Dentro de uma das últimas salas de aula, o terceiro e último invasor andava de um lado para o outro, mantendo o fuzil apontado para um grupo de quase trinta crianças encolhidas nos cantos da sala. Ouvindo os disparos vindos dos andares superiores, ele sabia que seus irmãos estavam perdendo e posicionou-se exatamente atrás do batente da porta, esperando transformar em peneira o primeiro agente que cruzasse a entrada.
Mas a ameaça não veio dali. Silenciosamente, o chão sob as mesas transformou-se em uma poça profunda de sombras que passou a sugar as crianças para dentro dela, uma por uma, retirando todas da linha de fogo de forma segura. O terrorista percebeu a manobra tarde demais e o pânico transformou-se em fúria.
— Seus fedelhos! Parem ou eu mat—
A frase foi interrompida quando o centro da poça explodiu para cima e Paulo emergiu da escuridão como um espectro, apontando uma escopeta tática Remington 870 diretamente contra o terrorista.
BOOM!
O primeiro disparo de calibre 12 atingiu o rosto do homem em cheio, destruindo a balaclava e despedaçando sua mandíbula antes de qualquer reação. Paulo avançou um passo e acionou a bomba da arma, ejetando o cartucho vazio para desferir o segundo tiro contra o peito do inimigo, arrancando a porta das dobradiças e arremessando o corpo ensanguentado no corredor.
O terrorista tentou se levantar com a mandíbula pendendo por pedaços de carne e metade do rosto transformada em uma massa sangrenta que revelava olhos de um tom intenso de azul-turquesa. A semelhança física tornava evidente que os três alvos eram irmãos legítimos.
— Você não vai conseguir consertar esse rosto tão cedo, a situação está feia — comentou Paulo, demonstrando um sorriso sarcástico. — E o segundo tiro deve ter bagunçado seus órgãos internos; não adianta curar a pele se o resto virou mingau.
O rapaz tentou responder com sons incompreensíveis e, tomado pela raiva, sofreu uma transformação física abrupta. Seus músculos cresceram rapidamente e seu tamanho aumentou de forma monstruosa, transformando-o em um colosso feito de pura carne. Paulo observou aquilo e soltou um suspiro entediado.
— Ah, ótimo... Você deve ter uma classificação alta para aguentar tanto tranco.
O agente deixou que a Remington afundasse na sombra aos seus pés e fez surgir uma potente metralhadora AA-12 em suas mãos, disparando uma sequência brutal contra o peito e o abdômen do gigante. Mesmo com as costelas quebradas, o colosso ignorou a dor e desferiu um soco enorme que atingiu o ombro de Paulo, lançando o mercenário contra uma fileira de carteiras. No entanto, antes de tocar o chão, o corpo de Paulo afundou em uma fenda de sombras e ressurgiu através de um portal aberto no teto do corredor.
Caindo acima do inimigo, Paulo disparou três vezes com um revólver cujos projéteis estavam envolvidos por um fogo azul místico que explodiu por dentro da carne do terrorista. O calor derreteu o chumbo dentro dos tecidos e queimou as células do rapaz, sabotando severamente sua capacidade de regeneração e fazendo o gigante cair de joelhos, sufocando. Paulo pousou com agilidade e pisou na cabeça deformada do oponente, prensando-a contra o piso enquanto apontava o revólver para sua nuca.
— Agora a conversa acabou.
O terrorista moveu os olhos com dificuldade e avistou o braço de Paulo, notando marcas severas de queimadura sob o tecido rasgado do paletó.
— Você... tem afinidade com mais de um elemento? — perguntou o rapaz com dificuldade. — Mas por que seu braço está assim?
Paulo pressionou o gatilho para encerrar o confronto, mas um estalo seco indicou que o disparo havia falhado. Aquela fração de segundo de surpresa foi o bastante para a mão enorme do terrorista agarrar o calcanhar do agente e suspendê-lo no ar com um sorriso cruel por trás do rosto destruído.
— Você está morto.
Paulo não entrou em pânico; fez o revólver desaparecer no breu de seus dedos e invocou uma faca tática, cravando a lâmina no antebraço do adversário para liberar um jato de gás comprimido diretamente dentro do membro através de um mecanismo no cabo. O braço do colosso inflou absurdamente até explodir em sangue e pedaços de músculo, desfazendo o aperto. Paulo começou a cair, mas o terrorista reagiu com um chute brutal que o lançou para cima, agarrando o agente novamente pelo pescoço para prensá-lo contra o teto.
— Vou matar você, maldito.
Sufocando, Paulo manteve os olhos fixos no inimigo e segurou o pulso que o prendia.
— Dá para me soltar? Eu só gosto de ser dominado assim por mulheres.
O terrorista hesitou sem entender a piada e foi aí que percebeu o perigo: a pele de seu braço passou a borbulhar e liberar um vapor escaldante conforme os líquidos internos aqueciam rapidamente sob o efeito da energia térmica de Paulo. A dor intensa forçou o gigante a soltar o mercenário, recuando enquanto Paulo caía no chão tossindo, também com as mãos queimadas pelo efeito colateral de sua própria técnica.
