— Como? O que ela está fazendo aqui?! — Emília, correndo em direção a Miguel que estava do outro lado da ponte, adiantou os passos tanto quanto pôde enquanto uma expressão de terror psicológico extremo se mostrava em seu rosto.
— O– O quê? — Assustado, Miguel olhou para os lados em busca da voz que havia falado com ele, porém não viu nada.
— Mi– Miguel! — Pálida, Emília cessou a correria ao ver a figura atrás dele e gritou: — Foge!
— Emília!? — Virou-se totalmente para trás, angustiado.
— Garoto, está sendo muito irritante te escutar. Cale-se e responda a mim, como chegou aqui?
Miguel não respondeu, não soube reagir, pois em seus rápidos pensamentos, o jovem repentinamente imaginou estar prestes a ser ameaçado por algum ser ultrapoderoso ou coisa parecida, mas ficou confuso ao descobrir que aquela voz estranha vinha de uma pequena garotinha.
— Pe- Pequena. — falou o garoto que se virou lentamente e olhou a muito pequena garota de olhos tão dourados quanto ouro puro, cabelo de cor igual e com um rabo de cavalo lateral, de pele clara e vestida branco em vermelho.
— Se não quiser sofrer, responda-me e, devido à sua ousadia, que seja bem detalhada tua explicação ou então sofrerá as consequências de teu silêncio... Então diga-me quem é você?
Perda.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ.
— Você é mudo por acaso? Ou está me fazendo de boba? — perguntou a garota de olhos dourados, impaciente e muito cansada, que gritou logo em seguida — Não brinque com a minha cara, garoto!
— Hii! — Emília soluçou e entrou em desespero ao ver, com o balançar daquela pequena mão, Miguel ser prensado no chão.
— O que ela está fazendo aqui!? O que eu faço!? O que eu faço!? — A pior das possibilidades estava em sua frente, seus pensamentos se amontoaram na busca por uma saída daquela situação. Estava exitosa, pensou em fugir pelo caminho oposto, mas lembranças não muito distantes a fizeram repensar.
— Se afaste dele! — Mordeu os lábios e estendeu os braços em direção à garotinha, mas nada aconteceu, sua face ficou consternada e subitamente aquela determinação se extinguiu quando seus movimentos foram interrompidos.
— Você! — O corpo de Emília estremeceu, agarrada pelo pescoço por uma força invisível, começou a levitar lentamente e o corpo pesou do queixo para baixo.
— Emília!! — Miguel gritou e tentou se mover, mas estava paralisado do pescoço para baixo.
— Você! Você estava lá! E ainda por cima tem a audácia de aparecer em minha frente?! — A voz da garota que semicerrou os olhos saiu acompanhada de uma energia mortífera que, quando levantou o braço e lentamente começou a fechar o punho de sua pequena mão, Emília começou a sufocar.
— Na– Não– não é isso Mi-Mirabelle e– ee– eu não queria q–
— Solta ela! — Miguel ficou espantado com aquilo e tentou se soltar, se debateu, gritou, mas de nada adiantou.
— Não queria!? Como!? Você e seus companheiros estavam lá e interferiram nas decisões! Traíram seus ideais e mataram seus irmãos! Opuseram-se à Ordem! — Um silêncio se instaurou com um escuro olhar de desgosto vindo da garota chamada Mirabelle.
— E–Eu… — Emília, que tentava se soltar se contorcendo, desistiu de seus esforços.
— Eu, Mirabelle de Luxia, Custódisa do Sétimo Clã, trarei finalmente a Morte a um dos Traidores! — A voz ecoou sobre uma enorme e opressora energia que fez o ar ficar pesado.
— Por– Por favor! A– Ao menos o deixe ir! — Ela implorou, profundamente aterrorizada. Miguel, que assistiu àquela situação impotente, amargou o coração quanto mais seus esforços se viam inúteis.
— Não existe perdão! Não existe misericórdia!
— Não! N-Na– por favo– ao menos o deixe! — Emília tentou, mas já estava prestes a ter o pescoço esmagado, porém sentiu o aperto parar quando alguém se soltou.
— Paaare! — Miguel, cambaleante, socou o rosto de Mirabelle e caiu por cima dela, agarrando-a pelos ombros.
