A travessia pela matéria escura durou apenas um segundo, mas a temperatura interna do portal era fria o suficiente para queimar os pulmões de quem não estivesse habituado. No quinto andar do colégio, a penumbra acumulada sob o vão de uma escada de serviço começou a borbulhar até se abrir sem ruído, permitindo que Klaus Gutenberg emergisse com sua postura ereta e os óculos escuros perfeitamente alinhados.
Assim que seus sapatos tocaram o chão, a própria sombra de Klaus, projetada pelas lâmpadas fluorescentes do teto, ganhou volume e moveu-se de forma independente. A silhueta tridimensional mergulhou as mãos no próprio breu e puxou duas armas massivas: dois cutelos pesados, um deles manchado em um tom de vermelho-escuro coagulado e o outro em um carmesim vivo, ambos unidos por uma longa corrente de elos negros que tilintaram discretamente. A réplica de sombra entregou o arsenal ao verdadeiro Klaus e desfez-se em fumaça.
Alguns metros adiante, o cenário em uma das salas de aula era de puro desespero. Um dos invasores de balaclava vermelha andava de um lado para o outro, apontando um fuzil de assalto contra dezenas de crianças encolhidas sob as mesas de madeira. O suor escorria pelo rosto do criminoso e sua adrenalina estava no limite quando o silêncio do corredor foi quebrado de forma violenta.
Uma sequência de estrondos ecoou conforme as portas das salas vizinhas eram arrombadas uma a uma com chutes brutais, aproximando-se daquele ambiente em uma velocidade assustadora. O sequestrador engatilhou a arma com o peito arfando, fixando os olhos na entrada até que a maçaneta cedeu e a porta foi escancarada.
— Encontrei vocês! — exclamou Klaus, surgindo na abertura com um sorriso largo e provocador.
O terrorista reagiu por puro instinto e pânico, pressionando o gatilho até o fim. O estrondo dos disparos de calibre 5.56 mm ensurdeceu a sala de aula enquanto uma chuva de projéteis perfurava o peito, os braços e o rosto do invasor de terno preto, estraçalhando o paletó sob os gritos das crianças que cobriam os ouvidos. Quando o carregador finalmente se esgotou, estalando no vazio, nenhum sangue escorreu do corpo alvejado. Em vez disso, a silhueta de Klaus ondulou como fumaça e derreteu em uma poça de escuridão líquida que evaporou antes de tocar o piso. Era apenas uma ilusão.
— Mas que diabos...? — balbuciou o terrorista, recuando um passo.
— Você é bastante assustado para quem tem a audácia de usar crianças como escudo — a voz grossa e real ecoou de trás do batente da porta.
O verdadeiro Klaus Gutenberg revelou-se na entrada. Sem dar tempo para o oponente largar o fuzil sem munição, o agente rotacionou o braço direito com extrema agilidade. O cutelo carmesim voou pelo ar, arrastando a corrente negra com um som que lembrava o chocalho de uma serpente, prendendo os ombros e o peito do sequestrador. Com um puxão seco e violento, Klaus arrancou o homem do chão, arrastando-o para fora da sala de aula e arremessando-o contra a parede do corredor, longe do alcance dos reféns.
O homem colidiu contra a alvenaria com um baque surdo, mas Klaus avançou antes de qualquer reação, desferindo um soco direto contra o estômago dele, seguido por uma pancada com o cabo do cutelo que estalou contra sua têmpora. Qualquer humano comum teria desmaiado imediatamente, mas o criminoso apenas rosnou enquanto seu corpo, sob a pressão das correntes que o prendiam, começou a emitir estalos medonhos de ossos se partindo.
Diante dos olhos de Klaus, o invasor forçou deliberadamente as articulações para trás, quebrando a própria estrutura esquelética em ângulos impossíveis para reduzir o volume do corpo e escorregar por entre os elos metálicos da arma. No instante em que tocou o chão livre das amarras, sua anatomia se realinhou com uma rapidez impressionante, os ossos se soldando através de uma capacidade regenerativa mística e forçada.
