O ar do pátio interno do Castelo KarMorn cheirava a ferro frio, óleo de baleia e fuligem úmida. Longe, além dos penhascos cinzentos que guardavam a fortaleza ancestral, o apito estridente dos trens a vapor imperiais cortava a neblina matinal. Connor sentiu uma leve trepidação no cascalho sob suas botas. As locomotivas blindadas da Cúria Inquisitorial avançavam mais a cada ciclo solar, esmagando as florestas de pinheiros com ferro e carvão. O vapor se aproximava, subindo como uma mancha negra para asfixiar a velha magia do norte.
Connor, aos dez anos, mantinha-se imóvel sob o arco gótico de pedra calcária do salão de armas. Seus dedos pequenos, já calejados pela insistência infantil, apertavam o cabo de madeira de freixo de uma espada de treino. A empunhadura estava gasta, lisa pelo suor e pelo atrito de suas mãos ao longo de invernos rigorosos. O freixo da espada de treino estava marcado por dezenas de pequenos sulcos. Mestre Duncan, o ex-capitão da guarda que passara os últimos meses berrando correções nas orelhas do garoto, sempre repetia: "Sua postura é uma vergonha, Connor! O relâmpago só viaja se a base for firme! Se você cair antes de desferir o corte, seu raio vai apenas fritar as minhocas sob a neve!" Duncan não poupava a madeira nas costas do garoto sempre que ele se esquecia de proteger a garganta. Connor olhara ao redor no salão de armas naquela manhã, mas Duncan já partira na noite anterior para organizar as patrilhas avançadas nas gargantas de pedra que antecediam o castelo, deixando o garoto sem o seu tutor habitual. Connor mal piscava, os olhos cinzentos focados na mãe, Lady Rowena, cujos dedos ágeis e firmes ajustavam as placas de metal sobre os ombros de Lord Cedric.
O som metálico das fivelas de couro sendo tensionadas e o clique das placas de aço negro encaixando-se era o único ritmo que quebrava o silêncio do pátio. Cedric Wolff era um homem imponente, de silêncios que duravam horas e uma barba espessa que retinha pequenas gotas de gelo da neblina. Quando a última placa de aço escuro — o aço Wolff, forjado nas entranhas das montanhas do norte — foi afivelada sobre seu peito largo, ele ergueu a cabeça e olhou para o horizonte. Além das torres decadentes de KarMorn, a Grande Muralha erguia-se como uma cicatriz cinzenta contra o céu de chumbo, dividindo o norte rebelde do sul subjugado.
— Eles romperam a terceira linha em Valegris — disse Cedric. A voz dele era um murmúrio grave, despido de qualquer floreio ou falsa bravura de balada de taverna. Era a constatação fria de um soldado. — Os Lorrain não enviaram os reforços de Minópolis. Alistair trancou seus portões de pedra e ordenou que seus guardas mantivessem as bestas apontadas para a estrada.
Rowena deu um passo atrás, inspecionando o encaixe das grevas de Cedric. Ela ajustou a própria capa de lã cinza-escura, prendendo-a com a insígnia de bronze da Fênix. Seus olhos vermelhos, intensos e brilhantes como brasas sob a cinza de uma fogueira moribunda, pareciam clarear a penumbra cinzenta do pátio. Suas mãos nuas emanavam uma névoa sutil de calor que derretia os pequenos flocos de neve antes mesmo que tocassem o aço gélido de Cedric.
— Alistair Lorrain sempre soube calcular o peso do ouro — respondeu ela, a voz contida, mas carregada de desdém. — Ele prefere reinar sobre as cinzas de um norte conquistado do que arriscar seus preciosos cofres defendendo a nossa fronteira. Acha que beijar as botas dos inquisidores poupará Minópolis. Quando os trens imperiais chegarem aos portões de pedra dele, Aveline e Garret pagarão pelos pecados do pai.
Cedric moveu os ombros dentro da armadura pesada, testando a mobilidade. O aço negro Wolff zumbia sutilmente com o movimento. Faíscas azuis estalavam e morriam contra o metal escuro, perfeitamente retidas sem deixar marcas. Ele caminhou em direção a Connor. Cada passo de suas botas pesadas de couro fazia o cascalho congelado do pátio estalar como ossos secos quebrados sob os pés.
O lorde ajoelhou-se diante do filho. Mesmo naquela posição, sua presença ainda preenchia o espaço sob o arco de pedra. A armadura cheirava a óleo de linhaça, graxa de têmpera e fuligem de carvão. Ele estendeu a mão espessa, calejada pelas décadas de cabo de espada, e segurou o ombro de Connor com uma firmeza pragmática, quase dolorosa.
— O castelo é seu até o nosso retorno, Connor. Mantenha os portões fechados. As pontes levadiças devem permanecer erguidas após o crepúsculo. E, acima de tudo, não confie em nenhum viajante que venha das estradas do sul. A ganância do império viaja mais rápido do que seus trens.
Connor sentiu um nó apertar sua garganta. Queria pedir para ir junto. Queria gritar que a faísca elétrica em seu sangue já ardia quando ele segurava a madeira de treino, que sentia o formigamento vermelho em suas palmas quando a frustração o dominava. Mas o orgulho da Casa Wolff, a linhagem que guardava as Terras das Bestas há gerações, não permitia súplicas. Ele ergueu o queixo, imitando a postura rígida do pai.
— Eu protegerei KarMorn, pai. Nenhum inimigo cruzará estas muralhas.
Cedric olhou nos olhos cinzentos do filho. Um meio sorriso seco e breve surgiu sob a barba espessa, desaparecendo tão rápido quanto a faísca de uma pedra de pederneira.
— Mantenha a espada limpa, garoto. O norte não perdoa aço enferrujado. E lembre-se: o raio de nossa linhagem não serve para brilhar; serve para perfurar a armadura do inimigo antes que ele perceba que você se moveu.