— Vo– Você! Como escapou!? — Mirabelle gritou e cuspiu um líquido dourado e, em seguida, estendeu a mão para o alto, mas nada aconteceu quando viu sua mão tocar no peito dele. — O que está acontecendo!? Isto não é possível!!!
— Solta ela!
— Chega! — Uma tremenda onda de energia saiu do corpo dela, tão forte que jogou Miguel para longe. — Como!? Como conseguiu se soltar!? — Levantou cambaleante, raios saíam de seu corpo e se chocavam, rasgando o chão.
Miguel Tossiu e se arrastou até o portão no qual se apoiou e deixou uma mancha de sangue antes de se levantar com dificuldade para respirar. — O– O que foi que aconteceu? — Apoiou o corpo sobre as pernas que doíam enquanto os braços tremiam e seu rosto machucado ardia, as feridas se fecharam queimando por partículas de energia vermelha que saíam de seu peito. Olhando para aquilo, Mirabelle ainda mais irritada com a falta de respostas, estendeu a mão na direção oposta.
— Responda, agora! Ou… — Ela fechou a mão devagar, Emília, quase sufocando, começou a se debater e agonizar.
— Nã– Não! Não faça isso com ela! Eu respondo! Eu respondo!
— Ah! Agora você quer responder!? — Sorriu e o olhou com desdém. — De onde você é?!! Quem é você??! — Apertou mais a mão e o olhou fixamente.
— Me chamo Miguel! Eu– Eu– — Em desespero, tentou achar algo para falar, mas quando não encontrou opções, a coisa mais óbvia lhe veio à mente: — Eu– Eu venho da terra! — Caiu de joelhos no chão e implorou: — Eu te respondi! Eu venho da terra! Agora solta ela! Por favor!
— Terra? Você!? Daquela fortaleza!? HAHAHAHAHAHAHA!!! — Uma reação inesperada veio dela, que colocou as mãos na cabeça e soltou uma risada psicótica.
Assustado, o garoto continuou a implorar para que soltasse Emília, que entre lágrimas e soluços perdia a consciência.
— Fortaleza!? Como assim?? Eu vim da terra! Isso é verdade! Eu te contei de onde eu vim! Agora solta ela!
— Você não sabe de nada, garoto. — falou Mirabelle que no mesmo instante desapareceu.
— O– O quê!? — Miguel olhou para todos os lados e não viu a carrancuda garotinha de vestido vermelho. — Sem nem pensar, correu em direção a Emília, que continuava suspensa no ar. — Emília! — Quase chegou a tocá-la, se não fosse por seus movimentos terem parado subitamente por uma pequena mão que tocou em seu ombro.
— Aonde pensa que vai? — perguntou Mirabelle bem atrás dele.
— O-o– O que é isso!? Como chegou aqui!?
— Você achou mesmo que eu tinha simplesmente desaparecido? — Um olhar amedrontador e uma pressão poderosa em seus ombros, foram o suficiente para Miguel cair de joelhos.
— AAAAAAAH!
— Você não vai escapar de novo, garoto.
— O– — Sangue jorrou de sua boca enquanto revirava os olhos.
— Ooo… Sua alma… — Mirabelle começou a movimentar a outra mão sobre seu corpo e, outra dor duas vezes mais intensa, foi aplicada sobre ele. — Realmente, você não pertence ao Supramundo…
— O-o que!? O-o que essa louca está dizendo!? — Uma dor intensa, como se cada um de seus ossos estivesse sendo esmagados, penetrou por sua carne e o fez agonizar
Um sorriso apareceu de ponta a ponta no rosto dela e o garoto revirou os olhos em agonia.
— Sua alma– Isso é extraordinário! Essa composição– Isso é– É mais do que incrível! É esplêndido!
— Mas isso é estranho. — Mirabelle suspirou, olhou para Emília já desacordada e afrouxou um pouco o pescoço dela. — Mesmo que tenha conseguido sair da terra, não deveria conseguir chegar aqui… Homens vivos não podem usar de ener— — Algo incomodou o nariz dela. — Este cheiro... — Um cheiro que emanava dele lhe era familiar, ela semicerrou os olhos, uma pequena linha em sua visão apareceu, uma linha vermelha que, quando seguiu, acabou em Emília.
