Uma história mal contada.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Em silêncio, um garoto de cabelos castanhos e olhos amarelos como o sol, escutava de uma pequena garotinha de cabelos brancos e olhos vermelhos, uma explicação sobre seu pós-vida. Ele ficou pensativo, de certa forma havia entendido sua própria situação, mas ainda estava abalado com o curto choque de realidade após uma morte indevida.
— Então... Eu os guio pelos Caminhos Divinos. — Desconfortável, conteve o acanho e prosseguiu: — Os incontáveis caminhos que nos foram dados pelos incríveis seres celestiais, tanto para vocês terráqueos, quanto para as outras infinitas raças poderem viver nesse Outro Mundo! — falou com um olho pela metade, a sobrancelha erguida e apontando com o dedo indicador para cima.
— Na verdade, são somente algumas opções de como seguir o seu “pós-vida”, mas eu tenho que apresentar dessa forma, então... — Encolheu o rosto e arqueou as sobrancelhas.
A explicação gradualmente adentrou-lhe a mente, porém notou haver algo estranho que ia em direção oposta às suas crenças religiosas.
— Calma! Não era para existir um Paraíso? Céu? Vida eterna? Como assim, outro mundo? Era para existir outro mundo além do meu? — Ergueu a sobrancelha e, com os olhos bem abertos, inclinou o rosto em descrença.
— Seu? Paraíso? Está erroneamente enganado, humano, seu mundo é só uma bola de terra entre muitas.
— Oxe!? Não é possível! Existe outro mundo? — Levantou os ombros.
— Sim, tão incrível que você sequer conseguiria imaginar. A “Terra” nessa comparação, não passa de um amontoado… de terra. — Completou com um tom irônico e um forte ar de desdém.
O garoto desistiu de seus questionamentos e aparentou não crer no que ouviu.
— Continuando... — O chão começou a tremer e a neve, em seis locais numa horizontal linha reta atrás da garota, começou a se erguer. Em segundos caíram os amontoados de branco, dando espaço a meios arcos em pedra. Seis marcos cinzas, três de cada lado com um grande vão no meio em que se encontravam, nenhum deles contendo uma porta.
— Mas que porra é essa?! — Apontou para as portas e inconscientemente se rastejou para trás.
— Calma! Calma! Aqueles são os caminhos!
— Caminhos?!
— Sim os caminhos!
— Que caminhos?!
— Eu estava para lhe explicar isso agora! Então cale essa sua boca! — Chocada com a reação, quase perdeu o foco, mas conseguiu retomar após alguns segundos que o garoto trepidante ficou em silêncio: — Bem... — Olhou para o garoto e confirmou para ver se ele estava prestando atenção: — Para ir para esse mundo, tens que passar pelo crivo de alguns dos seres divinos que o regem… Por motivos que não sei, os deuses criaram caminhos que indiretamente interligam sua alma a eles.
— Os deuses são bem complacentes com seus servos, não tão bem quanto deveriam… mas são. — Pausou por um segundo e mostrou uma expressão de “fazer o que?”. e logo em seguida tossiu: — Um dos caminhos oferecidos por eles é se tornar um servo da escuridão.
O marco à sua esquerda começou a brilhar. Partículas violetas emanaram das bordas da estrutura, um som estridente veio à tona. A ignição seguida da fagulha de uma iminente explosão se alastrou. Em uma espiral de partículas sobre o centro do marco, criou-se um portal.
Perplexo com o que presenciou, não teve tempo para raciocinar sobre a dúvida que apareceu, logo se viu envolto pelo brilho do portal.
— Você irá vagar entre as trevas! Poderes inimagináveis estarão a seu alcance! Não precisará carregar consigo sua aparência! Não ficará refém de emoções! Tornara-se um imortal que nunca irá regressar ao vazio! A menos que tente se aproximar da luz.
— Espera, o que foi que ela acabou de dizer?
A guia contou-lhe sobre os diversos caminhos pelos quais poderia rumar. Todos eram maravilhosos à primeira vista, mas por trás das doces oferendas dos deuses, havia armadilhas escusas. As oportunidades, quais foram lhe apresentadas por ela, acompanhavam uma enorme incapacidade de se opor àqueles que a alma o querem. Como dizia um velho ditado: “Quem quer rir, tem que fazer rir”, desde a vida nobre de um sacerdote, entre fartos banquetes da alta sociedade, mas fadado a uma vida de traição e desgosto. Até a de um guerreiro repleto de glórias e belas mulheres, mas destinado a lutar pela eternidade. O rapaz desfrutaria dessas benesses “eternas”, desde que uma peça de sua alma fosse cedida, sua liberdade.
