Algum tempo se passou e, lentamente, o pobre e infeliz garoto de cabelos castanhos, amenizando o cansaço, foi incomodado por um barulho e acordou do curto sono com um longo bocejo. Seus olhos abriram e devagar passou a mão sobre eles, tentou desembaçar e levantou devagar.
Acompanhado de outro bocejo, já em pé, caminhou até a beirada onde deveria encontrar um amontoado de pedras e se surpreendeu quando avistou uma imponente ponte adornada: uma construção feita de concreto e pedra, sustentada por longos arcos que, por debaixo, se estendiam até o outro lado.
Era uma visão incomum, mas trouxe a si uma certa surpresa e um vislumbre das imagens que tinha visto em seus livros de história. O andar foi pesado e seus pés se arrastavam um pouco, indo em direção à mureta, segurou-se nela e sentiu uma forte vibração.
Olhou para baixo e apreciou a lava, dividindo-se em vários redemoinhos ao forçar-se contra o talhamar. Mas algo chamou sua atenção mais acima e o fez afastar-se dali e caminhar até chegar numa única passagem central separando a ponte ao meio, onde algumas palavras estavam cravadas junto a símbolos e desenhos esculpidos em linhas entre a poeira.
لا سواء فخر رجل تذكر من الذي أنت و رمل لو رمل عاد
— O que isso quer dizer? — Seus olhos semifecharam: — Isso é um aviso? Será que é alguma mensagem? — Colocou as mãos sobre a cabeça e bagunçou o próprio cabelo. — Aaaa! Eu tô confuso!
— Droga, eu teria perguntado mais algumas coisas para Isabella… — Em dúvidas profundas, apoiou-se na mureta: — Nah! Não ia adiantar de muita coisa, eu ia acabar tendo mais alguma surpresa… — Olhou para o centro da ponte novamente: — O que eu faço agora? — O cansaço na mente já era ruim, mas uma dor que sentiu no peito, acompanhada do encontro de seu rosto e corpo com o chão ao som do impacto de Emília, que repentinamente apareceu no céu e acertou suas costas, foi pior.
Reencontro.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Miguel berrou de dor, mas o som foi abafado pelo chão.
— Aí! O que houve? Anirum? — Emília olhou para os lados, tentou recompor-se da recente queda, mas se esqueceu de olhar para baixo enquanto tentava se localizar.
— Mas que porra me atingiu? — Miguel sentiu um peso descomunal em suas costas, acompanhado de um leve formigamento.
— Hm... — A garota se sentiu estranha, então começou a passar sua mão sobre o local ao qual tinha caído. — Estranho, caí em algo macio? — Mas só se atentou a olhar para baixo quando apertou as nádegas de Miguel, que, ao sentir o forte aperto, soltou um grunhido e teve um movimento involuntário das pernas.
— Mas quê!? Que nojo! — Emília pulou com a face consternada, afastando-se para longe do garoto estirado no chão: — Aaaa! Que nojo! Sai! Sai! Eeeca! — Tentou limpar a mão enquanto se contorcia.
— Deeeuus! Por quê!? — O maltrapilho murmurou em lamúria, após tantos sentimentos que a simples incerteza sobre o possível futuro e o presente o traziam, agora um novo e terrível se mostrou ali.
— Ahn? Espera! — Emília, que há poucos minutos estava se limpando como se numa pilha de dejetos tivesse caído, parou e focou sua atenção a quem a bunda tinha apalpado. — Miguel?
— Não... — murmurou, com o rosto grudado no chão, lentamente se levantou e endireitou as costas, doendo, e os braços que agora ganharam aranhões.
— Aqui! Deixa que eu te ajudo! — Emília, feliz, o segurou pelo ombro.
— Obrigado Emí... Emília? — Miguel ficou boquiaberto e com os olhos tão grandes que pareciam estar prestes a saltar das órbitas. — É você Emília!? É– É você mesmo!!!!??? — Ele de repente avançou sobre ela e os dois caíram no chão.