— Médicos não são deuses — disse Paulo, levantando-se devagar. — Seu corpo é cheio de água; eu também vou sofrer com isso, mas se continuar, vou começar a cozinhar você de dentro para fora.
Percebendo que a força bruta não funcionaria, o terrorista reduziu seu volume muscular, evaporando o excesso de líquido para se tornar menor, mais seco e consideravelmente mais rápido, com unhas que se alongaram em garras afiadas. Paulo levantou a guarda antes que ambos avançassem ao mesmo tempo. O agente tentou um soco direto, mas o oponente desviou e respondeu com um golpe violento no abdômen que quebrou suas costelas, fazendo-o cuspir sangue. Paulo aproveitou a proximidade para segurar a nuca do inimigo e desferir uma sequência de joelhadas carregadas de calor que queimavam a pele de ambos.
Desesperado com a temperatura interna subindo, o terrorista atacou as pernas de Paulo para derrubá-lo, mas o mercenário resistiu e saltou, prendendo o pescoço e o braço do oponente em um estrangulamento de pernas perfeito. O colosso, contudo, ergueu Paulo acima dos ombros e o jogou contra o chão repetidas vezes, fazendo o corredor tremer. No momento do próximo impacto, Paulo deslizou o corpo para isolar o braço do inimigo e quebrar o membro com o peso da queda, embora o terrorista tenha revidado com um soco livre que quebrou o nariz do agente. Mesmo com a visão turva, Paulo aplicou uma nova chave e quebrou o outro braço do oponente, afastando-se logo em seguida.
Os dois estavam exaustos e feridos, mas os braços do terrorista já começavam a se realinhar através de sua cura acelerada. Antes que o processo terminasse, o rapaz disparou suas unhas afiadas como pequenas lâminas voadoras; Paulo desferiu um soco que liberou uma rajada de vento invisível para desviar os projéteis, embora a pressão tenha aberto novos cortes em seu próprio peito, enquanto o impacto do vento lançou o terrorista até o fim do corredor.
Paulo concentrou energia nas pernas para cruzar a distância e acertar um soco carregado de eletricidade pura que travou os músculos do oponente, deixando-o completamente imóvel, embora a descarga também tenha queimado os nervos do próprio agente.
— Eu estou acabado... mas ainda vou parar você — arfou Paulo, iniciando uma sequência de socos massivos que deformavam a armadura biológica do inimigo e liberavam nuvens de vapor fervente, sabotando de vez sua capacidade de cura. — Eu não tenho uma relíquia roubada como a do Klaus, nem a habilidade da Kimiko... mas eu tenho versatilidade e brutalidade suficiente para me adaptar a você, seu verme.
O rádio chiou com as instruções de Jairo para manter o alvo vivo por ordens de Klaus. Paulo cessou os golpes, encarando o inimigo desfalecido antes de desferir um último impacto tático para apagá-lo de vez. Ele segurou o rapaz pela perna e o arrastou até uma janela quebrada, lançando o corpo para o pátio externo antes de seguir em direção às escadas. Durante a caminhada, a energia de seu próprio artefato latente manifestou-se de forma involuntária, tingindo seu olho esquerdo de um azul vívido e disparando um processo de cura que regenerou sua pele queimada por completo.
Ao sair do colégio, Paulo encontrou o pátio cercado por viaturas. Klaus e Kimiko o esperavam perto de uma das ambulâncias.
— Por que vocês não foram me ajudar? — perguntou Paulo, avaliando as próprias roupas destruídas.
— Porque você parecia estar lidando bem com a situação, apesar de quase ter transformado o garoto em carvão — respondeu Klaus, observando o prisioneiro ser colocado em uma maca.
Kimiko cruzou os braços, analisando o colega com severidade.
— Pelo menos você está inteiro, mas pare de ser imprudente usando elementos que sabotam seu corpo. Esses dons têm limite de uso; na próxima vez, talvez seja melhor utilizar seu território de caça para resolver o combate de forma limpa.
— Gastar energia à toa? Estou tranquilo — deu de ombros.
O tom de Klaus ficou consideravelmente mais sério enquanto ele observava os paramédicos prestarem socorro aos três irmãos caídos.
— Descobri quem eles são através do primeiro que interroguei. Eles perderam os pais em um massacre recente e estavam tentando recuperar a irmã mais nova, que foi capturada por um grupo criminoso. Aqueles homens exigiram essa ação no colégio em troca da liberdade da menina; eles fizeram tudo isso apenas para tentar salvá-la.
Kimiko olhou para os três jovens ensanguentados e o semblante da caçadora suavizou por um breve instante.
— Então eles eram apenas crianças tentando resgatar alguém da família?
Paulo observou os terroristas em silêncio antes de responder de forma simples.
— São só crianças.
Klaus soltou um pequeno riso sem humor, acendendo outro cigarro enquanto a fumaça subia em meio às viaturas.
— Engraçado você dizer isso depois de quase cozinhar um deles vivo no corredor.
Paulo preferiu não responder. O silêncio pesado caiu sobre os três mercenários enquanto observavam o movimento das equipes de emergência; a operação no colégio havia chegado ao fim, mas a verdadeira caçada pela arma química e pela garota desaparecida estava apenas começando.