Assim continuou até que chegou no sexto caminho, partículas alaranjadas emanaram.
— O sexto caminho é ser um servo da luz. Sobre o julgo da única deusa da luz! Viverá em glória, combatendo os males e a escuridão do mundo! Terá que demonstrar grande fidelidade enquanto leva a luz ao mundo! Por meio de sua eterna servidão à bondade! Por qual desses caminhos você gostaria de trilhar?
— Ela acabou de me dizer que serei um escravo? — Era tudo tão fantástico e deslumbrante, mas ao mesmo tempo estranho e amedrontador que o fez repensar seus conceitos. Nenhuma das possibilidades mostrava uma vida realmente feliz. Todos pediam o controle de seu corpo, quando não de suas memórias, sentimentos ou emoções. Tudo girava em torno de ceder o controle do próprio destino, o controle de sua vida. — Mas só tem isso? Não tem mais opções? — Uma pulga ficou atrás da orelha, seus olhos semifechados observavam com calma os portais e, entre questionamentos internos, no meio deles reparou ter uma porta ao lado do terceiro marco, mas ela não estava ali antes, o que se sucedeu em uma pergunta: — E aquela porta ali? Servo de quem eu sou se escolher ir por ali? — Apontou o dedo para a rústica porta que emanava partículas vermelhas entre as arestas e lascas da escura madeira desgastada.
— É... — A garota não soube o que responder. Trêmula, ficou em dúvida sobre a origem daquela porta e muito menos sobre servo de quem ele seria ao adentrá-la.
— Essa porta- é- é- É por onde eu cheguei! — falou repentinamente.
— Aé... — Semi fechou os olhos e arqueou uma sobrancelha. — Eu posso entrar ali então?
— Não! É... Quero dizer... n-não pode! Por que... Aquele lugar não tem Ar! Então... você não conseguiria respirar lá! Sim sim! Sem ar! Sem respiração!
— Como assim? Não tem ar? Então não tem outra opção? — O garoto pôs a mão sobre o rosto e voltou seu olhar cabisbaixo para os portais, cessando mais questionamentos.
— Então... — Ela tossiu e voltou repentinamente a falar: — Você está indo para um mundo totalmente novo, uma realidade totalmente diferente daquilo que conheces, é necessário para sobreviver em tal terra hostil, ter a proteção de um dos deuses.
Sem esperanças e ao mesmo tempo desanimado com tudo ao qual foi sendo apresentado, além de assombrado pela própria morte, tudo que ouviu até aquele momento tornou-se difícil de digerir.
— Tenho tempo pra escolher que caminho eu vou? Não tem limite de tempo não, né?
— Claro que não! Leve o tempo que quiser... estou aqui somente para te guiar! à escolha sobre para onde ir, quem faz é você! Demore o tempo que quiser. — Sorridente, ela se afastou.
— Se eu quiser ir para esse mundo, eu preciso passar por esses caminhos… se eu escolher a terceira porta, vou perder meu— Difícil... Quer dizer... Como assim tenho que escolher esses portais para reencarnar no outro mundo? Reencarnar em outro mundo, outro mundo… seria um? Nãaao! Nem fudendo! Não pode ser que eu esteja numa situação clichê dessas… Ou pode?
— Mas espera, então eu vou para outro mundo mesmo!? Mas... de que adianta uma segunda chance? Receber uma segunda chance, sozinho… Porra… Eu… Eu queria voltar pra casa, como será que está a mamãe…
Por alguns minutos, voltou a lamentar a morte, tanto momentos tristes quanto animadores eram despejados em suas lástimas, o que não ficou recluso somente a si, pois entre soluços e sussurros, a mocinha ali ao lado observava o retrair de seu semblante, para uma externa depressão.
— Oi… está tudo bem? — perguntou inquieta. — Eei! Está me ouvindo!? — Balançou a mão em frente ao seu rosto.
— O-oi! Me desculpa — sorriu contrangido. — Acabei… viajando um pouco. — Coçou a nuca, ainda duvidoso sobre a própria situação, e perguntou: — O que você estava dizendo mesmo?
— Você está confuso, não é? — Um sorriso meigo apareceu em seu rosto. — Sabe... primeiro me fale seu nome, não acho legal continuarmos sem nos conhecermos, não é? Esse ofício de “mensageiro da morte” também é difícil para mim, hehe!
— Oh... Sim, me– me chamo Miguel, e você? Como se chama? — Estendeu a mão para ela.
