Um pavimento abaixo, no quarto andar do colégio, a atmosfera do combate era ditada por um cheiro putrefato misturado ao sangue. Kimiko enfrentava o segundo irmão, que compartilhava da mesma genética do jovem do andar superior: a pele retinta, os lábios carnudos e os cabelos crespos volumosos. Contudo, a diferença crucial estava nas íris; este exibia olhos de um azul gélido e profundo, brilhantes como safiras por trás do rasgo de sua balaclava vermelha.
O terrorista avançou como um animal encurralado, desferindo um soco direto visando perfurar o estômago de Kimiko. Com um reflexo felino, a agente rotacionou o quadril milimetricamente para o lado, deixando o punho atravessar o vazio, mas antes que pudesse contra-atacar, as veias do braço do rapaz inflaram de forma bizarra. Houve um som nítido de líquido borbulhando sob a derme, seguido por uma liberação violenta de gases pressurizados que detonaram repetidamente, estraçalhando a própria carne do agressor em uma reação em cadeia.
A onda de choque bruta arremessou Kimiko contra a parede do corredor. Ela colidiu de costas contra a alvenaria e caiu atordoada, enquanto um zumbido preenchia seus ouvidos e a fumaça cinzenta invadia seus pulmões. À frente dela, o membro do terrorista, reduzido a fiapos sangrentos, já efervescia com a regeneração biológica, recosturando músculos e refazendo a pele em questão de segundos.
— Não adianta tentar se proteger — o terrorista cuspiu sangue enquanto o braço recém-formado estalava. — Quando entrarem aqui, vão encontrar apenas nossos pedaços misturados.
Aproveitando o precioso segundo em que ele se gabava, Kimiko ignorou a tontura e sacou a pistola sob o paletó, iniciando uma chuva de disparos de 9 mm. Os projéteis perfuraram o peito do adversário, mas ele sequer recuou; em um ato de insanidade tática, enfiou os dedos na própria órbita ocular esquerda, arrancou o olho azul e o lançou contra a agente. O órgão explodiu no meio do trajeto, liberando tecidos necróticos e uma fumaça densa com um cheiro insuportável de matéria orgânica em decomposição que quebrou a concentração de Kimiko.
Antes que ela recuperasse a visão por completo, o terrorista flexionou as pernas e provocou uma detonação celular nos calcanhares, catapultando-se para a frente como um projétil humano. Kimiko recompôs a guarda no último instante e utilizou a velocidade do avanço dele contra o próprio agressor, envolvendo o pescoço do rapaz em uma guilhotina técnica e impiedosa para chicoteá-lo de costas contra o chão.
A laje de concreto abaixo rachou com violência e, mantendo a pressão do estrangulamento, ela inclinou a cabeça e cravou os dentes na lateral do pescoço do terrorista, arrancando um pedaço de carne. O adversário rugiu de dor, agarrando as laterais da cabeça de Kimiko com as mãos que já começavam a inflar devido à fermentação biológica, preparando uma explosão à queima-roupa.
Percebendo a energia térmica a poucos centímetros do rosto, Kimiko ativou sua herança feral. Sua derme escureceu, tornando-se espessa e coriácea, enquanto pelos rígidos romperam o tecido do terno conforme suas feições assumiam os traços humanoides de um texugo-do-mel. Ela não conseguiu se afastar a tempo quando as pontas dos dedos do terrorista detonaram em um clarão ensurdecedor que estourou as janelas do corredor, mas sua pele ultra-resistente absorveu grande parte do trauma mecânico. Ainda envolta pela fumaça, Kimiko usou as garras para abrir um rasgo horizontal na garganta mutilada do inimigo e puxou a base de sua língua para fora através do corte.
O rádio em seu ouvido chiou com a voz fria de Jairo, avisando que Paulo já finalizava o resgate e que ela tinha vinte minutos antes que ele mesmo interviesse. Aquela sutil distração cobrou seu preço: o terrorista, mesmo sangrando pelo pescoço, utilizou o suco gástrico hiperconcentrado de seu estômago para regurgitar ácido diretamente no rosto de Kimiko, queimando parte do tecido epitaxial de sua forma animal, enquanto o próprio agressor também sofria com os respingos que derretiam sua carne.
Antes que Kimiko se recuperasse da ardência, o rapaz fechou a mão em seu pescoço e provocou uma nova explosão na palma, forçando a agente a saltar para trás para evitar que sua traqueia fosse esmagada. O terrorista se levantou cambaleante com a garganta se regenerando de forma desordenada, bloqueando suas vias respiratórias. Sem a passagem de ar, o acúmulo de gases biológicos começou a inflar seu pescoço e tórax como um balão prestes a explodir, indicando que ele pretendia transformar o próprio corpo em uma bomba viva para levar o andar inteiro pelos ares.
PANG!
O estampido seco de um rifle de precisão ecoou do lado de fora do prédio, quebrando o restante das vidraças. O projétil de grosso calibre disparado por Jairo atravessou o corredor em uma trajetória perfeita, perfurando cirurgicamente o pescoço inflado do terrorista e funcionando como uma válvula de escape mecânica. Uma quantidade massiva de gases escapou sob alta pressão pelo buraco aberto, produzindo um sibilo violento que despressurizou o corpo do rapaz e interrompeu a detonação iminente.
O ar continuou escapando pelo ferimento, mas o rapaz arrancou os restos mutilados da língua para permitir que a efervescência celular reconstruísse os tecidos de sua boca. Ele tentou dar um passo à frente, depois outro, mas seus joelhos simplesmente não responderam e ele tombou de lado contra a parede conforme seus músculos começavam a enrijecer por completo.
— O que... eu não consigo me mexer! — gritou ele, com os olhos azuis arregalados de puro pânico.
Kimiko caminhou calmamente em sua direção enquanto sua forma híbrida retrocedia e a pele voltava ao tom natural. Ela limpou o restante do ácido do rosto com as costas da mão enluvada.
— Existe uma toxina na natureza capaz de paralisar o sistema nervoso de uma presa quase instantaneamente — explicou ela, com sua voz suave retornando. — Minha linhagem me permite replicar exatamente esse efeito. Quando eu te mordo, injeto essa substância diretamente na sua corrente sanguínea; sua regeneração pode reconstruir carne, garoto, mas não restaura sinapses nervosas que foram bloqueadas.
O rapaz tentou responder, mas nenhum músculo obedeceu e apenas lágrimas involuntárias escorreram pelos cantos de seus olhos. Kimiko o ignorou, caminhando até a janela destruída para acenar calmamente em direção ao prédio comercial onde Jairo estava oculto, sinalizando que o andar estava limpo antes que o silêncio retornasse ao local.