— Interessante... — Ela cessou a força que impunha sobre ele, que começou a arfar desesperadamente enquanto se contorcia no chão.
— Isto no teu peito! — O virou para cima com um gesto de mão e colocou o pé sobre o ombro esquerdo de Miguel. — Essa marca que está cravada nele... O que fez para aquela meretriz formar um Mali-jãn? — Apontou para Emília, que já respirava melhor.
— Mali– que? A-aaAAaa! — Sem conseguir nem digerir as dores se intensificando por todo o corpo, mais questões lhe eram impostas. O ardor em seus pulmões se intensificou após respirar aquele ar quente carregado de fuligem. O máximo que conseguia era olhar para aqueles olhos dourados que eram tão pesados quanto aquele solado antigo de couro sobre sua face.
— Agora está mudo de novo? — Raiva acompanhou sua fala e, ao mesmo tempo, não conseguia decidir se simplesmente esperava ou se o fazia falar. — Você ainda não me respondeu… Como conseguiu o Mali-jãn?!
— Mali-jãn?!
— Me diga… como conseguiu formar uma promessa com ela? — Apontou para Emília.
— Ma– mas que merda que cê tá falando! — Miguel cuspiu o sangue acumulado na boca sobre a parte branca do vestido dela.
Mirabelle olhou para cima por alguns segundos e dirigiu-se com a sola de seu pequeno sapato vermelho em direção à boca de Miguel — Criança... — o sangue espirrou para todos os lados e até manchou mais ainda seu vestido. — Alguém muito poderoso deve lhe querer vivo, ou nunca teria chegado aqui.
— Su– Sua puta!
— Cale essa boca de merda, seu símio! Já estou farta de lhe ouvir gritar! Sua vida está em minhas mãos e eu não lhe manteria vivo se não estivesse interessada na sua conexão com essa traidora! — Já muito aborrecida, o chutou mais e mais, até que um dente saiu de sua boca.
— De– desculp– a — Cuspiu mais sangue e dessa vez suas feridas não se curaram e tinha um sangramento contínuo na boca e nas cicatrizes que tinha pelo corpo.
— É uma perda de tempo conversar com seres repugnantes como você... — Mirabelle Tossiu e se afastou dele. — Se não fosse por essa sua situação única, nem respirando estaria. — Ela começou a caminhar em direção ao portão.
— O que é incrível é que está aqui, você deve ter percorrido uma corrente conexão, mas– não... não sobrou nenhuma perto da terra… — Mirabelle colocou a mão sobre o queixo e começou a debater consigo mesma essa questão. Nesse meio tempo em que realmente baixou a guarda, a força que enforcava Emília sumiu de vez e ela caiu.
— Emília! — Miguel, que mesmo abalado e com tantos ferimentos, cuspindo sangue e repleto de queimaduras, ainda tinha em si a segurança dela como prioridade. Levantou-se com todas as forças que tinha e correu para agarrá-la. Jogando-se, estendeu os braços a pegando antes de bater a cabeça no chão.
— Emília! Emília! Está tudo bem!? — A balançou de um lado para o outro, mas algo o deixou sem reação, a desacordada garota de chiquinhas ruivas começou a se esfarelar como partículas e tornou-se uma esfera de energia que desapareceu no ar.
— O– o Aa– aAaAaa– a!? E- Emília? Emília?! — Apavorado, uma dor severa tomou conta de seu peito e o fez gritar.
— Se eu fosse você, não me preocuparia tanto assim com ela. — falou Mirabelle que se virou com uma expressão irônica no rosto. — Esqueceu que tem uma promessa com essa infiel? — perguntou ao tempo que subitamente apareceu atrás de Miguel e sussurrou no ouvido dele: — Ela não vai desaparecer… Eu acho. — No mesmo instante, voltou à sua antiga localização e o garoto ficou paralisado após aquelas palavras.
Miguel se levantou pesarosamente em um misto de sentimentos e emoções negativas. Segurando-se onde podia, no chão, nos braços, caindo, se erguendo, irado e com os sentidos bagunçados, ele gritou: — SUA PUTA MISERÁVEL!!!!
