A Terrível Música de Anahmitas, Carta N#1
Essa é uma carta para minha mãe.
Sinto muito.
Eu não aguento mais, sinto muito, mãe, porém não vejo esperança de encontrar algo tão lindo quanto aquilo.
Desde que ouvi aquela simples, mas bela, artista de rua cantar aquilo…
A música dela era tão bela… tão perfeita e melancólica, como se fosse escrita diretamente por um deus. Sinto como se não merecesse viver em um mundo onde algo tão divino exista.
Eu não sei quem ou o que ela é, mas sinto que ela não pode ser humana. Humano algum poderia produzir algo tão perfeito. Parece que meus padrões subiram muito desde que escutei aquela melodia.
Tudo o que faço é ruim, mãe. Você é horrível, Helena é terrível, meu trabalho é insuportável, eu sou péssimo, tudo é ruim, exceto ela e sua música. Não merecemos ouvi-la, não merecemos ocupar o mesmo espaço que ela. Tudo o que nos resta é morrer e, ao menos, deixar mais lugar para que ela exista.
Desde aquele dia, tudo perdeu a cor. As ruas parecem cenários mal pintados, as pessoas falam, mas suas vozes soam ocas, sem peso algum. Até minhas próprias lembranças parecem falsas, como se eu tivesse vivido uma vida emprestada que agora foi retirada de mim. É cruel admitir isso, mas é a verdade. Aquela música mostrou algo que jamais deveria ter sido revelado, e agora viver sabendo disso dói mais do que qualquer morte poderia doer.
Antes de ouvi-la, minha vida estava boa. Não perfeita. Difícil, como sempre foi, mas boa. Eu tinha Helena, que amo muito. Tinha rotina, tinha cansaço, tinha dias iguais. Nada disso me incomodava.
Naquele dia, porém, ao atravessar o parque no caminho de casa, algo estava errado. Eu passava por ali todos os dias, sempre vendo as mesmas cenas. O cheiro habitual de lixo e tabaco, os velhos jogando xadrez, bebendo cerveja barata e lançando olhares indecentes às mulheres que passavam, os cães brigando por território.
Nada disso estava lá mãe.
O cheiro pareceu se extinguir diante de tal divindade. Os bêbados idiotas se juntaram para ouvi-la. Os cães se deitaram ao seu lado como se fossem filhotes perto de suas mães.
De longe, eu pude ouvir uma melodia excepcional, muito além de qualquer coisa que já escutei, e olha que já ouvi muitos cantores acima da média pessoalmente. A senhora sabe que Helena é muito aficionada por música.
Eu nem mesmo percebi, mas já estava lado a lado daqueles bêbados nojentos e dos cães sarnentos, ouvindo a graciosa jovem.
Não sei explicar, mas não consigo me lembrar de seu rosto. Sei apenas que era jovem, talvez em torno de vinte e cinco anos, e provavelmente muito bonita. Contudo, sua face parece ter sido apagada de minha memória. Talvez porque a música fosse tão absurdamente perfeita que minha mente não conseguiu registrar mais nada.
No momento em que ouvi aquela bela artista emitir tais notas com sua rabeca, eu simplesmente paralisei; eu praticamente não consegui escutar a música com meus ouvidos. Era como se ela tivesse entrado não em meus ouvidos, mas sim em minha alma…
Aquela música se infiltrou em minha alma e apagou tudo o que era imperfeito; cada mancha nela foi apagada, restando apenas a perfeição.
Porém, somos humanos, mãe, e humanos não têm nada além de imperfeição. Nada em nós é perfeito, então não sobrou nada em mim, como se tudo em mim tivesse sido apagado ou sugado por alguma feitiçaria antiga para algum abismo de maldições humanas.
Enquanto escutava, senti que as pessoas ao meu redor sentiram o mesmo. Um dos bêbados miseráveis caiu no chão em lágrimas, proferindo maldições a si mesmo e enaltecendo a jovem brilhante:
— Desgraça a mim e bênçãos à senhorita. Toque meu coração com sua música e tome minha vida para ti.
Algo inesperado aconteceu nesse momento, mãe. Esse mesmo bêbado sacou um estilete de seu bolso e rasgou a própria garganta.
Na verdade, eu nem mesmo esbocei qualquer reação naquele momento. Eu estava completamente imerso naquelas notas divinamente tocadas pela deusa da música.
A única coisa que senti naquele momento foi inveja… sim, mãe, eu sou realmente igual ao meu pai.
Porém, não sou tão desprezível quanto ele. Eu senti inveja daquele homem porque queria ter descoberto antes dele como agradecer aquela jovem.
Eu queria não ter hesitado como ele. Eu queria ter dado minha vida a ela primeiro.
Eu nem mesmo percebi quando a música cessou e a jovem desapareceu, como se tivesse sido arrebatada do mundo sem deixar vestígios.
Às vezes me pergunto se tudo aquilo não foi imaginação minha. Mas teria sido preciso beber tanto quanto, ou mais do que, o Ismael para delirar daquela forma, e ninguém bebe mais do que ele hehe…
Quando a música terminou, senti imediatamente que algo estava errado. Tudo parecia deslocado. As cores, os sons, as pessoas. Tudo, absolutamente tudo, estava feio, torto, fora do lugar, como um cenário mal montado depois que o verdadeiro espetáculo se encerra.
Ao chegar em casa, encontrei Helena ouvindo a música de seu cantor favorito, cantando junto, aos berros, como se nada tivesse acontecido no mundo.
Aquilo me encheu de raiva.
Aquela música era terrível. Simplesmente horrível. Tão ruim que meus ouvidos doíam, como se agulhas estivessem sendo enfiadas neles. Eu preferiria furar meus próprios tímpanos a suportar mais um segundo daquela coisa imunda.
Com toda a razão do mundo, pedi que ela desligasse.
Ela não ouviu de primeira. Quando finalmente percebeu, apenas abaixou o volume.
Nesse instante, minha raiva se transformou em algo pior. Mais denso. Mais quente. Confesso, mãe, que eu poderia ter agido de outra forma. Mas não agi.
Peguei a caixa de som e a arremessei com toda a força contra o chão. O aparelho se despedaçou em um amontoado de estilhaços inúteis.
A primeira reação de Helena foi o choque. Em seguida, ela gritou com toda a força dos pulmões:
— Mas que porra é essa?!
Brigamos feio. Ela dizia que eu não tinha o direito de fazer aquilo, e talvez estivesse certa. Mas como eu poderia ficar parado e permitir que aquela atrocidade profanasse o silêncio depois do que eu ouvi?
Depois da perfeição, mãe, todo som humano é uma ofensa.
Após tudo isso, ela saiu de casa, pegou algumas roupas e disse que iria dormir na casa de uma amiga. Hoje já faz dois dias que não falo com ela; acho que ela está ainda mais brava por eu não ter falado com ela.
Tudo bem, melhor assim… eu me sentiria culpado por fazer o que estou prestes a fazer se estivesse tudo bem entre mim e ela.
Agora cá estou eu, escrevendo esta carta, mamãe.
Minha última marca neste mundo. Eu decidi escrever isto antes de me entregar a Ela, porque não quero que a senhora pense que fiz algo tão terrível por algum motivo banal.
O que estou prestes a fazer é por um bem maior e para livrar minha alma de um mundo tão terrível e entregar minha vida àquela mulher.
Mesmo assim, sinto muito, mãe.
Sinto por não conseguir mostrá-la à senhora ou à Helena.
Assinado,
Afonso Filomeno