Prólogo: O legado dos Herois!

Cidade de Rovid
As seis explosões de seus octogramas a assustavam; era um poder que ela nunca imaginara possuir, um grande poder acompanhado de uma habilidade já problemática. A habilidade Berserk permitia que Luna ganhasse uma grande quantidade de força e velocidade, mas a fazia perder-se em pensamentos agressivos, levando-a a atacar tudo à sua volta sem distinguir amigos de inimigos. Ela tinha muito receio de que, um dia, essa habilidade a consumisse por completo.
Os octogramas eram a cristalização do poder de um guerreiro, assim como os círculos mágicos de um mago.
Tinha certeza de que, se concentrasse um pouco de sua aura na mão direita naquele momento, as luvas reforçadas de couro que a envolviam se rasgariam como se fossem um pano velho e vagabundo.
Luna se perdia em pensamentos enquanto olhava para sua mão dominante, aguardando a princesa terminar de se arrumar para uma pequena viagem.
Era costume real que a princesa da magia e a princesa da espada passassem um tempo juntas antes do casamento e da cerimônia de coroação.
Amicítia é um país derivado de dois antigos reinos, o país da espada e o país da magia, que, após anos de guerras, se uniram em uma grande nação, a mais poderosa, diga-se de passagem.
O pacto fundador do país determinava que duas rainhas governassem o reino, sempre uma de cada família real, e assim foi desde então.
O combinado entre as próximas rainhas era um período de convivência em uma casa de campo da família real em Rovid, uma pequena cidade nas montanhas, próxima à capital, Duosolis.
Nimue fora incrivelmente hábil ao lidar com o conselho durante as disputas pelo trono, algo que surpreendeu Luna. Apesar de proteger a princesa há mais de três anos, ela nunca a vira agir com tamanha destreza política, exceto, talvez, quando se tratava de seduzir alguma princesa ou estame de outro país.
Nimue sempre fora impulsiva e promíscua, mas vinha melhorando com o tempo, pelo menos na opinião de alguns.
Luna sempre esteve atenta a comentários sarcásticos e palavras maldosas vindas da corte. Sabia que nem todas as mulheres do conselho que escolheram Nimue como futura rainha o fizeram de bom grado.
Mas Nimue definitivamente não parecia preocupada com isso. Na noite anterior, passara o tempo comentando boatos sobre o novo jardineiro da casa de campo real, supostamente um belo estame vindo de Wiccaria.
Mais de uma vez, Luna teve de lembrá-la que a viagem era para estreitar laços com a futura rainha da espada, sua noiva. Nimue, porém, estava mais interessada em levar Luna para a cama do que em pensar no futuro do reino.
Luna aprendera a lidar com isso ao longo do tempo. As indiretas e tentativas de Nimue nunca cessaram desde o início de seu serviço, assim como a classe e a perseverança de Luna em recusar cada avanço.
Por trás de sua fachada impulsiva, Nimue temia não ser uma rainha à altura das expectativas do conselho, mas nunca admitiria isso, nem mesmo para Luna.
Ainda vestindo as roupas com as quais dormira, Nimue flagrou Luna em seu momento introspectivo, encarando as próprias mãos, como se segurasse algo no ar.
— Espero que esteja imaginando meus seios em suas mãos para estar tão focada assim nelas! disse a futura rainha em um tom zombeteiro.
Luna se levantou e fez uma reverência antes de responder.
— Minha princesa, alegra-me vê-la em tão boa saúde. Não seria indelicada a ponto de imaginá-la de forma que não fosse como a grande líder que comandará meu reino! respondeu Luna.
— Hum, sua forma elegante de me dispensar sempre aquece meu coração, minha linda retentora! disse Nimue.
— Fico feliz, majestade! respondeu Luna.
As pajens e serviçais chegaram pelos dois lados do corredor para iniciar as trocas de roupas, cabelo e maquiagem.
— Vamos logo com isso, então! exclamou Nimue.
Luna observou tudo atentamente enquanto acompanhava o grupo entrando no quarto da rainha.
O processo transcorreu sem maiores dificuldades, com apenas uma ou outra excentricidade da princesa.
Ao descerem para o portão oeste do castelo, Nimue parou para perguntar como estava, e Luna, encabulada, respondeu entre gaguejos:
— Está maravilhosa, majestade! disse Luna.
— Agora sim, tenho certeza de que a princesa da espada não se arrependerá de casar comigo! respondeu Nimue.
— Duvido que a princesa Lysandra pense assim, vossa alteza! disse Luna.
Nimue não entendia por que Luna resistia tanto aos seus avanços. Isso nunca acontecera antes, pelo menos não daquela forma. A princesa quase sempre conseguia quem quisesse.
Luna era apenas a filha de uma família de camponeses, mas alcançara destaque no templo das espadas pelo crescimento meteórico de seus octogramas e pela habilidade única despertada ao atingir o quinto nível: a habilidade Berserk. Essa habilidade permitia que ela limpasse um labirinto de nível intermediário praticamente sozinha, embora à custa de sua saúde. Era uma habilidade tão singular que as poderosas pistilos de alta classe não puderam ignorar uma guerreira como ela.
Nimue não fora diferente. Assim que soube de seus poderes, considerou imprescindível ter Luna a seu serviço. Ter uma retentora capaz de protegê-la a qualquer custo era uma coisa; ter uma que se fortalecia a qualquer custo era outra.
Isso ajudou muito Nimue na disputa pelo trono, já que recrutar uma guerreira de origem desconhecida e humilde foi visto como um ato de extrema inteligência pelas senhoras do conselho.
A viagem transcorreu sem maiores problemas, e logo a montanha de Rovid apareceu no horizonte. A estrada estava limpa, com poucos viajantes, o que acelerou o trajeto.
Para desempenhar melhor sua função de proteção, Luna viajou ao lado da cocheira, o que irritou Nimue, que reclamava constantemente de sua solidão. Luna a acalmava com frases como:
— Estamos chegando, só mais um pouco, majestade! dizia Luna.
O clima em Rovid era animado, especialmente com a chegada da futura rainha, motivo de alegria para o povo humilde local. Apesar disso, um clima chuvoso se aproximava sorrateiramente, vindo da direção do lago do dragão.
A casa de campo ficava um pouco afastada da cidade, o que era, ao mesmo tempo, bom e ruim para Luna, que se preocupava com a segurança da princesa. Estavam longe demais para pedir ajuda rapidamente, mas perto o suficiente para detectar perigos vindos da cidade.
A rua principal estava lotada de pessoas querendo ver sua futura rainha. Muitos erguiam flores, pães, bolos e frutas, na esperança de que suas oferendas fossem notadas.
A arquitetura da cidade era rústica, mas ainda assim muito bonita. As montanhas que cercavam a cidade eram um charme à parte, e o cheiro das ervas das terras altas trazia um aroma herbáceo singular.
