No dia 07/08/1988 eu tinha quarenta e dois anos de idade, encontrava-me na Sala 4-B, como em todas as tardes de sexta-feira no Condado. Comumente, encontrava-me vestido com roupas leves e confortáveis; nesta, excepcionalmente, eu estava bem arrumado, vestindo um paletó cor de orvalho e usando um sapato barato. Tudo bem, eu admito: até o paletó era barato. A verdade era que, mesmo sendo professor por longos dezesseis anos, eu não recebia tão bem assim.
Naquele dia, eu tinha um encontro com uma colega de trabalho; encontrávamo-nos casualmente havia alguns anos. Levantei o pulso e vi o ponteiro do relógio marcando quinze para as cinco da tarde.
— A aula está encerrada, turma. Até semana que vem!
Como assim? Era quinze para as cinco quando saí da sala. Mas, espera... se fossem quinze para as nove, não deveria haver alunos aqui, afinal não temos aula no turno da noite. Então, recordei-me de que, no caminho do meu prédio até o portão, não vi ninguém.
— Puta que pariu, e o meu encontro?
Ela com certeza vai pensar que dei o cano. Eu devia estar tão cansado que devo ter apagado no caminho; espero que ela entenda. Caminhei até o outro lado da rua, próximo a uma árvore, retirei a chave do carro do bolso e o abri.
— Merda!
Estava puto com o fracasso do encontro. Peguei uma garrafa de vinho que estava no banco do passageiro, junto de uma fita da Houston de que a Márcia gostava, e coloquei-as no banco traseiro. Abri o porta-luvas, de onde peguei um maço de Lucky Strike, e acendi o cigarro enquanto dava partida no carro.
Estava frustrado com o fracasso do encontro, mas não pela forma como a Márcia se sentiria, e sim porque, depois de tanto tempo, aquilo me traria um alívio. Sabe, não é fácil para um homem de quarenta e dois anos ter uma oportunidade de afogar o ganso. Dei um trago no cigarro enquanto dirigia e liguei o rádio para ouvir as notícias.
— Olá, moradores de Saint Lake! Quem está falando com vocês hoje é... isso mesmo, sou eu, Bruno, o seu narrador favorito!
— E eu, a sua narradora, Vicke!
— E aí, Bruno? As férias de verão estão chegando! Falta só uma semana para a galera se divertir!
Desliguei o rádio na hora; não aguentava ficar ouvindo esses jovens com suas besteiras. Após quinze minutos dirigindo, cheguei à minha casa. Antes de entrar, coloquei a minha aliança, que estava no bolso, e fumei mais um cigarro.
Não me entendam mal: não é que eu não amo a minha mulher. Eu a amo. Mas, bem, as coisas não andam muito boas há um tempo; ela perdeu o pai há mais ou menos dois anos. E a Márcia... a Márcia é uma pessoa divertida e também casada.
— Querida, cheguei! Olha o que eu trouxe para você, meu amor.
Bem, eu não estava mentindo, até porque de fato "apaguei" e, infelizmente, o encontro foi para o ralo.
Acabei aceitando a sugestão de Laura. Coloquei uma fita do Elvis para tocar no rádio e sentamos na nossa pequena varanda enquanto bebíamos algumas taças de vinho...
— Ah, perdão. No dia 08/08/1988. No caso, a manhã seguinte após o que já lhe falei.
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Acordei na minha cama, sem roupas, abraçado à minha linda esposa. A noite anterior tinha sido muito boa. As crianças ainda dormiam em seu quarto, como anjos. Decidi aproveitar esse tempo para dar uma volta. Coloquei uma camiseta leve, bermuda e tênis, e saí para correr; dei uma volta no quarteirão.
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O detetive demonstrava sentir um desgosto profundo por mim. Ele inclinou-se para frente e cuspiu em minha cara.
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A luz da sala escura onde se encontravam piscou e o silêncio ensurdecedor tomou conta da sala.