Klaus recolheu suas correntes com um movimento sutil, observando a deformidade à sua frente sem demonstrar qualquer surpresa.
— Então a sua aptidão é a medicina regenerativa? — Klaus arqueou uma sobrancelha por trás dos óculos escuros, endireitando a postura. — Espero que tenha técnicas de combate reais para me entreter.
O terrorista não respondeu com palavras; em vez disso, tencionou os músculos dos braços até que a pele de seus antebraços se rasgasse em linhas retas, expelindo sangue enquanto duas protuberâncias afiadas de cálcio maciço se projetavam para fora da carne, moldando-se como lâminas ósseas presas aos pulsos.
Klaus soltou uma risada curta e desdenhosa.
— É uma tolice imensa avançar de peito aberto contra alguém que empunha um artefato místico antigo. Por que não saca o seu?
O adversário ignorou o aviso e, com os olhos injetados de adrenalina, avançou pelo corredor desferindo um golpe ascendente com a lâmina esquelética do braço direito. Klaus deu um passo curto para trás, esquivando-se por milímetros, e, sabendo que o combate corpo a corpo exigia total liberdade de movimento, soltou os cabos de suas armas. Antes que os cutelos atingissem o piso, a escuridão sob seus pés ergueu-se como um manto líquido, engolindo o arsenal de volta para o seu vácuo dimensional. O agente ergueu os punhos limpos, adotando uma postura de guarda.
Percebendo a aparente brecha, o terrorista arrancou uma das protuberâncias ósseas do próprio braço com um estalo violento e disparou o pedaço afiado contra o peito de Klaus como se fosse uma lança. A velocidade do projétil era letal, mas a penumbra do corredor jogava a favor do mercenário; sua própria sombra emergiu do chão de forma sólida entre os dois combatentes, estendendo braços escuros que amorteceram e seguraram a lança de osso a poucos centímetros de seu peito. Com um movimento giratório, a réplica arremessou o projétil de volta contra o dono, forçando o terrorista a esquivar-se em uma fração de segundo enquanto o osso se despedaçava contra a parede ao fundo.
Contudo, aquele desvio custou caro ao criminoso. Quando ele realinhou o olhar, Klaus já havia encurtado a distância e avançava como uma garra pesada que se fechou com força brutal ao redor de seu pescoço, erguendo-o do chão e prensando-o contra a alvenaria.
Ainda assim, o inimigo não se rendeu. Mesmo sufocando sob o aperto, o rapaz ergueu o braço livre e apontou os dedos indicador e médio diretamente contra o rosto de Klaus. Os ossos de suas falanges começaram a estalar, retraindo-se na carne como percutores prontos para disparar projéteis de cálcio afiado. Klaus não deu margem para o azar: antes que o ataque biológico acontecesse, sua sombra emergiu lateralmente, invocando o cutelo vermelho-escuro diretamente em sua mão esquerda. Em um corte descendente e cruel, a lâmina pesada decepou a mão do terrorista na altura do pulso.
O membro decepado caiu inerte no chão de concreto enquanto o cotoco jorrava sangue, mas os dons regenerativos do jovem agiram de imediato, tentando fechar as artérias e reconstruir a extremidade. No entanto, o processo deu errado. Em vez de uma cura limpa, o braço começou a inflar de forma grotesca, com veias saltando em tons roxos e esverdeados sob a pele. O sangue parecia ferver e se acumular em volumes absurdos, transformando o membro em uma massa disforme que fez o rapaz desabar no chão em um grito de pura agonia.
— O que carrego em mãos é uma relíquia amaldiçoada com afinidade Taumaturga — explicou Klaus, observando o inimigo com a frieza de um carrasco enquanto o metal do cutelo absorvia os respingos vermelhos. — Você pode até fechar ferimentos biológicos comuns, garoto, mas não consegue manipular o próprio fluxo sanguíneo quando ele é corrompido. O corte desta lâmina sabota a sua pressão vascular. Diga-me o que quero saber e garantirei que você não morra afogado no próprio sangue.
