
— Tem duas… não, três crianças e um cara mais velho lá dentro — comentou Victória, terminando de engolir sua última salsicha em conserva enquanto olhava para a enorme construção. — Esse cara tem cheiro de autoridade forçada…
— E qual o cheiro de autoridade forçada? Canela ou algo assim? — João jogou a bituca do seu cigarro no chão e apagou com a sola da bota.
— Não, seu idiota! É algo como suor de adrenalina… você me entendeu!
A Igreja Matriz de Tefé cheirava a cera de vela queimada, mofo e madeira antiga. As portas de cedro maciço estavam abertas para a luz alaranjada do sol das nove horas, mas o interior mantinha um frescor penoso e sombrio.
Ao entrarem, o eco das botas pesadas de Victória no piso de mármore soou pelas colunas altas. No altar principal, um grupo de acólitos e coroinhas treinava a liturgia para a missa da noite, orientados por um rapaz mais velho, de túnica branca engomada, que gesticulava com severidade para os menores. João caminhou sem pressa até o terceiro banco de madeira, sentou-se, esticou as pernas e sacou o último cigarro do maço. Click. O estalo do isqueiro ecoou pelo templo e uma baforada densa de fumaça cinza subiu em direção aos santos esculpidos nas paredes. Victória arregalou os olhos, dando um passo para trás com a mão na testa.
— João, você tá maluco? — ela sussurrou, horrorizada. — A gente tá numa igreja!
O rapaz mais velho que instruía os garotos travou na hora. Ele deu duas palmas secas dispensando os menores para a sacristia e marchou pelo corredor central. O rosto do jovem ostentava um sorriso forçado e trêmulo, uma tentativa fracassada de manter uma postura serena de santidade que definitivamente não combinava com o olhar furioso que ele lançava para João.
— Meu irmão... — disse o rapaz, a voz trêmula de indignação contida, parando na ponta do banco. — Este é um local sagrado, a casa do Senhor. Peço que, por gentileza, apague esse cigarro imediatamente.
João deu mais uma tragada funda, olhou para o rapaz de baixo para cima com o tédio habitual e soltou a fumaça bem na direção da túnica branca do sujeito.
— Onde está o padre? — perguntou João, direto.
O jovem engasgou com a fumaça, a postura compenetrada ruindo enquanto os punhos se fechavam ao lado do corpo.
— O senhor não tem o direito de desrespeitar...
— Está tudo bem, Gabriel.
Uma voz grave e cansada ressoou da porta lateral da sacristia. O padre surgia ajeitando a batina preta sobre os ombros, com um sorriso estampado no rosto, mas olhos estranhamente atentos. Victória mudou a postura na hora, ela parecia surpresa com a presença de mais uma pessoa no recinto, e isso era raro, e João observou isso com atenção.
— Dispense o restante dos garotos e vá para o presbitério, Gabriel. Deixe-nos a sós — ordenou o padre, calmo.
O rapaz encarou João com um ódio quase palpável, mas engoliu em seco.
— Sim, padre Antônio... como o senhor mandar — murmurou Gabriel, lançando um último olhar fuzilante para João antes de se retirar rapidamente.
Agora sozinhos na igreja, o padre Antônio caminhou até o banco da frente, apoiou as mãos na madeira gasta e encarou a dupla. O olhar do pároco demorou bastante na jaqueta de couro surrada de João e na espingarda cruzada nas costas de Victória
— Dois Caçadores da Associação na minha paróquia — disse o padre Antônio, sem rodeios. — O que os traz até aqui?
João tirou o cigarro da boca, abrindo as cartas sem perder tempo.
— Me contaram sobre as vítimas na beira do rio. E você, padre, sabe muito bem que isso não é obra de jacaré ou algum perturbado. Tem coisa muito pior rondando as sombras dessa cidade.
O padre não negou. Em vez disso, a expressão do sacerdote se endureceu, tomada por uma rigidez dogmática e fervorosa que fez João erguer uma sobrancelha.
— Se você sabe o que está acontecendo, então sabe quem são os verdadeiros culpados — o padre acusou, mas a voz mantendo o mesmo tom. — Isso é obra daquele terreiro indígena na beira do igarapé. Aqueles rituais pagãos e profanos que eles fazem na mata atraíram demônios para as nossas portas. É uma maldição trazida pela falta de fé e pela idolatria.
