.
— Caçadora?
Cesar assentiu lentamente.
— Quem exatamente é essa tal Caçadora? — perguntou Silas.
Cesar passou a mão pela nuca, era um gesto simples, mas estranho.
Desde que o haviam conhecido, ele parecia o tipo de homem que encarava qualquer problema sorrindo.
Agora parecia desconfortável, quase inquieto.
— O pior tipo de problema.
— Isso não responde nada — disse Elara.
— Porque eu também não tenho muitas respostas.
— Então começa pelas poucas que tem — respondeu Gaspar.
Cesar soltou o ar pelo nariz.
— Certo.
Ele começou a caminhar na direção da cidade.
Os outros o acompanharam.
— Ninguém sabe quem ela é.
— Ótimo começo — comentou Zach.
— Ninguém sabe de onde veio.
— Melhor ainda.
— E ninguém sabe exatamente o que ela quer.
— Perfeito — concluiu Gaspar. — Já odeio ela.
Cesar ignorou o comentário.
— Mas todo mundo sabe quando ela aparece.
O grupo continuou descendo pelas ruas de Vale do Cobre.
A cidade parecia diferente daquela manhã. Mais silenciosa, mais fechada, mais cautelosa.
Pessoas observavam atrás das janelas. Algumas fechavam as cortinas quando o grupo passava.
Outras simplesmente desviavam o olhar, como se falar sobre o assunto fosse perigoso.
— Tá todo mundo assustado — observou Silas.
— Porque já ouviram falar dela — respondeu Cesar.
— E você? — perguntou Zach.
— Eu ouvi histórias demais.
Gaspar cruzou os braços.
— Histórias costumam ser exageradas.
— Espero que sejam.
O comentário fez até Gaspar ficar em silêncio.
Continuaram caminhando por alguns minutos, a tensão parecia aumentar a cada esquina.
Então Zach fez a pergunta que todos estavam evitando.
— Quantos Marcados ela matou?
Cesar demorou alguns segundos para responder.
— Não sei.
— Como assim não sabe?
— Porque ninguém sabe.
Ele apontou para as ruas ao redor.
— Cada cidade conta uma versão diferente.
— Alguns falam três.
— Outros falam dez.
— Tem gente que jura que foram mais de vinte.
Silêncio.
— E você acredita em qual? — perguntou Elara.
Cesar deu de ombros.
— Eu acredito que basta um.
Ninguém respondeu. Porque ele tinha razão.
Um Marcado morto já era algo raro o suficiente para se tornar lenda. Vários? Aquilo era outra coisa, aquilo era um aviso.
Chegaram à região mais antiga de Vale do Cobre pouco depois.
Ali as construções eram menores, mais pobres, mais apertadas. O movimento diminuía conforme avançavam.
Então encontraram a origem da comoção. Havia gente reunida, muita gente. Silenciosa, imóvel.
Observando alguma coisa.
Quando a multidão se abriu, Zach viu primeiro. Um corpo, estendido sobre a terra batida.
Um homem. Talvez quarenta anos. Talvez menos. A morte tinha o hábito de envelhecer as pessoas.
Silas franziu o cenho.
— Foi ela?
Um dos moradores assentiu imediatamente.
— Encontramos ele há uma hora.
Gaspar aproximou-se, ajoelhou ao lado do cadáver.
Observou em silêncio. Os olhos percorreram as roupas, as mãos, o rosto.
Depois o ferimento.
— Estranho.
— O quê? — perguntou Zach.
Gaspar apontou para o peito do morto.
— Não tem luta.
Era verdade, nenhum hematoma. Nenhuma marca de resistência, nenhuma tentativa de defesa.
Apenas um único ferimento. Um disparo, limpo. Preciso, direto no coração.
— Execução — murmurou.
— Parece — respondeu Cesar.
Silêncio.
Aquilo não combinava com a maioria dos confrontos envolvendo Marcados.
Normalmente havia destruição, caos, corpos, marcas de poder.
Aquilo parecia diferente. Metódico. Controlado.
Como o trabalho de alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.
Zach observou os moradores.
— Ninguém viu nada?
As pessoas trocaram olhares desconfortáveis.
Até que uma mulher respondeu:
— A gente escutou o tiro.
— Só isso.
— Quando chegamos, ele já estava morto.
— E ninguém viu quem atirou?
Ela balançou a cabeça.
— Ninguém.
O silêncio voltou, mais estranho do que antes.
Elara aproximou-se lentamente do corpo. Algo a incomodava, não sabia exatamente o quê, mas sentia.
Ajoelhou-se ao lado do cadáver. Fechou os olhos, inspirou fundo.
E ativou a sua habilidade de clarividência. O mundo desapareceu, por um instante, tudo virou escuridão.
Então vieram as emoções, fragmentos, memórias. Sensações quebradas.
O homem corria. A respiração acelerada. O coração disparado.
Pânico. Puro pânico.
Ele olhava para trás constantemente.
Fugindo... de alguém. De alguma coisa.
As emoções eram tão intensas que quase pareciam suas.
