Durante vários segundos, ninguém disse uma única palavra.
O vento continuava soprando entre as montanhas, serpenteando pelas antigas estruturas das minas abandonadas e levantando pequenas espirais de poeira avermelhada. O cheiro de terra seca e pedra aquecida pelo sol ainda pairava no ar, mas parecia distante agora, quase irrelevante.
Como se o próprio mundo tivesse dado um passo para trás, Abigail Crow permanecia imóvel.
Seus joelhos ainda afundavam levemente na terra pedregosa da encosta, e os dedos continuavam fechados ao redor do revólver. Porém, já não havia firmeza naquele aperto. Nem convicção. A arma parecia pesada demais.
Os olhos da Caçadora estavam perdidos em algum lugar muito distante. Não observavam ninguém. Não enxergavam as montanhas, nem aqueles em sua frente.
Ela estava olhando para os próprios anos, para tudo o que havia feito. Para todos os rostos que jamais esqueceria.
— Não... — murmurou outra vez, quase sem voz.
Gaspar pressionava uma das mãos contra o próprio abdômen. O sangue continuava escorrendo entre seus dedos, quente e persistente, manchando a camisa escura. Ainda assim, permanecia de pé.
Por pura teimosia, ou orgulho. Talvez ambos.
— Eu não mentiria sobre isso — disse ele, respirando com dificuldade.
Abigail não reagiu.
— Você já deve ter percebido.
Silêncio. Porque ela havia percebido.
Ao longo dos anos, dezenas de lembranças haviam se acumulado em sua mente. Rostos. Histórias. Nomes. Sempre existiam semelhanças.
Um homem com olhos dourados em uma cidade distante.
Crianças que manifestavam Arcanos impossíveis pouco tempo após a morte de outros Marcados.
Pequenas coincidências, detalhes desconfortáveis, questões que ela escolheu ignorar.
Porque aceitar aquelas perguntas significava aceitar algo muito pior. Significava admitir que toda a sua vida havia sido dedicada a uma guerra impossível de vencer.
As pernas de Abigail finalmente cederam, ela caiu de joelhos. Desta vez, não por estratégia. Não por cansaço físico, mas porque seu mundo inteiro acabara de ruir.
Elara foi a primeira a se aproximar. Sem armas, sem hostilidade. Com passos lentos e cuidadosos.
A Caçadora ergueu o olhar, havia lágrimas se formando ali. Pequenas. Quase imperceptíveis, mas reais.
— Eu matei pessoas.
Sua voz falhou.
— Muitas.
Elara permaneceu em silêncio.
Às vezes, não existiam palavras capazes de aliviar determinadas dores.
Abigail apertou os punhos.
— Eu achei que estava salvando alguém.
O vento soprou novamente.
— Achei que estava impedindo que outras famílias passassem pelo que a minha passou.
Ela baixou a cabeça.
— E agora você me diz que não adiantou nada?
Elara permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder.
— Não foi em vão.
Abigail levantou os olhos imediatamente.
Havia incredulidade neles, quase revolta.
— Como não?
— Porque intenção importa.
A Caçadora soltou uma risada amarga. Sem humor algum.
— Intenção não traz ninguém de volta.
— Não.
Elara ajoelhou-se diante dela.
— Mas pode definir quem você escolhe ser daqui para frente.
Abigail desviou o olhar. As palavras pareciam impossíveis de compreender naquele momento.
— Eu não sei mais quem eu sou.
Silêncio.
Então Elara respondeu, suavemente:
— Então talvez esteja na hora de descobrir.
Nenhum deles voltou a falar.
Foi Silas quem interrompeu o momento.
— Gaspar vai desmaiar se vocês continuarem conversando.
Todos se viraram para ele.
Gaspar ainda permanecia de pé. Por pura força de vontade, ou teimosia.
— Eu tô bem.
— Você levou três tiros — respondeu Zach.
Cesar cruzou os braços.
— Quatro.
— Isso não ajuda — respondeu Silas.
— Eu achei importante manter a precisão.
Silas soltou um suspiro cansado.
— Senta.
— Não.
— Gaspar.
— Eu disse que tô...
— Gaspar.
O grandalhão sustentou o olhar de Silas durante alguns segundos.
Então suspirou.
— Tá bom.
Pouco depois, Silas improvisou curativos utilizando parte das bandagens que carregava na mochila. O ferimento no abdômen não era fatal, mas certamente exigiria repouso. O que significava que Gaspar não descansaria absolutamente nada.
A descida das minas aconteceu em silêncio.
Abigail foi junto, sem resistência, sem protestos. Ela sequer tocou no revólver durante todo o caminho.
A noite já havia tomado completamente Vale do Cobre quando retornaram à casa de Cesar.
As luzes alaranjadas das lamparinas iluminavam fracamente os cômodos abarrotados de garrafas, móveis antigos e objetos espalhados sem qualquer organização.
Pela primeira vez desde que o conheceram, entretanto, Cesar não parecia disposto a fazer piadas sobre a própria bagunça.
Silas passou as horas seguintes tratando dos ferimentos.
O ombro perfurado de Cesar, os múltiplos disparos que Gaspar havia recebido, cortes, hematomas e escoriações espalhadas pelo restante do grupo. Enquanto terminava de trocar os curativos de Cesar, o ruivo observou o trabalho com atenção.
— Você leva jeito pra isso.
Silas deu um nó firme na bandagem.