— É um prazer te conhecer, Miguel! Eu me chamo Isabella. — Aproximando-se dele, apertou sua mão e rapidamente aquele sorriso meigo deu espaço a uma risada alegre e Isabella puxou Miguel.
O pequeno que acabara de levantar após uma crise sentimental e emocional, sentiu-se tonto em um primeiro momento e cambaleou um pouco antes de firmar-se com os pés no chão.
— O prazer é todo meu, Isabella, então… o que exatamente é esse outro mundo? Você explicou, mas mesmo assim... É tudo tão estranho, quanto mais eu penso, mais me encho de dúvidas. — Colocou uma mão no cabelo e começou a coçar com um dos olhos fechados.
— Olha… Isso vai ser explicado pelos deuses no caminho... Você não deve questionar mais do que lhe é apresentado… — Isabella virou os olhos para o lado e inclinou a cabeça: — Sabe… Eu não sei se posso falar… Nem mesmo eu sei direito o que esse mundo é, eu sou só uma guia… — Sua face foi tomada por um olhar de preocupação.
— Espera?! Você não sabe para onde eu estou indo? — Miguel a encarou com os olhos esgazeados.
— Na– Não! Quer dizer! Eu– Eu só sei que é diferente de sua realidade! Quer dizer… Ele se chama Iberia! É tudo que eu sei…
— Ibéria? O que caralhos tem nesse lugar?
— Eu… Eu não sei… — Tentando esconder o rosto, de cabeça baixa, Isabella fugia do seu campo de visão.
Sobrecarregado, não soube como ou o que dizer. O que lhe fora falado até agora nada mais era que um contrato de escravidão em um mundo desconhecido, um sonho para algum idiota otimista, mas para seus olhos pessimistas, aquilo era um pesadelo.
— Vamos lá Miguel! Vamos lá! Que porra que eu fiz pra merecer isso? — Agachou-se envolto em pensamentos. — Se o que ela disse for verdade, preciso de uma garantia… — Ele mirou na Guia, que, tentando fugir dos seus olhos estressados, quase tropeçou. — Nah! Essa história toda não vale nada… fica ainda mais estranho com cada um dando uma arma quebrada. Essa imortalidade, esses superpoderes, qual o sentido de ser um homem igual ao vovô, mas não poder agir como homem? Tem algo muito errado aí. — Fixou os olhos no chão e pôs a mão no queixo. Entre uma linha constante de pensamentos, juntou os pontos e, repentinamente, uma ideia veio. — Certo, entendi que você não sabe de nada…
A guia que estava tímida, tremeu ao ouvir aquilo, mas não respondeu ao garoto enfurecido.
— Mas... Tem como me falar um negócio? — Inclinou a cabeça e a mirou.
— Claro! — sorriu timidamente.
— Então… — Ele se levantou. — Por favor, que eu esteja certo! — Cruzou os dedos: — Eu ganho algo a mais caso escolha algum dos caminhos? Não é por ganância nem nada do tipo, estou perguntando só porque as explicações são vagas, me diz que eu sou imortal, mas como imortal? Se eu posso morrer se acenderem um fósforo perto de mim.
Ela ficou com uma séria dúvida após aquela afirmação.
— Não entenda errado… estou falando de uma ajuda. Algo pra eu me defender, sabe? Uma espada inquebrável, uma jarra de água infinita, uma roupa não suscetível a cortes e perfurações... Uma sombrinha?
Seus olhos fecharam por um instante: — Tinha algo assim? — Franziu o rosto e cruzou os braços. — Não me lembro direito... Acho que sim… Se não me engano, foi um tal de Salim que tinha me perguntado a mesma coisa, não foi?
— Diz que sim! Diz que sim! — Miguel fechou os olhos, rogando por isso.
— Á! — Isabella bateu as mãos quando se lembrou. — Como pude me esquecer disso!? Sim, existe!
— Finalmente! Porra!!! — Os pensamentos quase saltaram para fora e, em sua mente, mesmo que tomada pela frustração, pela primeira vez, sentiu alívio. — Que– Que bom! — Sorriu timidamente, endireitando-se.
Na vida, não existe almoço grátis, e Isabella teve que dar uma notícia que o faria ficar pensativo novamente. Olhando para baixo e juntando os indicadores com os polegares para cima, ela falou: — Er… bem, como posso lhe falar… Eu não ficaria tão alegre sobre isso.
Miguel, que estava dando alguns pulinhos de alegria junto ao macaco baterista em sua mente, esbanjando um sorriso que não conseguia conter, teve suas expressões novamente consternadas e sentiu que já poderia começar a considerar se não seria mais vantajoso virar um tatu.