— O que você disse? — perguntou Mirabelle que, já longe, apertou meio punho na mão direita e o paralisou instantaneamente.
— SU– SUA PUTA DESGRAÇADA!!! — Sangue jorrou de sua boca, mas Miguel não se conteve, inflamado por um desejo insaciável de vingança.
— Feche essa sua boca imunda, sua aberração! — Abrindo os olhos, seguidos por uma onda de energia, causou cortes profundos na pele dele. — Você não consegue compreender sua própria situação!? Ponha-se no seu lugar e se cale antes que eu tenha que recorrer a outros métodos para te calar! — Enfurecida, se aproximou levitando, pressionando o dedo indicador em seu rosto.
— EU VOU TE MATAR! EU– VO– VOU TE MATAR!!! — Como um animal enjaulado, ele se debateu, se jogou de um lado para o outro tentando mordê-la.
— CHEGA! — Mirabelle esticou o braço, gesticulando de tal forma esmagouo-o no chão e arrancou certa parte da ponte no processo. — E por isso! Foi por isso que o seguimos! Eu não entendo como criaturas tão vis como vocês continuam no centro da criação! Eu não entendo como Ele os ama! — O levitou novamente e colocou o dedo sobre seu nariz. — Vocês! Vocês! Eu não entendo! Não conseguem se calar! Não conseguem obedecer! Não querem se controlar! São bestas idiotas que detêm tanto poder nas mãos, mas por serem tão idiotas não dão a mínima para suas próprias necessidades e vivem à base de seus próprios interesses!
— VOCÊ VAI PAGAR! VOCÊ VAI PAGAR! — Miguel não escutou uma única palavra enquanto seu próprio sangue escorria de seus olhos, em sua mente só havia um único pensamento: como fazê-la sofrer, nada além disso e da imagem cravada em seus olhos do rosto desacordado de Emília que desapareceu em seus braços.
MMas, repentinamente, ele cessou de se debater. — Você… — falou com um tom frio e calmo.
— Eu? — Mirabelle apontou para si.
— Eu estou falando com você… você estava ouvindo tudo, não é?
— O quê? Com quem está falando? Perdeu o juízo de vez?
— Sim, eu sei que estava ouvindo, então sabe o que eu quero, eu não sei o que estou fazendo aqui, mas antes de tudo isso eu quero te fazer mais um pedido! Siiim! UM PEDIDO! — Ignorando-a completamente, com os olhos vermelhos e veias pulsando em seu rosto, olhou diretamente para o portão atrás dela.
— Ahn? Está tentando falar com aquilo? — Ela olhou na mesma direção e soltou uma gargalhada. — Hahahahaha!!! É sério? Acha que aquilo irá lhe responder? — Tão cômica foi a situação que a mesma cessou por um segundo a força que tinha e o desceu. — Imprestável! — desferiu um único chute que o atirou longe.
— Isso é um portão dos primórdios! — Começou então a levitar em direção ao portão. — Uma das conexões mais antigas! eles têm vontade própria, eu que sou uma Custódisa da Ordem não consigo uma resposta! Imagina tu! Macaco!
Arfando, após a queda e o impacto de sua cabeça com o chão. Ergueu-se, limpando o sangue que escorreu pelo rosto, segurando em um dos braços que estava muito machucado.
— E– eu mês– — Tossiu e mais sangue caiu no chão, mas não se abalou olhando para aquilo, uma decisão cega pelo ódio não podia ser parada por meros ferimentos. — Mês– Mo que eu morra... mesmo que minhas forças sejam sugadas! Mesmo que eu sofra pelo resto da minha vida! Eu vou levá-la comigo! Eu quero ela!
— O quê? — Ela o olhou, fascinada com tamanha ignorância que carregava naquele sorriso macabro estampado em seu rosto.
— Eu vou escravizá-la! Eu vou torturá-la até que perca sua última gota de sanidade! Ela vai pagar por tudo! Por tudo aquilo que me causou! Por tudo aquilo que eu sofri! Eu a farei pagar em dobro! — Apontou para Mirabelle com ódio em seus olhos. Uma energia começou a emanar de seu corpo, o som de suas palavras fizeram o espaço em que estavam estremecer.
— Está falando sério? Hahahahhahahahahahahha!