Na entrada da mansão, várias serviçais e soldados aguardavam a princesa com os preparativos prontos, as guerreiras alinhadas à direita e as serviçais à esquerda.
Primeiramente, Luna saltou da carruagem ainda em movimento, o que assustou a governanta da casa de campo. Ela amaldiçoou em silêncio, mas manteve a compostura. Era uma senhora de cabelos loiros, levemente grisalhos, com cerca de sessenta anos.
— Senhora retentora, é uma alegria recebê-la. Seja bem-vinda à casa de campo. Espero que a viagem tenha sido tranquila! disse a governanta.
— Certamente foi. Como estão os preparativos e a segurança? A princesa Lysandra já chegou? perguntou Luna.
— Os preparativos estão prontos para todo o fim de semana. A segurança está a cargo da oficial responsável, mas creio que tudo esteja em ordem. A princesa Lysandra ainda não retornou do labirinto que foi investigar dias atrás, devido ao mau tempo. Ela enviou uma carta avisando de seu atraso! respondeu a governanta.
Nimue desceu da carruagem sem esperar o sinal de Luna de que estava tudo seguro, o que irritou sua retentora.
A oficial responsável gritou ordens às soldados, e a governanta fez o mesmo com as serviçais.
Nimue não aguardou que as arrumadeiras retirassem seus utensílios, roupas e os presentes recebidos no caminho, que forravam a carruagem, e seguiu diretamente para o jardim.
Luna já sabia que ela procurava o tão falado jardineiro de Wiccaria, mas, após muito caminhar pelo belo e bem-cuidado jardim, ninguém foi encontrado, para irritação e descontentamento de Nimue.
— Não acredito! Será que vim até aqui à toa? Nem a futura rainha, nem o belo estame estão aqui! E você provavelmente não vai esquentar minha cama esta noite! exclamou Nimue.
Luna ignorou as lamentações da princesa e a acompanhou até o grande quarto da mansão.
A mansão era muito antiga, possivelmente datando da origem do reino, séculos atrás. Era possível notar onde reformas haviam ocorrido, com novas técnicas de construção. Feita de pedra e madeira, a casa exibia gravuras que narravam a história dos antigos reinos e contos da era dos heróis.
Nimue descarregava sua frustração nas serviçais e, para se acalmar, mandou abrir uma caixa de vinhos que ganhara de sua maior apoiadora no conselho, Lady Penelope Vaiz, que a aconselhara durante todo o processo de disputa pelo trono.
Aproveitando que Nimue encontrara algo para se distrair, Luna decidiu deixá-la aos cuidados das guardas da mansão.
Então, decidiu patrulhar o perímetro da casa de campo. Atravessou o jardim com seus sentidos alertas, até que um brilho suave vindo do pomar chamou sua atenção.
Lá, um jovem de roupas brancas estava ajoelhado diante de uma macieira com folhas secas e frutos escuros, visivelmente doente.
O jovem recitou um encantamento curto, lançando uma magia de cura na planta, que aos poucos recuperou seu verde natural. A magia brilhava com a luz dourada característica das magias de cura.

Luna Rénard
Luna ficou imóvel ao presenciar tal cena. Já havia visto magias de cura em combates, pois, como guerreira, fora ferida e curada diversas vezes, mas nunca testemunhara uma magia de cura usada em plantas, nem sabia que isso era possível.
Após concluir o processo, o jovem se levantou, pegou um cajado azul e invocou uma pequena chuva sobre a árvore recém-revitalizada.
As folhas, recém-molhadas, balançavam com o impacto das gotas, e as maçãs eram tão vermelhas quanto o batom mais caro vendido em Duosolis.
O jovem se aproximou da árvore e pronunciou algumas palavras de alívio, dizendo que tudo ficaria bem a partir de agora, o que fez Luna perceber uma grande gentileza em suas ações.
Luna notou que quatro círculos mágicos giravam no coração do jovem estame, o que era impressionante, já que pouquíssimos estames alcançavam esse nível, fosse como guerreiro ou mago.
Ao se virar e perceber que estava sendo observado, ele ficou encabulado e puxou o capuz de seu casaco branco sobre a cabeça.
Mas não foi rápido o suficiente para que Luna não notasse a beleza de seu rosto. Ele era o estame que a princesa procurava.

Sorín
— Essa magia? Era magia de cura? Você é um curandeiro de Ciceliana? perguntou Luna.
A confusão de Luna era plausível. Era comum que a maioria dos curandeiros viesse de Ciceliana, que cultuava a deusa Cicélia, a deusa do ciclo, mas isso era apenas um engano. Muitos, como este estame, usavam a magia através de sua divindade de crença, no caso dele, Magiana, a deusa da magia. Claro que apenas aqueles com aptidão para magia de cura eram capazes dessa ligação.
— Não, eu apenas queria ajudar, eu, desculpe-me! disse o jovem.
— Não estou te repreendendo, usar a magia de cura daquele jeito é incrível, eu mesma nunca vi alguém fazer isso! disse Luna.
— Isso não foi nada, de onde vim, isso não é nada! exclamou ele.
Por um breve momento, Luna se lembrou de quando era criança. Diziam-lhe que ela nunca seria uma soldado do reino e que nunca conseguiria chegar onde chegou.
— Vim de um lugar simples, e esse tipo de coisa sempre me foi dito. Sua magia é incrível, sim, não deixe que lhe digam o contrário! afirmou Luna.
— Ér, obrigado, eu acho! respondeu ele, hesitante.
— Você é o estame de Wiccaria, não é? A princesa estava te procurando! disse Luna.
— A mim? Mas por quê? perguntou ele, surpreso.
— Sua beleza, ora bolas? exclamou Luna, incrédula com a reação do estame, achando que ele estava se fazendo de bobo.
— Ah, não sei nada sobre isso, de onde vim, isso também não é nada! respondeu ele.
— Wiccaria deve ser um lugar bem estranho! comentou Luna.
Luna sentiu que ele queria perguntar o motivo daquela última frase, mas ele se conteve.
— Calma, a princesa quer ver o belo jardineiro vindo de Wiccaria, ela não vai sossegar até te encontrar, então é melhor você lidar com ela! aconselhou Luna.
O jovem deu de ombros, como se estivesse acostumado a atender todo tipo de ordens, e começou a seguir Luna em direção à casa de campo.
— Meu nome é Luna, sou retentora real da princesa da magia, Nimue. Qual é o seu nome? perguntou Luna, intrigada pelo recém-conhecido estame de uma maneira que não conseguia explicar.
— Meu nome é Sorín! Vim como parte de uma compra de estames de Wiccaria. Assumi o papel de jardineiro desta casa há pouco tempo! respondeu ele.
Luna não deixou de notar que o pingente da coleira de Sorín brilhava num azul escuro, quase preto, indicando que ele cumprira seus deveres em algum Jardim da Abundância há pouquíssimo tempo.