Desesperado ao sentir a contaminação subir pelo ombro, o terrorista usou a mão saudável para arrancar a balaclava vermelha em busca de ar. Quando o tecido saiu, Klaus franziu o cenho por trás dos óculos escuros ao notar que a aparência revelada era juvenil, com bochechas magras e traços que mal haviam saído da infância. *Ele é só um menino*, pensou Klaus, sentindo o peso daquela realidade por um breve instante.
Mas o jovem possuía os instintos de um animal encurralado. Percebendo que o braço esquerdo estava condenado, ele travou os dentes e desferiu um golpe seco contra o próprio ombro usando a lâmina óssea do braço direito, sacrificando o membro contaminado de uma vez por todas. No instante seguinte, as células efervesceram e um braço inteiramente novo brotou da ferida aberta, livre da maldição.
O garoto se levantou, limpando o suor e o sangue do rosto com os olhos injetados de ódio.
— Cansei de você, velho — sibilou, partindo para o ataque novamente.
Klaus reagiu arremessando o cutelo carmesim em um trajeto horizontal, mas o jovem antecipou o movimento, abaixando-se rente ao chão para deixar a arma passar zunindo por cima de sua cabeça e deslizando pelo piso de linóleo. Antes que o veterano recuperasse a postura, o rapaz desferiu um soco direto, potencializado por uma camada de cálcio endurecido sob os nós dos dedos, acertando em cheio o estômago do agente. O impacto estalou o tecido do paletó de Klaus e arrancou o ar de seus pulmões, mas a sombra sob seus pés ergueu-se de imediato como uma barreira sólida, desferindo um pontapé violento no peito do jovem e arremessando-o metros para trás para forçar o distanciamento tático.
Recuando e arfando, o rapaz estendeu as duas mãos abertas.
— Morre, desgraçado!
As falanges de seus dedos projetaram-se para frente e uma sequência rápida de disparos biológicos cortou o corredor como projéteis de metralhadora. Klaus girou o corpo e mergulhou para dentro de uma das salas de aula vazias, usando o batente da porta como cobertura enquanto os ossos perfuravam paredes, armários e quadros escolares ao redor. Assim que os disparos cessaram para que o garoto regenerasse sua munição natural, Klaus agiu, estendendo as mãos para o chão para moldar a escuridão de sua sombra na forma de dois punhais de gelo e penumbra.
Com as lâminas firmes, Klaus saltou de volta para o corredor e avançou agressivamente. Desesperado para conter o avanço, o jovem tomou uma medida extrema: com um urro desumano, enfiou os dedos nas próprias costas e, em um estalo horrendo, arrancou a própria coluna vertebral de dentro do corpo. O sangue escorreu pelas vértebras expostas enquanto o osso se alongava e endurecia, transformando-se em um chicote biológico repleto de espinhos cortantes que estalou contra a parede, arrancando uma grande lasca de concreto.
Mesmo vestindo um terno social rígido, Klaus demonstrou uma agilidade impressionante, esquivando-se dos ataques repetidos enquanto encurtava a distância passo a passo, sofrendo apenas cortes superficiais nos braços. Quando o terrorista tentou recuar, o agente já havia entrado em seu raio de ação e lançou um dos punhais contra o peito do rapaz. O jovem ergueu o braço para bloquear, porém a adaga de sombra explodiu no meio do trajeto em dezenas de fragmentos microscópicos.
Instintivamente, placas de cálcio brotaram por toda a superfície do corpo do terrorista para formar uma armadura esquelética, mas algumas agulhas negras atravessaram as frestas da proteção, causando pequenos cortes que o garoto julgou inofensivos. Ele chegou a sorrir, mas logo caiu de joelhos quando as áreas atingidas começaram a inflar e linhas roxas se espalharam por seu corpo conforme o sangue coagulava e seus dons de cura falhavam.