Rowena aproximou-se em silêncio. Ela tocou a testa do filho com os lábios quentes, deixando uma sensação reconfortante de calor que Connor soube que seria a última coisa quente que sentiria em muito tempo. Sem mais palavras, os dois lordes montaram seus cavalos de guerra, cujos cascos estavam calçados com travas de ferro para o gelo, e cruzaram o portão de KarMorn.
Connor subiu as escadas de pedra até o parapeito da muralha oeste. Dali, ele observou as silhuetas de seus pais e da pequena escolta de cavaleiros serem engolidas pela névoa úmida e densa que subia do desfiladeiro. O ranger das correntes de ferro do portão descendo e o baque seco da madeira ao fechar-se ecoaram pelas montanhas. Depois disso, o silêncio que se instalou sobre o Castelo KarMorn pareceu pesado demais para as estruturas da antiga fortaleza suportarem.
Os primeiros sete dias após a partida dos lordes foram marcados por uma calmaria artificial. Connor tentava manter a rotina rigorosa que Duncan e seu pai haviam estabelecido. Ele acordava antes do amanhecer, quando as janelas do castelo ainda estavam cobertas de geada em formato de agulhas, e descia ao pátio para correr até que o ar congelado queimasse seus pulmões. Depois, passava horas golpeando o boneco de treino de palha e madeira, cujas tiras de couro estavam ressecadas pelo frio extremo do norte.
Na primeira noite, o silêncio fora quase insuportável. Connor caminhara pelos corredores vazios da ala leste, onde as portas dos quartos dos guardas batiam com o vento. Ele entrara nos aposentos de seus pais, tocando a madeira pesada do guarda-roupa de carvalho que ainda guardava o odor característico de óleo de cedro de seu pai e o perfume sutil de flores secas e cravo de sua mãe. A cama de casal estava perfeitamente arrumada, fria e intocada. Ele se deitara no chão do quarto, encolhido sob o próprio manto, sentindo a solidão daquela imensa fortaleza de pedra que outrora ecoava com o tilintar de pratos na cozinha e o riso áspero dos cavaleiros Wolff.
No entanto, o castelo estava esvaziando rapidamente.
No início da segunda semana, os criados mais jovens, nascidos nas planícies do sul e trazidos para KarMorn antes da guerra, começaram a desaparecer. Eles partiam durante a noite, levando pouco mais que suas roupas de lã e nacos de pão de centeio roubados das despensas. Connor descobriu a partida do jovem cavalariço Peter em uma manhã fria. O quarto do garoto estava vazio, restando apenas um par de botas de couro com a sola furada e um candeeiro sem óleo sobre a mesa de cabeceira. Connor correu até as estrebarias e encontrou as portas dos estábulos abertas; dois dos cavalos de carga haviam sido levados, e os animais restantes batiam os cascos de frio, sem feno nas manjedouras. Connor passou a manhã inteira arrastando fardos pesados de palha seca para alimentá-los, seus braços infantis tremendo sob o peso das amarras de palha. O medo da invasão imperial era uma presença física que rondava os corredores. Cada rangido das velhas vigas de madeira do castelo ou o uivo do vento nas chaminés vazias fazia com que os poucos servos restantes olhassem para o sul com olhos arregalados de pânico.
Na terceira semana, restavam apenas três pessoas em KarMorn: Connor, a velha cozinheira Martha — cujas mãos trêmulas mal conseguiam segurar o cabo da panela de ferro — e o velho guarda de muralha Thomas, um homem de pernas tortas e olhos opacos que passava o dia tossindo sob seu manto desbotado. Eles se reuniam ao redor da mesa de carvalho da cozinha, que fora construída para acomodar cinquenta guerreiros e agora abrigava apenas três almas assustadas. Eles comiam um caldo rústico de repolho e nabo, a fumaça da sopa sendo a única fonte de calor naquele ambiente de pedra.
— A faísca esfriou, garoto — murmurava Martha, as mãos enrugadas segurando a tigela quente, os olhos opacos fixos na fogueira fraca. — Seu avô não precisava de tochas no inverno. O sangue dele brilhava vermelho entre os pinheiros e aquecia a neve.
Thomas deu uma tosse áspera e profunda, esfregando as mãos para espantar o frio de seus dedos enrijecidos.
— Não há magia que pare trens blindados e ferrovias que avançam dia e noite, velha. O ferro do meu escudo está tão congelado que vai arrancar minha pele. Esta guerra já acabou; os lordes apenas esqueceram de nos avisar.
As provisões nos porões secaram rapidamente. O carvão, que alimentava as grandes lareiras centrais para afastar a umidade assassina das montanhas, acabou no décimo quinto dia. Connor foi forçado a descer sozinho aos porões profundos, onde a escuridão era total e o cheiro de mofo e terra molhada se misturava ao gelo. Ele arrastava pequenos sacos de fuligem e pedaços de madeira podre de caixotes antigos para manter uma pequena chama acesa na lareira de seu quarto. Suas mãos estavam constantemente cinzentas de carvão e cortadas pelo manuseio das lascas de madeira.
O isolamento total veio na quarta semana. A velha Martha não acordou em uma manhã de terça-feira; Connor a encontrou em sua cama de palha, fria e rígida sob três camadas de cobertores remendados. Ele passara os últimos dias ao lado dela, ouvindo seus delírios sobre o império e sobre a sua juventude nas terras quentes do sul antes de ser trazida como serva. Ela sussurrara sobre a Cúria Inquisitorial, avisando-o de que os puristas da água podiam afogar um homem sem derramar uma única gota no chão, drenando a umidade do próprio ar nos pulmões. Connor tentara manter os pés dela aquecidos com pedras quentes retiradas da cinza da lareira, mas a morte fora mais rápida e silenciosa.
O velho guarda Thomas, ao ver o corpo rígido da companheira de décadas, não verteu uma lágrima. Ele simplesmente recolheu seus poucos pertences em uma trouxa de lona e caminhou em direção ao pátio. Connor correu atrás dele, suas botas grandes demais arrastando no gelo do corredor.