A conversa entre o estame e a pistilo retentora fluiu de forma intrigante para Luna, que nunca tivera uma experiência assim. Apesar de cruzar com vários estames na corte, onde eram mais numerosos do que na vida cotidiana, raramente tinha conversas que durassem mais de cinco minutos.
As risadas e os diálogos dos dois ecoavam entre as árvores do pomar quando passos foram captados pelos ouvidos bem treinados de Luna. Seus olhos rapidamente identificaram a fonte do barulho: era a princesa Nimue, seguida por várias soldados e serviçais que se apressavam para erguer seu vestido, evitando que se sujasse no pomar recém-molhado.

Princesa Nimue Zauberin
— Então era aqui que minha retentora estava? Vejo que encontrou o belo estame, não é mesmo? disse Nimue.
Luna sentiu uma pontada de culpa no peito. Como retentora, deveria estar focada na segurança da princesa, mas, diante daquele estame tímido, esquecera-se momentaneamente de suas responsabilidades.
Havia algo em Sorín que a fazia querer conversar mais, saber mais, uma sensação que não sentia há muito tempo.
Nimue não deixou de notar o sorriso no rosto de Luna, um sorriso que ela nunca conseguira provocar, por mais que tentasse. Isso a deixou com raiva.
— Venha até mim, meu belo jovem! ordenou a princesa.
Sorín parecia querer desaparecer. A cada passo, puxava o capuz para esconder o rosto, mas foi inútil. Quando se aproximou o bastante, Nimue abaixou completamente seu capuz.
— Uhlalá! E não é que os boatos são verdadeiros? A olheira que escolheu você para comprar tinha muito bom gosto! exclamou Nimue.
— O-obrigado, majestade! respondeu Sorín, mais vermelho que a maçã da árvore recém-curada.
— E ainda tímido! Um pacote completo para o coração de qualquer pistilo! disse Nimue.
A cabeça de Nimue trabalhava rápido. Ela não estava acostumada a dividir o que considerava seu.
— Minha princesa, o que pretende fazer? A princesa Lysandra chegará amanhã cedo, no mais tardar! interveio Luna.
— Vou levar este estame para nosso harém, é claro! Não há condição de deixar um estame tão bonito num lugar desses! declarou Nimue, enquanto cochichos entre as serviçais e soldados enchiam o pomar.
— Minha princesa, levar este estame diretamente para o harém sem consultar a princesa da espada pode ser visto como indelicadeza, ainda mais considerando que a razão de estarmos aqui é fortalecer os laços entre vocês! argumentou Luna.
— Você por acaso se apaixonou por esse estame? Todo estame de Amicítia deve se submeter a mim, se eu desejar, ainda mais um comprado de Wiccaria, que não dá a mínima para seus estames! retrucou Nimue, irritada.
Luna deixou Nimue esbravejar, já acostumada com sua infantilidade. Não se surpreenderia se ela levasse Sorín para um dos quartos da mansão naquele instante.
A princesa se calou por alguns segundos e ordenou que todos silenciassem.
Os cochichos pararam, como pássaros assustados por uma ameaça.
Sorín permaneceu parado, sem saber o que fazer, os ombros tão baixos que pareciam tocar o chão.
— Você tem a irritante habilidade de me fazer pensar duas vezes, minha retentora! disse Nimue.
— Mas, de qualquer modo, não posso deixá-lo num lugar desses. Será muito mais vantajoso para o reino levá-lo à capital. Pistilos de alta classe e de outros países podem oferecer acordos por suas noites! continuou ela.
Em Amicítia, as responsabilidades das rainhas são divididas: a rainha da espada cuida da espionagem, defesa e política externa, enquanto a rainha da magia gerencia os assuntos internos, alimentação, estames e política interna.
— Como quiser, majestade. Só penso em sua saúde e prosperidade! respondeu Luna.
— Não seria minha retentora se pensasse diferente! retrucou Nimue, puxando Sorín pelo braço.
Nimue empurrou Sorín para suas serviçais e ordenou que o lavassem e o preparassem para estar na presença de alguém da família real.
Sorín foi levado sem protestar, e Luna acompanhou a princesa de volta à casa.
Durante o restante da tarde, Nimue se deleitou com sua caixa de vinhos, livros e conversas com sua retentora, ao som do crepitar da lareira.
O frio aumentava com a proximidade da tempestade.
Sorín foi incumbido de servir vinho e comida durante a tarde, assim que estava pronto, o que trouxe um sorriso ao rosto da futura rainha.
Quando havia uma oportunidade, Luna e Sorín conversavam sobre qualquer assunto que surgisse. A conexão entre eles era incrível, por mais improvável que fosse, dada a posição dos dois.
Sorín falou de sua infância difícil em um lugar que nunca o valorizou, e Luna compartilhou sua vida no interior, vinda de uma família humilde e com poucas oportunidades. Isso criou um laço de companheirismo quase instantâneo.
Nimue notou o que estava acontecendo, mas decidiu não intervir por enquanto. Como futura rainha, poderia exercer mais pressão no futuro. Além disso, começou a cogitar incluir não apenas Sorín, mas também Luna em seu harém.
Em uma de suas saídas do quarto da princesa, Luna percebeu que os postos de guarda estavam desprotegidos ou, no mínimo, negligenciados e correu para a entrada da mansão, onde a responsável pela segurança se encontrava.
Ao chegar à sala, sentiu um forte cheiro de bebida, tão intenso que lembrava uma taberna em dia movimentado.
— Mas o que está acontecendo? perguntou Luna.
— Bah, não ligue pra isso. Os moradores da cidade mandaram muitas bebidas para nós. Seria um desperdício deixar as garrafas cheias! respondeu a chefe da guarda, com desdém.
— Sua cabeça pode literalmente rolar por causa disso, sabia? retrucou Luna.
— Já vivi o suficiente para não me amedrontar com as ameaças de uma pistilo camponesa com um terço da minha idade! disse a chefe da guarda.
— Onde estão suas guardas? Estou te afastando temporariamente de suas funções! declarou Luna.
— O quê? exclamou a chefe da guarda.
Luna esbofeteou a chefe da guarda, que caiu sentada, sem forças ou vontade para continuar discutindo.
Ao percorrer a mansão, Luna constatou que a maioria das guardas não estava em condições de defender coisa alguma, seja por estarem bêbadas, seja por falta de treino.
Era fato que deveria tirar a princesa dali o mais rápido possível.
Ela correu em direção ao quarto e logo sentiu uma movimentação que não deveria estar acontecendo.
Ela explodiu seus seis octogramas, e, de fato, suas luvas de couro reforçadas não aguentaram: assim que fechou as mãos com força, elas se rasgaram como papel velho. Ela fez sua aura girar por todo o corpo e moveu-se como um vulto pelos corredores, logo avistando três figuras encapuzadas.
