— Eu não tive escolha! — protesta a menina, ainda segurando a mão da menor.
Josh se abaixa na frente de Lily e recebe um grande sorriso de volta. Ao lado, Monica, a irmã mais velha, bufa, enquanto Tom gesticula sem parar.
— Não, Mônica. Eu não tive escolha quando nasci e meus pais escolheram meu nome. Você tinha muitas outras, inclusive a de ficar em casa — diz Tom, apontando os dedos para a própria têmpora.
— Meu nome é Lily e eu vim para uma aventura — diz a pequena, com um sorriso estampado no rosto.
— Espero que exista alguém nesta cidade que não saiba que estamos indo para uma base militar abandonada invadir terreno federal — agora Tom gesticula como se estivesse sendo enforcado.
Erick, que havia permanecido em silêncio, dá alguns passos para observar a confusão. Ele olha para Monica, que está de braços cruzados e com os olhos levemente marejados. Seu melhor amigo conversa com a pequena sobre algo que não dá para ouvir, mas que claramente é sobre a aventura, até que uma voz se ergue, mais alta e decidida.
— Eu cuido dela. — Josh se endireita. — Lily é minha responsabilidade durante todo o caminho.
A expressão incrédula de Tom é mais eloquente do que qualquer coisa que ele poderia dizer. Monica aproveita o momento para limpar discretamente a lágrima que ensaiava descer pelo canto do olho direito, antes que alguém pudesse notar.
— É mais gente para os equipamentos que eu planejei — diz Erick, com sua lógica impassível.
O veredito de Josh, por mais impulsivo que fosse, pairou no ar e selou a questão. Não havia mais o que discutir.
Movida pela emoção, Monica abraça Josh, mas o solta rapidamente, um pouco sem graça. Ainda resmungando, Tom é gentilmente empurrado pelos ombros por Josh, e o grupo inicia a caminhada em direção à floresta que cerca a cidade. O trajeto começa pela grama alta e arbustos, até que finalmente adentram a mata fechada, onde as árvores altas engolem qualquer resquício do mundo que deixaram para trás. Até o cheiro ali é diferente; se Erick pudesse descrever, diria que é mais úmido, e a sensação o faz se sentir bem. Ele puxa o celular do bolso para acompanhar a localização e percebe que o sinal já se foi, mas isso não é importante. Eles não irão precisar.
A caminhada continua e o silêncio perdura; apenas o som das folhas amassadas e de pequenos galhos sendo quebrados pode ser ouvido, até que enfim algo quebra a quietude: a voz infantil entoando uma música de um programa que ela assiste todos os dias. A melodia é conhecida e, enquanto ela canta, Josh, que está na frente, olha para trás.
— Mas esse desenho ainda é transmitido? Eu sei essa também. — Ele passa a cantar junto com Lily. A esse passo, não demora para Monica se juntar aos dois.
Alguns passos atrás está Tom, de braços cruzados, ainda mantendo a expressão séria, mas só consegue pensar “que droga” e começa a cantarolar a música também. O guia com o celular, Erick, também conhece a canção, mas canta baixinho; para ele, é mais fácil ouvir a voz dos outros do que a própria.
A música ecoa por entre as árvores por um bom tempo, até que o silêncio e os primeiros sinais da noite tomam conta da floresta. A visibilidade se torna cada vez mais difícil.
É quando Erick para, puxa sua mochila e distribui lanternas aos outros.
— Só tenho quatro — ele comenta —, mas como a Lily está o tempo todo grudada na Mônica, não deve fazer tanta diferença.
O plano nunca foi caminhar a madrugada toda, e as lanternas, apesar de úteis, revelam apenas uma sucessão infindável de troncos. Percebendo a inutilidade de avançar no escuro, eles decidem acampar na primeira área plana que encontram.
Monica se oferece para acender a fogueira, confiante de que pode mostrar aos garotos como se faz. Ela mesma junta folhas e gravetos e, ainda que usando um isqueiro, a primeira pequena chama que surge é uma vitória. Todos correm para alimentar o fogo com galhos maiores e, logo, uma labareda forte dança entre eles, tornando as lanternas desnecessárias. Ela levanta os braços em comemoração, e Lily a segue, arrancando um riso de Josh.
A noite é longa. Na primeira parte, eles passam um bom tempo mexendo nos celulares, olhando fotos e aplicativos. Lily se entretém com um joguinho no celular de Monica por vários minutos, até sua irmã pedir para mostrar as fotos das últimas férias para Josh e notar que o aparelho está quase descarregado.
— O power bank foi você quem trouxe, certo, Erick? — pergunta Monica, observando o baixo percentual de bateria. O amigo responde com um sinal de positivo enquanto abre a mochila e procura por um tempo.
