Um corpo flutuando na escuridão. Os olhos daquele jovem de cabelos castanhos se abriram e longe enxergaram uma centelha de luz. Aquele brilho iluminou seu caminho, para o qual estendeu o braço tentando alcançá-lo.
As trevas o cercaram, uma sombra puxou a mão do garoto que entrou em desespero e gritou apavorado com a luz que o guiava se extinguindo. Mas não saía nada.
Aquele brilho desapareceu, não enxergando mais, os olhos deram às sombras a oportunidade de consumi-lo por completo em meio ao frio que penetrou em sua pele.
Gritos de agonia ao redor fizeram seus ouvidos sangrarem. Uma figura estranha apareceu em sua frente, os olhos do vazio o observavam, queimando uma chama azul. Sua visão para cima mudou e uma pessoa avistou: a silhueta de uma garota que lhe estendeu a mão, salvando-o daqueles gritos de agonia, os quais com desespero o consumiam.
— Emília!!! — gritou Miguel em um impulso para frente, em que estendeu a mão direita e tentou agarrá-la. Desnorteado, olhou para os lados e procurou pela garota de cabelos ruivos, mas não viu nada.
Desistir.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
O barulho de pedras se desprendendo com o impacto da lava, uma sensação de ardor e queimação junto a rajadas de vento quente carregadas de fuligem e enxofre. Uma névoa se estendendo sobre as margens dos rochedos. Um céu nublado, escuro, por onde não passava um único raio de luz, e Miguel, com a respiração cansada, os olhos foscos e desprovido de emoção, preso em um círculo de pensamentos intrusivos, olhando para o nada. — Eu...
O ruído constante do vento e os barulhos não o incomodavam. A fuligem caía sobre sua pele, os ventos também carregavam brasas e cinzas que o queimavam constantemente, mas Miguel não aparentava sentir nada. Ele colocou a mão sobre o rosto e respirou fundo, tendo a visão da palma manchada pelas queimaduras.
Após algum tempo parado, inerte, levantou-se. As pernas tremiam, seus ossos doíam como se o peso do mundo estivesse em suas costas. Ele começou a andar, olhou para o chão e para a palma das mãos, os braços cortados, Queimados, o peito marcado, machucado, junto às pernas quais tentava manter firmes, mas falhava miseravelmente, desequilibrando-se a cada passo que dava. Em seguida, virou-se para o horizonte com a mente inundada de dúvidas e pensamentos infelizes e passou sobre o rosto, o braço machucado.
— Eu... — Caminhou contrário ao vento e parou rente à beira daquele rochedo. — Eu deveria... — Perdido em devaneios, seus olhos se viram naquela imagem que se dividia com as cores se misturando continuamente. — M-mo– morrer?
Ali mesmo, sentou-se em silêncio. Tentou engolir a tristeza e a angústia que sentiu, mas ainda assim, poucas lágrimas caíam no chão e evaporavam junto aos soluços que soltava. — Não posso fazer isso comigo, suicidas vão para o inferno… — Balançou o rosto e tentou negar os pensamentos ruins que vinham aos montes, mas eram muitos. — Eu– eu tô no inferno? — Com os olhos avermelhados, apoiou-se nos braços e olhou para o horizonte, formando uma linha dividida entre um alaranjado forte e um preto avermelhado. — Se eu estiver... Vai fazer diferença? — Aos poucos, sua atenção foi sendo puxada e devagar se aproximou da queda iminente. — Eu acho... Eu acho que... Eu... Eu devo... — Um sentimento que não controlava o atraiu. Gradualmente, entre a decisão e a insegurança, sua mente foi se apagando junto com seus olhos se fechando.
— O quê? — Uma sensação estranha tomou conta de si ao pausar o breve ato suicida. Repentinamente, sentiu um formigamento e olhou para trás.
— Tem alguém aí? — Forçou as vistas, tentou olhar longe, mas piscava constantemente, porque não enxergava nada a alguns metros de distância. Mesmo tentando limpar o rosto e fechando os olhos por alguns segundos, o ardor e o ressecamento que o ambiente causava neles o impediam de enxergar longe. Após um tempo em que nada encontrou, olhou para o alto e fechou os olhos, prestes a desistir, um pressentimento o fez se virar para trás novamente e ali viu uma estranha figura se movendo. — Eu tô louco?