— Não fique tão cabisbaixo, é... que... Bem! Isso é algo que os deuses ordenaram!
— Ordenaram?! O que é dessa vez?!
— É… Só-Só será entregue a quem a ganância tomar o lugar da razão!
— Ganância?
— Então não é algo que eu possa falar abertamente e ninguém nunca perguntou sobre... Então tinha realmente me esquecido… — Seus olhos não paravam quietos, coçando a cabeça desajeitada: — Digo é porque– — Ela tossiu e prosseguiu — “A todos aqueles que cobiçam algo a mais do que os deuses vos oferecem, será concedido um desejo equivalente à ganância que os consome.”
— Mas que– Mas que merda é essa?!
— Be- Bem... Eu não sei, nem sei ao certo o que você irá ganhar. Você simplesmente vai ganhar algo que pode ser bom ou ser ruim.
— Como assim??? Qual a Logica disso?! — Seu coração doía, suor começou a escorrer no rosto enquanto a esperança se apagava de seus olhos.
— Eu tento não lembrar disso, pois já vi muitas pessoas que tiveram o azar de não serem nem um pouco ajudadas. Poucos dos muitos que vêm de sua terra fizeram essa pergunta e tudo o que restou para aqueles que foram para Ibéria após isso, é carregar consigo uma maldição e inevitavelmente andar lado a lado da morte.
Miguel colocou a mão sobre o rosto e abaixou a cabeça e virou-se de costas.
Isabella observou a reação e tentou se aproximar para desfazer o que foi feito, porém, o garoto não conseguiu digerir mais daquilo que acabara de ouvir.
— Para! Não chega perto! — Estendeu a mão em direção a ela e mirou em seus olhos. — Só me deixa quieto um pouquinho... É… É tanta coisa pra pensar que posso acabar sendo morto só de escolher errado agora... — aflito, carregava um grande pesar na voz.
— É uma decisão difícil... Eu entendo… Não irei te pressionar sobre isso, caso queira, posso tirar outras dúvidas que tenha… — Cabisbaixa após ouvi-lo, ficou ainda mais triste.
— Dúvida? Você quer me foder ainda mais?
— Na- não! quer dize–
— Quer dizer o quê?! Só me deixa! Isso aqui– Isso aqui… — Seus olhos se voltaram para o chão, ele colocou as mãos na cabeça novamente: — Me dá um tempo… Eu vou escolher um dos caminhos, mas está difícil raciocinar agora…
— Te desejo sabedoria em sua escolha. — Sem jeito entre o balançar do corpo com a cabeça abaixada, Isabella moveu-se um pouco para trás e deu-lhe um pouco mais de privacidade.
— Obrigado. — Miguel sentou-se e cruzou as pernas com as mãos sobre os joelhos e analisou a própria situação: — Eu não vou ganhar muito como um servo desses caras, então por que eu iria pra lá? Mas… também não tem pra onde voltar.. Se eu não escolher nada, o que será que acontece comigo? Que estranho... Eu queria ter vivido mais tempo...
— Porra! Eu nem consegui fazer os dois voltarem! Queria… queria muito ter conseguido antes de morrer… — Os olhos se enchiam de lágrimas toda vez que se questionava sobre o passado. — Será… será que eu fiz algo muito ruim pra não ter conseguido? ou eu só não merecia? — pensou e pensou, tanto que acabou com o corpo esmorecido. A cada pergunta que fazia, quanto mais se questionava, mais se desanimava.
Mesmo tendo nas mãos uma oportunidade de realizar um sonho que nem mesmo os mais saudosistas e fanáticos conseguiram, sua razão não o permitia tomar essa decisão que o tornaria um “digno” protagonista de sua nova história. Ainda que triste, não se abalou totalmente. Soprou e bateu forte em seu peito e logo começou a reorganizar os pensamentos.
— Bem, não adianta ficar chorando… Só de pensar em viver em outro mundo, qualquer um já aceitaria na hora… Mas não posso vacilar, não quero me dar mal, o que vai ser de mim lá?
Envolto numa pequena bolha de seus raciocínios superficiais, chegou a demonstrar certa categoria de delírio, tendo conversas consigo mesmo.
— Finalmente o achei. — Uma voz estranha surgiu não muito longe de onde o garoto e a guia estavam. Aquela fala desencadeou um clima pesado no lugar, uma energia começou a se espalhar, era borrada, a voz de um velho, acompanhou um estado de paralisia em Miguel.
Isabella não escutou, mas pressentiu pelo clima que mais alguém estava ali e automaticamente firmou o corpo em posição defensiva.
