A manhã em Vale do Cobre amanheceu estranhamente silenciosa. Depois dos acontecimentos do dia anterior, aquela tranquilidade parecia quase artificial, como se a própria cidade ainda esperasse que outro tiro rompesse o ar a qualquer instante.
O vento atravessava as ruas estreitas carregando a poeira avermelhada característica das antigas minas. As construções de pedra, marcadas pelo tempo e pela fuligem, permaneciam imóveis sob a luz suave do início do dia. Algumas chaminés já soltavam filetes finos de fumaça, enquanto comerciantes começavam, timidamente, a abrir as portas de seus estabelecimentos.
A cidade respirava outra vez. Ainda desconfiada, ainda cautelosa, mas viva.
Dentro da casa de Cesar, o ambiente era completamente diferente do caos que dominara aquelas paredes na noite anterior. O cheiro forte de café recém passado se espalhava pela cozinha, misturado ao aroma de pão aquecido e carne seca sendo preparada em uma frigideira de ferro já bastante desgastada pelo uso.
Pela primeira vez em muito tempo... Ninguém corria, ninguém sangrava, ninguém apontava uma arma para ninguém.
Aquilo, por si só, parecia quase um milagre.
Cesar observava a própria xícara com uma expressão profundamente pensativa. Levou mais alguns segundos antes de finalmente quebrar o silêncio.
— Sinceramente...
Ninguém respondeu.
Ele girou lentamente a caneca entre os dedos.
— Eu preferia quando o maior problema da minha semana era decidir qual bar eu ia brigar.
Gaspar nem levantou os olhos.
— Você fala como se fosse uma decisão difícil.
— Era.
— Não era.
— Era, sim.
— Você destruía o primeiro que encontrasse.
— Mas existia um processo de escolha.
Gaspar arqueou uma sobrancelha.
— Existia?
— Claro.
— Qual?
Cesar tomou um gole demorado do café antes de responder com toda a seriedade do mundo.
— Eu escolhia o que tinha a cerveja mais barata.
Silas deixou escapar um riso discreto, pequeno, mas sincero.
Elara apenas balançou a cabeça, escondendo um sorriso atrás da própria caneca.
— Isso explica muita coisa.
— Explica tudo — respondeu Cesar.
Até Abigail pareceu esboçar um sorriso, foi mínimo, quase imperceptível. Os cantos da boca se moveram apenas por um instante, mas bastou para que todos percebessem.
Era provavelmente a primeira vez, em muitos anos, que ela se permitia relaxar na presença de outras pessoas.
O café prosseguiu em silêncio durante alguns minutos, não era um silêncio desconfortável. Era o tipo de silêncio que surge quando ninguém sente necessidade de preenchê-lo.
Depois de tantos dias fugindo, lutando, sobrevivendo e enterrando mortos, aquele momento simples ao redor de uma mesa parecia quase estranho.
Silas aproveitava a calmaria para observar os companheiros.
Gaspar ainda mantinha uma das mãos apoiada sobre o curativo improvisado no abdômen. Apesar da expressão tranquila, pequenos movimentos denunciavam que a dor ainda estava longe de desaparecer.
Cesar, por outro lado, parecia ignorar completamente o ferimento no ombro. Gesticulava normalmente enquanto falava, como se uma bala atravessando seu corpo tivesse sido apenas um pequeno inconveniente.
Elara folheava distraidamente algumas páginas de um pequeno caderno.
Abigail permanecia calada, os olhos estavam baixos, acompanhando lentamente a fumaça que subia da própria xícara.
Já Zach... Parecia distante. Pensativo, como acontecia sempre que alguma ideia começava a incomodá-lo.
Foi ele quem finalmente rompeu o silêncio.
— Tem uma coisa me incomodando.
As conversas cessaram imediatamente.
Todos voltaram a atenção para ele.
Zach cruzou os braços, os olhos permaneceram fixos sobre a mesa.