Luna puxou sua espada, que fez o barulho do aço tremer por entre os vidros que separavam o corredor do grande quintal antes do pomar, e parou em frente ao quarto da princesa.
— Temos companhia, princesa, precisamos sair daqui o mais rápido que pudermos! gritou Luna, enquanto se preparava para o combate.
Uma das figuras misteriosas avançou, claramente tentando golpeá-la na perna direita. Os seis octogramas de Luna brilhavam em seu coração quando ela aparou o golpe, armando um contra-ataque de cima para baixo.
A atacante misteriosa se mostrou uma guerreira habilidosa, mas deixou seus pés desprotegidos, o que resultou em sua derrota. Os gritos da atacante ecoaram no corredor, enquanto Luna se apressava em finalizar a guerreira que escondia o rosto em um capuz preto.
As outras duas avançaram: uma guerreira, como a primeira, e uma maga, que usou seu cajado de madeira retorcida para invocar uma rajada de vento que empurrou Luna contra a porta, levando-a para dentro com a porta junto.
Lá, Luna se deparou com Sorín protegendo a princesa, que estava visivelmente incomodada com algo além do ataque em si, uma expressão que Luna nunca vira antes: uma de puro desespero.
— Não consigo usar minha magia, Luna, estou de mãos atadas! gritou Nimue.
As palavras atingiram Luna como estacas, pois contava pelo menos com o suporte de Nimue para deter as atacantes, já que as soldados da mansão estavam praticamente fora de combate.
Mas como conseguiram bloquear a magia da princesa?
— Princesa, sabe quem armou isso? perguntou Luna.
— Tenho uma suspeita, mas não vai adiantar nada se não sairmos daqui! respondeu Nimue.
— Entendido, então precisamos fazer isso acontecer! disse Luna.
Nimue sentia uma inutilidade que experimentara poucas vezes na vida, e ter um estame ao seu lado sem conseguir protegê-lo era uma vergonha difícil de aceitar.
Luna se aproximou de Nimue e ficou entre eles e as invasoras.
— Ora, e não é que a princesinha estava fazendo um lanchinho? Um belo estame temos aqui, pena não estarmos aqui hoje para caçar. Você vai morrer aqui hoje, junto com a princesa sem-vergonha e a retentora que diziam ser incrível! disse uma das invasoras.
Sorín não se dignou a responder, pois já estava acostumado com esse tipo de ameaça. Estava mais incomodado com o fato de Nimue e Luna nem cogitarem que ele poderia proteger a princesa ou dar pelo menos algum suporte a Luna.
Já que ele era um mago de quarto círculo, assim como a atacante que estava à sua frente.
— Você não vai matar ninguém hoje, vai morrer como sua amiga ali atrás! gritou Luna, antes de se lançar na direção da maga, mas foi parada pela guerreira, que segurou sua espada usando um machado de guerra.
O impacto fez Luna recuar, dando chance à maga, que, durante a invocação de mais uma rajada de vento, foi engolida por uma onda de água que se tornou uma bola, impedindo-a de fugir ou invocar algo.
Luna pulou para a frente e trocou múltiplos ataques com a guerreira que, apesar de habilidosa, lhe faltava poder. A falta de um octograma em relação a Luna foi determinante para sua derrota. Após vários golpes a acertarem, ela finalmente caiu, logo depois que sua companheira maga caiu, afogada, do outro lado da sala.
Uma magia claramente invocada por Sorín.
— Não achei que soubesse outra magia além de cura, estame! Muito obrigado. Apesar de ser uma vergonha ser protegida por quem eu deveria proteger! disse Luna.
— N-não diga isso, majestade, é uma honra lhe servir! respondeu Sorín, mais vermelho que um pimentão.
— Que bom que estão todos bem! exclamou Nimue.
Luna sentiu que um pequeno exército se aproximava, e em breve estariam totalmente cercados.
Luna pegou os braços dos dois e saltou com eles para o quintal.
— Sigam em frente, se forem em direção ao bosque, podem chegar à cidade rapidamente. Vou mantê-las ocupadas o máximo possível! disse Luna.
— Do que está falando, Luna? Venha conosco, você é minha retentora! gritou Nimue.
— Por isso mesmo, minha rainha, não vamos conseguir fugir se demorarmos demais, apenas vá! respondeu Luna.
Nimue percebeu que Luna já havia notado algo.
— Quantos são? perguntou Nimue.
— Mais de cinquenta, minha princesa, agora vá! respondeu Luna.
— Não vou abandonar você, não conseguirá lutar contra cinquenta, Luna, vamos… disse Nimue.
— Você não conseguirá me ajudar em nada sem magia! retrucou Luna.
Maldito vinho. Nimue tinha certeza de que o vinho dado por Lady Penelope era o culpado por sua falta de poder mágico.
— Pode fazer magia de desintoxicação, estame? perguntou Nimue.
— Sinto muito, minha rainha, mas só posso curar ferimentos e doenças! respondeu Sorín.
O plano foi bem pensado: um ataque coordenado assim poderia pôr fim à sua vida. Por mais alarmante que fosse, Nimue não conseguia deixar de admirar a audácia de tal plano.
— A cortina de tempo está se fechando, princesa, vá logo, ou te jogarei o mais longe que puder! gritou Luna.
— Não se atreva! exclamou Nimue.
Luna se aproximou de Nimue a fim de pegá-la e jogá-la longe, mas Nimue lutou contra ela.
— Não, princesa, a janela, a janela se foi! gritou Luna.
Luna caiu de joelhos, não foi capaz de vencer a teimosia de Nimue a tempo. As lágrimas chegaram aos seus olhos e escorreram por seu rosto.
O céu pareceu compadecer-se da situação, e a chuva começou a cair.
O pequeno exército inimigo estava se aproximando, e Luna não via nenhuma chance de manter a princesa em segurança.
— Princesa, procure um quarto com as portas em boas condições e use tudo que puder para impedir a entrada. Vou matar o máximo que puder delas. Que os deuses me deem essa alegria esta noite! disse Luna.
— Vou lhe dar apoio, senhorita Luna, posso manter distância se ficar perto da casa! gritou Sorín, já que o barulho dos trovões estava absurdamente alto.
— Mas isso é… começou Luna.
— Não discuta, Luna, isso é uma ordem, aceite a ajuda do estame! gritou a princesa.
Não havia situação pior ou mais vergonhosa para sua história: sua retentora iria morrer a protegendo, o estame seria usado até o amanhecer e depois seria morto, e ela encontraria seu fim por uma regicida qualquer.
Por mais vergonhoso que fosse, o estame era um mago de água e cura; pelo menos poderia ajudar. Luna relutou por um momento, mas não cedeu à sua teimosia.
— Minha habilidade é preocupante para aliados, posso atacar qualquer um que estiver perto! Então, é imprescindível que mantenha a distância, ok? disse Luna.