— Tu, o que pensas que estás fazendo? — A pergunta se propagou por todos os lados.
Ao ouvir aquela voz que vinha de todas as direções, olhou para os lados, porém rapidamente essa impressão passou ao ver que não havia mais ninguém ali além dela e Miguel.
— Devo estar delirando... — Ponderou aquele fenômeno e voltou a uma posição confortável. Observando os devaneios do garoto, até que o malfadado deslize, fez-a sofrer as consequências, um chute pela ponta de um negro sapato bico largo, de couro, que levou em seu rosto.
Jogada longe com o chute que recebeu, quicou em rodopios por mais alguns metros até que caiu de vez sobre a neve.
— Eu disse, o que pensa que está fazendo?! Sua aberração!!! — A figura imponente se mostrou: trajado com um fino terno sem gravata, coberto por um sobretudo cinza grafite, cabelos curtos e grisalhos, de alto porte e corpo musculoso, olhos dourados e um longo bigode cobrindo a boca.
— Mas qu– — Isabella tentou se levantar, desorientada, a visão ficou turva e as pernas falharam, o que não a permitiu se firmar em pé e logo em seguida levou outro golpe antes que conseguisse se equilibrar.
O senhor que estava muito distante, olhando-a com significativa raiva no rosto, saltou em sua direção e, junto ao movimento do corpo em pose de arremesso, desferiu em um ângulo ascendente com o punho esquerdo cerrado no abdômen da garota; um soco tão forte que o vento entre eles se partiu. O impacto no corpo dela gerou uma onda de propagação que afastou toda a neve ao redor deles.
— Qu– — Isabella não teve tempo de reação, seu intestino sofreu gravemente, o que a fez vomitar, algumas de suas costelas começaram a rachar com o choque, seus olhos se reviraram em agonia enquanto para as alturas era enviada.
— Q– Quem diabos? — Em constante agonia, às escuras de sua visão turva, tentou loucamente reformular o que estava acontecendo ao tempo que o arco de sua trajetória começou a torcer para baixo. A aura que sentiu, a voz que ouviu, o horripilante aroma que exalava da energia circundando a figura.
— Desgraçado! — gritou a garota que, se contorcendo em raiva, revirou o corpo com os dentes cerrados em direção à figura que não enxergava.
— Como– — Um par de asas prateadas apareceu em suas costas, pequenas, consistiam em duas asas grandes de cor prata brilhante acima e outras menores abaixo. — Se atreve– — A imponência delas distorcia o ambiente com os raios de luz que emitiam. — A me atacar!! — Rapidamente, sua trajetória parou e começou a pairar no ar, sua mente estava insegura, mas seu corpo clamava por um revide.
O senhor observou o planar dela, uma ligeira surpresa adveio à mente. Dúvidas surgiram olhando para aquelas pequenas asas reluzentes, a energia que delas emanava destoava da energia presente na figura a quem acompanhavam.
— Diga-me, tu és um caído? — perguntou olhando para o mover descontrolado das duas energias que ela continha.
— O-o que? Ca– Caído! Co– Como? Do que está falando, seu Louco!? — A raiva se fazia presente em seus berros, porém foi jogada de escanteio quando balançou a cabeça junto à dúvida que ficou exposta em seu rosto. — O que esse cara quer!?
— RESPONDA-ME! — Uma forte e intensa energia tomou conta do local, a visão turva da garota se viu avermelhada por alguns segundos, a pressão a fez ficar trêmula, ligeiramente perdendo o equilíbrio.
— Na- Não!
— Então me diga, onde conseguiste essas asas?!
— Mas quê!? Co– Conseguir? Como assim!? Eu nasci com elas!! — Seus braços e suas mãos se abriram, indignada, os nervos dela estavam à flor da pele, além de perplexa, esse foi um questionamento que nunca pensou que ouviria em sua vida.
— Então você é prole deles! Mostre-me sua verdadeira face! Demônio! — Em fúria, as palavras que desferiu foram acompanhadas de um peso no ar em toda aquela região, a energia que emanava foi moldada de um branco quase invisível para uma onda dourada com um brilho ofuscante que fez os olhos de Isabella sangrarem.
Um rápido pensamento veio à cabeça dela, antes de a turva imagem dourada em sua frente desaparecer e uma escuridão em sua visão se formar: — U- Um Anjo!
Repentinamente, seu arredor se encandeceu, sangue começou a escorrer de seus lábios, sua pele queimava, seus ossos se despedaçaram e sua visão apagou após ouvir as palavras daquele ser poderoso que enfrentava.
— Morra.