— A gente já encontrou um monte de Marcados.
Fez uma pequena pausa.
— Mas...
Respirou fundo.
— Quantos exatamente existem?
A pergunta permaneceu alguns segundos no ar. Silêncio, porque ninguém realmente sabia responder.
Elara apoiou cuidadosamente a xícara sobre a mesa.
— Boa pergunta.
Ela se inclinou para pegar a mochila encostada ao lado da cadeira. Depois de procurar por alguns instantes, retirou um pequeno caderno de capa escura, as bordas estavam desgastadas, algumas páginas pareciam quase se soltar da lombada. O couro da capa estava marcado por riscos, dobras e manchas acumuladas ao longo da viagem.
Gaspar arqueou uma sobrancelha.
— Você anda com isso pra todo lado?
— Sim.
— Achei que fosse um diário.
Elara sorriu discretamente.
— É melhor que um diário.
— Como assim?
Ela virou algumas páginas.
Anotações preenchiam praticamente todos os espaços disponíveis.
Havia nomes, mapas, desenhos, símbolos, datas, pequenos diagramas, análises escritas em letras minúsculas, algumas páginas estavam completamente cobertas por observações feitas às pressas durante as viagens.
Silas olhou curioso.
— Você anotou tudo isso?
— Desde o começo da viagem.
Ela respondeu.
Gaspar assobiou baixo.
— Tá...
Apontou para o caderno.
— Isso é um pouco assustador.
— Organização não machuca ninguém.
Elara pegou um pequeno lápis preso entre as páginas.
Respirou fundo. Então falou:
— Vamos organizar tudo o que sabemos até agora.
Escreveu lentamente no topo da folha.
Marcados conhecidos
Abaixo do título, traçou uma linha reta.
Depois começou a escrever um nome de cada vez.
Sacerdotisa — Silas
Silas observou o próprio nome durante alguns segundos, ainda parecia estranho, durante toda a vida ele havia sido apenas Silas, agora havia outra identidade ligada a ele, algo que jamais escolhera carregar.
Elara continuou.
Temperança — Gaspar
Gaspar observou a palavra sem qualquer reação aparente, mas permaneceu olhando alguns segundos a mais do que deveria.
Depois veio outro.
Sol — Cesar
— Gostei.
Cesar sorriu.
— Combina comigo.
— Seu ego agradece. — Gaspar respondeu.
— Muito.
Cesar sorri.
Sem interromper o ritmo, Elara continuou.
Julgamento — Elara
Depois...
Diabo — Zach
O silêncio voltou por alguns instantes. Não porque o nome fosse desconhecido, mas porque todos sabiam o peso que ele carregava.
Zach apenas observou a palavra, sem expressão.
Então Elara ergueu os olhos, encarou Abigail.
A Caçadora permaneceu imóvel durante alguns segundos, ainda parecia estranho estar com esse grupo. Mas, lentamente... Assentiu.
Elara escreveu.
Mundo — Abigail
Silêncio, a folha agora possuía seis nomes, seis pessoas completamente diferentes, ligadas por algo que nenhuma delas havia escolhido.
Zach observava atentamente a lista.
Depois falou:
— É estranho.
Silas levantou os olhos.
— O quê?
— Pela primeira vez...
Ele apontou para o caderno.
— Eu consigo enxergar isso tudo. Os nomes, as conexões, os acontecimentos, as coincidências.
Aquilo deixava de parecer uma sequência aleatória de encontros. Pela primeira vez, começava a formar um desenho.
Elara fechou parcialmente o caderno.
— Ainda falta muita gente.
— Batista Dinamite.
Todos olharam para Zach.
Ela voltou a abrir a página.
O lápis ficou suspenso sobre o papel.
— Qual era exatamente a habilidade dele?