— Thomas! Você não pode ir! Meu pai disse para mantermos as pontes erguidas! Ele disse para esperar!
O velho guarda parou sob o arco do portão principal. O vento agitava seu manto cinzento desbotado, revelando a pele enrugada de seu pescoço. Ele olhou para o menino com olhos sem vida, marcados pela resignação de quem já perdera tudo muito antes daquela guerra começar.
— Seu pai está morto, Connor. E sua mãe também — disse Thomas, a voz rouca, áspera como casca de pinheiro. — O rolo de fumaça que vi ao norte ontem à noite não era de fogueira de acampamento. A Muralha rachou. Quando os inquisidores chegarem aqui, não haverá aço Wolff que os detenha. O aço não se come, garoto, e o ferro frio não aquece a barriga. Se você tiver algum juízo nesse sangue de lobo que carrega, corra. Mas eu sou velho demais para correr e jovem demais para morrer pendurado em uma estaca inquisitorial. Vou me entregar ao vale. Pelo menos a neve é uma mãe silenciosa.
Thomas virou as costas e seguiu pela estrada de gelo, deixando o grande portão de KarMorn aberto, balançando de leve com o vento. Ele não olhou para trás nenhuma vez. Sua silhueta curva desapareceu entre os pinheiros congelados como um fantasma cinzento.
Connor estava sozinho.
Ele passou as quarenta e oito horas seguintes trancado no salão de costura de sua mãe. O aposento ainda preservava o aroma distante de lavanda e óleo de cravo, um contraste doloroso com o cheiro de mofo e cinza fria que dominava o resto da fortaleza. Ele se encolheu em uma poltrona de couro, mastigando tiras de couro cru de uma sela velha para enganar o estômago, enquanto observava o novelo de lã cinza inacabado sobre a mesa. A solidão era um peso físico, um silêncio tão denso que ele podia ouvir o ritmo acelerado de sua própria respiração e o estalo das vigas do teto encolhendo com o frio. Ele dormia com a espada de treino de freixo sob as cobertas, segurando-a contra o peito como se aquela madeira polida pudesse conter a escuridão que parecia se mover nos cantos do quarto.
Ele passou a morar na Torre Leste, o ponto mais alto de KarMorn. Dali, ele podia ver a Grande Muralha no horizonte norte. No vigésimo oitavo dia de sua vigília solitária, o céu mudou de cor. O cinza de chumbo deu lugar a uma cortina escura e espessa de fumaça preta que subia em colunas colossais da linha do horizonte. Não era a fumaça rústica e ritmada dos trens imperiais a vapor; era o rolo denso e oleoso de fogo de cerco, madeira queimada de fortificações e gordura animal usada para incendiar paliçadas.
A Muralha havia caído. A Grande Invasão havia rompido a última defesa do norte.
Naquela mesma tarde, enquanto o crepúsculo cobria as montanhas com uma luz violeta e fria, Connor ouviu um som vindo do portão principal. Ele desceu as escadas espirais de pedra correndo, a Lupina de treino presa à cintura por uma corda.
Diante das grades de ferro do portão, na neve virgem que cobria a entrada, estava um lobo selvagem.
A besta era colossal, com o tamanho de um pônei de carga do norte. Seu pelo era de um cinza-escuro e opaco, marcado por cicatrizes profundas de garras e queimaduras antigas que expunham a pele áspera. O lobo mantinha a cabeça baixa, os músculos dos ombros tensionados e as orelhas coladas ao crânio. Seus olhos, de um amarelo cortante e inteligente, fixaram-se em Connor através das barras de ferro.
A besta não rosnou. Ela não roçou os dentes contra o metal do portão. Em vez disso, deu um passo à frente, soltando um uivo baixo, lamurioso e profundo, que pareceu vibrar diretamente nos ossos e no sangue de Connor, ativando uma ressonância ancestral que o menino não soube explicar. O ar azulado ao redor da besta pareceu estalar com pequenas faíscas estáticas.
Entre os dentes salivantes do lobo, preso com firmeza, estava um fragmento de tecido de lã azul-escuro. O pano estava chamuscado nas bordas, cheirando a enxofre e gordura queimada, e manchado com um vermelho escuro e seco. No centro do fragmento, mal visível sob a fuligem, estava o desenho estilizado de um lobo rugindo em prata.
O brasão da armadura de Cedric Wolff.
Connor aproximou-se devagar, seus pés afundando na neve sem pressa, como se estivesse caminhando em um sonho. Ele estendeu as mãos pequenas pelas frestas do portão. O lobo inclinou a cabeça e soltou o pano na palma da mão do garoto. O tecido estava congelado, rígido como uma placa de metal.
Ao tocar o sangue seco do pai no tecido, o silêncio ao redor de Connor tornou-se absoluto. O som do vento nas árvores cessou; a fumaça no horizonte pareceu congelar no céu. Ele compreendeu, na clareza brutal daquele uivo e daquele retalho, que os pais nunca cruzariam o portão de KarMorn novamente. Cedric e Rowena Wolff haviam caído na defesa da Muralha.
Connor deu três passos para trás, caindo de joelhos na neve. Suas pequenas mãos fecharam-se sobre o retalho de lã, apertando-o contra o peito. Ele não chorou. O trauma foi profundo demais para permitir lágrimas; em vez disso, uma frieza cortante, pesada como o aço negro, começou a assentar-se em seu peito, moldando a armadura emocional que o acompanharia pelo resto da vida.
Connor se levantou com dificuldade. Suas articulações estalaram sob as calças de lã grossa, enrijecidas pelo gelo que começava a se acumular nas dobras do tecido. A neve continuava a cair, lenta e indiferente, cobrindo o pátio com uma mortalha branca que abafava qualquer som. O retalho de lã azul-escuro com o brasão Wolff permanecia apertado em seu punho direito, as bordas chamuscadas e o sangue seco do pai congelados contra a pele de sua palma.