Suas sobrancelhas arquearam, longe uma silhueta feminina se formou. Uma garota com longos cabelos negros balançando junto a um vestido branco andava no ar como se estivesse em cima de um chão invisível, não havia o que pensar, alguém estava ali com ele, ele precisava de respostas, então começou a gritar.
— E-Ei! Você! Espere!
Sem pensar duas vezes, começou a correr em direção a ela, mas já era tarde. Quando estendeu a mão para agarrá-la, rapidamente se desconcentrou e perdeu o senso de espaço. A figura já havia passado a beirada do rochedo onde estavam e Miguel, que correu desenfreado, não parou e quase caiu, se não fosse por uma recente força de vontade em permanecer vivo, que o fez se segurar, pela ponta de seus dedos, numa pedra. Ele olhou para baixo e sentiu o calor extremo, junto do cheiro de enxofre que exalava da névoa. Sua pele secava e seu rosto ardia, seu nariz começou a escorrer, ficando por um fio de cair, soltou um grande suspiro quando percebeu estar salvo. — Meu Deus...
Ofegante, se firmou, forçou-se para cima e subiu com os resquícios de força que restaram em seu corpo. Em poucos segundos após perder sua justificativa, o ex-suicida sentiu novamente a angústia e a tristeza que o tinham deixado há pouco tempo, voltar.
Na mente, um cansaço acompanhado de insegurança por não saber onde estava, junto à dúvida, incerteza, medo e tristeza que eram recorrentes em seus pensamentos ao pensar que não podia retornar. Mas em seu coração havia uma pequena fagulha de esperança, uma que não lhe permitiu hesitar e o forçou a erguer aquele corpo esmorecido e, entre a frustração e uma pequena e relutante curiosidade, afastou-se da beirada e começou a gritar.
— Ei! Para onde está indo?! Eeii!! Está me ouvindo?! — Balançou as mãos e tentou chamar a atenção, até pulou, mas no final, não funcionou.
— Ela tá muito longe? Ou está me ignorando?
A garota pisou suavemente no chão empoeirado em frente ao portão e nem uma única partícula de poeira se moveu ao tocá-lo. Enquanto para bem longe ecoavam aqueles gritos desesperados de Miguel.
Mesmo que sua provável esperança de encontrar uma saída daquele lugar fosse um possível delírio, ainda assim, era alguma coisa. Mas o terror e a angústia das chamas azuis e o vazio profundo presentes nos olhos que viu mirarem em si quando ela se virou. O fez repensar sobre o que acabara de fazer assim que a garota estendeu o braço em sua direção. — Se– Será que ela me ouviu?
Ficou em silêncio com o olhar da morte, fixo em si.
O braço dela começou a emanar uma espécie de poeira amarela, meio amarronzada, que caía em direção à lava, uma cachoeira que fez com que pequenos redemoinhos se formassem, aumentando gradualmente, surgindo dali um amontoado de pedras.
Miguel, que estava cansado, se agachou e ficou calado ao ver aquilo, nada mais o surpreendia, pois tinha começado a se acostumar com as anormalidades.
— O que eu faço agora? — Desviou um pouco daquela vista, olhou para baixo e pensou. — Eu estava gritando feito louco… O que vai acontecer se eu continuar?
— Ah… Mas que merda! Por quê?! Por que isso está acontecendo comigo!? O que foi que eu fiz de errado?! — Sentou-se bruscamente e olhou para a garota. Os fixos olhos azuis que rebateram o medo dos seus, preencheram-no de insegurança, tão incrédulo ficou daquela situação que se esqueceu das prioridades e, cético, deitou-se no chão empoeirado e olhou para o céu nublado. Tentou desfazer-se dos pensamentos ruins, porém a escuridão era desconfortante. Não existia sequer um ínfimo raio de luz e o tempo parado o fez relembrar do passado; os bons momentos com a família, as brincadeiras com os amigos, toda a felicidade que já havia vivenciado foi relembrada uma última vez. Aquela felicidade qual foi forçado a abandonar com sua morte, se desfez entre as cinzas no ar quando levantou a mão para o alto. — Deus, o que eu fiz de errado? — O silêncio foi sua única resposta junto do barulho do vento e de um cansaço que tomou conta de seu corpo. Lentamente, desceu a mão e se virou, fechando os olhos junto às poucas lágrimas que lhe restaram.