João piscou, surpreso com a facilidade com que o homem jogava a culpa nos praticantes locais. Ele olhou para o rosto jovem do pároco, para a firmeza de seu olhar, e deu um sorrisinho amargo, negando com a cabeça.
— Foi designado pra essa paróquia há pouco tempo, não é, padre? — perguntou João.
O padre parou alguns segundos, encarando João. Victória observou o que parecia uma análise fria vinda do padre sobre seu tutor, porém aquele sorriso se mantinha. Isso a deixou desconfortável brevemente.
— Cheguei há três meses — confirmou o padre.
João soltou um suspiro exausto.
— Tá certo... — João jogou o cigarro no chão de mármore e esmagou-a com a sola da bota. — Vamos ao que interessa. Quanto a Igreja está disposta a pagar pra gente dar um jeito nesses 'demônios'?
O padre Antônio cruzou os braços na hora, adotando uma postura defensiva e moralista, mas sem perder o sorriso.
— Nem um centavo. A Santa Igreja não paga mercenários para fazer o trabalho da fé. Essa é a minha responsabilidade. Nós vamos apaziguar essa provação com a graça de Deus, com a oração e com a força dos meus fiéis em vigília.
João soltou uma risadinha baixa, ajeitando a jaqueta e levantando-se do banco.
— Bom, boa sorte com isso, padre. Só avisa o coveiro da cidade pra ir abrindo as covas com antecedência.
Ele deu as costas e começou a caminhar em direção à saída ao lado de Victória, mas parou a três passos da porta, como se tivesse se lembrado de um detalhe insignificante. Ele se virou de lado, encarando o padre.
— Ah, só uma dúvida antes de eu ir embora... quem é a pessoa que paga o maior dízimo nessa cidade?
O padre travou no lugar. O sorriso nunca mudando nem um centímetro em sua face.
— O dízimo é uma questão privada da paróquia, não diz respeito a você, Caçador.
João deu um sorrisinho cínico, tendo pegado a manobra no ar.
— Relaxa, padre — João usou todo o seu jogo de cintura, dando dois passos de volta e colocando as mãos nos bolsos. — Você quer livrar sua cidade do mal e manter suas ovelhas salvas. Eu só quero o dinheiro de quem tem pra pagar. Se eu for direto no seu maior doador, consigo o contrato no privado, resolvo o seu problema de graça e você continua saindo como o santo que protegeu a cidade com a fé. Eu tiro o peso das suas costas e você não gasta um centavo do cofre do bispo.
O padre Antônio Pensou por breves segundos. A hesitação durou poucos segundos, o pároco ajeitou a batina, deu um passo à frente e abriu ainda mais o sorriso.
— Doutor Augusto — disse o padre, baixinho. — Ele é o dono da frota de barcos e de metade dos hotéis da orla. O escritório dele fica no prédio de espelhos, bem em frente ao porto.

O ar-condicionado do escritório rugia baixo, mantendo a sala do doutor Augusto a congelantes dezoito graus. Em frente ao porto, o prédio espelhado era um oásis de luxo moderno em meio ao empoeirado mercado de peixe de Tefé. Sentado em uma poltrona de couro importado, Augusto — um homem de meia-idade, camisa social impecável e cabelos engomados — falava ao telefone com a fúria contida dos homens de negócios.
— Não me interessa o que os pescadores estão dizendo! — Augusto vociferava no gancho, sem sequer olhar para os dois invasores em sua sala. — Se aquela carga de madeira e peixe não sair até as quatro da tarde, eu troco os mestres de todas as voadeiras! Tem milhares em dinheiro rodando nessa orla e eu não vou perder prazo por causa de papo furado sobre assombração de igarapé!
No canto da sala, Victória estava sentada de maneira desconfortável em uma cadeira de design minimalista. Ela mantinha a espingarda sobre os joelhos, o rosto queimado de sol denotando puro incômodo com a sofisticação estéril do lugar.
João, por outro lado, agia como se fosse o proprietário do imóvel. Ele estava parado diante de uma máquina de café expresso italiana de última geração, examinando os botões com curiosidade. O estalo do vapor e o aroma concentrado de café gourmet preencheram o recinto. Com calma, João pegou a xícara de porcelana com o logo da empresa de Augusto, serviu um segundo cappuccino caprichado, com direito a espuma alta e pó de canela, e caminhou em direção a Victória.
