Uma notificação. Aquilo nunca havia acontecido antes em três anos de fórum. Josh encara a tela, um tanto hesitante. Afinal, em um fórum onde todos são anônimos, não existe motivo para que alguém envie uma mensagem direta. Finalmente, leva o ponteiro do mouse até o ícone e clicar.
O texto é grande. Ele começa a ler após um longo suspiro, mas, depois de cinco linhas, já está com o rosto quase colado no monitor. Seus olhos refletem as palavras que ele sempre quis ler. Estava tudo ali: uma conspiração vasta, e o local ficava a poucos quilômetros de sua casa. O jovem já sabia disso, porque havia colocado a localização em diversos mapas diferentes, e todos mostravam a mesma distância aproximada.
Antes de terminar de ler todas as informações, ele já estica o braço, sem olhar para o lado, tateando sua mesa de estudos até encontrar o celular. Puxa o aparelho para perto e, só então, desvia o olhar do monitor para tocar a tela duas vezes e ligar para Erick. Algo assim não pode ser contado por uma mensagem; ele precisa ligar, falar, quem sabe até gritar. O telefone chama várias vezes, mas o amigo não atende. Ele ainda tenta muitas vezes, relendo o texto, antes de desistir e decidir esperar para contar na manhã seguinte. O verdadeiro desafio agora seria dormir, mas o tempo acordado serviria para ele preparar um belo discurso. Afinal, ele precisava convencer duas pessoas a entrar na floresta para a maior aventura de suas vidas.
Na manhã seguinte, Erick abre a porta da frente. Passa uma das mãos nos cabelos ainda desarrumados e nem mesmo está vestindo a camisa da escola; ainda falta mais de uma hora para a aula começar.
— Minha mãe foi me acordar quando te viu aqui na frente. Tem algo errado? Seu computador parou de novo? Já disse, aquele tipo de site não é seguro, cara — Erick comenta, dando alguns passos em direção ao portão.
Do outro lado da grade está Josh, segurando o celular com a tela de ligações e apontando para todas as vezes que ligou e Erick não atendeu. Mas antes que o amigo possa dizer alguma coisa, ele emenda:
— Projeto Segunda Chance!
Erick finalmente abre o portão, parecendo curioso, apenas para ser bombardeado com as informações de Josh. Ele não para de falar; assim que termina de relatar o conteúdo do texto, recomeça do início, mostrando a localização em vários aplicativos como prova irrefutável da proximidade do local. Erick levanta a mão para que o amigo entusiasmado se cale um pouco.
— Entra. Vamos ver se tem algo real nisso.
A mãe de Erick apenas passa por eles e se despede, enquanto os garotos vão direto para o quarto. O cômodo está um pouco bagunçado: roupas jogadas, diversos livros e revistas sobre OVNIs que ele está sempre relendo. Josh espeta o dedo no botão de ligar do computador, mas é imediatamente repreendido por Erick.
— Calma aí. Meu computador, minhas regras, né? Não quero você mexendo em equipamento sensível.
O dedo do meio é a resposta de Josh, enquanto o outro se senta em frente ao PC e começa a explorar suas próprias pastas de arquivos locais, nada de internet. Em seu quarto, Erick possuía uma quantidade gigantesca de material sobre conspirações, casos não resolvidos e muito mais, pego em fóruns, conversas no Reddit e até passeando pela temida — mas não por ele — deep web.
A pesquisa não demora tanto. Cruzando os dados da mensagem que Josh recebeu com esse verdadeiro banco de dados, mesmo que as informações sejam escassas, o "Projeto Segunda Chance" foi mencionado.
— “Instalação militar de ciências fechada por corte de custos” uma ova! — diz Josh, apontando o dedo para essa linha no texto, que está em uma foto de jornal de alguns anos atrás.
— Certo, isso aí tem potencial. Mas por que tudo isso? Não é a primeira vez que encontramos algo com potencial — Erick comenta, sem tirar os olhos do texto, buscando o amigo apenas com o canto de seus olhos.
Josh quase pula da cadeira, ficando em pé enquanto aponta para um pôster de "Arquivo X" pendurado na parede.
— A verdade está lá fora! Já encontramos coisas legais no Japão, Inglaterra, África do Sul… Mas isso é a quilômetros daqui. Daqui a uns dois anos, devemos estar saindo desse fim de mundo. Não quer ter algo legal pra contar? Talvez a maior coisa que alguém vai ter pra contar. Algo para nos reunirmos todo ano e relembrarmos!
Então, Erick se levanta. Ele é mais baixo que Josh, então o olha de baixo para cima e estende a mão.