— Eu implorava por socorro e o mais absurdo era que eu nem sabia por que estava correndo. E então... eu subitamente acordei. Eram quinze para as cinco do dia 07/08. Eu estava olhando para o relógio, conferindo as horas.
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Eu suava frio e meu corpo estremecia.
— Tudo o que ocorreu foi só um devaneio? — perguntei a mim mesmo, em pensamento.
— Marcos, preparado para o encontro?
Márcia me despertou. Ela era minha amante havia algum tempo; tinha trinta e seis anos, também era casada e o marido, caminhoneiro, vivia na estrada.
— O que é que você tem? Dormiu mal esta noite?
Ao me perguntar se eu tinha dormido mal, um frio subiu pela minha espinha e um pânico semelhante àquele de quando eu corria apertou o meu peito.
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— Deve ser algum problema na fiação — indagou o detetive, embora sua voz não demonstrasse tanta certeza assim.
- O que é que você tem, Marcos? Dormiu mal esta noite?
Eu... eu estava no interrogatório agora... não, não!
Um frio subiu pela minha espinha e um pânico indescritível apertou o meu peito trêmulo. Meu primeiro instinto foi o de um animal encurralado. Eu arfava sem parar, como se estivesse correndo novamente daquele pesadelo sem fim, mesmo estando parado diante de Márcia.
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— Senhor Marcos? — indagou o detetive, sua voz cortando a névoa da minha mente.
— Aaaaarhhhhh!
Acordei de tal transe com o peito extremamente pesado. Engoli a saliva seca, sentindo o sabor de sangue na boca.
— Detetive... onde estávamos? — perguntei, a voz saindo como um sussurro quebrado. Eu sentia um pavor e um desespero vindos do fundo da minha alma.
— Pois bem — o detetive disse com uma calma cruel, enquanto um som metálico e pesado ecoava na sala. — Eu acabei de colocar o machado que você usou para cortar os membros de sua família em cima da mesa. E perguntei se o senhor vai continuar com essa fábula.
Na segunda volta no quarteirão...
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— Como assim, "segunda volta"? — indagou o detetive, com um olhar tenso e desconfiado. — O senhor não tinha dito que havia acordado às quinze para as cinco do suposto dia em que "apagou"?
— É... eu disse, mas... não me lembro. Eu dei uma segunda volta, eu sei disso! Mas me lembro de acordar também... — Minhas palavras se atropelavam.
Uma dor excruciante irrompeu em minha cabeça, como se o meu crânio estivesse sendo pressionado por mãos invisíveis.
— Ahhhhh! — Gritei, levando as mãos às têmporas.
— Admita — ordenou o detetive, com uma voz irreal, estremecedora.
O calafrio que eu sentia tornou-se um aperto asfixiante. A dor de cabeça envolveu meu corpo e minha mente se estilhaçava em uma agonia excruciante, forçando-me a um estado de consciência absoluta. Como eu cheguei aqui?
Memórias passavam como flashs: minha infância, observando as estrelas no silêncio da noite; as vezes que me deitei com a Márcia enquanto abandonava a Laura; o dia sete; o dia oito... Eu me lembrava de tudo enquanto minha mente se quebrava em mil pedaços.
— Senhor Marcos? — indagou o detetive, agora com um sorriso largo e fixo no rosto.
— O senhor... o senhor não é um detetive. E esta sala não é uma delegacia — falei em um pavor indescritível. Era um horror puro, cru.
— Não — a voz saiu de todos os cantos ao mesmo tempo; o detetive sequer moveu a boca. — O senhor não observava as estrelas? Pois nós decidimos te responder.
Todos os sentidos de Marcos se entrelaçaram e se quebraram. Tudo o que ele podia ver era... algo indescritível e pavoroso. A geometria da sala derreteu, o machado tornou-se luz negra e o tempo deixou de existir.
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Dia 09/08/1988. Cartazes de desaparecidos com os rostos de Marcos, Laura e seus filhos espalham-se pelo Condado de Saint Lake. Ninguém jamais encontrou um rastro, um corpo ou uma explicação.