O crepúsculo marcado perante o céu recheado de estrelas com brilho sutil, se aprofundou em silêncio. O uivar dos ventos soou forte, cortando a pele e tremulando os ossos. Uma doce melodia o superou e elevou os ânimos.
Luzes douradas passaram pelos vidros levemente embassados das janelas. O som dos brindes com canecas cheias e o brandar de risadas contaminou o ambiente. Um conto se deu inicio em uma das mesas redondas, iluminada por um lampião.
Os rostos com olhos atenciosos se revelaram sobre o brilho amarelo. Por um momento, todos os olhares fixaram-se em uma figura.
— Querem ouvir uma história? Muito bem!
Um homem disse, levando sua bebida até sua boca e molhando sua barba negra espessa. Ele repousou o estanho sobre a madeira sem pressa e complementou:
— E se eu contasse que o maior dos piratas não almejava nem fama e nem ouro?
Olhou para todos ao seu redor, com sobrancelhas arqueadas. Seus olhos brilharam enquanto segurou o álcool gélido entre os dedos. Um sorriso largo se formou em seus lábios ao finalizar:
— E se eu contasse que o maior dos piratas nem era um homem? Haha!
A música pareceu cada vez mais abafada, o estabelecimento se distanciou em presença. Anos voltaram em lembrança e lamentação.
As nuvens escuras cobriram o azul claro. Gotas encharcaram as velas brancas do navio, sacudidas pelo vento feroz. Um trovão perfurou o oceano. O estrondo rugiu sem piedade.
Os murmúrios da tripulação preencheram o convés. O batuque das botas de couro e o som das cordas puxadas se sincronizaram com as batidas dos corações. Uma figura se mantinha em frente ao leme.
As pontas de sua bandana vermelha balançaram de um lado a outro. Seus olhos observaram a névoa densa nas águas. Um grito fez suas sobrancelhas franzirem com olhos afiados:
— Temos um navio a vista, capitã!