— M-Miguel!! O que está fazendo!?? — Assustada, tentou empurrá-lo para sair daquele abraço.
— Emília! Emília! EMÍLIA! — Miguel chorou, suas lágrimas carregavam uma felicidade inestimável, uma alegria que até agora não se viu em seu rosto, não sabendo se continuava a chorar ou se sorria.
— Seu bobo... — Retribuiu o abraço e acariciou seus cabelos, fazendo-o se derreter em seu ombro.
Alguns segundos se passaram e, como nem só de choro vive o protagonista, mesmo que quisesse permanecer daquele jeito, Emília o afastou e se levantou.
— Chega de drama! Você não chorava tanto antigamente… — Sorriu e arrumou os cabelos dele, antes de ficar de pé e lhe estender a mão.
— D-Desculpa... — Levantou-se com um sorriso desconcertado e enxugou o rosto.
— Deixa disso, você nunca foi nem de pedir desculpas! O que foi que aconteceu contigo pra você ficar assim?
— E– Eu, eu, eu… — Abaixou a cabeça.
Emília olhou para ele preocupada e colocou a mão sobre o rosto para esconder a tristeza. Fechando os olhos por alguns segundos, desfez-se dos pensamentos ruins e sorriu.
— Quer saber? Deixa pra lá! Tem coisas mais importantes acontecendo agora e, pelo visto, estamos num lugar ruim para se estar… Aquele velho esclerosado estava certo… — Emburrada, ela virou-se. — Aaaaah! — Chutou uma pedra que bateu na mureta e voltou em sua testa. — Aaaaah! — Irritada, começou a bater os pés no chão.
— Velho? Espera! Você quer dizer o Van!? — Perguntou, segurando em seu ombro.
— O que foi? Pensei que você conseguiria vê-lo ainda, também parou de enxergá-lo?
— Cla– Claro! Faz sete anos que não vejo vocês! Você não sabe o quão feliz eu estou, Emília! Você não sabe o quão bom é ver você de novo! Eu te amo Emília! Estava sozinho sem você! — Miguel novamente a abraçou, mas dessa vez sem direito a queda, estava tão feliz que sequer reparou no que disse.
Emília ficou sem reação, não soube o que dizer, ficou com o rosto mais vermelho que um braseiro e deu um empurrão que jogou Miguel no chão.
— Se– Seu idiota!! Como pode falar algo assim!?
— O– O que? — Coçou a cabeça e se levantou novamente, apoiando a cintura que doía bastante. — O que foi que eu falei? Quer saber? Eu estou feliz de qualquer jeito! — completou com uma pequena gargalhada e se aproximou novamente dela. — Emília, você realmente não sabe o quão feliz eu tô de você estar aqui na minha frente! de eu poder escutar sua voz de novo. — Ele novamente a abraçou, abraço esse que foi retribuído.
— Sim seu idiota… é bom falar com você também…
Passado alguns segundos Emília novamente separou-se dele e virou em direção ao arco central da ponte. — B-Bem! — Ainda com o rosto avermelhado, colocou as mãos na cintura. — Já que estamos em Anirum, eu devo te guiar até o portão, você precisa fazer um pedido a ele. — falou e apontou para o portão.
— Pedido? Anirum? Como assim?
— Sem tempo para conversa! — Colocou o dedo indicador sobre a boca dele. — Não tenho que te explicar nada agora, precisamos correr contra o tempo, agora! Se isso for realmente Anirum, provavelmente ainda deve haver resquícios de trevas por aqui! — Ela se afastou e chegou mais próximo do arco central.
— Espera! Emília! O que você quer dizer com isso!? Cadê o Van? — Miguel correu meio destrambelhado, mas conseguiu mesmo assim alcançar ela.
— Ele está bem, provavelmente deve estar indo até Sansigro... — Emília olhou para as palavras e começou a sussurrá-las.
— Sansigro?