— Na verdade... eu esqueci — ele força um sorriso meio duro no rosto, enquanto recebe um olhar fuzilante da garota.
— O cérebro da operação não é tão bom assim, então. E, vamos ser honestos, não precisamos dessas coisas aqui — diz Josh, jogando o celular dele na mochila e encorajando os outros a fazerem o mesmo.
— Por que foi mesmo que esquecemos de conferir os materiais? Ah, é! — diz Tom, apontando para Lily, que já está quase caindo no sono com a cabeça apoiada em uma das pernas de Monica. — Mas dois dias sem celular não vão matar ninguém — ele mesmo completa.
Por mais algum tempo, eles ficam conversando sobre assuntos aleatórios: escola, filmes e até videogames. As vozes foram se calando uma a uma, vencidas pelo cansaço do dia. Quando Erick se dá conta, pode ver Monica dormindo encostada no ombro de Josh, que por sua vez dorme apoiado em uma árvore. Nesse momento, Tom se joga ao seu lado com a mochila no colo.
— Eu tenho que te mostrar uma coisa — Tom abre um dos bolsos da mochila e revela uma arma; a pistola que seu pai costuma deixar em casa está com ele.
— Pra que você trouxe isso pra cá? — Erick cochicha, mas é fácil ver que esse é o primeiro acontecimento que realmente abala sua calma característica.
— Sei lá, a gente tá sozinho aqui, pode ter algum animal selvagem. E tá travada, olha — Tom se justifica, mostrando o dispositivo que mantém a arma travada.
— Cara, não conta pra ninguém que você tá com isso. Tem as meninas, a Lily... Deixa isso entre a gente — diz Erick, enquanto ele mesmo fecha a mochila de Tom e aponta para o lado. — Agora vai dormir. Eu fico acordado no primeiro turno.
Mesmo após a tensão, Tom cai no sono rapidamente; é fácil notar, pois ele é o único ali que ronca. Erick se mantém focado na chama já fraca da fogueira. O silêncio parece potencializar os outros sons: o próprio balançar dos galhos e das folhas; para Erick, eles lembram risos. Não risos felizes, mas de desdém, como aqueles que vêm após uma piada da qual só os outros riem de você. As sombras que as árvores projetam à noite poderiam ser assustadoras, mas ele as encara como se procurasse algo ali, no meio da escuridão, enquanto todos dormem.
A fogueira se apaga, mas ele nem acende a lanterna. Encarando as brasas que morrem, um sentimento o invade: pela primeira vez, ele realmente faz parte de algo. A primeira reação esboçada vem quando sente uma mão em seu ombro e a voz sonolenta de Josh.
— Sua vez de dormir, eu fico de vigia agora — diz Josh, enquanto dá alguns tapas de leve em seu próprio rosto.
Erick suspira, encarando o amigo no escuro, e enfim sorri de canto, concordando com a cabeça. A mochila vira seu travesseiro e ele se deita ali mesmo na grama, ainda observando o céu estrelado em silêncio até cair no sono. Josh liga sua lanterna e fica olhando como a luz age em sua mão, projetando sombras. Às vezes, algum pequeno som atrai seu foco, mas ele sempre respira aliviado depois de o feixe de luz mostrar que não é nada.
Pela manhã, ele acorda com a movimentação à sua volta e se levanta num salto ao perceber que caiu no sono.
— Pronto, gente. Podemos voltar a dormir, o guardião acordou — diz o irônico Tom.
As meninas também já estão de pé, enquanto Erick indica as duas árvores que escolheu para servirem de banheiro: um pouco afastadas, com troncos grossos o bastante para garantir a privacidade, mas não tão longe a ponto de ser perigoso. Josh coça os olhos e sorri, sem jeito, enquanto todos já preparam o próximo passo. Quando estão prontos, Erick convoca uma pequena reunião.
— Não vamos ter mais localização digital, mas temos uma redundância — diz ele, apontando para Tom, que parece surpreso.
— O mapa! — Tom puxa do bolso da frente um mapa da região perfeitamente dobrado e uma bússola. Todos se aproximam, olhando de perto enquanto o papel é desdobrado.
O dedo de Erick pousa sobre o mapa, um marcador preciso sobre o destino deles. No mapa antigo, o local é indicado como uma reserva protegida, diferente dos mapas atuais nos celulares, onde é representado simplesmente como uma área florestal.
— É pra cá que nós vamos.
Como se obedecessem a um comando invisível, um a um, os dedos indicadores dos outros se juntam ao de Erick sobre o mapa. O último a chegar é o de Lily, e o gesto arranca uma risada de todo o grupo.