Na bizarra região do rio Yharnam, onde havia uma enorme concentração de energia espiritual devido aos inúmeros espíritos que se formavam a partir dos cadáveres lançados às águas do topo da montanha de Hemwick, eu esperava encontrar apenas decadência e lamento.
A saturação espiritual era tão intensa que atraía toda sorte a sorte dos seres vivos. Ainda assim, contra toda lógica conhecida, havia ali uma vila alegre e viva, erguida nos arredores de uma floresta gigantesca, território de uma criatura temível cuja natureza eu então desconhecia.
Encontrar aquela vila é, por si só, uma surpresa. Mais surpreendente ainda era o seu estado.
Em todos os lugares por onde passei, onde a espiritualidade se acumulava em tal grau por causa de espíritos errantes, o ar tornava-se pesado e melancólico, como se os vivos compartilhassem, mesmo sem saber, a infelicidade dos mortos.
Ali, porém, o ambiente era leve. Quase festivo.
Antes mesmo de chegar a um quilômetro de distância, eu já podia ouvir risadas. Gargalhadas francas, despreocupadas, que pareciam deslocadas daquele solo amaldiçoado.
O vilarejo inteiro recebeu-me com uma alegria sincera, como se não vissem um forasteiro havia décadas. Ainda assim, acolheram-me como se minha presença fosse esperada.
Uma das coisas que mais me intrigou foi o número de gatos.
Havia, no mínimo, uma centena deles. Felinos atentos, de olhar agudo e inteligência inquietante, espalhados pelas ruas, telhados e soleiras, observando tudo e todos.
Perguntei ao ancião da vila a razão de tantos gatos, e ele respondeu com uma devoção serena, quase reverente:
— Esses gatos são nossos guardiões, protetores da floresta que nos cerca. Eles são a prole direta de nosso Senhor, o Deus Gato, Ulthar.
Decidi ficar mais alguns dias na vila para estudar mais sobre esse deus gato, pois nunca havia ouvido falar de uma divindade tão intrigante quanto Ele.
“Um deus gato? Que… estranho. Poderia ser deus de tantas coisas, por que gatos?” Esse foi um de meus pensamentos.
Minha primeira noite foi um pouco turbulenta, principalmente porque minha cama estava infestada de pelos de gato, o que atiçou meu nariz.
Por algum motivo, quando comecei a espirrar, muitos gatos começaram a entrar em meu quarto, fazendo com que eu espirrasse ainda mais. Juro que vi alguns deles rindo da minha cara.
São realmente animais brincalhões. Mesmo eu retirando-os de minha cama, eles voltavam para se esfregar em meu rosto.
Na noite seguinte, soube que ocorreria um culto a Ulthar. O ancião convidou-me a participar.
O ritual não ocorreu na aldeia, mas no coração da floresta. Ali encontrei algo peculiar: uma réplica em miniatura de um templo egípcio, semelhante àqueles erguidos aos deuses do deserto. Media cerca de sessenta centímetros em todas as direções, perfeito para um gato.
Cortinas ocultavam a entrada, impedindo os fiéis de verem seu deus. O ancião nos disse que Ulthar, por ser uma divindade, não pode ser visto pelos mortais, pois isso seria perigoso para nossa sanidade. Por algum motivo, sinto que não havia nada dentro do templo, mesmo percebendo uma autoridade divina vindo de algum lugar.
O culto foi simples. Não houve êxtase nem sacrifícios. Apenas devoção silenciosa. Ao final do culto, o ancião aproximou-se e disse:
— O Grande Ulthar deseja falar com o senhor.
Achei estranho. Após refletir, compreendi que Ulthar não permitia forasteiros por algum motivo Não desejava que sua fé se espalhasse. Ainda assim, permitiu minha entrada.
Talvez eu o tivesse divertido.
Quando todos se foram, ajoelhei-me diante do templo. Logo, gatos de todas as formas e cores surgiram: gatos marrons, laranjas, brancos, acinzentados e pretos; gatos peludos e sem pelos; gatos gordos e magros; filhotes, adultos e velhos. Havia todos os tipos.
