Antes de partirem, eles decidem comer algo. Enquanto Monica esvazia sua mochila, Josh a observa com atenção, puxando a sua própria bolsa e abrindo-a bem devagar, quase como um ritual.
— Tem algo para cortar aí? — ele diz, puxando de dentro um tecido enrolado.
— Quê? — devolve a garota, sem entender.
Então ele começa a desenrolar o tecido, revelando diversas facas de vários modelos e tamanhos. Nada ali é simplesmente uma lâmina; cada uma conta uma história, desde cabos feitos à mão até lâminas forjadas segundo tradições milenares.
— Essa é a coleção de facas do pai dele. Qualquer um que já foi à casa dele viu isso pelo menos três vezes — comenta Erick, puxando um pacote de biscoitos.
Monica olha para Josh e balança a cabeça levemente em sinal de negativo. Ela nunca foi à casa dele. Ele acena para ela com a mão.
— Agora, a minha favorita. — Ele puxa de dentro da mochila uma faca de caça com uma bainha toda feita de couro e o cabo ornamentado. Ele a desembainha, mostrando uma lâmina tão polida quanto um espelho. Para demonstrar o fio, ele a passa num galho ao lado, cortando-o sem esforço.
— Ela foi feita da mesma forma que as espadas de samurai... ou algo assim. Mas é linda e incrível, não é?
O grupo passa mais um tempo comendo e se preparando. Erick dá mais uma olhada no mapa antes de decidirem que estão prontos para seguir, dando início a mais um dia de caminhada. As árvores parecem todas iguais enquanto Erick os guia, até que ele sente algo tocar a ponta dos seus dedos. Ao olhar para baixo, ele vê a pequena Lily. Com um rápido olhar para trás, ele percebe Josh e Monica conversando de forma animada. Quando volta os olhos para a pequena ao seu lado, ele sabe exatamente que olhar é aquele e deixa que ela segure sua mão.
Mais atrás, Tom observa a dupla e, sem que percebam, faz caretas para as costas deles.
— Ei, você ouviu?! — Lily puxa a mão de seu acompanhante, que olha para ela franzindo o cenho, mas se volta para a floresta à sua frente e acena para que todos parem.
A caminhada cessa e um nervosismo paira no ar. Todos se esforçam para ouvir o mesmo que a pequena ouviu primeiro. Ao fundo, por entre os sons de galhos balançando, há um som não natural. Mesmo que baixo, algo metálico e constante ressoa em algum lugar por ali.
Aos poucos, voltam a andar mais devagar, procurando cobertura nos arbustos que encontram pelo caminho, enquanto o som se torna cada vez mais alto e destacado.
O grupo continua avançando de forma sorrateira, usando os arbustos como cobertura. Entre reclamações abafadas sobre arranhões, eles finalmente se agrupam atrás de uma moita mais densa e podem ver a origem do som: uma estrutura de madeira, parecida com uma pequena cabana. Do lado, um encanamento metálico emerge do chão, com um diâmetro tão grande que qualquer um deles caberia ali dentro com folga. O cano mergulha de volta na terra alguns metros à frente, ficando parcialmente coberto até sumir de vista, seguindo seu caminho. Grandes hastes metálicas, mais altas que as copas das árvores, sustentam placas solares que mantêm o sistema funcionando de forma autônoma e constante. Eles olham, curiosos, e se aproximam, ainda com cuidado.
— Que porra é essa? — pergunta Tom, sem entender nada. Os outros permanecem em silêncio, sem resposta. Ou melhor, quase todos.
— E vocês se acham os nerds? — debocha Monica, rindo enquanto se aproxima da estrutura. — Nossa região tem um dos maiores reservatórios subterrâneos de água do mundo. Isso é só uma bomba de extração que leva a água para alguma estação de tratamento, talvez até a da nossa cidade. — Ela diz, com bastante orgulho de sua dedução.
Erick leva uma das mãos ao encanamento metálico e passa a ponta dos dedos sobre a superfície. Ele sente a textura áspera da ferrugem e a vibração constante, provocada pela pressão da água que corre ali dentro. Ele leva a mão de volta ao rosto e observa a ponta dos dedos, que estão levemente molhados, indicando um pequeno vazamento em alguma das emendas.