Ao seu lado, o lobo gigante exalou uma lufada de vapor quente. Fenrir sacudiu o pelo cinzento-escuro, soltando pequenos estalos de estática azulada que reluziram como pirilampos elétricos na penumbra do crepúsculo. A besta olhou para o interior do castelo, as orelhas erguidas, farejando o ar saturado de poeira e abandono. Não havia tempo para o luto silencioso. O vento começava a uivar pelas frestas das torres, um lamento agudo que parecia alertar sobre a chegada inevitável das forças imperiais.
Connor caminhou em direção às grandes portas de carvalho e ferro do salão principal. O lobo o seguiu com passos lentos, suas patas imensas afundando na neve sem fazer ruído. O interior de KarMorn estava mais frio do que o pátio externo; a pedra calcária das paredes parecia irradiar um gelo antigo, acumulado ao longo de séculos de invernos implacáveis. As chaminés apagadas eram como bocas negras de gigantes mortos. Connor atravessou o grande salão sob os olhares vazios das tapeçarias roídas por traças, retratando antigos lordes Wolff montados em bestas lupinas sob tempestades de relâmpagos.
Ele precisava da lâmina. A Loba Sangrenta.
Connor sabia que a espada ancestral de seu pai não estava no salão de armas comum. Cedric Wolff a guardara nas criptas subterrâneas, sob a câmara dos segredos, um local proibido para qualquer um que não carregasse o sangue da linha principal. O garoto pegou uma tocha apagada de um suporte de ferro na parede. Seus dedos, dormentes pelo frio, tremeram ao segurar a pederneira e o batedor de aço. Ele bateu o metal repetidas vezes, as faíscas caindo sobre a mecha de algodão embebida em óleo de baleia. Cada batida ecoava pelo salão vazio como o tique-taque de um relógio de agonia. Na sétima tentativa, a faísca pegou. A chama amarela e instável ergueu-se, projetando sombras longas e distorcidas que pareciam dançar nas colunas de pedra.
Com a tocha erguida em uma das mãos e a espada de treino de freixo presa à cintura, Connor aproximou-se da pesada porta de ferro que dava acesso às criptas, localizada atrás do trono de pedra do lorde. O lobo parou diante da entrada, soltando um rosnado baixo, um som vibratório que parecia demonstrar desconforto com a atmosfera carregada de poeira mortuária daquele lugar.
— Fique aqui, Lobo — murmurou Connor. A voz do menino soou estranha, fina e frágil no vazio do castelo.
Ele empurrou a porta de ferro. O ranger dos gonzos sem lubrificação foi um guincho metálico doloroso. Um ar denso, com cheiro de mofo, terra molhada e a secura peculiar de túmulos antigos, soprou contra o seu rosto, quase apagando a chama da tocha. Connor engoliu em seco e iniciou a descida.
Os degraus de pedra da escada espiral eram estreitos, úmidos e cobertos por uma camada fina de poeira cinzenta. Cada passo exigia cuidado; o gelo que escorria das paredes de pedra tornava o chão escorregadio. Connor desceu dezenas de metros, a escuridão parecendo fechar-se atrás dele como uma boca. A luz da tocha revelava nichos cavados na rocha, onde descansavam os restos mortais de seus ancestrais. Crânios cinzentos, semiocultos por teias de aranha grossas como tecidos, olhavam para o menino com órbitas vazias.
No final da escada, a cripta abria-se em um salão retangular sustentado por arcos baixos e maciços. No centro do recinto, erguia-se o mausoléu dos fundadores da Casa Wolff. Diferente dos túmulos comuns, este continha uma estrutura de ferro fundido sob um sarcófago de pedra negra. Sobre a tampa do sarcófago, estava esculpida a figura de uma loba deitada com as presas expostas.
Diante do sarcófago, fixada a uma placa de bronze enegrecido, estava a fechadura ancestral da câmara dos segredos. Não havia entrada para chaves comuns. A placa exibia apenas um entalhe circular com o desenho de uma runa rústica — a runa do trovão.
Connor sabia o que fazer. Cedric o trouxera ali apenas uma vez. O garoto aprendera que o aço negro temperado pelos lordes Wolff recusava o toque de estranhos. A lâmina lendária escondida nas entranhas de KarMorn reconheceria o sangue quente de sua linhagem para abrir o selo. E depois, pesaria menos nas mãos certas. Ou era o que ele esperava.
O garoto largou a tocha no chão úmido e desembainhou sua espada de treino de freixo. Ele usou a ponta da madeira para raspar as unhas, tentando livrar os dedos do entorpecimento. Com o canivete de caça de ferro que trazia no cinto, Connor fez um corte rápido e firme na palma da mão esquerda. A lâmina de ferro rústica cortou a pele fria, e ele sentiu uma dor aguda que pelo menos serviu para afastar a sonolência.
O sangue vermelho-escuro brotou da ferida, quente e vívido. O garoto pressionou a palma cortada contra a runa entalhada no bronze da fechadura. O metal frio pareceu sugar o líquido sôfrego, as ranhuras enchendo-se com a cor da vida. Connor sentiu um formigamento elétrico sutil, como se pequenas agulhas de gelo estivessem subindo por seu braço direito, uma vibração azulada que fez os pelos de seu corpo se arrepiarem por um breve instante. Com o sangue fresco pintando as ranhuras da runa, a fechadura antiga pareceu reconhecer o código genético do clã. O mecanismo interno, composto por engrenagens pesadas de bronze e contrapesos de chumbo, começou a girar com um ruído de pedra raspando em pedra, um som ancestral de engrenagens que despertavam de um sono de décadas.
A tampa do sarcófago de pedra negra deslizou de lado por alguns centímetros com um gemido mineral, revelando um compartimento interno forrado com veludo carmesim, agora desbotado pelo tempo e coberto de cinzas finas.