— Certo, vou manter, e obrigado! respondeu Sorín.
Luna queria saber por que ele agradecia, mas deixou pra lá.
Ela esfregou um pouco de terra do chão nas mãos para segurar bem a espada e andou até o meio do pátio, entre o bosque e a casa.
O exército podia ser visto entre as sombras do bosque; eram claramente mercenárias. As batedoras que invadiram primeiro não deveriam querer dividir o valor que fora pago, por isso atacaram antes.
Luna conseguia sentir pelo menos uma maga, mas a grande maioria eram guerreiras como ela, quartos, quintos e uma de sexto nível que, por pura lógica, deveria ser a líder.
A chuva começava a turvar os sentidos da audição e do olfato, e as poças de água já começavam a se acumular. Seria um combate cansativo.
Assim que sentiu que sua princesa estava em segurança em um dos quartos da mansão, Luna ativou sua habilidade sem nem pensar duas vezes e sentiu uma fúria que surgia de seu âmago. A habilidade problemática que lhe concedia força e velocidade.
Luna urrou de raiva, seus músculos explodiram com a aura acumulada, e o exército, antes em marcha, parou por um momento, antes de sentir o impacto de Luna em suas armaduras.
A guerreira que tentou parar Luna com um grande escudo sentiu que o braço, que deveria estar protegido, estava ferido. A força do ataque da retentora rasgou o escudo até a altura de seu braço.
Luna soltou um grito que fez as guerreiras próximas engolirem em seco por alguns segundos. As trocas de golpes eram ferozes; Luna conseguia cortar guerreiras inteiras com um único balanço de espada.
A líder das mercenárias gritou palavras de ordem, ainda que abafadas pelo barulho da chuva. Sua maça balançava enquanto enchia os pulmões para gritar mais alto.
— Acalmem-se, ela é só uma guerreira como nós, não é um chefe de labirinto! Arqueiras, façam o seu maldito trabalho! gritou a líder.
As flechas voaram em direção a Luna, com precisão tamanha que os projéteis se curvavam antes de atingir o alvo, mesmo na forte chuva.
Luna foi atingida diversas vezes, mas poucas flechas conseguiram perfurar profundamente sua carne. A força de sua habilidade era tão intensa que seus músculos se tornavam duros como pedras. Mesmo assim, ferimentos eram causados, o que melhorava a moral do exército, vendo que o monstro de há pouco também sangrava.
Nesse momento, a água ao redor começou a agir de forma estranha, como se se erguesse sozinha, atrapalhando o movimento das guerreiras.
A líder lembrou que o relatório que recebera não mencionava nenhum mago na equipe enviada com a princesa, apenas a retentora problemática com quem deveria ter cuidado.
A água continuava a atrapalhar, e a chuva não dava trégua. A líder achou por bem que deveria lidar com a retentora o quanto antes. Ela entrou em combate com a retentora enlouquecida e se assustou com tamanha selvageria. Seus movimentos eram como os de uma besta dos labirintos, e sua velocidade era insana, quase impossível de acompanhar.
A líder balançou sua maça, golpeando Luna, que se defendeu, surpreendentemente, usando apenas o braço esquerdo. Seu braço se quebrou com o impacto, e Luna rosnou de raiva, mas não parou de atacar. A líder aproveitou a vantagem e a igualdade de octogramas para tentar finalizar a retentora ali mesmo. Luna atacava com a mão direita e, por incrível que pareça, socava com o braço quebrado também, o que fazia a líder se perguntar o quanto de dor ela aguentaria.
Porém, após vários golpes, Luna socou a líder no peito com o braço esquerdo, um soco que parecia vir de um braço em perfeitas condições, o que a deixou confusa.
A luz dourada da magia de cura podia ser vista em algumas gotas de chuva que caíam sobre a retentora.
— Deve haver algum mago por perto! gritou uma maga de suporte que aguardava na retaguarda.
— Procurem ao redor, agora mesmo! gritou a líder em pânico, pois um mago poderoso poderia mudar toda a dinâmica do combate. Na pior das hipóteses, o veneno dado à princesa poderia não ter feito o efeito esperado, e teriam de matá-la em combate.
De qualquer forma, nenhuma informação sobre uma maga de cura estava entre elas.
— Senhora, um estame se encontra em frente à casa, claramente é um mago, provavelmente é ele que está curando a retentora e atrapalhando nossos movimentos com magia de água! disse uma mercenária.
— Um estame? Mago de cura? Manipulador de água? Não havia nada disso no relatório! gritava a líder enquanto trocava golpes e se distanciava de Luna, colocando várias guerreiras entre elas e aproveitando as chances para atacá-la.
— Matem o estame, por mais que seja um desperdício! ordenou a líder.
As arqueiras mudaram de alvo, e uma pequena saraivada de flechas cortou o ar em direção a Sorín, que desviou as flechas usando uma magia de vento.
— O mago consegue usar magia de vento também, senhora, e a velocidade com que usa encantamentos deve ser indício de que ele conhece muito bem a língua do dragão. O que faremos? perguntou a mercenária.
— Maldição, suas inúteis, é só matá-lo usando suas espadas! gritou a líder.
Porém, todas as vezes que tentavam avançar em direção ao improvável mago, Luna dava cabo de suas vidas, cortando-as ferozmente. Flechas eram desviadas, e feridas eram curadas pela magia do mago de vestes brancas.
Pouco a pouco, a vantagem esmagadora foi diminuindo.
— Maldição, até quando isso vai durar? gritou a líder.
A maga de suporte, que curava uma guerreira atingida na cintura, respondeu aos gritos:
— A mana do mago deve estar acabando, não é possível que ele tenha tanta mana assim. Além disso, a magia de água dele é simples. Se não fosse por essa retentora infernal, já o teríamos matado há muito tempo! disse ela.
— Como ele está conseguindo curar a retentora a essa distância? Não consigo entender! perguntou a líder.
— Ele está usando a água da chuva como catalisador da magia, senhora. Nunca vi alguém fazer isso! respondeu a maga.
— Isso lá é uma coisa simples para você? Como explicar isso? retrucou a líder.
— Não sei o que dizer, senhora, só… não sei o que dizer. Tudo o que posso dizer agora é que sua mana deve estar acabando! disse a maga.
Isso era um alívio para a líder. As perdas foram enormes, e, se continuassem assim, poderiam ser irreversíveis. Matar a princesa indefesa depois seria fácil.
— Então, voltemos à formação de ataque, foquem apenas na retentora, o mago irá se exaurir tentando curá-la! ordenou a líder.
O pequeno exército entrou em modo de ataque total, com foco na vida de Luna. Flechas e agora magias voavam em sua direção antes que as guerreiras se chocassem contra ela.
Sorín curou o mais rápido que conseguiu, e, mesmo encurtando o encantamento, ainda não era suficiente.