— Eu não gostaria de sair para a maior aventura da minha vida com outra pessoa. Bom… e tem o Tom, que você vai ter mais trabalho pra convencer.
Eles selam o acordo apertando as mãos, balançando-se e rindo sem parar. Só param quando percebem o quanto está tarde e precisam correr para a escola.
A cidade é pequena. Eles aceleram suas bicicletas pelas ruas e logo estão em frente à escola, prendendo as bicicletas na barra de ferro. As crianças vão passando até que Josh finalmente vê Tom ali no meio. Ele agarra a lateral da camisa de Erick e o puxa junto, reunindo o trio para apresentar a proposta e todas as informações que já tinham.
— Tá, eu vou. — A resposta de Tom é tão rápida que surpreende Josh e Erick. Ele finalmente os encara, a expressão mudando de surpresa para um tipo de desafio cansado. — Tô de saco cheio. Se meu pai quer um exemplo, vou dar um exemplo de como se faz alguma coisa de verdade.
Ele percebe a aproximação da menina de cabelos pretos e longos que, em sua opinião, sempre se intromete nos assuntos deles.
— Bom dia, meninos. — Monica os cumprimenta, enquanto sorri olhando para Josh. — Qual é dessa reunião matinal?
Os garotos a cumprimentam de volta, mas ficam se olhando até Monica cutucar a cintura de Josh com a ponta dos dedos, fazendo-o rir e tentar se afastar dela.
— Nós vamos acampar nesse fim de semana — ele comenta, tentando se afastar da mão dela.
A garota passa mais um tempo os analisando sem falar nada, mas eles já imaginam que ela está pensando na frase que sempre diz: “a vantagem de ser amigo de tontos é que sempre sei quando estão mentindo”.
— Desde quando você faz parte do clube de conspirações? — Tom cerra os olhos para ela.
— Desde que decidi que os hobbies de vocês eram mais interessantes que o time de vôlei. Sou membro honorário — Monica sorri, sem se intimidar.
— Teste rápido: Projeto Manhattan — Tom levanta um dedo, desafiador.
— Ela é membro de segunda classe, mas ainda é membro — o comentário vem baixo de Erick, que ganha um agradecimento silencioso de Monica.
— Vocês deveriam agradecer que uma mulher se aproxima de vocês — ela diz, cheia de si.
— Tem uma mulher querendo se aproximar da gente? Cadê? Me fala pra eu ver se é bonita — Josh solta, e a reação de Monica é uma sequência de tapas no ombro dele.
Começa a discussão entre eles, mas Monica não é uma adversária que irá se deixar vencer. Sempre que eles levantam um motivo para ela não ir, a menina o derruba com objetividade e uma demonstração de confiança em cada um deles.
— Vocês são estranhos, mas meio que meus estranhos. — É a última palavra dela, e está definido: a jornada começará ainda naquela noite.
Finalmente entram na escola correndo. Josh não consegue prestar atenção na aula; naquela manhã, ele foi ao banheiro tantas vezes que um professor perguntou se ele estava com incontinência urinária. Já no caso de Erick, ele passou a manhã toda fazendo uma lista à mão do que cada um iria levar para a aventura. Metódico, a lista foi planejada pensando no perfil de cada um dos amigos, no que ele sabia que eles teriam acesso mais fácil. Assim que o sinal toca, Josh sai com pressa da sala, seguido por Erick, e os outros dois os encontram lá fora. A lista de materiais é distribuída.
Como definido, Erick irá pegar o aparato técnico; a lista dele vai de lanternas até um power bank para carregar eletrônicos. Tom, por sua vez, será o responsável por equipamentos analógicos, uma redundância mais confiável, e se lembra do mapa da região que o pai do garoto tem na garagem. Josh é o homem da sobrevivência: lâminas, isqueiro e cordas estão sob sua responsabilidade. Monica lê sua lista, olha a dos outros e protesta:
— Mantimentos e Água. Isso é machismo. Eu poderia levar facas muito legais.
Eles trocam olhares, acabam rindo juntos e, enfim, se separam. Cada um vai para a sua casa se preparar para a saída no fim da tarde.
Sem dúvida, Josh foi o primeiro a chegar no ponto de encontro. Em seguida, Erick e Tom completam o trio de garotos. Cada um com sua mochila, ficam conversando sobre assuntos aleatórios até que Monica vira a esquina. Mas ela não está sozinha. Aproxima-se deles segurando a mão de uma menina muito mais nova; só de olhar, é possível dizer que ela tem menos de 10 anos. A cada passo, é possível ver mais a expressão de “me desculpem” de Monica e a expressão curiosa da menina mais nova.
— Monica, nem fodendo! — Tom fala, andando em círculos.