Então ele parou, virou-se. E viu a mulher.
Uma figura caminhando em sua direção. Calma, sem pressa, sem raiva, sem ódio.
Sem emoção alguma. Apenas caminhando.
Passo após passo, como alguém que já sabia exatamente como aquela história terminaria.
O homem ergueu a mão, tentou reagir usando o Arcano.
Nada, confusão, tentou novamente. Nada.
Mais uma vez. Nada... Nada... Nada.
O pânico cresceu. As emoções começaram a se tornar caóticas.
Desesperadas, ele não entendia, não conseguia entender.
Seu Arcano simplesmente não respondia, como se tivesse deixado de existir, como se nunca tivesse existido.
A mulher continuava avançando. Sem correr, sem ameaçar. Sem demonstrar esforço.
A última emoção que Elara sentiu não foi medo. Foi confusão, uma confusão absoluta. A pergunta desesperada de alguém que não conseguia compreender a própria realidade.
Por quê? Por que não estava funcionando? Por quê?
Então veio o disparo. E a escuridão.
Elara abriu os olhos abruptamente, sua respiração estava irregular. O coração acelerado.
Zach correu para segura-la, antes que caísse no chão.
Gaspar percebeu imediatamente.
— O que você viu?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Ele tentou usar o Arcano.
Silêncio.
— E? — perguntou Zach.
— Nada aconteceu.
— Como assim?
Elara engoliu em seco.
— Nada, tentou de novo... nada. Outra vez... Nada...
A rua inteira pareceu ficar mais silenciosa. Até Cesar parecia inquieto agora.
— Então é verdade...
Todos olharam para ele.
— O quê?
— Eu ouvi essa história antes.
— De quem? — perguntou Silas.
— Um sobrevivente.
O grupo permaneceu imóvel.
— Ele me contou exatamente a mesma coisa.
A tensão aumentou imediatamente.
— Tentou usar o Arcano, não funcionou... Tentou de novo, nada.
Gaspar estreitou os olhos.
— E você acha que ela faz isso como?
Cesar balançou a cabeça.
— Não faço ideia.
Dessa vez parecia sincero, completamente sincero.
— Ninguém faz.
O silêncio voltou, pesado. Incomodamente pesado.
Porque não existia explicação. Ainda não, e talvez isso fosse a pior parte.
Então Zach desviou o olhar para Gaspar.
Foi um movimento pequeno, quase imperceptível. Mas aconteceu.
Gaspar percebeu.
E Zach percebeu que ele percebeu.
A tensão entre os dois voltou imediatamente. Não tão explosiva quanto na noite anterior, mas presente. Como uma ferida recém-fechada.
Cesar olhou de um para o outro.
— Tá.
Silêncio.
— O que eu perdi?
— Nada — respondeu Zach.
Mentira.
— Tá bom.
— Não tá.
Silas fechou os olhos.
— Eu odeio quando vocês fazem isso.
— Eu também — respondeu Elara.
— E eu nem sei do que vocês tão falando — completou Cesar.
— Melhor assim — disse Gaspar.
Antes que a conversa avançasse, um grito ecoou pela rua.
Todos viraram imediatamente, um garoto corria em direção à multidão. Desesperado, sem fôlego. Quase tropeçando nas próprias pernas.
— Ela tá aqui!
A praça inteira congelou.
— Quem? — perguntou alguém.
— A Caçadora!
O efeito foi imediato, pânico, portas bateram. Janelas se fecharam.
Pessoas começaram a desaparecer para dentro das casas, como se uma tempestade estivesse chegando, como se todos soubessem exatamente o que aquele nome significava.
O garoto apontava para a região das minas. Tremendo.
— Eu vi ela!
— Onde? — perguntou Cesar.
— Nas galerias velhas!
O grupo trocou olhares.
Gaspar estalou o pescoço.
— Ótimo... eu tava ficando entediado.
— Você é doente — respondeu Elara.
— Eu sei.
Sem perder tempo, começaram a correr. As minas erguiam-se acima da cidade como cicatrizes abertas na montanha.
O vento aumentava conforme subiam.
As construções ficavam para trás, as ruas desapareciam.
E uma sensação estranha começava a crescer. A sensação de estarem sendo observados.
Nenhum deles percebeu. Mas estavam, muito acima.
Sobre uma formação rochosa que dominava toda a encosta. Uma mulher observava os cinco, imóvel, silenciosa. Quase confundida com as próprias sombras das pedras.
Os olhos acompanhavam cada movimento. Cada passo, cada respiração. Cada gesto.
Então seu olhar encontrou Silas. E permaneceu nele, por um segundo, depois outro.
Tempo demais. Como se o reconhecesse. Como se tivesse viajado até ali procurando exatamente por ele.
Nenhuma emoção apareceu em seu rosto, nenhuma reação, apenas observação. Fria. Calculada. Paciente.
— ótimo, não preciso nem ir atras de vocês... já me poupam o serviço. — A caçadora diz.
Então ela deu um passo para trás. E desapareceu entre as sombras das rochas, como se nunca tivesse estado ali.
Continua...