Eu estava dirigindo rumo a St. Beaumont para cuidar do processo de um cliente; tínhamos uma audiência na segunda-feira, aproximadamente às dez horas da manhã, por isso saí de casa no domingo cedo. Era comum, às vezes, ter que fazer esse tipo de viagem, mas não o suficiente para eu me habituar. O sol reluzia no capô do meu carro e a minha esposa me acompanhava; ela reclamava — e como reclamava. Afinal, seria uma viagem longa, de aproximadamente seis horas, e ela não costumava me acompanhar.
— Amor, quero fazer xixi — ela falou, com um tom de timidez na voz.
— Relaxa, querida. Daqui a uns quatro quilômetros tem uma venda.
— Amor, você já falou isso faz uns trinta minutos! — retrucou, agora com um tom de indignação.
— Mas, querida, faz meia hora que saímos de Kleinsburg.
— Exato! E faz meia hora que eu estou apertada!
Movi a minha mão e aumentei o rádio para abafar as reclamações dela. Não que eu não as entendesse, afinal ela estava apertada, mas o que custava ela ter usado o banheiro antes de sair de casa?
Ela, indignada, esticou o braço e desligou o rádio de forma brusca.
— Vai ouvir essa merda também não! — disparou, fervorosa.
Senti o ar preenchendo meu pulmão profundamente.
— ...e agora tenho uma bomba fantástica para vocês, meus queridos ouvintes! — a voz do locutor ecoava, animada demais para aquele horário. — Soem os tambores!
— Tandundum, tandundum, tandundum! — o rádio simulava o som percussivo.
— O casal dos sonhos se separou! Isso mesmo, Alice e Jennifer se separaram após o escândalo no set de gravações…
— Deus, só baboseira — resmunguei, enquanto desligava o rádio novamente.
— Hahaha, ah não, amor! — Eu comecei a rir dela.
Nesse mesmo momento, começou a cair uma garoa fina e, instantes após a brincadeira, chegamos a uma bifurcação.
— É... amor, você sabe qual estrada eu pego? — perguntei a ela, sentindo uma ponta de dúvida.
— Não, amor. Mas você não sabe? Você já não viajou para Beaumont outras vezes? — ela indagou, estranhando a minha pergunta.
— Sim, querida, mas... eu não me lembro dessa bifurcação — respondi, enquanto tentava vasculhar a memória. Minha mente, no entanto, parecia vaga,estranhamente vaga..
— Vamos pela direita, então, ué — ela sugeriu, como se fosse óbvio.
— Por que a direita?
— Simples: Deus odeia canhotos, então vamos pela direita.
Quanto mais eu avançava na estrada, mais a floresta se fechava sobre nós e a garoa se transformava em uma chuva pesada. Eu ainda me encontrava preso ao fato de não lembrar daquela bifurcação, e um leve calafrio subia pela minha espinha.
Minha esposa tinha voltado a dormir, então decidi ligar o rádio novamente para me fazer companhia.
— ...e agora, o resultado do jogo dos Sullivan…
Senti uma estranheza imediata, um como se o lugar me puxasse para frente, apesar do incomodo crescente. O estabelecimento tinha um estacionamento pequeno, ocupado por apenas alguns poucos carros cobertos pela lama e pela chuva.
Acordei minha esposa e decidi entrar. Eu precisava de informações, e ela, desesperadamente, do banheiro.
Estacionei o carro na segunda vaga, logo ao lado da porta principal.
— Como é bom esticar as pernas — comentei com minha esposa, sentindo o peso da viagem nos ombros.
— Vamos rápido, estou quase fazendo xixi na roupa! — ela disparou, ignorando o meu cansaço.
Ela saltou do carro e abriu a porta da conveniência com pressa. O sino acima da entrada tocou, soltando um som metálico e estridente. No balcão ao lado da porta, estava um homem de meia-idade, vestindo as roupas de um típico comerciante local.
— Bem-vindos — a voz dele soava estranhamente calma e serena.
Mas um calafrio percorreu a minha espinha rapidamente. Antes que eu pudesse processar a recepção, um cheiro putrefato permeou minhas narinas, pesado e denso.
— Não se incomode com o cheiro, querido cliente — o homem disse, sem que eu precisasse abrir a boca. — Um dos nossos freezers do fundo estragou recentemente e estamos aguardando o chamado ser respondido.
— Aqui. Caso alguém denuncie o estabelecimento e você precise de um advogado... — foi um gesto automático.
— Obrigado, senhor — ele respondeu, sem sequer olhar para o papel.
— Nada... deve ser a estrada, me deixou cansado — respondi, e no instante em que as palavras saíram da minha boca, a tensão simplesmente evaporou.
O calafrio sumiu. Eu estava me sentindo bem, como de costume, como se o grito e o cheiro nunca tivessem existido.
— Essa estrada é cansativa mesmo — o homem concordou, com um brilho estranho nos olhos. — Recomendo comer um bife antes de continuar a viagem.
— É que temos um fornecedor de carne muito fresca — o homem respondeu, com um sorriso que não chegava aos olhos.
— Ah, entendo.
Eu estava alegre e de estômago cheio. Paguei o vendedor e saí da venda. O dia, para minha surpresa, estava ensolarado novamente, sem sinal da tempestade de minutos atrás. Entrei em meu carro e, em cerca de cinco minutos, cheguei a Beaumont.
Por algum motivo desde este dia sinto que perdi algo importante .