A Passagem.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Desnorteado, Miguel despertou sem lembrar-se de nada do que seu corpo havia presenciado. — Mas o que? Porque eu to chora– — Balançou o rosto e limpou os olhos, logo se deparou com sua camisa e bermuda rasgada. Não teve tempo de questionar sobre o que aconteceu para ficar assim, pois se assustou quando olhou para a marca em seu peito.
— O que!? — Pensou ser algo que havia caído ali, mas ao passar a mão sobre a marca, percebeu que era sua pele. — Ahn!? O que é Isso!? — Com o rasgar dos dedos sobre seu peito, coçou, coçou, tentou retirá-la, mas nada além da vermelhidão apareceu. — Como assim!? Espera! Isabella? ISABELLA!!! — Ele virou-se e procurou pela garota, mas deparou-se com outra visão estranha. — Mas que porra que aconteceu aqui? — Não havia mais portais multicoloridos. A Guia não estava mais lá. Somente algumas poucas crateras com o chão duro, sem neve alguma, se estendiam até onde sua visão podia alcançar. Mas ainda existia uma presença de seu passado recente ali, a maltratada, escura e velha porta de madeira rangendo em sua frente.
Havia somente um caminho a seguir, sozinho, nem mesmo a incerteza e insegurança de alguns segundos atrás impediu sua mente de pensar: — Então... eu não tenho escolha?
Miguel olhou ao redor novamente, preocupado, levantou-se, náuseas acompanhadas de uma ânsia de vomitar foram as primeiras a dar as caras junto a uma dor de cabeça terrível. — Que mer– — Colocou os bofes para fora agonizando de dor, apavorando-se logo em seguida ao ver a poça de sangue espalhado na neve. — O que houve comigo!? — olhou para as pernas, passou as mãos nos braços, a sensação de ter levado uma surra estava lá, mas não achou nenhum hematoma, muito menos algum corte. Respirando, tentou recuperar um fôlego que não havia perdido. Contentou-se em se consertar e cambaleante caminhou até a porta.
Em um beco sem saída, não tendo ideia do porquê de estar agora sozinho com aquela marca no peito e com muitas perguntas que não saiam de sua boca estremecida com os dentes cerrados. Aproximou-se da rústica porta. O vermelho das partículas que escorriam pelas fissuras cresceu em demasia e quando colocou a mão na maçaneta e a abriu, um rubro turbilhão circular de energia explodiu em sua frente, puxando-o com muita força como um furacão. Ali no centro se encontrava uma calmaria que o permitiria andar em um corredor rodeado pelas nuvens carregadas dessa energia vermelha.
Antes de entrar, olhou para trás, ninguém estava lá, o silêncio ensurdecedor o fez questionar se tudo realmente só não era um pesadelo inexplicável, ele mordeu o lábio, entrou de cabeça baixa para dentro e quando a porta se fechou, Miguel seguiu uma luz branca que iluminava o fim. Poucos minutos se passaram e quando finalmente chegou à luz, tudo se escureceu.
— O que est– O-Oi?! Alguém aí!?
Da mesma forma que se apagou, a luz retornou e ao ver que estava praticamente no mesmo lugar, surtou.
— O quê!? Por que!? — Procurou por algo ou alguém que pudesse lhe responder, mas tudo que viu novamente foi um branco sem fim até a montanha mais próxima, mas ali perto, algo lhe chamou atenção entre os montes de neve. Em um deles surgiu uma figura que o pareceu familiar. O ser que se balançou para tirar a neve cobrindo o corpo tinha altura semelhante à de Isabella, ao ver isso, sem pestanejar, começou a correr afobado para alcançá-la, até que finalmente se aproximou.
— O-oi! Ei, Isabella! Está tudo bem? — perguntou ao agarrar os ombros da menina. Inicialmente o rosto dela era parecido, porém, seu cabelo diferia, continuava longo, mas tinha franjas repartidas. Entretanto, a ansiedade o fez não dar a mínima importância, tentando conversar com a mesma. Nem sequer prestou atenção nas mudanças acontecendo bem à frente de seus olhos.
— Isabella! O que está acontecendo? Onde você estava? Você sumiu! Eu entrei pela porta e tudo apagou! — Começou a chacoalhá-la de um lado para o outro, mas ela continuava o ignorando. Seus cabelos começaram a se avermelhar, subindo devagar desde as mechas até a ponta da cabeça.
— Ei! Está me escutando? Isabella! Me explica! O que está acontecendo!? — perguntou sem mal pensar sobre o porquê da garota que há pouco tempo tinha sumido, estar de pé em sua frente. Mas após perceber o cabelo dela mudar de cor, saltou para trás e ela pareceu ter encontrado o que buscava. Rapidamente a garota reagiu ao movimento de Miguel e com a escuridão daqueles olhos sem brilho que o miravam, junto a um cenho desprovido de emoções, a sensação do vazio tão intensa quanto um buraco negro começou a sugar sua existência.