Deitada no centro do compartimento estava a Loba Sangrenta.
Connor segurou a tocha mais perto para observá-la. A espada de aço negro era lendária, uma obra-prima de metalurgia mágica. A lâmina, de um cinza tão escuro que parecia absorver a luz da chama, exibia ranhuras rústicas ao longo do terço médio, projetadas para canalizar a energia elétrica instável da linhagem sem quebrar ou derreter o metal sob a alta voltagem. A empunhadura era longa, feita para ser usada com as duas mãos, envolta em tiras de couro de lobo envelhecido que mantinham a textura áspera e firme. O pomo e a guarda eram forjados em ferro negro, esculpidos com o formato de duas cabeças de lobos cujas mandíbulas abertas pareciam prontas para morder a lâmina se esta recuasse.
O garoto estendeu a mão trêmula, com a palma ainda vertendo sangue, e tocou a empunhadura da espada de seu pai.
Ele esperava sentir um calor mágico, uma conexão imediata, como nos contos que os criados e menestréis contavam sobre os heróis dos Sangues Ancestrais e suas armas consagradas. Esperava que a faísca vermelha do relâmpago corresse por suas veias, que seus olhos brilhassem com a luz do trovão e que a espada negra se erguesse leve como uma pluma em sua mão.
Mas nada aconteceu.
O aço negro estava terrivelmente frio. Parecia um pedaço de gelo arrancado do fundo de uma fenda glacial, indiferente à sua dor. Ao fechar os dedos congelados ao redor do couro da empunhadura, Connor tentou erguer a arma do berço de veludo.
Seus braços tremeram instantaneamente sob o esforço. A Loba Sangrenta era imensamente pesada. O aço escuro Wolff era denso, muito mais maciço que o ferro comum ou a madeira de treino. Connor usou ambas as mãos, fincando os pés na pedra escorregadia da cripta e puxando a espada com toda a força de seus dez anos. Seus músculos das costas esticaram-se de forma dolorosa, e ele soltou um grunhido sufocado, o ar saindo em lufadas rápidas de sua boca. Ele conseguiu erguer a lâmina apenas alguns centímetros antes que seus dedos dormentes escorregassem do couro liso.
A espada caiu de volta no compartimento com um baque metálico estridente e surdo que pareceu ecoar infinitamente pelas catacumbas, zombando de sua debilidade física.
Connor deu um passo atrás, caindo sentado no chão úmido da cripta. Ele olhou para a própria mão esquerda, onde o corte do canivete continuava a sangrar lentamente, misturando-se à poeira cinzenta da pedra. A frustração subiu por sua garganta como um nó sufocante. Seus pais haviam morrido defendendo a Muralha. O império estava avançando, destruindo tudo o que restava de seu lar ancestral, e ele, o último herdeiro da Casa Wolff, mal conseguia erguer a espada de sua linhagem. Como ele poderia proteger alguém? Como poderia lutar contra os soldados imperiais se era apenas um garoto fraco e impotente?
Ele bateu o punho fechado contra a pedra do chão, mais por raiva de sua própria debilidade do que pela dor física do impacto.
— Por quê? — sussurrou, sentindo a primeira lágrima quente escorrer por seu rosto congelado, apenas para esfriar e secar rapidamente em sua bochecha. — Por que sou tão fraco?
Um ruído suave de passos pesados chamou sua atenção. Fenrir havia descido as escadas de pedra. O lobo gigante entrou na câmara subterrânea com a cabeça baixa para não bater nos arcos baixos do teto, as garras imensas arrastando de leve nos degraus de pedra calcária. Ele se aproximou do menino e empurrou o ombro de Connor com o focinho imenso e úmido. O cheiro de pelo molhado e o calor da respiração da besta trouxeram o garoto de volta à realidade, afastando a névoa de pânico e frustração que ameaçava paralisá-lo.
Fenrir olhou para a espada negra que jazia no sarcófago de veludo carmesim. Em seguida, fixou seus olhos amarelos, profundos e dotados de uma inteligência quase humana, nos olhos cinzentos de Connor. Não havia julgamento nos olhos do lobo. Havia apenas uma paciência ancestral, a mesma paciência das montanhas do norte que assistiam impassíveis ao nascimento e à queda das florestas sob os ciclos de gelo. O ar ao redor da besta estalou novamente com eletricidade estática sutil, e Connor sentiu um formigamento nas palmas de suas mãos, uma ressonância física e mística que parecia sussurrar que o poder do lobo não fora extinto, apenas recolhido para dentro das profundezas de seu sangue, aguardando o momento em que a sua vontade fosse temperada pelas dificuldades.
Connor olhou ao redor do salão retangular. A luz oscilante de sua tocha revelava as efígies esculpidas de seus antepassados alinhadas contra as paredes de pedra úmida. Havia guerreiros e guerreiras da Casa Wolff, cada um esculpido com a armadura típica de sua respectiva época: cotas de malha antigas, placas de metal martelado e as espadas longas sintonizadas. Na extremidade oposta da cripta, estava a estátua de Lord Liam, o lendário fundador do clã, empunhando uma lança sutilmente decorada com marcas de relâmpagos. Todos eles haviam sido fortes; todos eles haviam defendido KarMorn contra incursões de clãs rivais e monstros das montanhas. O garoto sentiu-se pequeno sob os olhares de pedra de seus ancestrais. Ele era o último elo daquela linhagem de ferro, o único que restara para carregar a espada de aço negro.
Connor limpou a lágrima com a manga do casaco de lã cinza. Ele percebeu que não podia empunhar a Loba Sangrenta em uma batalha — não ainda. Suas mãos eram muito pequenas para fechar de forma segura em torno da empunhadura dupla, e seus músculos não tinham a densidade necessária para direcionar o peso do aço negro Wolff. Mas ele também não podia deixá-la ali para ser tomada pelos inquisidores do império ou fundida para a forja de trilhos ferroviários. Ela era a prova física de sua herança, o receptáculo da força mágica de seus pais.