— A principal diferença entre o vácuo de um manipulador de sombras comum e o de um Shadow especialista — começou Klaus, aproximando-se sem pressa enquanto girava o segundo punhal entre os dedos — é que os primeiros utilizam a escuridão apenas como um cofre para armazenar objetos simples. Nós podemos interagir com a nossa própria sombra, fragmentá-la e fundir nossas relíquias a ela. Cada uma daquelas agulhas carregava a maldição da minha lâmina. Os coágulos já tomaram o seu corpo; se tentar amputar a própria cabeça para escapar, romperá o seu sistema nervoso central e morrerá antes que sua cura reconstrua o cérebro.
O jovem permaneceu imóvel, suando e tremendo de pavor enquanto o agente se agachava diante dele.
— Ainda assim, eu posso reverter esse processo e salvar sua vida. Diga-me onde está a arma química.
O rapaz cuspiu sangue no chão e exibiu um sorriso cheio de ódio.
— Vai se foder — a voz saiu fraca, mas firme. — Meus irmãos estão aqui e vão subir este prédio. Quando encontrarem você... — A risada rouca terminou em um acesso doloroso de tosse.
Klaus apenas suspirou, deixando que o punhal de sombra se desfizesse em líquido negro até retornar ao chão. Ele segurou o terrorista pelos cabelos e forçou sua cabeça para cima.
— Então olhe para a sala, garoto.
O jovem obedeceu involuntariamente e congelou ao notar que a sala de aula estava completamente vazia. Nenhuma criança, nenhum professor, nenhum refém permanecia ali, pois Paulo havia retirado silenciosamente cada um deles utilizando a Passagem Umbral durante o confronto. O terrorista ficou sem palavras enquanto Klaus soltava seus cabelos, deixando-o cair contra o chão.
— Seus irmãos conhecerão o gosto da derrota se forem tão teimosos quanto você. Poupe o sangue deles e me diga onde está a arma química.
O jovem permaneceu imóvel por alguns segundos, o peito subindo e descendo em movimentos curtos enquanto compreendia que não havia saída. A imagem das salas vazias destruíra a única vantagem que ele acreditava possuir.
— Nós... — murmurou o rapaz, com a voz falhando enquanto o sangue escorria por sua boca. — Nós não sabemos onde está a arma. Recebemos apenas parte da informação. Um grupo separado está transportando o material e disseram que ele ficaria oculto até a negociação terminar.
— Onde? — o agente estreitou os olhos.
O garoto hesitou por um instante antes de ceder.
— Em um prostíbulo desta cidade. Eu não sei o nome... Minha irmã mais nova está lá. Eles a levaram depois que nossos pais morreram e prometeram que ela seria libertada se fizéssemos o trabalho.
— E por isso vocês aceitaram sequestrar crianças?
— Nós não tivemos escolha! — a explosão emocional ecoou pelo corredor, com lágrimas misturando-se ao sangue em seu rosto. — Você acha que eu queria estar aqui?! Eles disseram que precisavam apenas de uma distração no colégio!
Diante do choro violento do garoto, Klaus manteve a postura prática, interrogando-o sobre o número de homens e a identidade do líder, mas o jovem parecia genuinamente ignorar os detalhes, sabendo apenas que sua irmã estava em perigo. Constatando que as respostas eram insuficientes, mas valiosas, Klaus ergueu a mão e fez com que fios escuros de sua sombra amarrassem os braços e pernas do rapaz como contenção.
— O que vai fazer comigo? — perguntou o jovem, exausto.
— Depende de você continuar respirando até a ambulância chegar. Você ainda é uma criança.
O rádio preso ao ouvido de Klaus chiou de repente, trazendo a voz de Jairo.
— Klaus. Situação?
— Um capturado vivo.
— Um milagre. Kimiko encontrou resistência no quarto andar, mas diz estar se divertindo. E Paulo está finalizando o resgate dos reféns do segundo andar.
— Entendido — finalizou Klaus, voltando o olhar para a escadaria. Ele sabia que os próximos minutos seriam decisivos para o restante da equipe.