— Toma aí, garota — disse João, estendendo a xícara de fino acabamento. — Não teve açaí ainda, mas o velhote aqui tem um moinho bom de café.
Victória pegou a xícara, mas a expressão dela era de puro desespero contido. Ela o esganava com o olhar, trincando os dentes enquanto tentava falar sem abrir muito a boca:
— João, pelo amor de Deus. Você arrombou a porta da recepção, invadiu o escritório da maior autoridade da cidade e agora tá fazendo cappuccino na máquina do homem?! Ele vai chamar a polícia!
João deu de ombros, tomando um gole da sua própria xícara de café puro. — A polícia não resolve nem assalto a padaria, imagina o que está arrastando a frota dele pro fundo do rio.
Doutor Augusto bateu o telefone no gancho com força, finalmente voltando sua atenção para a dupla. Ele ajeitou a gola da camisa, os olhos faiscando de raiva por trás dos óculos de armação fina.
— Quem deu permissão para vocês entrarem aqui? — O empresário esbravejou, levantando-se e apoiando as duas mãos na mesa de mogno. — O meu secretário devia ter chamado os seguranças! E o que esse sujeito pensa que tá fazendo com a minha máquina de cappuccino?!
João puxou a cadeira oposta à de Augusto, sentou-se devagar, cruzou as pernas e deu mais um gole da sua xícara.
— A sua secretária tentou avisar, mas eu disse que o assunto era sobre os seus barcos parados. E sobre o fato de você estar perdendo cada vez mais de seus marinheiros, que estão com medo de serem pendurados numa árvore, sem os órgãos.
Augusto travou. Ele estreitou os olhos, encarando o semblante tranquilo de João e a espingarda no colo de Victória.
— O padre Antônio me ligou, falou de vocês... — Augusto murmurou, a postura mudando da raiva para a desconfiança. — Já ouvi falar de vocês, tais… Caçadores. Mas o que vocês fazem, exatamente?
— Pense em nós apenas como meios pra resolver problemas como esse que está assustando seus empregados.
— Hum! Aquele garoto da batina vive dizendo que vai resolver com reza, mas o prejuízo só aumenta. Então, devo considerar vocês com uma 'solução alternativa' que a paróquia esconde?
— O padre acha que é demônio. A gente sabe que é só uma praga. — João foi direto, apoiando a xícara na mesa de mogno sem se importar com a mancha que a porcelana quente deixaria na madeira. — E o senhor, doutor Augusto, tem o dinheiro que a gente precisa pra fazer essa praga sumir.
Augusto soltou uma risada seca, encostando-se na sua poltrona de couro.
— Vocês têm coragem, preciso admitir. Invadem meu escritório, tomam meu café e acham que podem me extorquir? Eu sou a pessoa que paga o maior dízimo e o maior imposto dessa cidade. O que faz vocês pensarem que eu preciso de dois andarilhos armados?
João debruçou-se sobre a mesa, o olhar cínico dando lugar a uma intensidade fria e afiada.
— Porque se a sua frota não rodar até amanhã, prazos serão perdidos e até contratos podem ser cancelados. E você sabe muito bem que, se depender da polícia ou das orações do padre Antônio, o seu império afunda antes do fim de semana. A gente é a única coisa entre o seu patrimônio e a falência.
O silêncio tomou conta da sala, quebrado apenas pelo ruído contínuo do ar-condicionado. Augusto encarou João por longos segundos, medindo a determinação no rosto do Caçador. Entre eles, Victória estava com a postura rígida, bebericando seu cappuccino com canela.
— Quanto? — perguntou Augusto, finalmente.
João abriu um sorriso largo, encostando-se na cadeira e olhando para Victória, que assistia à cena ainda segurando a xícara de cappuccino com as duas mãos, chocada com a audácia do parceiro.
— Queremos o valor integral de um contrato da Associação, dez mil — disse João, tirando do bolso da jaqueta um papel dobrado e um cartão corporativo preto com o brasão em relevo da instituição e deslizando-o sobre a mesa. — Sem choro, sem pechincha.