Zach demorou alguns segundos para responder, as lembranças do confronto voltaram lentamente. O cheiro de pólvora, os disparos, as ilusões, os movimentos rápidos demais para serem acompanhados.
Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Não tenho certeza...
Fez uma pausa.
— Quando lutei contra ele...
Franziu o cenho.
— Parecia teletransporte.
Gaspar balançou a cabeça imediatamente.
— Não.
Todos olharam para ele.
— Era velocidade.
— Tem certeza?
— Absoluta.
A resposta veio sem qualquer hesitação.
Gaspar apoiou os antebraços sobre a mesa.
— Eu lutei com Batista mais de uma vez.
Os olhos dele pareciam voltar muitos anos no passado.
— Nunca vi aquele idiota desaparecer.
Silêncio.
— Ele só era rápido o bastante pra fazer qualquer um acreditar que tinha sumido.
Elara pensou por alguns segundos, depois assentiu.
— Faz sentido.
Ela escreveu abaixo dos demais nomes.
Estrela — Batista Dinamite — Super Velocidade
Gaspar permaneceu olhando para aquele nome, as lembranças pareciam surgir uma após a outra, confrontos, missões, discussões. Tempos que ele preferia esquecer.
Respirou fundo antes de falar.
— Quando eu entrei na Trupe...
A voz saiu mais baixa.
— Batista era só um soldado.
Ninguém interrompeu.
— Impulsivo, barulhento, vivia arrumando confusão.
Ele soltou um pequeno sorriso sem humor.
— Nunca imaginei que fosse virar capitão.
Zach apoiou as costas na cadeira.
— Então ele cresceu bastante.
Gaspar assentiu lentamente.
— Cresceu.
Fez uma breve pausa.
— E, pelo jeito, ficou muito mais forte.
Zach sorriu de canto.
— Não tanto assim.
Todos olharam para ele.
— Quando enfrentei aquele maluco...
Ele deu de ombros.
— Caiu na minha ilusão quase imediatamente.
Gaspar não perdeu a oportunidade.
— Eu disse que ele ficou forte.
Olhou diretamente para Zach.
— Não mais inteligente.
Cesar gargalhou.
Até Silas deixou escapar outro pequeno riso.
Zach apenas revirou os olhos.
— Vocês são insuportáveis.
— Mas estamos certos.
Elara virou a página, o lápis voltou à posição.
— Próximo.
Zach respondeu imediatamente.
— Dom Fogo Santo.
Ela levantou a ponta do lápis.
— O que ele fazia exatamente?
Zach fechou os olhos por alguns segundos, tentava reorganizar lembranças que haviam acontecido rápido demais.
— Eu...
Respirou fundo.
— Parecia que ele desaparecia.
Fez um gesto com a mão.
— Num instante estava na minha frente.
Silêncio.
— No outro...
Apontou atrás do próprio ombro.
— Já estava atrás de mim.
Gaspar respondeu antes mesmo que Elara terminasse de raciocinar.
— Carruagem.
Ela ergueu os olhos.
— Teletransporte?
— Sim.
A resposta veio firme.
— Um Arcano extremamente poderoso... se existe um Arcano que eu nunca quis enfrentar de novo... era a Carruagem.
Elara anotou cuidadosamente.
Carruagem — Dom Fogo Santo — Teletransporte
Ela observou a lista crescer.
Nome após nome. Arcano após Arcano. Cada nova informação tornava a Trupe Explosiva menos misteriosa, mas infinitamente mais perigosa, porque, pela primeira vez, eles deixavam de enfrentar sombras, agora começavam a conhecer os rostos das peças que compunham aquele enorme tabuleiro.
Silas cruzou os braços enquanto encarava as anotações que começavam a preencher as páginas do velho caderno de Elara.
A quantidade de nomes crescia diante deles como uma lista de inimigos que parecia nunca terminar.
— Então era por isso... — murmurou ele. — Parecia impossível acompanhar aquele sujeito.
Gaspar assentiu lentamente.
