
O sol nascia, iluminando as estradas enevoadas do interior do Amazonas. Em uma delas, um caminhão guincho seguia desviando dos inúmeros buracos na estrada. Sua lataria enferrujada trepidava, balançando o gancho suspenso do reboque. Aquele veículo parecia mais pertencer a um ferro velho que a paisagem verdejante e intocada daquele lugar. O motorista tentava manter uma direção estável, mas vez ou outra algum buraco passava despercebido, e um desses foi inevitável.
O impacto na suspensão foi forte o bastante para fazer a cabeça de Victória bater contra o vidro da janela do passageiro. Ela acordou com o impacto, assustada, o coração pulando no peito e as mãos caçando a alça da jaqueta. O caminhão balançou como uma barca numa tempestade, jogando a poeira vermelha da estrada de terra para cima do para-brisa.
— Mas que inferno foi isso?! — bradou ela, a voz rouca de sono, esfregando a testa avermelhada com a palma da mão enquanto olhava furiosa para o motorista.
João continuava com as duas mãos firmes no volante, a jaqueta de couro surrada aberta sobre a camisa branca e manchada, o semblante calmo de quem estava apenas passeando no parque. Ele deu uma tragada lenta em seu cigarro sem filtro, soltou a fumaça pelo canto da boca e respondeu sem tirar os olhos da pista.
— Um buraco. Ou o fantasma de uma capivara. Difícil dizer com o sol direto nos meus olhos.
— Buraco ou uma cratera? Você podia ter desviado! — ela rosnou, ajeitando o corpo no banco de couro rasgado, tirando o cabelo loiro do rosto com irritação.
Ela olhou em volta, encarando a mata densa que engolia as duas laterais da estrada úmida. — Onde é que a gente tá?
— A uns dez quilômetros de Tefé — respondeu João, mudando a marcha com um estalo seco da alavanca.
Victória piscou. Olhou para o painel de luzes fracas, olhou para a penumbra da estrada que começava a dar lugar aos primeiros raios alaranjados do amanhecer na copa das árvores, e depois olhou para João. A informação demorou alguns segundos para processar na sua cabeça.
— Espera aí... — A voz dela subiu dois tons. — Tefé?! João, a gente estava em Coari ontem à tarde! Você dirigiu a noite inteira?!
Ele deu mais uma baforada, calmo, dando de ombros.
— O asfalto estava bom. Bom pro padrão amazônico, claro.
— Seu idiota! Por que você não me acordou pra assumir a direção?! Eu passei a noite inteira apagada enquanto você ficava aí pendurado no volante que nem uma coruja!
João deu um sorrisinho de canto de boca, o olhar de sossego de sempre, piscando na direção dela por meio segundo.
— Ah, para de reclamar, garota. Você estava fofinha dormindo. Babando no banco e tudo.
Ela abriu a boca, as bochechas esquentando instantaneamente. Antes que ela pudesse disparar o xingamento que já estava na ponta da língua, o motor do caminhão deu uma tossida seca. O caminhão=guincho engasgou uma vez. Depois outra.
— O que foi, meu velho? — João reduziu a velocidade, a fumaça começando a subir pelo capô. — Eu sei que você está tão cansado quanto eu, mas aguenta só mais um pouquinho.
O ponteiro de rotações do painel caiu a zero como uma pedra. O barulho do motor a diesel sumiu, substituído por um silêncio incômodo que tomou conta da cabine, interrompido apenas pelo chiado de algo fervendo sob o capô. O caminhão foi perdendo velocidade até parar completamente no acostamento de lama. João soltou um suspiro calmo, puxou a alavanca do freio de mão com um estalo longo e abriu a porta.
— Fica aí quietinha — ele disse, saltando para o chão de terra úmida.
Ele caminhou até a frente do veículo e ficou ali alguns segundos, observando, escorado ao capô. Uma nuvem de fumaça cinza e cheiro de óleo queimado subiu na cara dele. João mal piscou; apenas deu uma baforada no cigarro, abanou o vapor com a mão e sentou sobre os calcanhares, encarando as lataria coberta de ferrugem e poeira. Ele deu dois tapinhas afetuosos no para=choque, como quem se despede de um velho amigo de farra.
— É, meu velho... você até que aguentou bem — murmurou, conversando baixo com o metal fumegante. — Eu estava sentindo que essa subida em terceira ia ser a nossa ruína, mas eu e você somos teimosos, não é? Tá na hora do descanso.
Lá de dentro da cabine, vendo a cena absurda pelo para-brisa, Victória colocou a cabeça para fora da janela, com as veias do pescoço saltadas.