Sua frustração só aumentava a cada flechada ou golpe que Luna recebia. Seus gritos de dor atingiam seu coração como estacas. Era a primeira pessoa que tratara Sorín como um ser humano e não como um objeto.
E essa pessoa estava sendo tirada de seu mundo por entre seus dedos.
Sorín se lembrou de como fora difícil sua vida até ali. Sabia que, se não tivesse se esforçado para controlar seus círculos mágicos sozinho ou se, mesmo com o desdém das pistilos de Wiccaria, não tivesse aprendido a falar a língua do dragão com seu velho dicionário, ele não teria sido capaz de mantê-la viva até ali.
Mas ele queria, com todo o seu ser, saber uma magia que pudesse acabar com todas as pessoas que a feriam.
Quando aprendera a invocar o nome de Magiana para realizar magia de cura, percebera que a deusa olhara para ele pelo menos uma vez em sua vida. E ele pedia, naquele momento, que ela o olhasse novamente.
Lembrou-se de um momento, ainda garoto, em dias de tempestade, quando um velho estame que cuidava das crianças os levava para o abrigo. Para protegê-los do frio e da chuva, ele os enrolava em cobertores e dizia palavras de conforto para acalmar os corações dos pequenos estames ali presentes. Sorín recordou que nunca tivera medo da chuva, por mais forte que fosse ou mais barulhenta que fosse a tempestade.
As palavras na língua do dragão pareciam querer sair de sua boca, e Sorín voltou para onde estava, em frente à poderosa guerreira Luna, que arriscava sua vida para proteger sua rainha e a ele também.
Sorín não conseguiu mais segurar suas palavras. Elas pareciam vir do mais profundo de seu coração, e, por mais que o gasto de magia dessas palavras provavelmente o deixasse sem mana, ele deixou o que aconteceria nas mãos dos deuses.
As palavras começaram como um sussurro, até se tornarem um canto melancólico para quem ouvia.
— Magiana, a mágia istennője, a misztikusok hölgye, eső vize, életem vihara, ó, mennyország fénye, villámlás, szívem lángja! Üdvözlégy a szent, sötétségben fényem, szent mennydörgésben add nekem isteni dühödet, égesd el az ellenséget varázslatos csillagod alatt! cantou Sorín.
— Parem aquela magia! gritou a maga de suporte.
— Isso é diferente, eu não sei o que é! continuou ela.
— Não parem, não deem atenção ao estame! gritou a líder com convicção.
— Ele é só um inútil, foquem na retentora! ordenou ela.
Mesmo a contragosto, a maga voltou sua atenção para Luna novamente.
Os ferimentos continuaram por mais algum tempo. O canto do estame começou a ressoar em sua cabeça, e ela sentiu algo estranho vindo do céu.
Uma guerreira que atacava Luna pelo flanco direito foi atingida por um raio.
O estalo deixou as guerreiras ao redor perplexas.
— Isso acontece? perguntavam-se umas às outras.
De fato, era um infortúnio, a maga tinha certeza. Não era obra do estame, pois apenas um mago de sexto círculo seria capaz de criar um raio, ainda mais um que matasse na hora, como foi o caso.
Porém, outro raio caiu ao redor, atingindo outra guerreira. Um após outro, dezenas de raios caíram do céu.
— Impossível! gritavam, aos prantos.
A maga de suporte criou uma barreira de pedra para proteger ela e a líder dos raios que caíam cada vez mais rápido.
— Como ele está fazendo isso? perguntou a líder, agarrando a maga pelo colarinho de seu uniforme.
— Não tenho ideia, senhora, isso é praticamente impossível! respondeu a maga.
— De novo com isso? Se não fosse possível, não estaria acontecendo, não é mesmo? retrucou a líder.
A maga olhou por um instante o céu e pôde ver um raio vindo de muito longe, sendo trazido até elas pelas nuvens e lufadas que caíam sem cessar.
— Ele está controlando as nuvens de chuva, não os raios! disse ela.
— Matem o estame! gritou a líder, porém as que ainda restavam estavam sendo golpeadas por Luna, que, mesmo com sua espada transformada em algo semelhante a um porrete, de tão amassada, ainda conseguia cortar guerreiras ao meio por pura força bruta.
A líder viu que a batalha estava quase perdida, graças ao estame, erroneamente ignorado.
Ela correu em meio aos raios para eliminar Luna. Se ela morresse, seria uma coisa a menos. Era um pensamento simples, nem por isso errado.
Ela conseguiu trocar alguns golpes com Luna, fortemente debilitada, mas foi atingida por um raio e finalizada por Luna com diversos golpes em sua cabeça.
A maga abandonou sua posição e pôs-se a correr, mas os raios, agora esparsos, a fulminaram sem hesitar.
Sorín caiu de joelhos, sua mana mal dava para girar seus círculos. Ele não sabia se havia mais alguém para atacar, e Luna se encontrava em posição de combate em meio à chuva e à montanha de corpos.
Ele tinha medo de se aproximar, lembrando-se do aviso anterior dela.
Olhou ao redor para ver se conseguia encontrar alguém. Seu desespero era quase audível, como se a chuva gritasse, fazendo-o tremer.
Luna finalmente caiu no chão lamacento, com as feridas sangrando muito. Sorín não tinha mais mana para curá-la.
Desejou que Magiana o abençoasse novamente, mas, por algum motivo, sabia que isso não era possível.
Ele se arrastou até Luna, pegando-a nos braços e colocando-a com a cabeça em seu colo.
Ela reclamou da movimentação com uma expressão de dor, mas, quando ele parou de movê-la, ela se puxou para perto dele. Luna sabia que não havia mais ninguém que pudesse fazer mal aos dois, à sua protegida e ao estame com quem passara a tarde conversando. Se pudesse escolher, queria morrer em seus braços. Olhou ao redor e viu o chão cheio de corpos, alguns ela sabia que eram obra dela, outros chamuscados, como se o inferno tivesse caído sobre eles.
Olhando para cima, viu o rosto do belo estame que conhecera horas atrás. Seu rosto estava abatido; ele havia chorado, não, ele ainda estava chorando.
— Lutamos bem, não é? Parece que você não é só um rostinho bonito, afinal! disse Luna.
Luna riu um pouco antes de fazer uma careta de dor pelo esforço de rir.
— Isso não é hora para brincadeiras, senhorita Luna! gritou Sorín, enquanto chorava, apertando a mão de Luna.
Nimue correu pela chuva quando viu os dois em meio aos corpos, uns pela metade, outros queimados de uma maneira que ela poucas vezes presenciara. Era uma visão horrível e incrível ao mesmo tempo. Um exército fora derrotado por duas pessoas naquela noite.
Que tipo de magia usaram? Relâmpagos só poderiam ser usados por magos de sexto círculo, no mínimo. Será que o estame é um dupla-elementar? Fogo e água, talvez, mas isso não explicava como os corpos estavam carbonizados.
