Então o tempo passou e o garoto que marcou com um graveto, um risco na parede, estava agora com argila na mão, amontoando-a rente a outra parede um pouco mais longe. O barro era colocado aos poucos, as mãos, grudentas, iam e vinham no buraco que estava reabrindo ao lado.
Não demorou muito para que entre o pôr e sobrepor, junto a água que jogava a cada pausa, formasse uma espécie de caixote de barro e, assim que desse por terminado, fosse para fora da caverna.
— Mi– Mirabelle? — Os olhos curiosos foram de um lado para o outro, mas além da pilha de ossos esparramados pelo chão, as madeiras mais ao lado da entrada e alguns restos de escamas e outras partes da criatura junto às carnes, empilhados em outro canto mais longe, não viu nada ali. — Para onde será que ela foi?
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Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
O semblante que o acompanhou até a pilha de madeira não foi dos melhores, sentou-se e separou quatro toras e as pôs entre os braços. — Será que eu… não… não deve ser isso. — Levantou-se, mas um movimento errado da mão o desequilibrou e fez bater com o pé na quina da parede.
— Ai! — Gritou e estalou a língua apoiando-se na parede. Olhou para a madeira que havia caído: — Mas que merda… — Mas a visão dos seus pés ao lado daqueles troncos o fez parar por um momento.
— Eu… — As cicatrizes e os hematomas se faziam presentes por todo o peito do pé e seguiam até os joelhos. O vento soprou e lhe balançou os cabelos frente ao rosto preso aquela imagem e em instantes balançou a cabeça e se agachou. — O que eu estou fazendo? — Um suspiro acompanhou o erguer daquelas toras e o arriar delas no chão, e outro acompanhou o golpear delas com uma pedra. Em poucos minutos duas delas foram fixadas, o máximo dentro do que sua visão duvidosa permitiu nivelar, logo as outras duas foram colocadas transversalmente, uma fazia a ponte entre as duas já fixadas no chão, enquanto a outra foi posta rente a parede. O barro foi aos poucos adicionado em baixo e, com um olho fechado e o outro semi-fechado, mirou até que as duas estivessem paralelas entre si.
— Agora, sim... — Bateu uma mão na outra e os amontoados de barro seco caíram no chão, esfregou-as no saiote e logo depois as pôs seguras na cintura e suspirou.
Os braços ainda que longe do campo de visão, lhe puxaram a atenção, os machucados, os hematomas, as cicatrizes nos ombros e principalmente o buraco que tinha no peito o fizeram respirar fundo.
— É melhor… É melhor eu não pensar nisso… — Ergue os braços, inclinou-se um pouco, alongou-se e sentiu o estalar dos ossos.
— Vamos terminar isso logo. — Pôs um pé frente ao outro e aos poucos foi indo e vindo com galhos e mais galhos, uma dor ou outra aparecia na perna esquerda e nos ombros, mas dava para ignorar, estalava a língua e seguia a andar.
O dia passou, o sol que antes estava no ponto mais alto, caiu como as folhas de uma árvore e o horizonte ficou alaranjado junto a um vento forte. Miguel, que deixou alguns galhos secos separados, correu para a fogueira já abastecida.
Não havia muito o que usar para acendê-la, não tinha algo como uma pederneira, então fez nada mais nada menos do que tirar a pouca roupa que tinha e a enrolar em um dos galhos.
Usou da fricção e da insistência de continuar girando até ter que parar para respirar, para tentar acendê-la, mesmo com as lascas se enfiando em suas mãos, a união do saiote em frangalhos e aquele galho foi o combustível que lhe deu uma fagulha.
Entre um pouco do amontoado de pelos que tinham secado no sol e os galhos mais curtos, que jogou em cima do saiote, pôs a mão no fogo para o retirar antes que fosse completamente queimado.
— AaAaaaaAa! Merda! — Pulou rapidamente e jogou a roupa no chão, pulando em cima dela para apagar as chamas.
— Droga! Droga! Droga! — O fogo apagou, mas as manchas ficaram na roupa.
