Em 2025, a humanidade cruzou o ponto de não retorno. A ganância corporativa e a exploração desenfreada esgotaram os recursos do planeta, deixando um rastro de destruição e envenenamento global. Enquanto nações como Brasil, Suíça e Tailândia lutavam para restaurar suas terras, o resto do mundo se despedaçava. Do colapso das antigas superpotências nasceram duas forças brutais: a UMD (União Militar de Invasão), focada em anexar territórios e pilhar os espólios da Terra, e a AMI (Aliança Militar Internacional), uma coalizão desesperada para conter o avanço inimigo e reverter o caos.
No meio desse fogo cruzado, onde soldados eram tratados como peças descartáveis, surgiram as facções mercenárias. Para esses homens, a moralidade era um luxo invisível e o único lado que realmente importava era o do próximo contrato. Em uma guerra onde a tecnologia de ponta, alianças instáveis e usuários de artes místicas colidiam, a linha entre a salvação e a extinção era ditada pelo melhor lance. Restava saber quem controlaria o que sobrou do amanhã
CAPÍTULO 1: BERC
Hanôver, Alemanha. Grupos de policiais e bombeiros se amontoavam do lado de fora do prédio escolar, com semblantes tensos que refletiam a gravidade da situação.
— Senhor, a unidade da GSG 9 iniciou a invasão, mas perdemos o contato assim que alcançaram o segundo andar — alertou um policial, aproximando-se do comandante com pressa. — Os homens que tentaram a entrada tática pelo teto também pararam de responder. Seja lá quem estiver lá dentro, não estamos lidando com terroristas comuns.
— Que malditos... — murmurou o oficial, passando a mão pelo rosto cansado. — Por que tomariam uma escola de ensino fundamental e jardim de infância? Aquelas crianças são tão novas que nem sequer manifestaram suas aptidões e dons ainda.
Antes que o subordinado pudesse responder, um homem cruzou o cordão de isolamento com total tranquilidade. Era alto, de pele clara e olhos azuis, ostentando uma barba cheia e cabelos escuros alinhados em um corte levemente espetado. Vestia um terno azul bem cortado, gravata escura e camisa branca, mas a sobriedade do traje quebrava-se nos pés, onde calçava tênis esportivos em vez de sapatos sociais.
— Parado aí — ordenou o oficial, levando a mão ao coldre de imediato.
— Calma, senhores. Vim resolver essa dor de cabeça para vocês — respondeu o recém-chegado, erguendo as mãos em um gesto descontraído.
— E quem seria você?
— Meu nome é Renan Elifas. Sou vice-comandante do Batalhão de Extermínio, Resgate e Contenção. BERC, para os mais íntimos.
— Vocês são algum braço tático da AMI? — perguntou o oficial, semicerrando os olhos.
Renan soltou uma risada nasalada, achando graça da suposição.
— Isso é quase uma ofensa aos meus ouvidos. Nós não somos incompetentes, somos mercenários.
— Vocês são carniceiros que lucram com a desgraça alheia — rebateu o comandante, sem esconder a hostilidade.
— Carniceiros? Não temos culpa se vocês fazem mal o trabalho pelo qual são pagos com os impostos dos pais daquelas crianças. Se pararmos para pensar, os verdadeiros carniceiros aqui são vocês.
— Ora, seu insolente!
Tomado pela fúria, o policial sacou a arma e a apontou diretamente contra a cabeça de Renan. No entanto, antes que pudesse puxar o gatilho, o mercenário apenas exibiu um sorriso calmo. No segundo seguinte, a mão do oficial começou a derreter de forma grotesca, com a carne se desfazendo como cera quente sob um calor invisível.
— Oficial... — Renan inclinou a cabeça, lendo friamente a identificação na farda enquanto o homem arquejava de dor. — Otto. Lembre-se de nunca atacar alguém sem antes conhecer a natureza do poder dele. Curandeiros e médicos não servem apenas para dar suporte em retaguardas. Se os seus homens tivessem pensado nisso antes, o grupo que entrou lá dentro talvez ainda estivesse respirando.
O mercenário ajeitou a gravata com naturalidade, alheio ao desespero ao redor.
— Eu tenho um jantar com meu marido mais tarde, então vou dar as ordens logo de uma vez. — Ele acionou o comunicador de ouvido. — Equipe, hora do show. Klaus está no comando de campo. Minha única exigência é: não morram. Se alguém se complicar, peça o apoio meu ou do Jairo. Mas fiquem sabendo que haverá punição por incompetência.