Ele pegou a tocha do chão e recolheu os pedaços de feltro e veludo cinzento que forravam o interior do sarcófago ancestral. Com cuidado e reverência, Connor envolveu toda a lâmina cinza-escura da espada naquelas camadas de tecido grosso, garantindo que as runas entalhadas fossem protegidas da umidade e do atrito. Ele usou a corda de cânhamo grossa que trouxera do salão de armas para amarrar o pacote com firmeza, dando nós duplos na guarda e no pomo para criar uma alça improvisada de transporte.
Com um esforço físico que fez sua testa arder sob o suor frio, Connor jogou a alça sobre o ombro direito, cruzando o peito na diagonal. O peso da Loba Sangrenta assentou-se contra suas costas como um fardo de ferro fundido, forçando-o a se inclinar para a frente para manter o equilíbrio. A ponta envolta em pano da espada quase arrastava na pedra úmida do chão. Cada degrau de subida pelas escadas espirais foi um teste de resistência física e mental para o garoto de dez anos. O aço negro pressionava suas omoplatas, restringindo a expansão de seus pulmões; ele respirava em lufadas curtas e barulhentas, sentindo a corda de cânhamo queimar o tecido de lã de seu casaco e a pele de seu ombro. O lobo Fenrir caminhava logo atrás, o focinho próximo às pernas do menino, oferecendo o calor de sua respiração e agindo como uma barreira sólida caso o garoto escorregasse nos degraus de pedra úmida. Eles subiram lentamente da escuridão dos túmulos, deixando os ancestrais de pedra para trás na quietude fria da câmara subterrânea.
Ao retornar ao pátio principal de KarMorn, o cenário havia mudado. A cortina de fumaça preta que antes cobria o horizonte norte agora parecia mais próxima, misturada a um cheiro sutil, mas inconfundível, de pinho queimado e óleo diesel. O vento trazia o som distante e rítmico de percussões metálicas. Connor conhecia aquele som: eram os batedores pneumáticos das equipes de engenharia imperiais, assentando os trilhos de ferro da ferrovia militar que seguia o avanço das tropas. O império não apenas marchava; ele cimentava sua presença com trilhos e vapor.
Connor sabia que precisava se apressar. O portão principal do castelo, que o velho Thomas deixara escancarado em sua fuga desesperada, permitia que a neve entrasse livremente pelo pátio de armas. A neblina começava a baixar, revelando as silhuetas escuras das árvores na encosta da colina.
O garoto correu para as despensas da cozinha. A grande sala fria, onde outrora dezenas de pernis de javali e sacos de grãos pendiam das vigas, agora estava vazia. Connor procurou entre os armários caídos e gavetas reviradas. Suas mãos, tremendo de frio e pânico, encontraram três nacos de pão de centeio endurecido, secos como pedra, e um pedaço de carne de cervo salgada envolto em papel de cera gorduroso. Ele colocou a comida dentro de uma sacola de lona áspera, junto com uma pequena garrafa de óleo para lamparina e uma manta de lã extra.
De repente, Fenrir soltou um som baixo. Não era um rosnado de ataque, mas um aviso sibilante, as orelhas voltadas para a garganta do vale.
Connor parou. Ele segurou a respiração, o coração batendo com tanta força contra as costelas que parecia abafar os sons externos.
Acima do uivo do vento nas ameias, veio o eco metálico de ferraduras batendo contra o cascalho congelado da estrada que subia o desfiladeiro. Havia mais de um cavalo. O som era ritmado, pesado, indicando montarias de guerra carregadas com armaduras de placas. Entre o barulho dos cascos, Connor percebeu o assobio agudo de uma caldeira a vapor móvel, um dos pequenos batedores mecânicos terrestres que os inquisidores usavam para abrir caminho pela neve profunda do norte.
Os imperiais haviam chegado a KarMorn.
Connor correu para a janela estreita da cozinha, que dava para a rampa de acesso principal do castelo. Protegendo-se atrás da parede de pedra úmida, ele olhou para fora, com cuidado para não deixar a luz revelar sua posição.
Através do véu de neve, quatro silhuetas a cavalo emergiram da neblina. Eles vestiam as capas pesadas de feltro cinza-escuro com forro escarlate dos oficiais da Cúria Inquisitorial do Sul. Suas armaduras eram de ferro polido, projetadas com linhas geométricas agressivas que contrastavam com as formas curvas e funcionais das armaduras do norte. Suas espadas longas e retas pendiam nos flancos dos cavalos, cujos focinhos espumavam ar quente e babavam no frio.
Na frente do grupo, caminhava uma máquina bípede compacta. Era um batedor a vapor, uma estrutura de ferro rebitado sustentada por duas pernas articuladas que esmagavam o gelo com garras de metal. A caldeira traseira da máquina cuspia faíscas avermelhadas e fumaça preta e oleosa pela chaminé superior, o pistão lateral subindo e descendo com um som rítmico de respiração mecânica: tchá-tchá, tchá-tchá. A luz do farol dianteiro da máquina, alimentado por gás de carvão, cortava a neblina com um brilho amarelo e doentio.
— Vasculhem as torres — ordenou o capitão que liderava a patrulha. A pronúncia era limpa, com o sotaque arrastado e cantarolado das províncias centrais do império, desprovida da aspereza das palavras nortistas. — O lorde e a senhora Wolff caíram na Muralha, mas os registros indicam que o herdeiro não foi encontrado entre os corpos. O Comandante Jarek quer a cabeça do garoto antes que ele se torne um símbolo para os rebeldes das planícies.
— E as ordens do General Vance, senhor? — perguntou um dos cavaleiros, ajustando as rédeas de couro. — Ele disse que deveríamos preservar as estruturas de KarMorn. O general quer usar o castelo como base para a campanha militar do norte. Ele não quer que destruamos as propriedades nobres.