— O Arcano da Carruagem é um dos mais complicados de enfrentar. Quem luta contra ele quase sempre tem a sensação de estar enfrentando alguém capaz de aparecer em qualquer lugar ao mesmo tempo.
Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Mas não é velocidade comum. Também não é apenas teletransporte. É mobilidade absoluta. Enquanto você tenta entender onde ele está... ele já decidiu onde vai estar em seguida.
Silas recordou a batalha em Santa Esperança.
Dom Fogo Santo desaparecendo de sua frente, reaparecendo atrás, nenhuma lógica, nenhum padrão.
Agora tudo fazia sentido.
Cesar soltou um assobio comprido.
— Então esse cara é bem desagradável de enfrentar.
— Muito mais do que parece. — respondeu Gaspar.
Silas permaneceu em silêncio, as lembranças daquele combate ainda estavam vivas, mesmo depois de curar uma cidade inteira de uma doença, mesmo depois de Abigail, mesmo depois de tudo. Dom Fogo Santo ainda era um dos adversários mais perigosos que já enfrentara.
Ela observou por alguns segundos a página antes de virar outra folha do caderno, as páginas antigas já estavam gastas pelo tempo. Algumas possuíam rabiscos, mapas, símbolos estranhos, anotações sobre cidades e pessoas, outras continham apenas perguntas, muitas perguntas. Perguntas que talvez nunca encontrassem resposta.
Ela ergueu novamente o lápis.
— Próximo.
Zach respondeu quase imediatamente.
— Luke.
Silas assentiu.
— O cara que emboscou a gente na saída de Santa Esperança.
Só de lembrar, o desconforto voltou. Aquela luta havia sido rápida, violenta. E estranhamente desesperadora.
Silas respirou fundo.
— Ele destruiu o chão na nossa frente como se fosse papel.
Zach apoiou os braços sobre a mesa.
— Bastava tocar nas coisas.
Fez uma pequena pausa enquanto tentava organizar a lembrança.
— Elas simplesmente...
— Sumiam. — Completou Gaspar.
Todos olharam para ele.
Ele passou os dedos pela barba.
— Era desintegração.
Elara já escrevia antes mesmo de alguém concluir.
Torre — Luke — Desintegração
Ela sublinhou discretamente a palavra.
Desintegração. Só de imaginar aquela habilidade sendo usada em larga escala já era suficiente para causar arrepios.
Cesar observou a anotação.
— Então aquele cara consegue apagar qualquer coisa?
Gaspar balançou a cabeça.
— Não exatamente, existe um limite. Todo Arcano possui um, o problema é descobrir qual.
— Que bom que você o matou antes que pudesse descobrir o potencial dele. — Elara completou.
Silas permaneceu olhando para a palavra escrita. Cada novo nome parecia aumentar o peso daquela investigação, não eram apenas pessoas, eram poderes, armas. Peças de um quebra-cabeça enorme.
Foi Zach quem quebrou o silêncio outra vez.
— Victor Faísca.
Elara levantou o olhar.
— O da prisão de Areia Perdida.
— Isso.
Ela girou o lápis entre os dedos.
— A habilidade dele era prever o futuro, certo?
Zach respirou fundo, ainda lembrava daquela luta. Lembrava da sensação horrível de enfrentar alguém que parecia antecipar todos os movimentos.
— Era exatamente isso.
Ele cruzou os braços.
— Não importa o que a gente fazia... ele tentava nos emboscar de qualquer jeito.
Silêncio.
— Honestamente...
Zach soltou um pequeno riso sem humor.
— Até hoje não faço ideia de como conseguimos vencer.
Gaspar permaneceu imóvel durante alguns segundos, então respondeu com absoluta certeza.
— Arcano da Morte.
Elara assentiu e ela anotou.
Morte — Victor Faísca — Previsão do futuro
Depois acrescentou uma observação logo abaixo.