— Você tá conversando com o caminhão?! Você tá dando carinho na lata velha em vez de consertar essa porcaria?! — ela gritou, estendendo a perna e desferindo um chute violento contra o painel de plástico, fazendo a caixa de luvas se abrir e esparramar papéis velhos pelo chão. — Ferro velho ambulante! A gente tá no meio do nada! Com o motor fundido!
João se levantou devagar, dando a última tragada no cigarro e jogando a bituca no asfalto, apagando com a sola de sua bota. Ele deu a volta pela frente do veículo, encarou o vapor que ainda saía da grade e simplesmente deu de ombros, sem mover um único músculo do rosto para a fúria da garota. Ele tirou o maço do bolso, notando que só restavam dois cigarros, e olhou para a estrada.
— Que tal aproveitar que o sol está nascendo, hein? Caminhar faz bem pro coração — sugeriu, mais pra si mesmo, colocando as mãos nos bolsos da jaqueta velha e começando a caminhar na lama do acostamento, no ritmo mais despreocupado do mundo. — Vai vir comigo, senhorita? Ou vai ficar fazendo companhia pro meu velho até eu voltar com um mecânico?
Victória ficou sentada no banco por alguns segundos, incrédula.
— Você tá de brincadeira comigo?! — Ela gritou pela janela. — Você vai simplesmente andar?! E o caminhão?! E as nossas coisas?!
João nem se virou. Apenas ergueu o braço, acenando de costas enquanto a fumaça subia no ar fresco da manhã.
— Ninguém vai roubar essa velharia no meio do mato, Victória! Anda logo antes que esquente!
Victória bufou, soltando um palavrão entre dentes. Ela pegou a jaqueta, conferiu a pochete que carregava na cintura, vestiu a alça da sua enorme espingarda de dois canos, saltou do caminhão e bateu a porta com tanta força que o retrovisor estremeceu. Murchando os ombros, apressou o passo para alcançar seu tutor, que andava a passos largos e despreocupados. Logo a frente uma placa cumprimentando os viajantes com um “Bem-vindo a Tefé! Estamos a apenas cinco quilômetros de você!”.

A entrada da cidade de Tefé não deu trégua ao cansaço de Victória. O calor da manhã subia do asfalto rachado em ondas visíveis, trazendo o cheiro forte de peixe seco, óleo diesel e lama de igarapé. Ela caminhava com as botas pesadas, o suor escorrendo pela nuca e os braços cruzados sobre o peito.
— Um açaí de um litro. Não, dois litros — ela protestava, pisando fundo no acostamento. — Com peixe frito, farinha d'água e direito a ar-condicionado por três horas seguidas. É o mínimo que você me deve depois de me fazer andar dez quilômetros no meio do mato!
— Na verdade foram menos de cinco quilômetros…
— Mais uma palavra e eu chuto seu traseiro!
Ao lado dela, João riu contidamente, mantinha as mãos nos bolsos da jaqueta gasta e soltando baforadas do penúltimo cigarro. Por dentro, porém, a cabeça dele era uma caldeira. Ele mentalizava os números da sua conta bancária: exatamente zero. A última missão em Coari mal pagara a manutenção preventiva do guincho, e a Associação não perdoava falhas financeiras. Ele sabia que podia pedir um adiantamento de emergência à regional, mas a instituição cobrava juros abusivos. Não em juros monetários, mas em contratos punitivos — trabalho sujo de risco alto e recompensa miserável que ele detestava aceitar. Ele precisava de dinheiro vivo, e precisava rápido.
— Você tá me ouvindo, João?! — Victória virou-se para encará-lo, apontando o dedo. — Eu estou morrendo de fome e...
Ela falou para o nada. Em questão de um piscar de olhos, João simplesmente desaparecera. Não havia rastro de passos ou sinal de que estivera ali; ele apenas evaporara no meio do fluxo de pedestres do mercado de peixe. Victória travou os pés na calçada, soltando um grunhido de pura exasperação.
— Desgraçado!!
Já acostumada com o hábito irritante do seu tutor de sumir para fugir de conversas difíceis, especialmente quando o assunto envolvia admitir que estava errado ou sem dinheiro, ela nem se deu ao trabalho de procurar nas lojas de conveniência ou nos restaurantes. Parou por alguns segundos, puxando longamente o ar pela narinas, identificando cada cheiro que pairava no ar e, quando encontrou o que procurava, se virou categoricamente para o lado que ele vinha. Victória deu a volta no galpão da feira e foi direto para onde o aroma de cachaça barata e fumo de rolo servia de bússola para o paradeiro dele.