O capitão soltou uma risada seca, desdenhosa.
— Cassian Vance é um soldado clássico, preocupado com táticas de cerco limpas e estabilidade de estradas. Mas ele não entende a ameaça do Sangue Ancestral. Jarek entende. Se deixarmos que um único Wolff escape, teremos um foco de revolta em menos de um ciclo solar. Além disso, o Barão Marcus já está de olho na exploração mineral deste vale. Ele quer colocar cobradores de impostos aqui antes mesmo da neve derreter. Não tenham pressa com o aço, homens. Se o garoto estiver aqui, ele estará faminto e congelado. Vasculhem tudo.
O batedor mecânico avançou pelo pátio interno, as garras de ferro estalando no cascalho congelado. A luz amarela do farol varreu as paredes de KarMorn, iluminando o arco de pedra onde Connor estivera de pé horas antes.
Connor sentiu o suor escorrer frio pelas suas costas, misturando-se à aspereza da corda que prendia a Loba Sangrenta. Se ele fosse pego com a espada de aço negro, os inquisidores o matariam ali mesmo. Ele olhou para Fenrir. O lobo gigante mantinha-se agachado nas sombras da cozinha, os olhos amarelos brilhando como brasas frias. A besta parecia compreender a gravidade do momento; seus músculos estavam contraídos, prontos para um salto de desespero se a porta da cozinha fosse forçada.
— Precisamos ir — sussurrou Connor, os lábios mal se movendo.
Ele sabia que não havia como lutar. Ele tinha dez anos. Os inimigos eram soldados de elite, equipados com aço temperado e engenharia militar. Sua única chance de sobrevivência era a fuga.
Connor virou as costas para a janela e caminhou em direção aos fundos da cozinha. Ele conhecia cada corredor oculto de KarMorn, tendo explorado as passagens de serviço durante os invernos de tédio de sua infância. Atrás da grande mesa de corte de carvalho, parcialmente oculta por panelas de cobre cobertas de fuligem, havia uma pequena passagem de serviço — uma porta de madeira baixa usada antigamente para esvaziar as cinzas dos fornos diretamente na encosta externa da montanha. Era uma abertura estreita, projetada apenas para que as pás de ferro limpassem os resíduos de carvão consumido.
O garoto ajoelhou-se e empurrou a tranca de ferro da portinhola, que estava travada por anos de poeira e ferrugem. Ele teve que golpear o ferrolho com o punho da espada de treino para soltá-lo. A madeira, ressecada pelo frio extremo, rangeu com um estalo seco que pareceu alto demais no silêncio tenso. O ar congelado do desfiladeiro soprou para dentro da cozinha como um sopro gelado, trazendo consigo a fúria da tempestade que se formava do lado de fora e empurrando a fuligem antiga na direção do rosto do garoto, fazendo seus olhos arderem.
Passar por ali com a Loba Sangrenta amarrada às costas seria quase impossível se ele tentasse ir de pé ou de lado. O fardo de aço negro era largo demais. Connor foi forçado a se deitar de bruços nas cinzas frias acumuladas no fundo do canal. Ele arrastou-se polegada por polegada, usando os cotovelos para empurrar o próprio corpo, enquanto o metal da bainha ancestral raspava na pedra do teto do túnel com um som áspero de agonia mecânica. A poeira de carvão entrou em suas narinas e cobriu suas bochechas, misturando-se com as lágrimas secas e o sangue de seu lábio rachado.
Connor olhou para trás uma última vez, as pernas ainda dentro do recinto da cozinha. O som dos passos pesados das botas de ferro dos soldados imperiais ecoava agora nas tábuas do salão de jantar adjacente. Ele viu o reflexo da luz amarela do farol do batedor mecânico começar a varrer a porta da cozinha, projetando listras brilhantes através das frestas da madeira gasta.
— Venha, Fenrir — murmurou o garoto, as palavras saindo como um sussurro abafado pelas cinzas, antes de empurrar o corpo para fora e se lançar na queda livre em direção à escuridão da tempestade.
A queda na encosta leste de KarMorn foi imediata e violenta. Ao passar pela portinhola de cinzas, Connor perdeu o apoio dos pés nas rochas cobertas de gelo. O peso da Loba Sangrenta amarrada às suas costas funcionou como um pêndulo desajeitado, puxando seu corpo para trás e fazendo-o capotar na neve profunda que cobria a declividade acentuada do penhasco.
Ele rolou por vários metros, os braços protegendo o rosto enquanto galhos secos de arbustos congelados rasgavam suas roupas e cortavam suas bochechas. A neve acumulada nas fendas da rocha amorteceu a queda final, mas o impacto contra um tronco de pinheiro caído tirou o ar de seus pulmões. Connor ficou imóvel por alguns instantes, o peito subindo e descendo em espasmos dolorosos, a garganta queimando com o ar gélido que engolira durante a queda.
Acima dele, o lobo Fenrir desceu a encosta com a agilidade natural das bestas da neve. O lobo usou as garras imensas para se apoiar nas rochas expostas, parando ao lado do garoto sem sofrer um único arranhão. A besta cutucou o pescoço de Connor com o focinho quente, soltando um sopro de ar que ajudou o menino a recuperar os sentidos.
Connor ergueu a cabeça, cuspindo neve e sangue de um pequeno corte no lábio. Ele olhou para cima, em direção à silhueta escura de KarMorn que se erguia contra o céu cinzento-escuro do crepúsculo. Através das janelas estreitas da fortaleza ancestral de sua família, ele viu o brilho trêmulo de tochas e a luz amarela do farol do batedor imperial vasculhando os aposentos. Um som metálico e agudo ecoou do topo das muralhas: os soldados imperiais haviam começado a quebrar as portas de madeira em busca de saques.