Status: preso em Areia Perdida.
— Pelo menos esse não deve voltar tão cedo.
Cesar soltou um suspiro exagerado.
— Ainda bem, porque essa lista já tá assustadora demais.
Gaspar permaneceu observando as páginas, parecia perdido em lembranças que preferia esquecer.
Então respirou fundo.
— Ainda falta um capitão.
Todos voltaram a olhar para ele.
Elara preparou novamente o lápis.
— Nome?
Gaspar balançou lentamente a cabeça.
— Nunca soube.
— Nem apelido?
— Nada.
— Só conhecia o Arcano.
Silêncio.
— A Imperatriz.
Elara pensou durante alguns segundos, percorreu mentalmente tudo o que havia pesquisado durante anos, então seus olhos se iluminaram.
— Se minhas anotações estiverem certas...
Ela virou algumas páginas rapidamente. Encontrou uma observação antiga.
— Controle da natureza.
Ela escreveu mais uma linha.
Imperatriz — Capitã da Trupe — Controle da natureza
Cesar arqueou uma sobrancelha.
— Capitã?
Gaspar confirmou.
— Trabalha diretamente para Dom Soberano, é uma das pessoas de maior confiança dele. Pelo menos era quando eu ainda fazia parte da organização.
O ambiente voltou a ficar pesado. Quanto mais nomes apareciam... Mais claro ficava o tamanho da Trupe Explosiva.
Não era apenas um grupo criminoso, era praticamente um exército.
Silas então fez a pergunta que todos evitavam.
— E o Dom Soberano?
Gaspar respirou profundamente antes de responder.
— O Imperador.
Elara já esperava aquela resposta, mesmo assim fez questão de registrar.
Imperador — Dom Soberano — Controle mental
Zach permaneceu olhando para aquele nome.
Só de lembrar do homem que serviu de marionete, um desconforto percorreu sua espinha, aquela presença, aquela calma, aquela maneira de manipular pessoas. Tudo nele parecia errado.
Elara ergueu novamente os olhos.
— Isso explica outra coisa.
Silas virou-se para ela.
— O quê?
Ela olhou para Zach.
— O padre de Santa Carmesim.
Silas franziu a testa.
— Espera... O padre era um Marcado?
— Era.
Respondeu Zach, ele tomou mais um gole do café antes de continuar.
— Durante muito tempo eu achei impossível alguém controlar uma cidade inteira daquele jeito.
Fez uma pausa.
— Mas depois que descobrimos o Arcano do Dom Soberano...
Tudo passou a fazer sentido.
Silas apoiou os braços sobre a mesa.
— Então... qual era o Arcano do padre?
Elara respondeu antes que Zach pudesse falar.
— O Papa.
Ela consultou rapidamente algumas anotações antigas.
— Segundo tudo o que consegui descobrir... Esse Arcano permite amplificar a influência exercida sobre outras pessoas através da fé.
Gaspar levantou lentamente a cabeça.
A ligação era óbvia.
— Então foi por isso.
Todos olharam para ele.
— Dom Soberano escolheu exatamente a pessoa certa.
Fez um gesto com a mão.
— Quem teria mais influência religiosa do que um padre?
Outra pausa.
— Ainda mais em Santa Carmesim.
Seu olhar endureceu.
— A cidade mais devota de toda a região.
Agora as peças começavam a se encaixar, pouco a pouco. Uma após outra. A folha do caderno parecia muito mais do que uma lista, era um mapa, um mapa parcial da guerra que estavam travando.
Foi então que Zach percebeu Abigail. Ela permanecia completamente imóvel. Os olhos fixos em apenas uma palavra.
O Mundo.
Ele franziu levemente o cenho.
— Tá tudo bem?
Ela demorou alguns segundos para responder. Quando finalmente falou, sua voz saiu quase como um sussurro.
— Eu nunca soube.
— Soube o quê?