— Sim, é uma… Ah! Deixa pra lá, eu te conto mais tarde.
— Ma-Mas ele… Ele não é meu Anjo da guarda? Ele… Ele pode me deixar assim? Por que ele não me protegeu? — As palavras de Miguel estavam tão pesadas quanto seu semblante, seus lábios caíram junto ao brilho de seus olhos.
Emília virou-se no mesmo instante que ouviu aquilo. — Olha! — Agarrou-o pelo braço e o chacoalhou. — Não pense muito nisso também? Estamos mexendo com eventos muito estranhos aqui, isso fugiu do controle dele…
— Ma– Mas…
— Entenda, ele vai nos achar, mas precisamos continuar vivos se quiser que isso aconteça!
— Vi- Vivo?! Eu– Eu morri! — afirmou com a voz vascilante
— Morto? Espera… — Emília parou por um segundo e olhou para o lado, virando para Miguel logo em seguida: — O que foi que aquela puta lhe falou?
— Pu-puta? Quem?
— Ah! Deixa isso pra lá! Foco Miguel! Você deve continuar vivo! Agora para de amarolar e me deixa traduzir essa mensagem! — Soltando-o rapidamente, ela se virou e voltou a separar as palavras que viu.
— Vi– vivo… Eu… Eu tô… — Miguel olhou para as costas de Emília, de seus olhos um pequeno brilho cintilante acompanhava as lágrimas que saíam deles. — Vivo? — Colocou a mão sobre a cabeça e agachou-se.
Em pouco tempo, entre o separar de letras e palavras, uma frase se formou e ela começou a sussurrar para si própria: — lā idhā fakhr rajul tadhakar min-ann anta wa raml li-wa raml ʕād — Emília reproduziu as palavras como foram escritas e subitamente teve um surto de raiva e começou a bater os pés no chão com a cara emburrada. — Droga! O que foi que aconteceu com esse desgraçado!?
— O– O que foi!? Quem é? — Assustado, Miguel olhou para os lados, mas não viu ninguém ali.
— Esse desgraçado aqui! — Ela apontou para o outro lado da ponte.
— O portão? Como assim? I– Isso está vivo?
— Sim, Ele é uma espécie de barqueiro, basta um pedido para que ele te transporte por todo o universo.
— Co– Como assim?
— Droga! Droga! Ele não vai aceitar! Qual foi o problema que esse Portão teve com um Homem!? — Emília colocou as mãos na cabeça, olhando para aquelas gravuras.
— Aceitar? — Um zumbido em seu ouvido o fez se levantar e virar o rosto lentamente — Um… Um pedido?
— Sim, você tem que fazer um pedido pra ele! Aaaah! Que raiva! Por que tudo está dando errado assim?!
— Então… — Miguel olhava para os lados e sentia como se o seu corpo estivesse comprimindo e ao mesmo tempo expandido, uma sensação desconfortável de pressão, ao mesmo tempo em que não sentia nada, entre um andar leve e movimentos pesados, passou pelo centro e caminhou até o portão. — Eu só não tenho que pedir?
— É… Mas você não entende, se as coisas fossem tão faceis, outra guerra pela supremacia poderia estourar com os anjos! — Completamente alheia ao garoto, Emília olhava irritada para as palavras a sua frente: — Esses portões que sobraram só continuam em pé por um motivo, são muito inconvenientes, e só um milagre faria esse em específico te responder, porque você é um Homem.
— Homem? — Pensativo, continuou até chegar ao fim da ponte e olhou para o imponente portão de pedra em sua frente: — Eu sou um homem...
— Não é assim que funcio- — Interrompida por um sentimento estranho, antes de perceber, estava indo atrás dele. — Co– Miguel! Corre! — Ela tentou, mas já era tarde demais.
— O que fo–
Curioso sobre o porquê dos gritos de Emília, quando estava prestes a firmar o pé no chão pedregoso, uma pergunta o parou.
— Quem é você? Garoto.