A fortaleza que guardara o norte por gerações agora pertencia ao império. O Castelo KarMorn caíra sem que uma única gota de suor de seus defensores fosse derramada em suas próprias muralhas. O garoto tentou se levantar. O peso da espada negra em suas costas parecia ter dobrado. As tiras de couro que prendiam a Loba Sangrenta ao seu peito estavam congeladas, apertando sua caixa torácica e dificultando a respiração. Cada passo na neve profunda, que chegava à altura de seus joelhos, exigia um esforço monumental. Seus pés, úmidos pela neve que entrara em suas botas gastas, pareciam dois blocos de pedra inerte, destituídos de qualquer articulação ou sensibilidade.
Eles entraram na floresta de pinheiros. A densidade das árvores reduzia um pouco a força do vento, mas a escuridão ali era quase total. A luz do dia havia desaparecido por completo, restando apenas o brilho azulado e fantasmagórico que a neve refletia sob as nuvens de chumbo. Os pinheiros centenários erguiam-se como colunas de uma catedral em ruínas, com seus galhos baixos pesados de neve acumulada que caía em blocos sempre que o vento os açoitava.
Connor caminhava com a cabeça baixa, seguindo a silhueta escura de Fenrir que abria caminho na neve à sua frente. O lobo avançava com determinação, suas patas imensas criando trilhas que facilitavam a caminhada do garoto. No entanto, a caminhada contínua sob temperaturas abaixo de zero começou a cobrar seu preço. A umidade das botas congelou em torno dos dedos, e Connor sentiu as primeiras fisgadas agudas que indicavam o congelamento dos tecidos, seguidas por uma dormência assustadora.
Após duas horas de marcha cega pela escuridão da floresta, a fome e o cansaço dominaram o corpo do garoto. Sua visão começou a oscilar, pequenas manchas escuras flutuando diante de seus olhos cinzentos. As pernas de Connor tremeram; ele tropeçou em uma raiz oculta sob a neve e caiu de joelhos.
Desta vez, ele não conseguiu se levantar imediatamente. O frio parecia ter se instalado em seus ossos. Uma sensação estranha e perigosa de conforto começou a se espalhar por seus membros — o sono doce da hipotermia, a sonolência que precedia a morte congelada nas Terras do Norte. Ele queria apenas deitar-se ali, fechar os olhos e deixar que a neve o cobrisse, livrando-o da dor da perda, do peso da espada e do medo dos inquisidores. Suas pálpebras pesaram, e o uivo da tempestade pareceu afastar-se, transformando-se em um sussurro distante.
Fenrir parou. O lobo gigante virou-se e caminhou de volta até o menino. Ele soltou um uivo baixo, um som profundo que vibrou na rocha sob a neve. A besta colocou sua cabeça imensa sob o braço de Connor, tentando erguê-lo. Connor, no entanto, permaneceu inerte, a cabeça caindo contra o pelo cinzento da criatura.
O lobo rosnou de leve, um aviso de autoridade selvagem. Ao mesmo tempo, pequenos arcos de eletricidade estática começaram a correr pelo pelo de Fenrir. As faíscas azuis estalaram contra a pele do rosto e das mãos de Connor. O choque elétrico sutil, embora fraco, agiu como um chicote em seu sistema nervoso. A faísca ancestral de seu sangue, latente e reprimida pelo trauma, respondeu à estática do lobo com um sobressalto de adrenalina.
Connor abriu os olhos abruptamente, puxando o ar para os pulmões com força. A sensação de calor falso desapareceu, substituída pela dor aguda e real do frio que cortava sua pele. Ele olhou para Fenrir. O lobo mantinha as mandíbulas entreabertas, revelando as presas imensas, seus olhos amarelos brilhando com uma intensidade quase feroz na escuridão.
— Eu sei... — sussurrou o garoto, a voz trêmula, mas firme com uma nova determinação. — Eu não vou morrer aqui.
Para sobreviverem àquela noite de fúria absoluta, Fenrir guiou Connor até uma pequena fenda na rocha, sob a raiz exposta de um carvalho caído. O espaço era minúsculo, mas oferecia proteção contra o vento cortante. Connor arrastou-se para dentro, encolhendo-se contra o corpo maciço do lobo. O calor animal de Fenrir foi o seu único refúgio. Ele segurou as tiras da Loba Sangrenta, sentindo a rigidez do aço nas costas. A besta permaneceu deitada na entrada da fenda, agindo como uma barreira física contra as rajadas de neve. Durante aquelas horas de trevas, Connor não dormiu. Ele permaneceu acordado, ouvindo o rugido do vento e o bater dos dentes, sua mente repetindo os nomes de Cedric e Rowena como uma prece de vingança.
Ao amanhecer, a nevasca começou a perder força. A luz cinzenta e fraca do sol da manhã filtrou-se pelas copas das árvores, revelando que a floresta de pinheiros começava a se abrir em um vale amplo e nebuloso. Ao longe, no sopé das montanhas de Valegris, pequenas colunas de fumaça cinzenta e rústica subiam das lareiras de um vilarejo oculto entre os desfiladeiros.
Connor saiu da fenda rochosa, com as juntas estalando de dor. Ele parou à beira do declive, olhando para o vilarejo que seria seu novo refúgio clandestino. Ele já não era o mesmo garoto que acordara no Castelo KarMorn sob o arco de pedra com uma espada de treino de freixo. Suas mãos estavam feridas pelo gelo e pela rocha, as palmas marcadas pela cicatriz recente do corte ritual; seu rosto carregava as marcas das ramagens da floresta; e, sob as mantas que envolviam suas costas, a lâmina ancestral de aço negro repousava, esperando pelo dia em que o garoto teria força suficiente para erguê-la contra os conquistadores do sul.
Ao seu lado, o lobo Fenrir sentou-se na neve, olhando para o vale com a imponência silenciosa de quem sabia que a jornada apenas começara. Ele soltou um uivo curto, saudando o novo amanhecer nas Terras das Bestas.