Deitado em posição de tiro em um telhado vizinho, um jovem monitorava o horizonte através da lente de alta precisão de seu fuzil Sako TRG 22, manuseando a arma com a naturalidade de quem opera um membro do próprio corpo. Seus cabelos, brancos como a neve que caía fina ao redor, eram cortados em um moicano agressivo que contrastava com sua pele pálida. Ele vestia um terno preto impecável e uma máscara de gás militar que cobria completamente seu rosto, deixando expostos apenas seus olhos de escleróticas amareladas e íris vermelhas, fixas no alvo como as de um predador paciente.
— Ei, Jairo, está avistando algum movimento? — a voz de Klaus ecoou pelo ponto eletrônico, firme e com o habitual sotaque alemão.
Jairo não hesitou, ajustando o dedo ao redor do gatilho com extrema frieza.
— Sim, localizei três deles. Estão usando balaclavas vermelhas e cobrem o segundo, o quarto e o quinto andar. — O atirador franziu o cenho por trás da máscara, mantendo o olho colado na mira telescópica. — Por que não posso abrir fogo logo? Todos estão na minha linha de visada.
— Estamos lidando com uma escola, Jairo — interveio uma terceira voz pelo rádio. — Se você disparar e liberar o vírus deles, os reféns serão contaminados. E se os projéteis comuns falharem em derrubá-los de imediato, as crianças pagarão o preço.
Jairo soltou um suspiro pesado, nitidamente frustrado.
— Que droga... Paulo, já está irritante ficar aqui apenas assistindo.
No beco escuro adjacente ao colégio, três figuras permaneciam ocultas pela penumbra, vestindo ternos pretos idênticos ao do atirador. Um deles era Paulo, um jovem de pele parda e cabelos ondulados com um corte degradê nas laterais, que vigiava o perímetro com os punhos cerrados.
— Se algum refém morrer, perdemos a nossa recompensa — murmurou o jovem, tenso. — Além disso, são crianças que estão ali dentro.
Ao lado dele, Klaus Gutenberg transmitia uma autoridade natural. Os óculos escuros redondos e o terno ligeiramente apertado pela silhueta robusta não diminuíam em nada sua postura imponente enquanto ele ajeitava o acessório no rosto.
— Também há o fato de que eu estou no comando desta operação, então façam o favor de calar a boca — respondeu Klaus, com tom firme.
Antes que o silêncio retornasse, a terceira integrante deu um passo à frente. Era Kimiko, uma jovem de traços orientais e cabelos escuros cortados no estilo Chanel, cujos olhos castanhos guardavam uma frieza calculista.
— Teoricamente, este setor deveria ser responsabilidade da futura segunda divisão, a qual eu coordeno — pontuou ela.
— Fique na sua, Kimiko. Você sequer concluiu o seu período de treinamento — retrucou Klaus, puxando um cigarro do bolso do paletó e acendendo-o. A fumaça cinzenta misturou-se ao ar gélido da cidade. — Há mais terroristas espalhados por Hanôver carregando uma arma química. William e Jiā Lín estão tentando rastrear a origem dos compostos agora. Nosso papel aqui é direto: entrar, neutralizar as ameaças e garantir a vida das crianças. Se for possível, preservem ao menos um deles para o interrogatório.
Paulo voltou os olhos para a estrutura de concreto da escola.
— Há crianças lá dentro — repetiu, baixinho.
— Exatamente por isso fomos acionados — resumiu Klaus, dando uma última tragada.
Paulo fechou os olhos por um breve instante, concentrando a energia sombria que corria em suas veias antes de estender a mão em direção à parede de tijolos do beco. A escuridão local começou a se comportar de forma anômala, ganhando uma densidade quase viva e viscosa.
— Técnica de Trevas: Passagem Umbral — murmurou.
Em um estalo abafado, o breu da parede se expandiu e rasgou o espaço físico, moldando um portal oval de sombras densas que pareciam escorrer pelas bordas. O interior da fenda era um vácuo absoluto que soprava uma brisa congelante, conectando o beco diretamente aos corredores internos da escola. Klaus jogou o cigarro no chão, esmagando-o com a ponta do sapato lustrado, e marchou para dentro da fenda escura. Kimiko, demonstrando um brilho de antecipação no olhar, seguiu logo atrás, acompanhada por Paulo. Um a um, os três foram engolidos pela matéria sombria, que se contraiu rapidamente até fechar-se por completo, deixando para trás apenas o cheiro de tabaco na neve.