— Mas que merda! Quase eu fico sem roupa… — Os olhos acompanharam o abaixar das mãos que tentaram colocar o saiote de volta na cintura. — Vovô me daria um cascudo... — Mesmo que tentasse enrolar o tecido, as mãos ainda tremiam. — Droga…
Entre um pensamento e outro, lembrou-se das chamas crescentes que quase lhe queimavam o pé. — Mas que droga é–!? Ei! Ei! Ei! — Adiantou-se a controlá-las, entre o pó de ouro e prata que restavam próximos a fogueira o fogo se alastrou e com os poucos galhos que tinha, tentou conduzi-lo de volta ao centro. — Droga se a Mirabelle ver iss–
— Espera… — O sol já havia desaparecido e, somente o céu ainda mantinha um pouco do horizonte alaranjado, enquanto a noite tomava seu lugar e o brilho das luas entravam pelo buraco no teto. — Ela ainda não voltou? — Suas mãos se apoiaram na entrada, observando a escuridão do lado de fora, qual as luas afastaram com seu intenso brilhar. os ossos ainda estavam lá, as partes da criatura também, o canto onde as madeiras estavam se encontrava quase que completamente vazio e Mirabelle ainda não havia retornado.
— Eu devo esperar ela? — Apoiado na parede, as respostas não vinham do teto para o qual olhava, o escuro do interior da caverna começou a tomar conta de onde as luzes da fogueira não alcançavam, e a respiração que ficou inconstante não o permitiu manter a calma.
— Eu… Eu vou esperar ela. Ela vai voltar… — Indo para fora e pegando um pedaço da carne da criatura que Mirabelle havia guardado em buracos da parede junto a algumas das escamas do animal. Rumou para dentro novamente e as espetou, não havia faca para que pudesse as cortar, então tentou as lascar com as mãos, foi um esforço imenso, os braços pareciam que iam se distender de tanta força que pôs para partir o primeiro pedaço de carne ao meio, mas conseguiu, nem pareceu que aquela era a mesma carne macia e suculenta que havia comido.
Ele então sentou ali, girou um espeto em forquilhas improvisadas, e esperou. A gordura pingou, o fogo subiu, abaixou, seu bumbum doeu. Ele levantou várias vezes, olhou o escurecer e clarear do lado de fora, mas aquela escuridão permanecia, ninguém aparecia e o estalar da madeira queimando era sua única companhia.
— Mirabelle… — Abaixou a cabeça e cruzou os braços, mas um calafrio lhe percorreu a espinha e o fez levantar. — Isso está errado! ela já deveria ter voltado! — Gesticulou olhando para o alto, mas logo desceu a visão. — Não é?
Os punhos se fecharam junto a sua expressão de preocupação, virou-se para a fogueira e para a carne, tirou o espeto que usou nela, qual era o mais afiado que tinha até então e pôs a carne em cima da bancada a qual havia construído.
Pegou outro pedaço de madeira pontiagudo, foi até a pedra qual lascou as forquilhas e tentou o amolar ali, entre o tensionar dos músculos do braços e os escorregões de seus dedos cortados, rasgou mais as laterais e o pôs junto ao outro na mão direita e saiu da caverna.
Entre uma nuvem e outra a claridade ia e vinha, a escuridão, permeou-lhe a frente, mas entre o hesitar dos passos e o tremor das pernas, um pensamento ainda lhe fez mover os pés à frente: — Tenho que achar ela.
Adentrou o labirinto pelo caminho pelo qual ela havia fugido. Era alto, não tinha reparado antes, mas mesmo espaçoso, as cinzas e escuras paredes de pedra pareciam não ter fim, o céu era uma listra em sua visão quando a levantava involuntariamente junto a um barulho de rastejar. O som do vento era diminuto, dava para contar os passos, sentir a areia que os pés moviam ao se arrastar, os batimentos do coração, acelerados enquanto olhava entre os cantos das quinas de cada bifurcação que via.
Suor escorreu por entre os olhos que se abriram e os pés imediatamente pararam quando um uivo ouviu mais a distante. O som foi alto e vinha da frente e a preocupação se fez presente ao tentar engolir o medo. As pernas não queriam levantar os pés, que não avançavam.
— O– O que será que foi isso? — Sondou os arredores, arrastou-se involuntariamente de costas e avançou. Aos poucos virou-se, e seguiu em frente, sem retornar, mas as pernas tremiam, as mãos tentavam manter a guarda com a estaca frente ao corpo e os olhos não davam espaço para piscar.
— O que foi isso!? — A vegetação rasteira começou a emitir um som estranho e das pequenas frestas nas paredes, de onde podia sentir alguém o observar, vento forte começou a soprar. Acima a vegetação se moveu na direção contrária ao vento, sombras que os olhos não conseguiam acompanhar passavam em sua frente e puxavam-lhe o foco. — Eu… Eu estou vendo coisas? — Balançou o rosto e continuou a andar, mas logo se deparou com uma parede. — O– o que eu faço? — Olhando para o alto daquele obstáculo, não ficou preso somente ao desespero que lhe tomava o pescoço pinicando, ao virar-se para trás, deparou-se com a escuridão do caminho que percorreu, engolindo toda a coragem de retornar.