Eles se aproximaram de mim e formaram um círculo ao meu redor. Observavam-me como predadores pacientes.
Então, uma voz ecoou de todas as direções:
— Você é o Bartholomeu, não é?
Quando recobrei o fôlego, percebi o impossível.
Todos os gatos falavam ao mesmo tempo.
— Sim — respondi, engolindo em seco enquanto dava um sorriso nervoso.
Eles sorriram. Outros gatos trouxeram uma pequena mesa, um bule e uma xícara. Pousaram-na diante de mim.
— Beba.
Obedeci. Ao mesmo tempo, um gato bebeu comigo. Todos os outros expressaram a mesma satisfação.
— Você… é todos esses gatos?
Um deles pareceu surpreso. Outro falou atrás de mim:
— Você é mais esperto do que dizem. Eu sou todos os gatos.
Ulthar enfatizou o “todos” por algum motivo que desconhecia. Decidi ignorar por enquanto e perguntar algo sobre o qual estava mais curioso:
— Por que não permite forasteiros? E por que me deixou entrar?
Algo me observava por trás enquanto um gato respondia à minha frente:
— É apenas um experimento. Não desejo interferência. Permiti você aqui porque o achei interessante.
Conversamos por longo tempo. Foi estranho dialogar com um ser que falava de todas as direções; era estranho olhar para um gato que acabara de falar enquanto outro falava atrás de mim. Sinto que Ulthar se divertiu muito com minha confusão.
Ulthar sugeriu que eu escrevesse sobre minhas aventuras e as publicasse, para que ele pudesse lê-las.
Questionei como saberia quando eu publicaria algo tão limitado a pequenas cidades.
Ele riu.
— Você não entendeu. Eu não sou apenas esses gatos. Eu sou todos os gatos.
Nesse instante, compreendi o que ele quis enfatizar anteriormente: Ulthar era “todos” os gatos da Terra.
Desde os adorados no Egito Antigo, os mimados por senhoras solitárias, até os abandonados e maltratados.
Todos eram Ulthar, e ele era todos eles.
Ele explicou, de forma vaga, que muitos deuses conhecidos eram seres vindos de além do nosso universo. Alguns devoravam mundos, outros observavam e poucos se divertiam.
Ulthar divertia-se conosco.
Ele me disse que aqueles que vinham do espaço eram os mais poderosos e também os mais perigosos, já que a segurança de toda a humanidade dependia apenas de sermos interessantes o suficiente para sermos mantidos vivos por mais tempo… ou não.
Eu perguntei, assustado, porém com um sorriso atrevido:
— Se eles são os mais perigosos e não devo confiar neles, por que devo confiar em você?
Todos os gatos pararam.
Acredito que não apenas os que estavam ao meu redor, mas todos os do mundo inteiro.
Eles sorriram e disseram em uníssono:
— E quem disse que deve?
Nesse momento, meu corpo inteiro se arrepiou. Eu suava tanto que parecia ter corrido uma maratona. A presença daqueles gatos ao meu redor, e daqueles que me observavam de longe, na floresta, era avassaladora.
Muito mais assustadora do que qualquer coisa que já presenciei.
Porém, por conta de minha enorme sorte e da benevolência de Ulthar, eles apenas riram da minha cara e disse:
— Eu sou de uma espécie que unifica a mente de seres vivos com o objetivo de se tornar a única mente do universo.
— Eu poderia destruir todos vocês em um instante, mas não desejo. Não neste momento.
— Por isso, deve ao menos entender isto: vocês não são nada. Você não é nada. Está conversando comigo apenas porque é interessante, ou seja, se quer se manter vivo.
— Seja mais interessante.
Então eu entendi o quão insignificantes nós somos.
Somos insignificantes. Tão insignificantes que chega a ser cômico lembrar que já acreditamos ser o centro de tudo.
Na verdade, não somos nada além de poeira diante de seres tão grandiosos quanto Ulthar.
Somos formigas que têm suas vidas nas mãos de seres muito maiores do que todos nós.
Desde então, escrevo.
Não sei se faço isso por vontade própria ou porque, em algum lugar, um gato lê cada palavra e decide se ainda sou interessante.