— Sobreviver exige aprender muita coisa.
Cesar soltou um riso curto.
— Isso explica bastante.
— Não explica nada.
— Explica sim.
Silas levantou uma sobrancelha.
— Como?
— Gente normal não sabe costurar ferimento à luz de lamparina sem tremer.
Silas não respondeu. Porque sabia que ele tinha razão.
Abigail permanecia sentada próxima à janela, imóvel, observando a escuridão do lado de fora.
O revólver permanecia sobre a mesa. Pela primeira vez em muitos anos, ela parecia não saber o que fazer com ele.
Ninguém a pressionou, ninguém exigiu respostas.
Todos naquela casa conheciam o peso de fantasmas, alguns apenas conviviam com eles havia mais tempo.
Mais tarde, quando quase todos já dormiam, Zach encontrou Gaspar sentado sozinho nos degraus da varanda.
O homem observava as luzes dispersas da cidade ao longe.
Nenhum dos dois falou imediatamente.
O silêncio entre eles já não era tão hostil quanto antes. Mas continuava pesado.
Zach sentou-se ao lado dele.
— Você devia estar descansando.
Gaspar soltou um pequeno sorriso antes de beber um gole do cantil.
— Você também.
Sem dizer nada, estendeu o cantil para Zach.
Depois de alguns segundos de hesitação, Zach aceitou. Tomou um gole, e devolveu.
— Eu ainda tô com raiva.
Gaspar assentiu.
— Eu sei.
— E talvez continue por muito tempo.
— Eu sei.
Zach respirou fundo.
Os olhos permaneceram fixos no horizonte.
— Mas eu acredito em você.
Gaspar permaneceu imóvel.
Durante alguns segundos, não conseguiu responder.
— Obrigado.
— Não significa que eu te perdoei.
— Eu sei.
Zach desviou o olhar.
— Só significa que eu acredito no homem que você é hoje.
Pela primeira vez naquela noite, Gaspar pareceu verdadeiramente abalado.
Os olhos se encheram de algo que ele raramente permitia demonstrar... gratidão.
Mas não havia palavras suficientes. Então ele apenas assentiu.
Na manhã seguinte, Zach acordou antes do restante do grupo.
Encontrou Elara sentada do lado de fora, observando o nascer do sol sobre as montanhas avermelhadas.
Ela sorriu quando o viu.
— Dormiu?
— Mais ou menos.
— Eu também.
Zach sentou-se ao lado dela. Durante alguns minutos, apenas observaram o horizonte.
O silêncio entre os dois era confortável, natural.
Então Elara falou:
— Posso perguntar uma coisa?
— Depende.
Ela sorriu discretamente.
— Então... Zachary Griff, hein?
Pela primeira vez naquela manhã, Zach riu.
— Minha mãe me chamava assim.
— Quando estava brava?
— Principalmente quando estava brava.
Elara virou o rosto.
— E de onde veio "Red."?
Zach apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Eu era muito tímido quando criança.
Elara arqueou uma sobrancelha.
— Difícil acreditar.
— Minha pele era muito clara. Toda vez que eu ficava com vergonha, meu rosto ficava completamente vermelho.
Ela soltou uma pequena risada.
— Isso é decepcionantemente normal.
— Eu sei.
— Achei que seria uma história trágica.
— Tenho várias dessas também.
O sorriso dela desapareceu suavemente.
— Eu sei.
O silêncio voltou, confortável.
Elara apoiou a cabeça em seu ombro.
— Gosto de "Red".
Zach virou o rosto, levemente confuso.
— Gosta?
— Sim. Mas Griff é um sobrenome muito bonito.
Ele desviou o olhar imediatamente. Corando.
Elara percebeu.
— Agora eu entendi completamente o apelido.
— Você vai usar isso contra mim pelo resto da vida, não vai?
— Provavelmente.
Zach suspirou.
— Acho que vou deixar você continuar me chamando assim.
O restante do grupo acordou pouco depois.
Abigail já estava desperta, esperando. Ela permaneceu em silêncio até todos se reunirem.
Então falou:
— Preciso contar uma coisa.
Todos voltaram a atenção para ela.
— Eu descobri que Zach era o Arcano do Diabo por causa de alguém da Trupe.
O silêncio foi imediato.
— O quê? — perguntou Zach.
Abigail assentiu.
— Um homem me procurou alguns meses atrás.
Gaspar franziu o cenho.
— Quem?
Ela hesitou.
— Ele se apresentava apenas como "O Imperador".
Gaspar congelou.
Zach percebeu imediatamente.
— O Imperador...
Gaspar permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
Então Zach concluiu:
— Dom Soberano.
A expressão de Gaspar mudou instantaneamente.
— Isso é muito ruim.
Abigail continuou:
— Foi ele quem me disse que o Arcano do Diabo era Zach.
Uma pausa.
— Foi ele quem me disse que vocês estavam vindo para Vale do Cobre.
Silas levantou-se lentamente.
— Então ele está nos observando desde Santa Esperança.
O ambiente inteiro ficou mais pesado.
Porque aquilo significava apenas uma coisa.
A Trupe Explosiva sabia exatamente onde eles estavam.
Talvez soubesse havia semanas.
Talvez meses.
E, pela primeira vez desde que iniciaram a viagem, todos compreenderam a mesma verdade inquietante:
Eles nunca estiveram realmente sozinhos.
Continua...