Assustado, tentou sair da força que o consumia, as pupilas dela se dilatavam e as suas seguiam o mesmo caminho, instantaneamente sua alma estremeceu e alguém ali se incomodou.
Miguel repentinamente conseguiu dar alguns passos para trás e seus olhos voltaram ao normal, porém, mesmo assustado, continuou a tentar conversar com a garota que agora o preocupava ainda mais.
— E-ei, Isabella? Por que está fazendo isso? O que está havendo? — perguntou e arrastou os pés mais para trás.
— Isa... bella? — Ela inclinou o rosto sem demonstrar nenhuma emoção. A voz dela era diferente da de Isabella, era mais infantil, borrada e retorcida.
— Que– Quem é você!? — Afastou-se ainda mais, espantado com a agora desconhecida à sua frente.
— HÁHÁHÁHÁHÁHÁHÁ! — A garota soltou uma nuvem de fumaça vermelha que se espalhou pelo ar e começou a levitar junto a um odor de enxofre que tomou conta do lugar.
— Mas que po– a– porr– é– essa!? O que está acontecendo!? — A garganta de Miguel fechou, começou a tossir, a respiração pesou, seus olhos se irritaram, sangue escorreu de seu nariz. A pele ardeu ao ponto de querer rasgá-la com as próprias unhas tentando amenizar aquele tormento.
A fumaça começou a penetrar no chão, num piscar de olhos tudo começou a tremer, a neve que os rodeava foi sugada para baixo, pequenos montes iam sendo puxados por uma cratera que ia aumentando. As gigantes montanhas se moveram, subindo, empurraram um vento pesado junto a enxofre para o meio do vale. A cratera continuou se expandindo, apareceram enormes fissuras no chão, rachaduras nas montanhas. A terra tremeu enquanto Miguel tentou entender a situação.
— O que– — Respingos de sangue saíram junto ao pigarro da crise de tosse que sucedeu. — É iss- O que fiz- !! — Antes de terminar, seu estomago não aguentou, ele vomitou, a visão do próprio sangue novamente esparramado no chão o transtornou, as vistas borradas devido à secreção, não conseguiu olhar ao redor, caiu de joelhos, empurrou-se, mas não conseguiu endireitar-se, ouvir aquela voz, uma risada psicótica ecoando por todos os lados, zunindo em seus tímpanos, o fez cair novamente, enquanto seu arredor estava a ruir.
Os olhos da garota que levitou no ar, iam se avermelhando junto aos seus cabelos escurecendo, a escuridão começou a cobrir sua esclera enquanto de dentro da cratera um portão surgiu.
Emergindo junto as enormes explosões de vapor que saiam do solo, tudo era jogado para longe desde pedras a poeira, deixando apenas o chão negro e rochoso, o gigante portão de ferro tinha seu alicerce em pedra, enquanto emergia do solo que se despedaçou. Miguel foi jogado longe batendo em uma das montanhas ao redor, só para a pressão do ar que se alterou o esmagar.
— Aaaaaaaaa! — Revirou os olhos de tanta dor, torceu o corpo, convulsionou, espuma saia de sua boca, estando prestes a colapsar com os órgãos pressionados.
Grandes rochas caíram das montanhas, se desprenderam do alto, os sons dos impactos eram ouvidos por todos os lados até que o portão emergisse por completo. Explosões de lava ao redor dele fizeram o metal escurecer, o ambiente se tornou um vulcão. As rachaduras abertas pelas explosões jorravam lava que escorriam pelas fissuras no solo, formando rios por todos os lados.
Miguel, no meio de tudo aquilo, estava ilhado em um pedaço do solo carbonizado, um rochedo, sem saber nem entender o que se passava.
Das profundezas da lava, saíram grandes correntes de aço, arremessadas iam em direção ao portão, se enfincando nas laterais de seu marco. Os estrondos gerados pelas colisões foram tão altos que seus tímpanos explodiram escorrendo sangue de suas orelhas.
Às seis correntes com cores foscas presas aos lados do portão, rangiam, balançando junto às cinzas no vento. Todas corroídas e manchadas, a cada balançar um zunido agudo que o fazia agonizar era escutado, junto dos pequenos pedaços delas que caíam rente às pedras na lava. Tão grandes os impactos eram, que geravam ondas colossais e Miguel, estirado no chão, tudo que fez foi observar aquele inferno que se formou por seus olhos se fechando.
Tentando manter a sanidade em tanto sofrimento, amedrontado com o que viu e sentiu, ele só conseguiu pensar — Meu Deus.
Foram as únicas palavras que ressoaram na mente ao ver uma enorme parede de lava surgir à frente. Tão grande que o tom de sua visão ficou âmbar. Inseguro, destruído, desamparado e sofrendo em agonia constante, estava prestes a apagar quando viu entre o balançar das cinzas, uma figura surgir à sua frente e partir aquela onda no meio.
— E- Emília?