Mirabelle, em queda livre, segurou Miguel com força, mas um forte vento o fez escorregar de seus braços e os separou.
— N-Não! — Jogada para o lado, rodopiou até que se endireitou em pleno ar, mesmo com os movimentos comprometidos, tentou se aproximar de Miguel que se afastava ainda mais. Seus poderes não respondiam a seus gestos tentando puxá-lo. Agilmente inclinou o corpo, desceu cortando o vento forte, mas não conseguiu mirar corretamente devido à turbulência que era demais para seu pequeno corpo. Contra todas as adversidades, conseguiu, entre os ventos cruzados, ficar abaixo de Miguel e abriu os braços junto ao arrasto, tendo êxito em novamente agarrá-lo.
— Isso! — Um repentino sorriso transpareceu em seu rosto. — Agora me deixa– — O segurou pela cintura, virou-se utilizando as pernas, rasgou um pedaço do vestido com as mãos e o usou para se amarrar nele.
Os ventos laterais eram fortes, toda a movimentação fez com que ficassem descontrolados. Miguel era mais alto e pesado que ela para que conseguisse se estabilizar. — O que eu faço?! Meus poderes não respondem! Eles foram se– — Entre dúvidas e ansiedade, uma fina linha ligando seus corpos apareceu. Partículas quase imperceptíveis que se dispersaram rapidamente acenderam uma luz em seus pensamentos turvos. Ela olhou no rosto de Miguel desacordado e mirou em seus lábios. — Eu não acredito que estou fazendo isso! — E o beijou.
Uma explosão de energia, uma onda tão grande que fora presenciada por todos a milhas de distância e ofuscou a luz do sol, aconteceu. Naquele dia em que uma parte do céu se escureceu, dos mais comuns viventes aos seres mais poderosos, todos presenciaram uma nova entidade chegando a suas terras.
A energia que começou a fluir em seu corpo era imensa. Luz começou a emanar de seus olhos, raios saíam de sua pele, quando contraiu e relaxou as costas, asas se mostraram. O arrasto era muito para suportar, a dor que sentiu foi imensa. O corpo de Miguel começou a escapar de suas mãos, suas asas pareciam estar prestes a romper, a dor delas se torcendo era tamanha que se desequilibrou, girando a cada pancada do vento e o garoto se soltou. — Na– Não! — O desespero tomou conta de si, que agora estava a menos de dez milhas do chão. Cegamente deu um mergulho rápido, tão repentino foi o movimento que suas asas torceram de vez, sem se importar com a dor extrema, mordeu os lábios e continuou. Suas roupas em frangalhos pareciam que iriam esfarelar com a velocidade, mas em um relance ela o agarrou e ambos caíram estolando. As asas que tinha se desfizeram no ar, ela continuou o mergulho até que um forte vento soprou sobre a areia. Um rastro se formou, uma nuvem de poeira se levantou por onde ela e Miguel passavam, sobrevoando a centímetros de distância do solo.
— Isso! Hahaha! — Felicidade, um sorriso de alegria e um forte alívio. Tão rápido estavam que via seus reflexos na miragem das areias escaldantes daquele deserto. — Esta– Estamos– E salvos! Os– — Começou levemente a inclinar para a esquerda, antes que percebesse, os olhos pesaram e com dificuldade se mantinham abertos, os músculos esmoreceram, as asas desapareceram e os dois giraram e caíram na areia.
— Eu conseg– Eu– — Entre um esforço para manter-se acordada, suas forças se extinguiram e a repentina energia que ganhou se esvaiu, desmaiando em cima do garoto.
Dor.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Uma respiração intensa, uma contração do corpo, o ranger dos dentes, uma agonia na pele. Um sentimento de ser preenchido por uma força maior, um grande peso sobre o corpo que o pressionava, câimbras, músculos dormentes e o pior, areia no olho.
— Aaaaaaa! — Miguel gritou, pulou e se debateu. Rolou pelo chão e, quando se levantou, esfregou os olhos tentando parar a irritação, o que agravou ainda mais. Mesmo se acalmando, custou estabilizar a respiração e acabou por repentinamente cair de joelhos. Vomitou o pouco do que restava em sua barriga, jogado em sua frente junto a pedaços de sangue coagulado.
— O– o– — Tentou levantar, mas as pernas falharam e os braços fraquejaram. Aos poucos, parou de arfar e se acalmou, o corpo voltou a obedecer seus comandos e o permitiu ficar em pé. Entre o soprar do vento quente sobre a areia amarela e o enorme céu azul que se estendia até o horizonte, ele olhou à frente com os olhos avermelhados e o deserto o olhou de volta.