Ela escutou o choro de Sorín e correu em direção a eles. Viu o estado lamentável dos dois. Luna estava claramente em seus últimos momentos.
— Luna! Sorín, por que não está curando-a? gritou Nimue.
Ela percebeu que o estame estava totalmente sem magia. As lágrimas escorreram pelo rosto da princesa.
Ela se perguntou o porquê disso. Um mago capaz de tudo aquilo saberia como recuperar sua mana.
Será que ele não recebeu educação formal? Isso seria irônico para um país que se diz guiado pelo conhecimento, como Wiccaria.
Nimue deixou essas reflexões para depois.
Ela se apressou em erguer sua saia, o que causou estranheza em Sorín, que olhou de relance. Por baixo das saias, a princesa, claro, estava sem calcinha, para variar.
Sorín virou o rosto rapidamente. Ela tirou uma cinta de couro que estava presa em sua coxa esquerda.
— Princesa, não ouse, isto é para sua segurança! sussurrou Luna, o mais alto que conseguiu.
Aquelas poções eram as últimas opções de cura que a futura rainha tinha consigo, já que não conseguia usar magias de cura.
— Não seja tola, se você morrer, quem vai me proteger? disse Nimue.
Nimue sabia que, se houvesse mais alguém por perto, Luna já a teria eliminado, mas quis falar mesmo assim. Também sabia que uma poção de cura para Luna agora seria inútil.
Nimue pegou, entre as aberturas, um pequeno frasco de cor azulada e ofereceu a Sorín. Ele notou que a magia rodeava sutilmente o frasco.
— Beba logo, estame, isto vai recuperar sua magia! ordenou Nimue.
Ao beber o frasco, o líquido de gosto metálico, como sangue, desceu por sua garganta. Sorín sentiu sua magia emergir de seu corpo, como se fosse uma febre.
Imediatamente, ele começou a invocar a magia de cura, impondo as mãos no peito de Luna. Devido à quantidade de ferimentos, o processo de cura demorou um bom tempo.
E, como se os céus soubessem que a batalha havia terminado, a chuva começou a parar.
Sorín tinha certeza de que a chuva fora uma providência dos deuses.
Quando estava bem o suficiente, Luna sentou-se ao lado de sua protegida, e o estame que a curara deitou-se em seus braços. Sorín estava exausto. A cura de Luna consumira a mana que a poção da princesa recuperara.
Após um longo tempo de espera, pôde-se ouvir ao longe o trotar de cavalos em rápido galope.
A corneta que tocaram ao se aproximar acalmou o coração de Luna e Nimue.
Era a guarda vermelha combatente da princesa da espada, e logo seus cavalos podiam ser vistos vindo da cidade.
— Vasculhem e protejam o perímetro! Prendam qualquer um que respirar! Quero saber o que aconteceu! gritou a princesa da espada.
A princesa da espada gritou com uma força ímpar. Seu cavalo negro realçava a cor vermelha de sua armadura, cabelos e olhos. Sua presença era forte e difícil de ignorar.
— Haul! Entendido, comandante! responderam as cavaleiras.
As cavaleiras se separaram em frente à mansão, cercando todo o terreno. Lysandra pulou de seu cavalo, que protestou pelo solavanco do salto. Como estava de armadura, seu peso deveria ser grande, pois, quando aterrissou perto de Nimue, o chão ao redor estremeceu. A princesa da magia deu um passo para trás, mas logo foi puxada por Lysandra, que a abraçou sem rodeios.
— Por Cicélia, Nimue, que bom que está segura! exclamou Lysandra.
Nimue tentou escapar do abraço de urso dado por Lysandra.

Lysandra Tyrfang, a princesa da espada
— Graças à minha retentora e àquele estame desmaiado ali! Ei, me solta, vai acabar me machucando com essa armadura! protestou Nimue.
Percebendo que poderia realmente machucá-la, Lysandra a soltou, não sem antes lhe dar um beijo na testa, o que deixou Nimue desconcertada.
Ao contrário de Nimue, Lysandra a amava desde que passaram uma noite juntas durante a adolescência. O que era apenas uma noite para a princesa da magia passou a ser um marco para a princesa da espada.
Apesar de conhecer a vida promíscua de sua futura esposa, Lysandra tinha certeza de que conseguiria chegar ao seu coração. E que Nimue tinha a capacidade de ser uma ótima rainha para o reino.
— Orei a Logarian pela sua saúde assim que minha rastreadora sentiu algo estranho nas redondezas! Tem ideia de quem teve a ideia de atacar minha futura esposa? perguntou Lysandra.
— Lady Penelope me envenenou com alguma substância antimágica! respondeu Nimue.
— Céus, você está bem? Curandeiras, ao meu sinal! gritou Lysandra.
Nimue ergueu as mãos, como se isso não importasse.
— Estou bem, já consigo girar discretamente meus círculos! disse ela.
— Mas tem certeza? Lady Penelope é alguém do conselho do ramo mágico, não estou duvidando, mas precisamos de provas! disse Lysandra.
— Desculpe-me por me intrometer, princesa Lysandra! interrompeu Luna, de joelhos, com as roupas rasgadas em trapos e sangue seco por todos os lados.
A princesa da espada pôde ver que sua esposa só estava viva porque grande parte dos corpos ao redor era obra dela, o que gerou um respeito imediato pela retentora que só vira algumas vezes na corte.
— Continue, guerreira! assentiu Lysandra.
A princesa da espada tinha uma força misturada com beleza que raramente era vista em qualquer lugar do mundo.
— A princesa Nimue ainda tem a caixa de vinhos que Lady Penelope lhe deu. Além disso, a negligência com a proteção da mansão deveria ser investigada! disse Luna.
— Muito obrigada, Luna, não é? perguntou Lysandra.
— Sim, majestade! respondeu Luna.
— Já mandei prender todas as pistilos que ainda estiverem vivas. Isso será investigado antes de arrancarmos a cabeça de Lady Penelope! disse Lysandra.
— Fico feliz em ouvir isso, majestade. Obrigada por me ouvir! agradeceu Luna.
— Eu que lhe devo gratidão, retentora, e a um estame também? Não vejo como um estame possa ter ajudado em algo, mas tudo bem! disse Lysandra.
— Sim, o senhor Sorín veio de Wiccaria. Ele trabalha aqui como jardineiro e me ajudou a derrotar as mercenárias. É um mago esplêndido! afirmou Luna.
Sorín, que há pouco se recompusera, ainda estava cansado pela exaustão mágica, mas estava bem.
Ele se ajoelhou ao lado de Luna assim que escutou seu nome. Lysandra notou a beleza do rapaz na hora e olhou para Nimue.
— Este estame deveria estar aqui? perguntou Lysandra, a pergunta era destinada a Nimue, já que a rainha da magia é responsável pelo cuidado dos estames do reino.
