As minas antigas pareciam um labirinto.
Túneis escuros cortavam a montanha como feridas abertas, alguns túneis desabados, outros tão estreitos que uma pessoa precisaria andar de lado para atravessá-los.
O vento atravessava as minas produzindo assobios estranhos. Quase humanos, quase.
O grupo avançava em silêncio. Ninguém falava, ninguém gostava daquele lugar.
Ninguém gostava da sensação de estar sendo observado.
E todos sentiam exatamente isso.
— Odeio esse lugar — murmurou Cesar.
— Você odeia qualquer lugar que não tenha bebida — respondeu Zach.
— Isso também.
O comentário arrancou um sorriso curto de Gaspar, mas morreu rápido.
Porque algo estava errado. Muito errado. E aquilo só piorava, como uma presença invisível acompanhando cada passo.
Silas percebeu primeiro.
Pegadas... recentes. Uma única pessoa, subindo a encosta.
— Ali.
Zach acompanhou o olhar dele.
A mão permanecia próxima ao revólver, sempre pronta.
— Ela tá vendo a gente.
As marcas desapareciam entre as pedras.
— Ela quer que a gente siga.
— Também acho — respondeu Elara.
— Então vamos seguir mesmo assim — disse Gaspar.
— por que? — perguntou Silas.
— Porque eu faria a mesma coisa. — respondeu Zach.
Subiram. Cada vez mais alto, cada vez mais longe da cidade.
Até chegarem a uma plataforma natural de pedra que dominava toda a região.
E lá estava ela, imóvel. Esperando.
O chapéu largo e o cabelo castanho, escondia parte do rosto.
O longo casaco balançava junto ao vento.
Uma das mãos repousava sobre o revólver preso ao cinto. A outra permanecia relaxada, como alguém que não enxergava ameaça alguma diante de si.
Ninguém se moveu.
Então ela falou.
— Vocês demoraram.
A voz era calma, controlada. Sem raiva, sem provocação. Aquilo era quase pior.
— Abigail Crow — disse Cesar.
Os olhos dela deslizaram até ele.
— Butcher.
Gaspar cruzou os braços.
— “Butcher”? de onde veio isso Cesar?
— É uma longa história. — Responde Cesar.
Elara olhou diretamente para Abigail.
— Então você sabe quem somos.
— Alguns de vocês. — A caçadora responde.
O olhar dela passou por Silas. Depois por Elara. Por Gaspar.
Até parar em Zach. E permanecer ali, tempo demais.
Zach percebeu.
— Tá me encarando por quê?
Ela ignorou a pergunta.
— Você é o Diabo?
Silêncio instantâneo. Pesado.
Pelo tempo que ele demorou para responder ela deduziu que ele era o arcano do diabo.
— Zachary Griff.
O mundo pareceu parar por um instante.
Zach congelou, não pelo nome, mas pela forma como ela falou. Como alguém que o procurava há muito tempo.
— Você tava me procurando? — perguntou Zach.
— Há anos.
Ninguém gostou da forma como ela disse aquilo. Nem um pouco.
— Por quê? — perguntou Elara.
Pela primeira vez, algo mudou na expressão dela.
Não muito, só um pouco.
Dor, antiga e profunda.
— Porque um Marcado destruiu minha vida.
Silêncio.
— Qual Marcado? — perguntou Silas.
— Eu não sei, mas tenho certeza que foi o Diabo.
Os olhos dela permaneceram presos em Zach.
— Minha família morreu por causa dele.
O vento soprou entre eles.
Ninguém respondeu imediatamente. Porque aquilo parecia importante demais, pesado demais.
Então Zach falou.
— Você tá me confundindo com alguém.
Ela saca sua arma rapidamente, ainda olhando para Zach.
— Não... é você.
Ninguém achou aquela resposta reconfortante.
Então veio o disparo.
BANG.
O tiro ecoou pelas pedras. Seco e violento.
A bala acertou Cesar bem no meio da testa.
Gaspar arregalou os olhos.
Silas deu um passo à frente.
Elara puxou o revólver.
Mas Cesar permaneceu parado.
A bala achatada caiu girando sobre a pedra.
CLINK.
Cesar levou a mão à testa.
— Isso foi rude.
Abigail observou o projétil.
— Então os rumores eram verdade.
— Eu prefiro chamar de charme.
O sorriso de Cesar voltou.
— Minha vez?
Abigail observou.
— O arcano do Sol.
Ele colocou os socos ingleses nas mãos, e foi em direção a ela.
Abigail ergueu a mão.
— Não, agora é minha vez.
Sem preocupação. Sem reação.
E tudo mudou. Como uma vela apagada. Eles não sabiam exatamente o que havia acontecido.
Cesar olhou para as próprias mãos, confuso.
— Que porra...
BANG.
Outro disparo ecoou. Dessa vez a bala atravessou seu ombro.
O impacto o fez recuar. Pela primeira vez, em anos.
Dor, dor verdadeira.