Ela levantou lentamente a mão, apontou para o próprio nome escrito na folha.
O Mundo.
Permaneceu olhando aquela palavra durante alguns segundos.
— Esse...
Ela respirou fundo.
— Era o nome do meu Arcano?
Elara assentiu delicadamente.
— Sim.
Abigail voltou a baixar os olhos, nunca soube o nome do poder que carregava.
Ninguém interrompeu aquele momento. Cada um respeitou o silêncio dela.
Depois de algum tempo, Abigail voltou a falar.
— Tem mais uma coisa.
Todos prestaram atenção imediatamente.
Ela apontou para os espaços ainda vazios do caderno.
— Alguns desses...
Sua voz enfraqueceu.
— Nunca vão aparecer.
Silêncio.
Silas perguntou, já imaginando a resposta.
— Por quê?
Abigail abaixou lentamente a cabeça.
— Porque eu matei.
O ambiente inteiro ficou imóvel.
Ela fechou os olhos.
— Não lembro dos nomes.
Outra pausa.
— Nem dos rostos.
Sua voz falhava um pouco mais a cada frase.
— Eu nunca perguntava quem eram.
Gaspar desviou discretamente o olhar.
Cesar permaneceu completamente calado.
Até Zach, que normalmente sempre encontrava alguma resposta, permaneceu em silêncio, porque nenhuma palavra seria suficiente.
Abigail respirou fundo.
— Mas eu lembro dos Arcanos.
Elara imediatamente abriu uma página em branco.
— Me diga.
Abigail fechou os olhos. Buscando memórias que preferia esquecer.
— O primeiro...
Ela respirou lentamente.
— O Mago.
Elara escreveu sem hesitar.
Mago — Absorção
— Depois...
Outra pausa.
— A Força.
Elara continuou.
Força — Força sobre-humana
— O terceiro...
Abigail apertou discretamente as mãos.
— Justiça.
Justiça — Detector de mentiras
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio antes de continuar.
— E o último...
Respirou fundo.
— O Enforcado.
Elara parou o lápis.
— Esse...
Ela franziu a testa.
— Eu não sei qual é a habilidade.
Gaspar apoiou lentamente a xícara sobre a mesa. O pequeno som da porcelana ecoou pela cozinha.
— Se minha memória não falha...
Ele pensou por alguns instantes.
— Era um ex-integrante da Trupe.
Todos voltaram a olhar para ele.
— Acho que controlava o clima.
Fez uma pausa.
— Ou alguma coisa muito próxima disso.
Elara registrou também aquela informação, deixando uma observação ao lado para confirmar depois.
Só então fechou cuidadosamente o caderno, passou a mão sobre a capa gasta, respirou fundo.
— Então...
Olhou para todos.
— Pela primeira vez...
Seu olhar voltou para as páginas.
— Acho que conseguimos enxergar uma parte do tabuleiro.
Zach permaneceu alguns segundos observando todos aqueles nomes.
Treze Arcanos identificados.
Quatro mortos.
Cinco restantes.
E vários inimigos, alguns espaços ainda em branco.
Respirou profundamente.
— E, mesmo assim...
Ergueu os olhos para o restante do grupo.
— Tenho a impressão de que a gente sabe muito menos do que deveria.
Gaspar soltou um pequeno riso cansado. Sem humor, sem alegria.
— Bem-vindo à guerra contra a Trupe Explosiva.
O silêncio voltou a dominar a cozinha.
Mas agora era diferente, não era um silêncio de medo.
Era um silêncio de compreensão, pela primeira vez desde o início daquela jornada, todos enxergavam parte do cenário que estavam enfrentando.
As peças começavam, enfim, a ganhar nomes. Mas aquele tabuleiro ainda estava longe de ser revelado por completo. E, em algum lugar, escondido atrás de inúmeras máscaras, ainda existia alguém movendo cada uma delas.
Continua...