— Onde eu estou? — Coçou a cabeça. — Eu... Eu... E–!!! — Imagens apareceram em sua mente, uma dor aguda o fez cair no chão, como se mil estacas estivessem sido enfincadas em sua cabeça. Nem puxar os cabelos enquanto se debatia na areia fez com que aquela dor desaparecesse. Seu sofrimento só teve fim quando um nome veio à sua mente. — Emília! — Aquele nome, acompanhado novamente do esforço em levantar, fez com que cambaleasse até que caiu. Levantou-se novamente, trupicou até que finalmente se pôs em pé, segurou nas pernas e vomitou, conseguindo enfim erguer o rosto. — Cadê você? Emília! Ahn? — Entre questionamentos e dúvidas crescentes, um sentimento estranho puxou sua atenção, que o fez olhar para o lado e dar um salto, caindo de bunda no chão e se arrastando para trás.
— O– O– O– O queeeee!? — O susto que tomou ao ver Mirabelle em sua frente fez as pernas que falhavam lhe atender rapidamente. Elas criaram forças para fazê-lo correr como um cachorro fujão, mas não demorou a perceber que não só não estava sendo seguido como a garota permanecia estranhamente estirada no chão. Hesitante, pôs o braço a torcer, retornou e se aproximou, olhando-a melhor. — E– Ela está morta? — Tocou-lhe as bochechas, mas não houve reação. Então pôs o rosto próximo ao nariz dela, onde sentiu uma fraca respiração.
— Aaa! — Saltou novamente para trás quando confirmou que estava viva, olhou para ambos os lados, tentou pensar em algo, mas mesmo que só ouvisse o vento soar em seus ouvidos junto ao som da areia que carregava, a expressão em seu rosto mudou com o balançar de suas roupas molhadas de suor.
O calor não o permitiu cogitar decisões ruins naquele momento, nem mesmo cumprir com palavras malditas que saíram de sua boca. Quando se deu conta de que não adiantaria pensar, já estava a andar com Mirabelle nos braços em direção ao desconhecido.
— O que estou fazendo? — pensou Miguel, tentando esquecer o calor que o afligia. — O que está acontecendo? Eu só estava voltando da escola– — Interrompido pela própria consciência, mordeu os lábios que já estavam secos e abaixou a cabeça. — Eu preciso de sombra... — Olhou para os lados. — ma– mas onde?
O deserto o respondeu. Não havia uma única sombra em toda aquela extensão de areia, nem um único relevo de solo para se abrigar enquanto aquele estranho sol de início de tarde se aproximava no céu límpido.
— Por que eu estou carregando ela? — Em meio a pensamentos e dúvidas, olhar para baixo e ver aquela garota em seus braços enquanto caminhava o fazia esquecer a ardência e a dor que acompanhava as bolhas se formando em sua pele. Mais estava fazendo efeito do que relembrar o passado, qual não o deixava nada mais que arrependimento e solidão. — De- Deus... — Em um momento de fraquejo, suas duas pernas o deixaram cair ao mesmo tempo de joelhos no chão. — Se– Senhor... — Seus cabelos caíram sobre o rosto e o suor que escorria caía sobre Mirabelle.
Enquanto olhava para ela, um sentimento estranho se manifestava. — Por quê? — Não houve respostas. — Por que, senhor? O que eu fiz para merecer isso? — O reflexo do céu azul se mostrou sobre seus olhos amarelos, mas somente o silêncio se fez presente entre o tremular de suas roupas numa fraca brisa que aliviou o calor que se abatia sobre seu corpo.
Ele custosamente se levantou e voltou a andar, já arrastando os pés com o peso que carregava. O deserto escaldante em sua frente não o permitia descansar e cada grão de areia que em sua pele tocava desencadeava uma nova dor.
Ele andou, andou tanto que não soube distinguir quantos passos havia dado, nem quantas horas haviam se passado, mas os pés não vacilaram e nem os braços cansaram, porém sua mente, sua mente duvidava. Duvidava da capacidade dos pés de dar tantos passos, dos ombros de segurarem tal peso, dos braços de se manterem firmes e dele mesmo de continuar resistente a seus desejos de ceder ao cansaço.
O calor deu lugar ao frio, a fraca brisa que malmente ventilava o corpo deu lugar a uma forte ventania e o céu azulado ficou avermelhado, mas estava difícil de perceber isso. Obstinado em seguir em frente, somente se deu conta da baixa temperatura quando sentiu Mirabelle tremer em seus braços.
As roupas dela estavam todas rasgadas, malmente cobriam suas intimidades, ela estava muito exposta ao clima. Ele parou, desceu a garota, tirou o trapo que sobrou de sua camisa e a cobriu com ela, então pôs-a em seus braços e voltou a caminhar noite adentro.
Seu rosto não aparentava emoções, seus olhos estavam opacos e seu cabelo estava bagunçado, suas feridas não eram tão profundas, mas não haviam sido totalmente curadas. Algumas estavam vermelhas, outras escuras e roxas, as bolhas se estendiam por toda aquela pele que tinha ficado exposta ao sol.