Cesar caiu de joelhos, a mão tocou o ferimento. Quando se afastou... estava vermelha, sangue... seu sangue.
Os olhos dele arregalaram.
— Não...
Gaspar percebeu na hora.
— Cesar?
— Não...
A respiração dele acelerou.
— Não...
Fazia anos, desde a última vez que tinha sangrado, desde a última vez que tinha sentido medo. E agora ambos haviam voltado ao mesmo tempo.
Os outros se espalharam imediatamente.
Zach mergulhou atrás de uma formação rochosa.
Gaspar puxou Silas para cobertura.
Elara desapareceu atrás de uma parede de pedra parcialmente destruída.
— Onde ela tá?!
— Não vi! — respondeu Zach.
Mais um tiro. A bala atingiu uma rocha próxima, fragmentos voaram.
Outro disparo.
Zach inclinou a cabeça.
A bala passou raspando, perto demais. Muito perto.
— FILHA DA...
— Zach! — gritou Elara.
— Eu sei!
Zach reagiu. Sacou a arma, e disparou.
BANG.
A bala cortou o rosto de Abigail. Um filete de sangue desceu por sua bochecha.
A Caçadora levou a mão ao próprio rosto, observou o sangue. Por um segundo, ela ficou imóvel.
— Interessante...
Zach preparou outro disparo.
Mas Elara percebeu.
A mão dele tremia, levemente. Quase imperceptível, mas tremia.
— Zach?
— Depois.
A resposta saiu seca. Porque ele sabia exatamente o motivo.
Sem ilusões, sem truque, era só ele. E fazia muito tempo que não lutava assim.
O silêncio que veio depois foi pior do que qualquer tiro, porque todos entenderam, seus Arcanos haviam desaparecido.
A Caçadora começou a descer da plataforma de pedra, passo após passo. Tranquila. Sem medo e sem pressa.
— É assim que vocês deveriam ser... humanos.
Então Zach respondeu.
— Vai se foder.
E disparou.
BANG.
O tiro passou perto, mas não matou.
A Caçadora desviou no último instante.
O projétil apenas abriu outro corte em seu rosto, ela ficou imóvel.
Depois olhou para Zach.
— Você hesitou.
Elara virou imediatamente.
— O quê?
A Caçadora sorriu.
— Ele teve a chance, mas hesitou.
Ela continuava caminhando.
— Vocês defendem monstros.
— E você mata gente por nascer diferente — respondeu Elara.
— Eu mato esses pecadores.
— Não somos pecadores.
— Todos somos.
O olhar dela foi para Zach, novamente.
— Eu já vi cidades destruídas.
— Eu também — respondeu Zach.
Ela hesitou, por um segundo.
Mas Gaspar percebeu.
E naquele instante entendeu. Entendeu tudo.
A raiva, a obsessão, a caça. Ela era igual a Zach. Só tinha seguido outro caminho.
Então ele largou a arma. E começou a caminhar, na direção dela.
— Gaspar? — chamou Silas.
Ele ignorou.
Abigail apontou o revólver.
— Então, escolheu morrer.
Gaspar continuou.
BANG.
O tiro acertou na lateral do seu abdômen.
Ele cambaleou, mas continuou.
— Para! — disse Elara.
Outro disparo.
Mais sangue, mais dor. Mais passos.
Então Gaspar falou.
— Você acha que tá salvando o mundo..., mas você está errada.
— Cala a boca.
— Você tá matando gente por nada... você não está acabando com o ciclo!
— CALA A BOCA!
Outro disparo.
Gaspar quase caiu. Mas continuou andando, até ficar perto o suficiente para que ela enxergasse seus olhos.
E então falou.
— Os Marcados não desaparecem.
Ela congelou.
— O quê?
— Quando um Marcado morre...
Gaspar cuspiu sangue. Mas continuou.
— O arcano... ele renasce... você só está reiniciando o ciclo.
O mundo pareceu parar novamente.
A Caçadora ficou imóvel.
— Mentira.
— Não.
— MENTIRA!
A voz dela ecoou pelas montanhas.
Gaspar não desviou o olhar.
— É a verdade. Você nunca percebeu?
Ela recuou.
A voz de Gaspar suavizou.
— Eles sempre voltam.
Silêncio.
— Sempre.
As mãos dela tremiam.
Pela primeira vez.
— Eu os matei.
— Eu sei.
— Eu matei muitos deles!
— Eu sei.
— E você tá me dizendo que não adiantou nada?
Gaspar demorou alguns segundos para responder.
Então respondeu.
— Sim.
E foi isso que finalmente a quebrou.
Toda a convicção, toda a certeza, toda a vida dela. Começou a rachar.
E ninguém disse mais nada.
Porque todos perceberam a mesma coisa, a batalha havia acabado.
De repente, Abigail Crow percebeu que dedicou a própria vida a uma guerra impossível de vencer.
E isso doía muito mais do que qualquer ferimento.
Continua...