— Vamos lá Miguel! Temos que achar ela! Ela pode estar em perigo… — Sussurrou e bateu no próprio rosto, cerrou os dentes e olhou para o alto novamente. Era uma parede Íngreme, mas tinha uma certa inclinação, as pedras e frestas pequenas nela o permitiriam subir. — Mirabelle… — Suspirou profundamente e olhou novamente para trás antes de tirar o saiote e amarras as estacas nas costas e, nu, por a mão numa das pedras e tentar subir. — Onde você está?
Foi custoso segurar nas frestas, as mãos escorregavam junto ao suor, o sangue escorria dos dedos entrelaçados dentro das arestas, pareciam que iam partir, quando os pés não conseguiram se firmar em uma das pedras, gritou de dor, tendo que manter o peso do corpo em só uma das mãos.
— Porque eu estou fazendo isso!?
A escuridão lhe envolveu os pés ao olhar para baixo. As pernas estavam maiores do que se lembrava, e o ar que respirava ficou sufocante. — Eu tenho que fazer isso! — Seu braço tencionou, inclinou o corpo, respirou fundo e cerrou os dentes, puxando-se para cima, balançou-se e foi a frente. — Não tem motivo pra ela não voltar! — Tentou se agarrar a uma pedra, a mão escorregou. — Merda! — Um corte no dedo, o sangue começou a acumular-se na fresta que segurava, a mão cedia aos poucos, os dedos escorregavam, o suor escorria, a respiração instável, balançou-se, tentou se impulsionar, mas todas as pedras estavam longe, foi difícil, quanto mais tentava, mais parecia que cairia, até que seu pé firmou em uma pedra, saltou, agarrou-se em outra e voltou a escalar. — Eu vou achá-la!
Entre o forte vento sem impedimentos, Miguel pôs a mão no alto daquele Labirinto e arrastou-se para cima da parede, carregando nas costas suas duas estacas de madeira e o que antes era seu saiote esfarrapado. — Mirabelle… — Ele olhou para cima com o rosto rente ao chão, e o brilho das luas junto a poeira carregada pelo vento, iluminou-lhe a frente.
Apoiou-se com os braços e se ergueu, olhou para baixo e a escuridão estava ali, não dava para enxergar nada. balançou novamente a cabeça e virou-se, aquele ambiente era plano, não parecia que estava acima do local que tinha esforçado-se para carregar uma criatura monstruosa, mas não podia parar ali, virou-se e começou a andar. Os passos eram pesados, as rajadas de vento o arrastavam para trás, a areia lhe acertava o olho com força, mesmo o cobrindo com um dos braços, ela circundava-o, e acertava-lhe a cara, quando não adentravam seu nariz e boca. — Me– Merda!
A outra mão não pôde fazer muito, pedras pequenas eram arremessadas contra suas pernas e torso, quando a tirava para limpar o rosto a outra tinha que descer no mesmo instante para evitar mais hematomas.
O terreno em meio ao brilho do luar foi arrastado ferozmente contra si enquanto a visão turva não enxergava um palmo à frente. Tentou cortar o vento, mas seus pés voltaram, arrastados de volta ao ponto inicial, fincar os dedos no chão não ajudou, inclinar o corpo também não, tentou fechar os olhos e descer a cabeça só o fez ser arremessado para o alto. — AaaAaaA! — Levado em direção aos céus, tentou agarrar algo, mas as mãos não encontravam nada para pegar. Ele caiu, rolou, os ombros sentiam o peso do corpo a cada impacto que se sucedeu, até que parou, quando as costas bateu em algo.
— AaAaaA! Merda! — Socou o chão. Os impactos constantes o causavam agonia, os braços ralados e os ombros cortados queimavam, mas olhava para frente, fixo, sem piscar ou cobrir os olhos. Ele abaixou o rosto e fechou os olhos, pôs a mão neles por um segundo e ficou em silêncio, antes de apoiar-se e levantar. mas antes que colocasse um pé frente ao outro e voltasse a caminhar, o barulho de madeira rangendo o fez olhar para trás.
— Ma– Mas O que?
Uma parede, uma enorme parede de madeira que também era acertada pela areia ferozmente e rangia com os solavancos do vento. Mas sua visão não ficou presa a aquelas tábuas marrons, acinzentadas pela noite tempestuosa, ela foi atraída por uma corda que balançava e o vento jogou para o alto.
— Um… Um navio?