Augusto pegou o papel e o cartão com a ponta dos dedos, leu o nome da Associação de Caçadores escrito em relevo e letras douradas e soltou uma risadinha contida, balançando a cabeça. Ele abriu a gaveta, tirou um maço de notas amassadas, contou rapidamente e jogou sobre a mesa de mogno. João pegou as cédulas e contou sem pressa. Victória podia sentir a tensão no ar, ouvia a respiração de João ficando mais descompassada e Augusto suspirando em desdém.
— Isso é menos da metade do que eu acabei de falar — disse João, segurando o maço com dois dedos, a cara fechada.
— É o que eu tenho pra hoje, Caçador — Augusto respondeu, recostando-se na cadeira e girando o cartão entre os dedos com um sorriso calculista. — Sabe qual é o seu problema? Você achou que tinha o monopólio aqui, mas se esqueceu que uma negociação é via de mão dupla. Pelo que vi, a Associação de Caçadores é uma empresa privada, exatamente como a minha. E na minha praia, onde há demanda, há oferta. Agora que eu tenho o contato oficial de vocês, não preciso ficar refém do primeiro sujeito de jaqueta gasta que arromba a minha porta.
João travou no lugar, a postura desleixada dando lugar a uma rigidez tensa enquanto percebia a gafe que tinha cometido.
— Escuta aqui, doutor... — João tentou contornar, inclinando-se para a frente e abrindo o jogo. — Você pode até ligar pra central e achar gente que cobre menos. Só que o pessoal mais barato é a molecada que acabou de sair do treinamento. Uma calamidade dessas no seu igarapé não é serviço pra aprendiz. Se você mandar gente inexperiente pra lá, isso só vai trazer baixas, o monstro vai se alimentar e o seu prejuízo só vai aumentar.
Augusto nem piscou, batendo com a borda do cartão no tampo de madeira, pisando exatamente na mesma tecla com uma frieza corporativa.
— O risco é deles, meu caro. É pra isso que vocês servem, não é? Se não quiser o dinheiro, a porta é a serventia da casa. Se o problema persistir, eu pago pra outro.

Victória observava a cena em silêncio do canto da sala, alternando o olhar entre a prepotência de Augusto e a cara de derrota de João. Ela viu o exato momento em que o parceiro calculou os danos de sair dali de mãos vazias com o guincho quebrado na beira da estrada. João soltou um suspiro profundo, o peso de cem anos de exaustão caindo sobre os ombros.
— Assina logo a droga do contrato — resmungou João, ajeitando o maço de notas no bolso da jaqueta. — Mas com uma condição: você vai mandar a sua oficina mecânica particular rebocar o meu caminhão guincho agora mesmo e consertar o motor de graça até amanhã de manhã.
Augusto encarou João por dois segundos antes de dar um aceno desdenhoso com a mão e desdobrando o papel que João lhe entregou. Após passar os olhos pelas breves cláusulas do contrato, que mais pareciam os mais simples termos de um contrato de serviço terceirizado qualquer, e assinou no final da folha.
— Deixe a chave do seu caminhão e a localização dele com meu secretário — ordenou, entregando o papel para João, que o pegou com muita má vontade. — E só apareçam aqui de novo quando terminarem muito bem o serviço.
Victória bebeu o restante de seu cappuccino em um único gole e colocou a xícara ao lado da de João, se levantando junto dele e o seguindo até o corredor de piso vitrificado, marchando inconformada ao lado dele enquanto deixavam a sala climatizada.
— Você tá de brincadeira! — ela sussurrou, irritada. — Só de honorários da Associação já vai quase um terço do contrato, e você aceitou? O lendário 'Carrasco da Associação' se vendendo por troco de pão e um conserto de motor?
João parou, já do lado de fora da porta de vidro do prédio, acendendo um cigarro e encarando a rua quente e movimentada de Tefé.
— A gente precisa do guincho rodando, Victória — ele mentiu, sem olhar para ela, soltando a fumaça para o alto. — E além do mais... eu odeio ter que voltar pra buscar cadáver de garoto tonto que não sabe nem segurar uma arma. Dá muito mais trabalho.
Victória olhou para o perfil dele, cruzou os braços e deu um sorriso de canto de boca, encostando a cabeça no ombro dele por meio segundo.
— Sei. Seu coração é um pão doce, sabia, Caçador?
— Cala a boca e anda logo — João resmungou, acelerando o passo. — Essa conversa fiada toda deixou minha garganta seca.