Entre o vento noturno, o som de sua respiração forte se destacava. Uma fumaça quente saía de sua boca e, quando, com muito esforço, conseguia esticar até perto, esquentava as mãos e segurava Mirabelle trêmula, a qual mantinha perto de si para amenizar o frio. Porém, seus braços estavam gélidos e começaram a perder a firmeza junto aos ombros que sentiam o peso que carregavam.
O vento o derrubou, tossiu e cuspiu fora a areia que entrou na boca, mas se desesperou, pois a garota havia rolado um pouco para longe e a visão estava muito ruim devido a um repentino aumento dos ventos e sua voz rouca saiu quase que como grunhindo: — Cadê ela? Cadê ela?!
Ele correu de um lado para o outro, mas não enxergava nada até que tropeçou em algo e caiu novamente de cara na areia. Arrastando-se na direção do objeto que havia tropeçado, se deparou com a garota desacordada, a camisa na qual ela estava coberta se soltou e começou a voar, o garoto correu para pegá-la e conseguiu, mas novamente se viu perdido.
— Por favor, Deus! Por favor! — Ajoelhou-se e fechou os olhos, acalmou a respiração, em seguida os abriu e começou a se arrastar na direção oposta. Uma sombra entre a areia voando apareceu, quando se aproximou, confirmou que era Mirabelle. Um alívio se abateu sobre ele, que a cobriu novamente e a pôs em seus braços, continuando noite adentro por aquela tempestade.
Os olhos cobertos de areia não enxergavam o caminho à frente, as mãos, que se esfregavam incansavelmente tentando manter em si e na garota os últimos resquícios de calor que tinham, não obedeciam ao comando de sua mente cansada. Coube a suas pernas a difícil tarefa de fraquejar e o derrubar, fazendo assim, entre o gotejar do sangue que escorreu de seu rosto, por ter acertado a única pedra exposta naquela imensidão, o pobre garoto desmaiar.
O tempo passou, a tempestade se foi, um sentimento estranho como se dedos tocassem sua pele se sucedeu, mas a quantidade que o tocava era impossível e o toque era úmido demais para não ser outra coisa além de Água.
Desnorteado, ajoelhou-se e, ainda com os olhos meio abertos, abriu a boca e juntou as mãos, a água que escorreu por sua pele ferida era a mesma que pingava pelos espaços que seus dedos não conseguiam fechar. Em meio à tosse e aos soluços de cada gole que ingeria, ficou ali parado, até a chuva passar.
As nuvens se dispersaram, o céu foi gradualmente ficando limpo e ele se levantou, limpando a vista embaçada para ter um lindo vislumbre do amanhecer.
Mas o deserto ainda estava lá e logo o vento começou a soar. Os sons dos grãos de areia empurrados junto ao balançar de suas roupas rasgadas voltaram a atormentá-lo.
Ele se virou e do seu lado estava a garota cujo nome não sabia, que tampouco estava bem trajada e que também guardava mágoas. Desnorteado e sem a mínima ideia do que fazer, restou para o corpo agora hidratado procurar por aquilo que todo ser que se diz vivo necessita. — Comida– — palavra desesperadora em momentos de necessidade, mas que o motivou a colocar a garota nos braços com a pouca força que lhe restava e começar novamente a caminhada interminável em direção ao horizonte sem fim.
Seus passos iam deixando rastros intermináveis no chão, tão longe se estendiam que sua visão não acompanhava o término da linha que havia traçado ao olhar para trás. O calor escaldante distorceu a visão que tinha e, como se estivesse alucinando, suas pegadas se moviam de um lado para outro entre a divisão do céu azul e do chão amarelado.
Amarelo esse que foi mudando de tonalidade. Indo de um puro amarelo radiante que se movia com um sopro do vento mais fraco, para um queimado e amarronzado, duro chão que não se movia e nem afundava com o arrastar daqueles pés pesados. Estava em terra sólida, esticar e contrair os dedos dos pés não passou nada mais do que a sensação áspera da pouca areia que restara entre eles, misturando-se com a poeira que levantava do chão.
Em um andar mais retilíneo e menos arrastado, logo o chão demonstrou ter certa umidade. Não era frio, mas passou uma sensação fresca em comparação com o deserto anteriormente descrito. Um choque que o deixou assustado pelo repentino toque molhado. Sua reação não foi tão espalhafatosa, mas deu um pulo e cambaleou, caindo em seguida.
Sua preocupação não foi outra, após massagear as costas que haviam batido no chão, correu em direção à garota que estava agora com o rosto cheio de lama e a pôs em seus braços. Ele arrumou os cabelos dela e limpou o rosto com a camisa, se ainda pudesse ser chamada assim, e voltou a caminhar com seus pés que se arrastavam por pura determinação de seguir em frente, deixando um rastro entre aquele terreno plano, cruzando o deserto em direção ao colossal horizonte.
Foram três dias, três dias sem água, três dias sem comida, três dias à deriva e aquele garoto que nada conhecia se manteve com vida.