Apesar da curiosidade, eles permanecem focados em sua missão, no motivo pelo qual estão ali. Aos poucos, o ponto de extração fica para trás, e seu som constante volta a desaparecer na distância. O caminho nem sempre é uma linha reta; às vezes precisam dar a volta em um morro ou descer um barranco, e todos se ajudam. Tiram um tempo para conferir o mapa e beber água juntos, sempre em poucos goles, afinal não sabem quando poderão encher as garrafas novamente.
De repente, pela primeira vez, Erick acelera e corre na frente do grupo. Os outros o seguem e o encontram tentando desenterrar uma placa de metal bastante desgastada. Ao levantá-la, a frente ainda está legível:
CUIDADO! ÁREA FEDERAL! NÃO ULTRAPASSE!
— Deveríamos passar a noite aqui — ele sorri, ainda ofegante. Até mesmo Josh tem dificuldade em se lembrar da última vez que viu um sorriso tão genuíno no rosto do amigo.
Assim, todos sabem que estão no caminho certo, cada vez mais próximos. Este pôr do sol é o último que verão antes que suas vidas mudem para sempre. É um sentimento que se espalha, e até a pequena Lily pode notar. Animados, começam a organizar a segunda fogueira, mais uma vez a cargo de Mônica, que dessa vez mostra de perto como se faz para a irmã mais nova, que se maravilha com a chama que cresce e toma conta dos galhos. Mais uma olhada no mapa e, de acordo com o navegador, Erick, se acordarem ao nascer do sol, a caminhada até o destino levará de quatro a cinco horas. Quando a noite começa a tomar conta e a fogueira mais uma vez se torna a única fonte de luz, eles se sentam em volta.
— Me agradeçam. Vocês terão algo para contar aos seus netos — diz Josh, orgulhoso, sem perceber que Monica o olha de lado.
— Espero que possamos chegar amanhã mesmo. Meu pai já deve ter iniciado as buscas. Eu disse que iria acampar no seu quintal — comentou Tom, abraçando a própria mochila.
Eles começam uma pequena discussão, mais carregada de humor do que de rancor, trocando acusações brincalhonas enquanto os outros acompanham com risadas. Monica ri e olha para Erick, que está sério, e isso rouba o sorriso dela também, que suspira.
— Chega, chega — ela diz, enquanto acena para os dois, chamando a atenção. — E depois de amanhã? — A pergunta vem enquanto ela direciona os olhos para o chão.
— Depois… terminar a escola. E eu não sei mais. Tantas escolhas, tanta coisa pra fazer — esse é Josh, puxando um canivete de dentro de sua mochila, este com o símbolo de uma pequena bandeira da Suíça. — Quem sabe viajar o mundo, contar uma história incrível. — Ele sorri.
Tom, ainda segurando sua mochila tão perto do corpo como se quisesse trazê-la para dentro, sorri de canto. — Filho de policial tem escolha?
— São tantas... escolhas... — diz Erick, suspirando.
— Eu quero estudar direito ou algo assim — diz Monica, ainda olhando para baixo.
— E você? — Tom aponta para Lily, que fica confusa com todos se aproximando dela.
Astronauta? Nem pensar. Balé? Muito comum. Policial? Ganha mal. Cantora? Difícil demais... Eles listam, um a um, os motivos pelos quais ela simplesmente não pode escolher as profissões que eles mesmos sugerem. Ela leva um dos dedos perto do queixo, realmente pensativa.
— Eu... vou cuidar de bichos. — Enquanto o resto do grupo aplaude, ela sorri, olhando um por um ali.
A noite passa entre cantorias e histórias de terror, até que, um a um, eles caem no sono. Aos poucos, sem que percebam, a escuridão os abraça quando as chamas se vão e as brasas se tornam o único ponto de luz, até que o sol volte a nascer e Erick seja despertado pelas mãos nervosas de Tom.
— A porra do mapa sumiu — diz ele, virando a própria mochila e mostrando o compartimento vazio a Erick.