— Se eu não vou voltar pra casa… — Miguel cerrou os dentes, fechou a boca e olhou para o alto, para a escuridão daquele céu nublado. — Tenha ao menos piedade de mim.
— Há! Você cruzou a linha, garoto. — Mirabelle curvou o corpo e os braços para trás, em um movimento rápido para frente, pôs as palmas da mão em direção a Miguel. — Morra!
Nada aconteceu, Miguel, que estava olhando-a fixamente, continuou assim.
— O– O que!? — Olhou para as próprias mãos e descreu do que presenciou. — Morra! Morra! — Começou a esticar os braços e mover as mãos, mas nada aconteceu. — Não é possível!
— HAHAHAHAHAHA! — A gargalhada dele foi seguida pelo som do chão sendo arrastado e o ranger das dobradiças do gigante portão de ferro começando a se mover.
Ao virar o rosto, ela percebeu que seu orgulho tinha-a deixado cega, por mais improvável que seja o pedido feito, poderia ser acatado.
— Não é possível! Co– Como!? COMO!? — Mirabelle se assustou no exato momento em que o portão começou a se abrir, o sangue de Miguel começou a se mover e vários fios vermelhos começaram a se formar.
— Não! Não! NÃO! — Desesperada, utilizou seus poderes para destruí-los, mas eles se reconstruíam e continuavam avançando.
— Hahaha! ha– ha– ha... — Miguel desmaiou.
— Não! Eu! Eu não deixarei! — Uma forte onda de raios começou a sair do corpo dela, mas não surtiu efeito.
O sangue marcou sua pele das pernas à cintura e parou em seu peito, se alojando em seu coração.
— Aaaaagh! — Revirou os olhos em agonia com o choque de sua energia junto à carregada pelo sangue do garoto, gerando ondas e mais ondas de raios, esfarelando o chão e criando uma cratera, até que tudo subitamente cessou.
— Urgh! — O ar ficou pesado, caiu de joelhos, uma dor intensa percorreu todo seu corpo e sangue saiu de sua boca. — Ahn!? — Quando se deu conta daquele líquido vermelho escorrendo, uma expressão horrenda se viu em seu rosto.
— Não! Não pode ser! Ele não fez isso comigo! Isso não pode estar acontecendo!!! — Os olhos vacilaram, as mãos tremeram, um suor escorreu pelo rosto paralisado e, de repente, uma corrente negra saiu de dentro do portão e se enroscou em sua perna.
— Não! Não! Não! — Chutou, se arrastou, tentou resistir, porém mais apareceram, paralisaram seus braços, se prendiam em suas costas, enroscavam em seu pescoço, tanto no dela quanto no de Miguel que se bateu nela e a desequilibrou, fazendo ambos serem puxados para dentro.
O portão que havia sido aberto em segundos, começou a se fechar, e o barulho do ranger de suas dobradiças cessou ao estrondo de suas portas se trancando novamente.
Arrastados adentro, as correntes se juntaram à escuridão e um forte vento os empurrou. Raios de luz saíram das marcas no corpo dela e formaram uma linha que se dividiu em duas. Uma esculpiu no pescoço de Mirabelle um pequeno círculo traçado que se prendeu como uma gargantilha, e no peito dele uma marca foi cravada. Um círculo dourado reluziu e o sangue que penetrou nele entrou em sintonia com o encandecer das espadas que circundava.
Mirabelle gritou, já agarrada ao garoto, abraçou-o com força, enquanto caíam em meio à escuridão. O ardor que sentia desapareceu e gradualmente uma sensação de umidade começou a aparecer junto de pequenas nuvens brancas ao seu redor.
A visão dela se embaçou por alguns segundos ao surgir de uma fina linha azul cortando a escuridão. Em segundos, deu-se uma forte luz e o céu se mostrou límpido com algumas poucas nuvens brancas, se estendendo até o horizonte, limitado apenas pelo terreno amarelado que se aproximava cada vez mais deles em queda livre.
No momento em que percebeu, moveu-se esperando que alguma coisa saísse, mexeu os ombros e as costas, mas nada aconteceu, e entre o desespero e a angústia pensou, enquanto segurava o garoto, que sua vida terminaria ali.