— Sinceramente, não sei o que minha mãe pensa que está fazendo, deixando um estame desses aqui. Seria mais útil na capital! respondeu Nimue.
— Pensei a mesma coisa. Um estame com quatro círculos é muito raro em nosso mundo. E sua beleza é decente, vai trazer belas crianças para o reino! disse Lysandra.
Um dia inteiro se passou. As serviçais e funcionárias da casa foram interrogadas, uma boticária real foi chamada para avaliar o vinho dado pela anciã do conselho, e os corpos que podiam ser identificados foram enviados à guarda local para verificar antecedentes.
Ao cair da noite, as princesas já tinham tudo o que precisavam para julgar Lady Penelope como traidora.
Luna descansava em uma rede perto do pomar, já que obtivera folga de seus serviços por aquele dia. Sorín levou-lhe um chá de maçã recém-fervido.
Luna se surpreendeu com a gentileza dele. Após a chegada de Lysandra, ele se mantivera afastado a maior parte do tempo.
— A noite está muito bonita hoje, não é, senhorita Luna? perguntou Sorín.
— Com certeza, as noites de verão nas montanhas são muito bonitas! respondeu Luna.
De fato, era uma visão magnífica. A grande lua geralmente fica com o dobro do tamanho nessa época do ano, e, nas montanhas, essa sensação é ainda maior.
Luna recebeu a caneca de pedra com o chá ainda fumegante e logo começou a bebê-lo.
— Espere esfriar um pouco, está muito quente! disse Sorín.
Luna não esperou. Seus octogramas fortaleciam seu corpo, e, até certo ponto, ela podia lidar com um pouco de calor. Poderia ter esperado esfriar, mas quis impressionar Sorín.
Sorín riu quando ela terminou de dar um grande gole no chá quente. Era incrível para ele que ela estivesse querendo demonstrar força, quando mostrara uma força avassaladora na noite anterior. Isso só evidenciava a pureza de seu pensamento. Qualquer outra, na situação em que os dois estavam, já o teria levado ao meio do mato e forçado algo para se satisfazer.
Mas Luna não faria isso. Ela o tratara como um ser humano, e isso era algo que ele nunca esqueceria.
— Já pensou em ser aventureira? perguntou Luna de repente, olhando para o céu negro cheio de estrelas, com a grande lua como testemunha.
— Nem sabia que estames podem ser aventureiros em Amicítia! Acha que nos daríamos bem como aventureiros? respondeu Sorín.
— Por que acha que eu seria sua parceira? perguntou Luna.
— Bom, formamos um bom time ontem, achei que tivesse tocado no assunto por causa disso! disse Sorín.
Luna riu, pois estava apenas elucubrando sobre o assunto, mas o que Sorín disse era correto: eles fizeram o inimaginável na noite anterior.
— E daí, depois casaríamos e teríamos três filhos? brincou Luna, tentando deixar Sorín sem jeito.
— Poderíamos, se os deuses forem bondosos conosco! respondeu Sorín.
Luna ficou vermelha como um pimentão em segundos. Isso era flertar ou era na cara? Ela se perguntava. Sua cabeça fazia planos e conjecturas estranhas.
— A propósito, a maçã que usei é daquela macieira! disse Sorín.
Luna gargalhou alto.
— Incrível, é muito saboroso, e pensar que, se não fosse por você, esse chá nunca seria bebido! disse Luna.
Os dois conversaram noite adentro. Planos e histórias foram trocados, assim como beijos e abraços. Ainda que nada demais tivesse acontecido, essa noite foi tratada por ambos como algo a guardar na memória, mesmo que nunca se vissem novamente.
No dia seguinte, com tudo preparado, as carruagens partiram rumo à capital. Porém, no início da viagem, foram paradas pelo povo, que saudava as futuras rainhas e os heróis que salvaram a princesa da magia da morte. A história havia vazado de alguma maneira e tomara desfechos inesperados.
— Que os deuses abençoem a Berserker da Morte e o Mago Encantador de Tempestades, que os deuses abençoem os salvadores da princesa! gritavam as multidões.
Os gritos da multidão duraram longos minutos. Luna e Sorín eram tratados como heróis de guerra.
Os apelidos dados aos dois eram vergonhosos. Luna e Sorín atrasaram o comboio por meia hora, mesmo sem querer.
Era incomum um estame receber prestígio por se colocar em perigo, mas Nimue não se importou. Isso recairia sobre o reinado de sua mãe, que, se estivesse fazendo um bom trabalho, não teria um acontecimento vergonhoso desses na história de seu reinado.
O mais importante agora era chegar à capital e capturar Lady Penelope antes de sua fuga ou de alguma estratégia inesperada.
Os acontecimentos desses dias são contados até hoje, entre bardos, fofocas da corte e comentários diários dos plebeus do reino.
Lady Penelope Vaiz foi decapitada em praça pública, junto com uma leva de traidores que queriam outra rainha da magia. Desde funcionários de alto escalão do reino até plebeus que uniram forças para isso. A família Vaiz perdeu seus direitos reais, e suas terras foram dadas a uma família de origem humilde chamada Hayard.
Sorín e Luna receberam louvores como heróis e passaram a trabalhar como aventureiros nos labirintos da capital.
Porém, a rainha Nimue nunca esqueceu seu afeto por Luna, e isso acabou sendo refletido em Sorín, que, como estame, sempre estava à mercê das vontades da rainha.
Com o tempo, Sorín e Luna realmente se apaixonaram e casaram-se em uma cerimônia simples na capital, mas a perseguição da rainha Nimue não parou. Sorín era escalado para orgias e encontros fora dos dias de seu trabalho nos labirintos, além dos constantes avanços de Nimue para com Luna e os convites para que ela se tornasse uma de suas concubinas no harém real.
Quando ficou insuportável, Luna e Sorín saíram de seu grupo de aventureiros, largaram tudo e foram morar no interior de Amicítia, em um vilarejo chamado Chaj, que fica no extremo leste do reino.
Nesse vilarejo, Luna cuidava dos labirintos e da segurança, enquanto Sorín, além de ajudar Luna, fazia a irrigação de plantações e auxiliava a apotecária local a cuidar dos habitantes.
É uma vida tranquila e pacata, com pouco dinheiro e muito trabalho, mas cheia de alegria e liberdade.
Por mais estranho que fosse, os avanços da rainha nunca chegaram a Chaj. Luna imaginava que sua partida pudesse ter tocado o bom senso de Nimue ou algo assim.
Lá, tiveram seu primeiro filho. Sim, um estame e, por incrível que pareça, um mago quadra-elementar, algo que não acontecia desde os tempos dos heróis.
Hoje, por mais irônico que seja, possuem três filhos, como Luna havia pensado anteriormente: um estame e duas pistilos, uma pequena maga e uma pequena guerreira.
O legado desses heróis moldou o reino como ele é hoje, o reino mais poderoso do mundo atual.