Achar o botequim Canto do Igarapé foi fácil. Era um barracão de madeira compensada construído sobre palafitas bambas, suspenso sobre a água escura do rio. Lá dentro, sob uma lâmpada amarela pendurada por um fio descascado, João estava acomodado como se fosse o dono do lugar. A jaqueta velha de couro estava aberta, o maço de cigarro novo descansava na mesa e ele mantinha um copo americano de cachaça pela metade. Ele estava numa mesa de plástico bamba jogando truco a deveres com três idosos locais.
— TRUCO, PORRA! — bradou João, esbofeteando um Sete de Copas na mesa com tanta força que fez os copos de extrato de tomate saltarem. — Paga ou corre, Seu Moacir!
O velhinho do outro lado, de pele tisnada pelo sol e chapéu de palha rasgado, soltou uma sequência de palavrões e jogou as cartas na mesa com desgosto.
— Você é um demônio, garoto — resmungou o velho.
— Sou só um homem de sorte, Seu Moacir — João riu, puxando para si as moedas e notas amassadas do centro da mesa.
Victória caminhou até a mesa, parando ao lado da cadeira dele com os braços cruzados e a expressão mais fuzilante que conseguiu formular.
— Bonito, né? — ela disse, carregada de sarcasmo. — Me largou no meio da rua pra jogar carteado num botequim? Você não perde uma oportunidade de sumir em todas as cidades que passamos, né?
João nem piscou. Soltou a fumaça pelo nariz e virou o rosto para olhar para ela com a maior cara de pau do mundo.

— Foco, Victória. Eu estava colhendo informações. E fugindo do seu sermão, claro. Mas principalmente colhendo informações.
— Colhendo informações jogando truco?!
— E ganhando — corrigiu João, apontando com a cabeça para o velho do outro lado. — O Seu Moacir aqui é dono do bar e de uma das voadeiras mais rápidas daqui. E enquanto você reclamava do calor, ele estava me contando por que o movimento da pesca na orla caiu pela metade essa semana.
O tom jocoso da mesa evaporou na hora. Seu Moacir ajeitou o chapéu de palha, olhando para as próprias mãos calejadas sobre a mesa de madeira.
— Não é história de pescador, menina — disse o velho, a voz baixando um tom. — Algo tá errado nas margens desse igarapé. Eu nunca vi nada igual, e já vi muita coisa nessa mata. Uns turistas saíram pra uma trilha a noite, e encontraram os corpos pendurados numa árvore, coisa do diabo, mesmo! Contaram que estavam abertos, sem nada dentro, nem sangue, nem tripas, nada. Que tipo de demônio faz isso...
— Te garanto, Seu Moacir, já vi coisa muito pior — rebateu João, virando seu copo de cachaça. — Meu amor, pega uma cartela de cigarros pra mim e algo pra você.
Victória bufou de raiva e pegou as notas amassadas que João estendia para ela com um tapa, indo a passos pesados até o balcão. João soltou um riso anasalado e serviu mais uma dose da garrafa na mesa. Porém, seus olhos traziam uma seriedade afiada. Tinha praga da pior espécie rondando aquele perímetro urbano. E, onde havia uma ameaça instaurando o pavor na população, também havia o desespero das autoridades e das elites locais para resolver o problema. Ele sabia exatamente qual era o próximo passo. Numa cidade tomada pelo pânico e pela superstição, João sabia muito bem onde procurar.
— Foi um ótimo jogo, meus caros — disse João, após virar sua última dose de cachaça, levantando-se da cadeira bamba e guardando as moedas no bolso da jaqueta. — Guarda o meu lugar aí. Eu volto mais tarde pra tirar o resto dos trocados de vocês.
Seu Moacir resmungou, mas deu um aceno curto com o chapéu enquanto João já se caminhava para a saída do bar. Victória apressou o passo para alcançar as passadas largas dele assim que cruzaram a porta de madeira sobre as palafitas.
— E agora? — ela perguntou, entregando a cartela de cigarros para ele, enquanto mordia uma das três salsichas em conserva na outra mão. — Pelo que ouvi, você achou trabalho. Qual o próximo passo? Acionar a Associação de Caçadores?
— Você pensa muito pequeno, garota.
João derramou um punhado de amendoim em uma das mãos e ofereceu o pacote de volta à Victória, enquanto apontava com o queixo em direção ao ponto mais alto da cidade. No topo do morro, a imponente fachada de pedra da Igreja Matriz se erguia sobre o mercado, com os sinos começando a dobrar pesadamente sob o sol da manhã.
— A gente vai pra lá — disse João, dando um sorrisinho cínico. — Onde o medo de morrer vira devoção e o desespero vira dinheiro vivo.